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Estudos do autor
«Breve desenho da educação de hum menino nobre»1

Rómulo de Carvalho

Ao manusearmos velhos folhetos na Biblioteca Nacional de Lisboa deparou-se--nos um, intitulado Breve desenho da educação de hum menino nobre, a que nunca ouvimos fazer alusão nem vimos referência escrita, o que nos faz admitir que seja desconhecido 2. Inocêncio não o cita no Dicionário Bibliográfico, e também não figura nos respectivos suplementos.

O folheto, cujo rosto reproduzimos, consta apenas de oito páginas em que a primeira é a do rosto, a segunda o seu verso, em branco, e as restantes seis, numeradas de 3 a 8, as do texto. O formato é pequeno (10,5 cm x 15,5 cm) e não apresenta nome de autor, nem data de impressão. Apenas informa ter saído da Impressão Régia, de Lisboa.

Como é sabido, a Impressão Régia ou Régia Oficina Tipográfica foi criada em 1768 durante a gerência pombalina, começando a funcionar em 1769, e mantendo a mesma denominação até 1820, em que passou a denominar-se Imprensa Nacional, conforme se chama ainda hoje 3. Desde o início do seu funcionamento até o ano de 1800 todas as obras daquela origem trouxeram no rosto a designação «REGIA OFFICINA TYPOGRAFICA»; a partir de 1800 passaram a trazer as palavras «NA IMPRESSÃO REGIA» 4. Concluímos daqui que o Breve desenho da educação de hum menino nobre foi publicado depois de 1800. Corrobora a afirmação a vinheta que vem no rosto do folheto, com a coroa real e ornamentos vegetais, que só temos visto figurar em obras a partir de 1800, como, por exemplo, nas de José Agostinho de Macedo, das duas primeiras décadas do século XIX.

Parece-nos caso digno de atenção a publicação de um folheto, na primeira ou na segunda década do século passado, nas vésperas da revolução liberal, ainda preocupado com a educação dos meninos nobres, tema pedagógico largamente explorado e arrumado no decurso do século XVIII.

A leitura do folheto não revela a mínima originalidade do seu autor, que repete, em excessivo resumo, o que já fora dito e redito por Martinho de Mendonça nos Apontamentos para a educação de um menino nobre, em 1734, nem a menor intenção de ajustar as ideias sobre o tema à visão dos novos tempos. Não fora o título e nem sequer se aperceberia, pelo texto, que o autor se referia a meninos nobres.

Divide-se a matéria do folheto em 6 partes, cujo resumo é o seguinte:

§ I – As crianças devem ser sempre acompanhadas de pessoas, ou de família ou criados, que usem de boa linguagem e cujas acções só inspirem virtudes.

§ II – Deve-se-lhes contrariar os vícios naturais da soberba, inveja ou ambição, e combater incansavelmente a mentira.

§ III – Deve-se-lhes incutir, desde a mais tenra idade, o amor de Deus.

§ IV – Os educadores deverão procurar conhecer bem as aptidões das crianças de modo a poderem encaminhá-las para o género e vida que mais lhes convenha.

§ V – Os estudos deverão começar pelo aprendizado da leitura e da escrita, e depois disso da Geografia, da História da Religião e da História do seu País.

§ VI – Seguir-se-á o estudo do Latim, da Retórica e da Filosofia. Na continuação publicamos integralmente o texto do folheto.

BREVE DESENHO / DA / EDUCAÇÃO / DE / HUM MENINO NOBRE

§.I.

A Boa educação he o mais nobre património, que os Pais podem deixar a seus filhos: tão grande he a força, que ella tem sobre os ânimos, que se pôde com razão chamar segunda natureza: seria para desejar que desde o berço não assistissem aos meninos, senão pessoas, que com a decência de suas palavras, e acções lhe inspirassem a virtude, e que as mesmas amas, criados, e domésticos, em lugar de grossarias, e vícios de costumes, e de linguagem, os ensinassem a fallar com decoro, e pureza.

§.II.

Nascendo os meninos já inficionados das perversas inclinações da soberba, inveja, ambição, e outras semelhantes, devem os Pais não lhes fomentar estas paixões, nem consentir que algum dos domesticos, por hum mal entendido amor, e condescendência, as fomentem, antes devem desvelar-se em mortificar-lhe as mesmas paixões: porque, como diz Seneca, não ha coiza mais excellente, do que acostumar-nos ao bem desde os primeiros annos; sobre tudo não lhes devem dissimular a mais leve mentira, antes com todas as forças inspirar-lhe hum summo aborrecimento a este vicio, e fazer-lhe ver, que o mentiroso he objecto de horror a Deos, e aos homens.

§.III.

Como o lume da Razão natural não amanhece ao mesmo tempo a todos; devem os Pais, desde que os meninos principião a fallar, dar-lhe alguma idéa do Soberano Ser, mostrando-lhes, que quem fez as Estrellas, a Lua, o Sol, as Nuvens, os Ventos, as Chuvas, o Dia, a Noite, e todas as cousas, he hum Grande Senhor, que senão vê, mas que Elle vê tudo, governa tudo, e assiste em todos os lugares, e conhece até os mais Íntimos pensamentos: e como logo que amanhece o referido lume natural, devem os meninos consagrar-se a Deos, e unir-se a Elle por meio da Fé, da Esperança e da Caridade, tenhão
summo cuidado os Pais em os ensinar a fazer actos destas virtudes: porque os ânimos pueris são assemelháveis ás tenras e mimosas plantas, que facilmente propendem para onde as movem, e inclinão; e muitos Pais em o dia tremendo serão responsáveis diante do Eterno Juiz, da condemnação, e desgraça eterna de seus filhos, só pelo descuido e negligencia, com que se houverão nesta parte; pois de se offerecerem a Deos os meninos no momento em que os esclarece a luz da Razão, pende a felicidade de toda a sua vida temporal, e a eterna.

§.IV.

E dependendo também da eleição dos Estados a felicidade dos filhos, devem os Pais examinar com summo disvello a sua Índole, e talento, e assim destinallos ao género de vida, para que forem idóneos, e aptos; porque não ha tyranno mais cruel, do que hum Pai, que para fazer feliz hum filho, faz todos os mais desgraçados, forçando-os a tomar estados contrários áquelles, para que a summa Providencia os destina.

§. V.

Pede a boa ordem, e methodo, que os meninos primeiro cultivem, e exercitem aquellas faculdades d'Alma, que nelles mais predominão; e como estas sejão a imaginação, e a memória, devem primeiro applicar-se a ler, e a escrever formosa e gentilmente, e estudar a Geografia, a Historia da Religião, e do seu Paiz, as quaes são digníssimas de serem sabidas de qualquer homem de bem: devem depois aprender a Grammatica da sua língua, que lhe facilitará a intelligencia da Latina, e das estrangeiras; e seria para desejar, que os Pais lhe buscassem, ainda apezar de prémios avultadissimos, Mestres insignes em todas estas matérias, principalmente na Sciencia da língua vernácula, para se acostumarem a fallar sempre nobre, e elegantemente.

§.VI.

Segue-se a língua Latina, a Rhetorica, e a Filosofia; e ainda aquelles que são destinados para o Commercio, e para outros cargos da Republica, que não necessitão frequentar a Universidade, utilmente se instruirão nestes estudos: porque delles pende a perfeição, e ornamento do Espirito, e o mais completo desempenho das suas obrigações, assim publicas como domesticas, e a felicidade das Nações; por quanto assim como a ignorância he a fonte copiosissima de todo o género de males, assim a sabedoria he origem puríssima de todos os bens. Felices os Pais, que generosamente dispenderam seus Patrimónios nesta educação dos filhos; felices os filhos, e felices as Respublicas, que tiveram a dita de possuir Pais tão vigilantes, e filhos tão instruidos.

1 Publ. in Palestra, Lisboa, n. 22 (1965), p. 40-44
2Biblioteca Nacional de Lisboa — Cota L. 1665 P. É o primeiro folheto de um conjunto de folhetos encadernados num só volume.
3 De 1823 a 1833 retomou a antiga designação, perdendo-a depois novamente.
4 Relativamente ao ano de 1800, ano da transição, há obras que têm
uma ou outra daquelas designações.

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