Espólio Fernando Pessoa - Alberto Caeiro
O Guardador de Rebanhos
O Pastor Amoroso
Poemas Inconjuntos
Apresentação
Nota explicativa
Galeria
Ficheiro topográfico
Abreviaturas
Mapa de conte˙dos
 
Apresentação   Ivo Castro
Página inicial
 
A arca de Caeiro

Apenas um papel falta no dossier genético de O Guardador de Rebanhos: é o rascunho original do poema XXII. Pode ter sido um recorte de papel pouco maior que uma carta de jogar, portanto fácil de se perder. De todos os outros poemas, encontra-se no espólio da Biblioteca Nacional, e em exibição neste site, a totalidade dos papéis sobre os quais um lápis, uma caneta ou uma máquina de dactilografar movidas pela mão de Fernando Pessoa traçaram em sucessivas aproximações o texto que hoje podemos ler. Isto inclui todas as outras formas por que esse texto foi passando ao longo de um percurso criativo acidentado e fascinante.

Está aqui tudo, quase tudo. As primeiras ideias do poema, urgentemente anotadas na esquina de um papel; as suas cópias alinhadas, e depois desalinhadas por chuvas de emendas que se contradizem; as listas de poemas que procuram dar ordem a um ciclo que vai nascendo, e revelam, nas várias renumerações, que essa ordem era tão difícil de encontrar como o som certo de cada verso; as cópias feitas à máquina, que no caso do Guardador se destinaram principalmente a servir de original de imprensa para a publicação em revista, e em vida do poeta, de cerca de metade dos poemas (em outras partes do espólio, os dactiloscritos apresentam-se como o lugar onde da invenção e crescimento do poema); finalmente, certas revisões manuscritas que podem ter sido introduzidas no texto de poemas após a sua publicação nas revistas (Athena e Presença) e que, por esse motivo, superam o texto impresso. Todos estes materiais, que não constituem um bloco no espólio, pelos acasos da inventariação inicial (e definitiva), formam na realidade o dossier genético do Guardador, conjunto de todos os suportes gráficos que participaram no processo de escrita de um texto, organizados segundo a cronologia da sua produção e revelando as relações de transmissão que os ligam. Avulta neste dossier um caderno de 40 folhas de papel almaço, que começou por ser uma cópia limpa do ciclo, já com 49 poemas na ordem final que conhecemos, mas que receberia o maior número das transformações textuais que Pessoa ao longo do tempo introduziria nos seus poemas. O melhor exemplo disto encontra-se na primeira página do poema I, em cujas margens se distribuem, com algum sentido dramático, numerosos estilos caligráficos e instrumentos de escrita que denunciam a frequência das revisitas e revisões. Outros exemplos para que se deve chamar a atenção são oferecidos por transformações mínimas introduzidas apenas no remate de certos outros poemas, que têm o efeito de afinar, e por vezes inflectir, o sentido global do texto.

Este caderno manuscrito só foi integrado no espólio quando este já pertencia à Biblioteca Nacional. Não fez parte, portanto, da arca póstuma, mas sabemos que acompanhou o poeta desde 1914 até à morte («Nestas horas turvas a única consolação para a minha alma tem sido o manuscrito, que sempre me acompanha, de “O Guardador de Rebanhos”», Páginas íntimas e de auto-interpretação, Ática, 1966, p. 321). A ele se associa o episódio da génese dos heterónimos, com Caeiro à cabeça, descrito nos seguintes termos por Fernando Pessoa em muito conhecida carta a Adolfo Casais Monteiro, escrita em 13 de Janeiro do ano da sua morte ( BN Esp. E15/cx. 10 ):

«... lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucolico, de especie complicada, e apresentar-lh’o, já não me lembro como, em qualquer especie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma commoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa especie de extase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triumphal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um titulo, “O Guardador de Rebanhos”. E o que se || seguiu foi o apparecimento de alguem em mim, a quem dei logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da phrase: apparecera em mim o meu mestre.»

Dir-se-ia que Pessoa, escrevendo à distância de mais de vinte anos, recordava o caderno como o primeiro suporte em que os versos de Caeiro tiveram vida, precedidos pelo título. De facto, o título lá está, a meio da folha inicial do caderno. Mas a evidência do dossier genético diz-nos que a escrita dos poemas do Guardador tinha começado antes, nos rascunhos, e continuado depois, nas inúmeras emendas que o caderno foi acolhendo. Esta evidência só existe graças à preservação de todos os papéis anteriores e posteriores ao «dia triunfal» (à fé das datas, nenhum poema foi escrito em 8-3-1914). Deve ser atribuído a essa preservação um estatuto de deliberado acto autoral, que não fica abaixo dos gestos de escrita. O que nos faz concluir que Pessoa escreveu e contra-escreveu. Interrogado sobre a criação dos heterónimos, não declarou que a ideia foi surgindo aos poucos, como os papéis sugerem; mas conservou os papéis, para que contassem a sua história. E contou a Casais Monteiro a história de outra maneira.

Encontrar o sentido que tudo isto tem é a tarefa fascinante que fica para cada um dos leitores.

O Guardador de Rebanhos constitui a secção principal da arca de Alberto Caeiro.

Dois grupos menores – O Pastor Amoroso e Poemas Inconjuntos – constituem o resto do seu recheio. São grupos abertos a várias interpretações editoriais quanto ao seu conteúdo, não sendo muitas, nem concordantes entre si, as indicações autorais. Por isso, são aqui incluídos todos os poemas que os vários editores têm considerado pertencer a um ou outro.

À leitura destes materiais poderão ainda ser agregados, para leitura ampliada e redimensionada, os textos de apreciação crítica que Caeiro mereceu aos seus colegas em heteronímia e ao próprio Pessoa: principalmente, os prefácios assinados por Ricardo Reis e as explicações pessoanas acerca do fenómeno da heteronímia. Reis, além de contribuir para a ficção de que os poemas do Guardador nasceram “limpos e safos”, deu também achegas à configuração da biografia de Caeiro, quer assumindo o papel de legatário e editor da sua obra, quer escrevendo-lhe esboços de vida, como um que Maria Aliete Galhoz publicou (Obra Poética, Aguilar, 1960, p. 678):

«Alberto Caeiro da Silva nasceu em Lisboa a ... de abril de 1889, e nessa cidade faleceu, tuberculoso, em ... de ... de 1915. A sua vida, porém, decorreu quase toda numa quinta do Ribatejo; ali foram escritos os seus primeiros poemas, os do livro intitulado O Guardador de Rebanhos, os do livro, ou o que quer que fôsse, incompleto, chamado O Pastor Amoroso, e alguns, os primeiros, do que eu mesmo, herdando-os para publicar, com todos os outros, reuni sob a designação que Álvaro de Campos me lembrou bem, de Poemas Inconjuntos.» (BN Esp. E3/21-73-74)

 
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