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Estudos sobre o autor
Por uma linha recta mais suposta que o areal e o mar

Maria Teresa Arsénio Nunes

Um dos aspectos que mais marcam a poesia de António Gedeão é aquela espécie de serenidade primordial que a cada verso alisa as arestas do tempo. Que uma lisura a identifica.

António Gedeão escrevia como quem vai fazendo o diário compassado de uma perplexidade elementar, ou como quem tacteia o mundo e o interroga:

Entre mim e a Evidência
paira uma névoa cinzenta.
Uma forma de inocência,
Que apoquenta. 1
[…………………………]


Talvez sejam aqueles que mais respeitam a inefabilidade da vida os que mais
necessidade sentem de lhe proferir um rigor, e poetas seriam os que persistem nesse ostinato rigore de perante ela se inclinarem. Como quem se lhe afeiçoa.

Só eles sabem sob quanta solidão e quanta melancolia, por quanta resignação
e no entanto ao gosto de quanta plenitude. Não seria pois António Gedeão menos pedagogo que seu irmão, e irmão de sangue, Rómulo de Carvalho, como se ambos tivessem firmado um pacto de lealdade mútua; e tudo indica que a ironia e a gravidade postas por Rómulo de Carvalho na legítima prática de afirmação e sedução pedagógica – afinal nessa outra forma de eloquência poética que terão sido as suas aulas – não terão sido menores do que aquelas mesmas gravidade e ironia que António Gedeão punha no legítimo exercício retórico do escritor. Essa eloquência poética, ainda quando o seu ofício poético não fosse revelado, parece na verdade ter correspondido a uma grande necessidade de compreensão do universo, a uma aprendizagem de vida e ao gosto puramente humano da sua partilha: porque, para o poeta que ia num e noutro, o formal, como expressão da inteligência e da capacidade de abstracção do Homem, só em nome dela, de uma grande exigência de justiça e de verdade e de uma grande exigência de sentido – que é como quem diz de uma grande exigência de libertação – se justifica. E lhe justifica cada palavra, cada verso, cada frase ou lição.

Esta é desse ponto de vista uma atitude eminentemente moral, se bem que não propriamente moralista ou de intuitos moralizantes, i. é, impõe-se menos como preceito apriorístico de conduta que como preceito, ou princípio, de dignidade humana (eu ia a dizer, hoje, de sobrevivência dessa dignidade) decorrente daquela sistemática atenção ao mundo circundante, ao mundo da razão e ao mundo dos sentidos. Numa espécie de amorosa aplicação. E decorrente também da suspeita metódica (quase pessoana, não fosse a peculiar capacidade de António Gedeão amaciar e em todos os sentidos harmonizar tudo o que nele porventura haja de pessoano) do non-sense de um e outro. Ainda que muitas vezes calada, ainda que nem sempre confessa. Em todo o caso aqui ou ali insinuada:

Chamei o meu ser que pensa
para ralhar com o que sente
Sempre que os ponho em presença
sorrio, piedosamente. 2
[…………………………………]

Ostinato Rigore: curioso que neste contexto um título de Eugénio de Andrade – e com ele a grande referência da cultura humanista que é Leonardo da Vinci – inesperadamente ocorra. E no entanto, o sentido que isso tem.

Quando António Gedeão publicou o seu primeiro livro de poemas, Movimento Perpétuo, 1956, e quando Eugénio de Andrade publicou Ostinato Rigore, 1964, já não era tanto aquela «pura», fria lucidez pessoana que ocupava a consciência e o gosto poético da geração a que ambos literariamente pertencem, se bem que biologicamente separados por dezassete anos; sequer o do não menos pungente, embora bem mais musical, confessionalismo emocional das tensões íntimas de um Mário de Sá Carneiro, aquele «Quase» («Um pouco mais de sol – eu era brasa | Um pouco mais de azul – eu era além») e aquela Dispersão. Resolvida que fora, formalmente, a subversão de valores literários e poéticos em boa hora praticada pela geração de Orpheu, no sentido de uma adequação da escrita à própria verdade dos seus múltiplos sentidos, e consolidada, até em termos teóricos, pela da presença; resolvidas que haviam sido, assim, as perplexidades do movimento modernista; e saudavelmente ultrapassados os limites da deriva neo-realista dos anos quarenta – era agora o tempo em que os poetas organizavam versos como quem plasmava sentidos e saberes elementares e como quem, já com a consciência do peso de cada palavra, nelas procurava acima de tudo uma depuração. A delas mesmas e aquela que advinha da sua articulação na frase, ou no verso, e nos seus ritmos.

E eram outras as ambivalências que os moviam, ou, se não deixavam de ser as mesmas na universalidade dos temas (não tanto na dos motivos), era outra a forma de com elas se confrontarem. Fosse, como foi o caso de Eugénio de Andrade, para cantar a sensualidade das nascentes, uma água, uma transparência, o fluir dos rios, os sinais do amor ou os meandros da sua afirmação, o romper das manhãs ou o encontro dos corpos; fosse, como António Gedeão, de uma maneira mais insinuada, mais sugerida do que exposta, mais implícita do que explícita, para a tudo isso devolver uma razão de ser e um sentido. Mais: para lhes descobrir – e pôr subtilmente a descoberto – uma inteligência dos sentidos, uma serenidade.

Foi essa ainda a década dos Cadernos de Poesia, da Távola Redonda e da Árvore, a da maior afirmação de Ruy Cinatti, de Sophia, de Jorge de Sena mesmo por entre a truculência, nem sempre assim tão subtil, de muitos dos seus versos; a de Ramos Rosa e de David Mourão-Ferreira. E incluiríamos aí, nessa década de um lirismo tão decantado, também Alexandre O’ Neill e João Rui de Sousa, não fosse a muito individual, às vezes quase trágica ainda quando terna, força da veia satírica de um, e a circunstância de ser já de sessenta a estreia poética do outro.

A todos une uma poética da imanência e a busca de uma unidade elementar, onde a palavra com as suas diversas componentes linguísticas assume finalmente o valor plástico e musical que a modernidade lhe atribui na sua função de comunicação, com a carga simbólica e expressiva que é sua e com o melhor da sua vocação retórica, mas à margem de uma qualquer missão social que a queira com maior ou menor legitimidade justificar ou a que o seu autor a queira vincular, mais ainda à margem das perversões de ordem religiosa, ideológica ou política que tantas vezes se lhe colam.

Não deixa em todo o caso a poesia de António Gedeão de corresponder, creio que também para além dos limites de quaisquer fronteiras nacionais, a uma persistente vocação humana e humanística, aí cabendo uma espécie de melodia muito antiga, um qualquer, indefinido eco de um ritmo manso e de uma cadência – uma música que nos canta de muito longe, quem sabe de que perdida ou difusa memória do nosso imaginário. Julgo ter sido no desejo de invocação de uma função eminentemente universal, humana e unitária da música na sua (essa sim: íntima) vinculação à poesia, i. é, no sentido filológico mais remoto do termo e enquanto função de uma linguagem, nesse sentido mais próximo de uma vocação do que de uma missão, que David escreveu um dia uma Ode à Música (1980), para perto do fim concluir: «Só tu a cada instante nos declaras | que renegas a voz de quem divide | […] Que és do próprio Universo o que o sublima [...]».

Admito que, independentemente de outros aspectos da sua indiscutível qualidade formal, ou das boas causas que, quer se queira quer não, serviu, isso possa explicar em parte a popularidade que ganharam alguns dos poemas de António Gedeão, através da sua harmonização e divulgação pelo canto, nomeadamente o canto de protesto nos anos sessenta e setenta. Admito isso quanto à relativa popularidade e à divulgação da sua mensagem humana, que não tanto a uma significativa motivação para o contacto directo com os seus livros (por razões de ordem histórica e social que não vêm aqui ao caso, era já então uma elite que tinha o hábito de ler, embora creia que se lia então mais poesia do que hoje).

Para quem não tenha tido o privilégio de conhecer pessoalmente Rómulo de Carvalho ou ser seu aluno, essa motivação para uma abordagem e um conhecimento mais sério da sua obra poética terá vindo, virá sempre, só pode vir acima de tudo da sua própria leitura e, nela, de uma atenta, necessariamente aplicada, disponibilidade para o seu canto íntimo – justamente aquele que advem da música dos seus versos, da articulação dos seus ritmos e dos seus sentidos mais antigos, da sua ressonância profundamente humana e do seu significado universal. Sempre «em procura da límpida medida». E terá sido em boa parte isso o que, de simultaneamente tão moderno e tão intemporal, lhe deu contornos tão
clássicos.

Não por acaso, vários daqueles poetas seus contemporâneos lhe dedicaram atentos ensaios. Mas deve desta plêiade (ou chamemos-lhe antes, na presente circunstância, constelação, que em linguagem da Astronomia lhe é sinónimo) destacar-se Jorge de Sena: porque o já histórico Prefácio, de 1964, que Sena escreveu para as primeiras edições das Poesias Completas de Gedeão, seguido de um Post Scriptum de 1968, aparece reproduzido no volume que agora reúne todos os seus textos, alguns inéditos, e não só de poesia (António Gedeão – Obra Completa. Lisboa: Relógio de Água, 2004); porque no mesmo volume se incluem as cartas que, por causa daquelas primeiras publicações e na sequência da revelação da sua identidade, Rómulo de Carvalho lhe dirigiu, i. é, a parte que lhe coube da correspondência que trocaram (entre 1958 e 1977), antecedida, aliás, de umas«Breves Palavras» deste sobre as relações entre ambos; mas acima de tudo pelo muito que esses documentos iluminam a abordagem da poesia de Gedeão e pelo muito que dão a conhecer das afinidades que sob um trato um tanto cerimonioso ligavam dois grandes poetas e dois grandes homens de tão diversa personalidade.

Sub-intitulado «Esboço de Análise Objectiva», aquele Prefácio sobre «A Poesia
de António Gedeão» terá provavelmente dado então a conhecer ao leitor comum mais sobre as virtualidades e capacidades de análise crítica de Sena do que sobre as virtualidades poéticas de Gedeão. Mesmo para os iniciados em estudos literários, e à margem da celeuma ou, como o próprio lhe chamou, do escândalo que tenha suscitado, é de facto dos textos mais herméticos de Jorge de Sena, na linha, aliás, dos seus aturados e rigorosíssimos estudos sobre Camões, sobre o soneto quinhentista peninsular, etc. O que evidentemente não obstou a que constituísse homenagem e estímulo para uma personalidade igualmente superior – se bem que, ao que tudo e também a sua escrita indicia, mais modesta – como Rómulo de Carvalho prosseguir no seu labor poético a par da sua dedicada e escrupulosa actividade profissional. Do que as cartas dão, entretanto, sentido testemunho.

São parcas e são poucas as cartas que ambos trocaram, apenas uma meia dúzia. Mas são um notável, porque hoje raro, exemplo de efectivo testemunho literário a justificar e a legitimar a sua publicação. Para além daquelas em que, a pretexto de lha agradecer, comenta uma ou outra obra de Jorge de Sena – e também aí, naturalmente, denuncia a sua própria atitude literária – refiro-me em particular, porque é de Gedeão que no presente catálogo se trata, às datadas de 9 de Dezembro de 1958, de 29 de Dezembro de 1963 e de 24 de Março de 1974.

Rómulo de Carvalho escreveu-lhe a carta de Dezembro de 1958 a propósito da inclusão de António Gedeão na antologia daquela que será sempre uma obra de referência fundamental para qualquer estudioso cuidado da literatura portuguesa: as séries de Líricas Portuguesas, primeiro editadas pela Portugália Editora, sendo depois os dois volumes da 3.ª série (1958 e 1972) – justamente a série que é da responsabilidade de Jorge de Sena e por ele prefaciada – reeditados em 1983 e 1984 pelas Edições 70. Conforme modelo da colecção a antologia é precedida de uma apresentação do poeta antologiado – essa, sim, em informação e síntese crítica, do melhor que tem sido feito pela sua divulgação. Não resisto a transcrever literalmente algumas passagens desta carta:

[…] Gostei muito de ler a sua prosa viril, às vezes levemente castigada com prejuízo da fluidez […]. Não se canse de impor a relacionação dessas variáveis sociais, que tanta gente responsável julga independentes, fazendo-a sentir aos homens […]. O que mais admirei no seu Prefácio foi exactamente essa visão de um mundo em bloco, essa consciência carnal de que somos células de um tecido vivo (o itálico é nosso).


Menos generalistas são os aspectos que gostaria de destacar na carta de 1963 – a carta em que acolhe com o maior prazer a incumbência de Jorge de Sena prefaciar igualmente a edição dos seus poemas –, designadamente aqueles aspectos que se prendem com as suas leituras preferenciais e com a sua atenção ao mundo literário como parte do mundo circundante:

[…] Tenho grande admiração pela sua obra, pela invulgar e incómoda lucidez com que disseca os temas em que toca […] Acompanhei sempre todo o movimento literário do meu tempo.Vi nascer o José Régio, o Torga, a presença [sic, refere-se evidentemente à revista de 1927-40, que representa o nosso
segundo movimento modernista e que fazia questão de grafar o seu próprio título com inicial minúscula
], li-os todos. […] Li todos os jornais e revistas literárias posteriores ao Orfeu [órgão do nosso primeiro modernismo, 1914-15]. Li sempre muita poesia e sempre senti maior interesse por Camões, Cesário e António Nobre […].


Entretanto, não é, curiosamente, sem uma reserva, não é sem um mas que se refere a Fernando Pessoa:

[…] Custa-me (veja lá) ligar o nome de Pessoa ao do modernismo. Pessoa é um poeta muito antigo, nascido num tempo moderno. É um grande poeta, sem dúvida, mas uma voz distante […] (o itálico é nosso).

Que me seja desculpado o abuso, se o for, da interpretação, mas alguma coisa me diz que a distância a que delicadamente Gedeão se reporta não é apenas a do tempo que separa antigos e modernos. Aliás, reconhece mais adiante na mesma carta:

[…] É por didactismo, e não por amor da tradição, que insisti em formas clássicas de poesia […].

Apetece corrigir um pouco a formulação para dizermos: terá sido por sincero didactismo que António Gedeão insistiu em formas clássicas de poesia, mas não o terá sido com menos amor dessas formas clássicas; nem, nesse sentido, e só nele, com menos amor da tradição do que da modernidade do seu tempo.

Penso sobretudo que a poesia de António Gedeão soube, com a naturalidade e a serenidade de que só os melhores são capazes, num esforço de depuração e equilíbrio formal que tem de corresponder antes do mais a uma grande autovigilância da própria sensibilidade, realizar uma inteligentíssima e muito culta, também nesse sentido muito educada, síntese do clássico e do moderno. Pela muita humanidade que ela contém.

E pela terna ironia que é tão sua, quase pueril na verdade dos seus termos. Não será despropositado mencionar aqui, a par dos inúmeros títulos de divulgação científica e histórica publicados em vida no âmbito das suas preocupações de ordem pedagógica, as palavras que do Autor os herdeiros evocam no prefácio ao enternecedor livro póstumo intitulado As Origens de Portugal – História contada a uma criança, quem sabe se na secreta convicção ou pelo menos na pequena esperança de que não tenha sido esse, discretamente, um dos seus menores legados:

[…] Muitas pessoas aborrecidas ficam bem dispostas quando lêem versos. Por isso ser grande poeta é tão útil como ser grande médico ou ser grande engenheiro.

Não conheço, entre médicos, matemáticos e engenheiros, discípulo de Rómulo
de Carvalho que não se lhe refira com grande respeito, orgulho e delicadeza. E também quase sempre com um sorriso manso, mas grave – nem que seja apenas no recitar-lhe alguns versos avulsos. Como quem sabe, ou suspeita, que, ao evocar a sua grandeza moral, a sua ironia fina, o seu exemplo pedagógico e de comportamento, a sua natureza afável e a sua sabedoria, é portador da responsabilidade de uma outra exigência de equilíbrio, de uma outra scientia: aquela que não se cingeà clareza da informação teórica e empírica transmitida nos compêndios, nas obras de divulgação científica que o mestre lhes deu a estudar ou através das suas próprias lições; aquela que a outro rigor e a outra obstinação se resume, como se eles fossem os últimos herdeiros de um resto de humanidade.

E quanto a nós, na evocação e na procura da afabilidade dos nossos vivos, dos nossos poetas e dos nossos mortos, o legado de vida que a nós mesmos devolvemos: in memoriam.

Que concerto humano é este hoje, em que apenas uma dispersão nos pontua
os tempos, apenas uma melancolia nos segura? No desencanto que não será maior nem menor do que aquele a que obriga o processo de crescimento de todos nós, durante muito tempo, sem que saiba já exactamente quando nem porquê, dei comigo a invocar regularmente para mim mesma estes versos soltos que mais tarde verifiquei corresponderem afinal a uma minha corruptela inconsciente de um verso de Fernando Pessoa: eu queria ser rio | e correr.

Nos últimos anos, por entre o barulho e a patologia do nosso quotidiano, neste
areal deserto
correndo em linha recta, presto, presto, ou como se um desejo [me] chamasse ou como quem fixa o breve ponto onde se encontram | além de todo o longe | as rectas que se dizem paralelas, demorei-me um dia mais atentamente nessa belíssima elegia que é o «Poema do Cão ao Entardecer», de António Gedeão, por uma linha recta mais suposta | que o areal e o mar:

POEMA DO CÃO AO ENTARDECER

Um cão no areal corria presto.
Presto correria o cão no areal deserto.

Era ao entardecer, e o cão corria presto
no areal deserto.

Corria em linha recta, presto, presto,
pela orla do mar.
Pela orla do mar, em linha recta,
corria presto, o cão.

Era ao entardecer.
No areal as águas derramadas
nas angústias do mar
lambuzavam de espuma as patas automáticas
do cão que presto, presto, corria em linha recta
pela orla do mar.

Sem princípio nem fim, em linha recta,
pela orla do mar.

Era ao entardecer,
na hora espessa, peganhenta e húmida,
em que um resto de luz no espasmo da agonia
geme nas coisas e empasta-as como goma.
No espaço diluído, esfumado e cinzento,
corria presto o cão no areal deserto.
Corria em linha recta, presto, presto,
definindo uma forma movediça
que perfurava a névoa e prosseguia
pela orla do mar, em linha recta,
focinho levantado, olhos estáticos,
fixando o breve ponto onde se encontram
além de todo o longe
as rectas que se dizem paralelas.

Alternavam-se as patas na cadência,
na cadência ritmada do movimento presto,
deixando no areal as marcas do contacto.
Presto, presto.

Como se um desejo o chamasse, corria presto o cão
no areal deserto.
O ritmo sempre igual, a língua pendurada,
os olhos como brocas, furadores de distâncias.

Em seu último espasmo a luz enrodilhou
o cão, o mar, o céu, o próximo e o distante.
Era um suposto cão correndo presto, presto,
num suposto areal, realmente deserto,
por uma linha recta mais suposta
que o areal e o mar
Mas presto, presto, sempre presto, presto,
ia correndo o cão no areal deserto. 3

Desde então, é outra a frase que a espaços, compassadamente, me ocorre e
acompanha: eu queria ser cão – e morrer.

E é aí que cabe esta outra passagem de uma carta a Jorge de Sena, justamente a já referida carta de 24 de Março de 1974:

Como autor em causa não quero referir-me à sua extraordinária lucidez,à minúcia e à profundidade do seu espírito crítico e observador […] O que eu quero agora admirar é a sua humanidade, essa que tornou possível ler um livro, sentindo-o. (O itálico é nosso.)

Há tão boas ressonâncias de outros clássicos e de outros modernos em Gedeão. Não são poucas, nem inferiores ou menos significativas, as camonianas, de que é supremo exemplo o «Soneto» dedicado Ao Luís Vaz, recordando o convívio da nossa mocidade.

Mas é ainda uma vez de ressonância e rigorosa articulação seniana a voz, talvez antiga, talvez clássica na sua contensão, mas não distante, é antes como uma velha e boa melodia, sensualíssima, aquela que nos chega do seu

POEMA DO ADEUS
Exigem novas leis que os olhos não se alegrem
quando as folhas das árvores lhes acenam;
quando o lagarto ao Sol o erótico pescoço,
erecto e circulante
como um radar,
transforma as ondas mansas
em lúbricas tensões.
Não mais murmúrios de águas nem aromas de pinhos
que os ouvidos antigos recolhiam
e os narizes hauriam sequiosos
como exaustores de fumos;
não mais abrir os olhos e fechá-los
sob a língua da luz lambendo morna
o convexo das pálpebras;
não mais levitação do corpo no silêncio,
o porte da doninha na iminência
do que nunca acontece.
Pois que sejam meus olhos que ao fecharem-se
levem consigo a imagem derradeira
da fragrância poética do mundo;
que em meu rosto bafeje o último hálito
das magas transparências inventadas;
que nele roce a última das aves,
de benévolas asas estendidas
que em construídos céus nos redimiram
da frágil condição de ser humano;
que as últimas mensagens
dos emissores piratas, clandestinos algures
no fundo dos cristais,
no pistilo das flores,
nas escamas dos peixes,
encontrem meus ouvidos.

Que a terra me seja leve. 4

Só quem, como António Gedeão, se aventura e obstina a sondar a respiração dos dias lhes conhece os cambiantes de luz e som, as surpresas da sua harmonia interna, o rigor de uma geometria. Como quem até ao fim persiste amavelmente em dizer: no sem-sentido da vida o sentido que ela tem.

Lisboa, Maio 2006

1 António Gedeão – «Forma de inocência». In Movimento Perpétuo. Coimbra: [s.n.], 1956.
2 Ibidem.
3 António Gedeão – «Poema do Cão ao Entardecer». In Poemas Póstumos. Lisboa: Sá da Costa, 1983.
4 Ibidem.

António é o meu nome
 
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