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Apresentação

Jorge Couto
Director da BN

Rómulo de Carvalho começou a revelar pendor poético ainda na infância, conhecendo-se, pelo menos, três composições autógrafas datadas de 1911: as quadras Era uma vez um menino e Maria é o 1º nome, bem como o poema Um casamento. No período de transição entre a infância e a adolescência, o Autor demonstrou um crescente interesse por temas relacionados com a História de Portugal. A influência da épica camoniana levá-lo-á a empreender, com onze anos, o projecto de continuar Os Lusíadas, publicando, em 1917, as sete primeiras estrofes do Canto XI no periódico Notícias d´Évora.

Com uma tão acentuada e precoce predisposição literária seria natural que o jovem Rómulo, concluídos os estudos liceais, ingressasse numa Faculdade de Letras (o regime republicano criara, precisamente no ano em que compusera os primeiros versos, as Universidades de Lisboa e do Porto). No entanto, tal não viria a suceder e acabaria, depois de uma episódica passagem pelos preparatórios de Engenharia Militar na Faculdade de Ciências de Lisboa, por se matricular na licenciatura em Físico-Química da Faculdade de Ciências do Porto com a firme resolução de ingressar no professorado.

A sua paixão pela Física associada a circunstâncias de natureza pessoal sobrepôs-se, durante largo tempo, à criação poética. Concluído o curso, o magistério liceal e a preocupação em desenvolver metodologias que incentivassem o gosto pela disciplina entre os alunos levaram-no a embrenhar-se afincadamente na docência, na elaboração de textos didácticos e na colaboração em diversas revistas de cariz científico e pedagógico, em que avultam a Gazeta de Física, Liceus de Portugal ou Palestra.

A dedicação ao ensino, à formação de professores (como metodólogo de Física) e à edição de numerosas obras de divulgação de temas científicos – de A Ciência Hermética (1947) a A Radioactividade (1985) - avivaram a sua percepção acerca das enormes lacunas que se verificavam na investigação sobre a História da Ciência e do Ensino no país. A vontade de contribuir para minorar essa situação motiva-o a encetar uma nova linha de trabalho que viria a produzir resultados da maior importância para o conhecimento científico em Portugal. Torna-se um investigador empenhado que frequenta assiduamente arquivos e bibliotecas com ricos fundos manuscritos pouco explorados: a Torre do Tombo, a Universidade de Coimbra, a Academia das Ciências ou a Biblioteca Nacional.

O labor de Rómulo de Carvalho como investigador da História da Ciência e do Ensino contribuiu de forma substancial para o avanço do conhecimento dessas matérias em Portugal. A sua predilecção pelo período setecentista proporcionou-nos obras inovadoras e imprescindíveis sobre a Física, a Astronomia ou a História Natural dessa época. Da análise dos seus trabalhos ressalta um particular interesse pelo contributo do consulado pombalino para o ensino e a divulgação da Física em Portugal, temática a que dedicou diversos trabalhos de que se destaca a História do Gabinete de Física da Universidade de Coimbra desde a sua fundação (1772) até ao jubileu do professor italiano Giovanni Dalla Bella (1790). Na última fase da sua actividade de investigador concentrou-se no estudo da actividade científica desenvolvida pela Academia das Ciências de Lisboa nos séculos XVIII e XIX.

Os seus trabalhos como historiador da Educação conhecem um marco assinalável com a publicação da História da fundação do Colégio Real dos Nobres de Lisboa (1761-1772) e viriam a culminar com a edição da monumental História do Ensino em Portugal: desde a fundação da nacionalidade até ao fim do regime de Salazar-Caetano.

A par da actividade de professor liceal, de divulgador de temas científicos e de investigador, Rómulo de Carvalho retomou, no início da década de cinquenta, a criação poética. Segundo o testemunho publicado por Natália Nunes, a ideia de adoptar um pseudónimo literário ter-lhe-á surgido em 1954-1955. António Gedeão publica, aos cinquenta anos, o seu primeiro livro de poesia: Movimento Perpétuo (1956), a que se seguem Teatro do Mundo (1958) e Máquina de Fogo (1961). Com apenas três livros editados em meia dúzia de anos, ganha rapidamente um lugar de relevo no panorama literário português. Contemporâneo de poetas então já consagrados como Miguel Torga, Casais Monteiro, Ruy Cinatti, Sophia de Mello Breyner, Carlos de Oliveira ou Eugénio de Andrade, António Gedeão surgiu, como «um poeta novo e diferente» devido, como observa Jorge de Sena, «a um subtil compromisso entre a libertação modernista e os esquemas tradicionais».

A musicalização de alguns dos seus poemas como «Pedra Filosofal» ou «Calçada de Carriche» contribuiu para popularizar a sua obra poética junto do grande público na década de setenta do déculo XX.

Em «Lágrima de preta» surge, além das características enunciadas por Sena, uma desmontagem de argumentos racistas e colonialistas patente na seguinte quadra:

“nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
E cloreto de sódio”.

Ou, ainda, uma mordaz crítica social expressa, por exemplo, no seguinte excerto do poema «Dia de Natal»

“É dia de pensar nos outros – coitadinhos – nos que padecem, de lhe darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria....”.

É muito provável que a agudeza do espírito racionalista de Rómulo tenha inspirado António na feitura destes poemas que foram publicados em 1961, ano que marcou o início da derrocada do Império Colonial Português, com a perda do Estado da Índia e o começo da luta armada em Angola.

A Biblioteca Nacional associa-se ao primeiro centenário do nascimento de Rómulo de Carvalho - António Gedeão, personalidade multifacetada que muito contribuiu para enriquecer a cultura portuguesa, apesar dos constrangimentos resultantes do Estado Novo. Acresce, ainda, uma razão de ordem moral decorrente do facto de o seu espólio se encontrar integrado no Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea desta Instituição por generosa doação da Família.

No presente sítio Web poderá o visitante encontrar textos sobre a vida e obra do Autor, abundante iconografia, um extenso conjunto de manuscritos autógrafos de natureza poética, detalhados elementos biográficos, uma minuciosa cronologia, bem como substancial informação sobre a sua produção em vários ramos do saber.

As diversas iniciativas que a Biblioteca Nacional promove, com destaque para a exposição e o catálogo, não teriam sido possíveis sem o imprescindível patrocínio da REN – Rede Eléctrica Nacional.

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