Bocage 1765-1805
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Bocage anedótico

É bem conhecido o carácter irreverente de Bocage. Com efeito, da sua pena contundente saíram sátiras impiedosas, críticas ao modelo de sociedade, ao governo, aos poderosos de uma maneira geral. O novo – riquismo, a mediocridade, as convenções sociais, o clero, os médicos, os avarentos e os literatos, entre outros, também foram objecto da sua observação rigorosa e da sua crítica corrosiva.

Recorde-se que a anemia e a estagnação que caracterizavam a sociedade portuguesa de finais do século XVIII eram um espartilho para uma personalidade que estava muito para além da mentalidade da época. Coexistiam em Bocage a sensibilidade extrema, a ousadia aberta, a percepção aguda da realidade, a emotividade exuberante e o imenso talento. Estes atributos, aliados a um repentismo fulminante e à sua permanente insatisfação relativamente aos valores dominantes e a determinados tabus, fizeram com que entrasse em rota de colisão com o poder, tendo sido preso por crime, de lesa majestade e, pouco depois, entregue às malhas mutiladoras da Inquisição. O objectivo era a sua "reeducação". Ao fim de poucos meses, foi libertado pois o perigo de converter alguns frades aos seus ideais era cada vez mais real...

Poder-se-á defender a tese de que Bocage incarnou o inconsciente colectivo do povo português. Ele consubstanciou a voz do povo oprimido mas crítico que compensava com o riso, com a caricatura e com o ridículo a sua legítima insatisfação.

A filosofia de vida de Bocage – crítico, ousado, irreverente, boémio, popular, espontâneo – propiciou-lhe uma auréola notável e consequentemente uma legião de admiradores. Comprova-o o facto de a sua personalidade ter sido incensada em mais de cem poemas da autoria de contemporâneos que tiveram o privilégio de com ele conviver.

Em contraponto e como corolário da sua frontalidade, registe-se que, obviamente, não foram poucos os seus detractores que acintosamente o atacaram em sátiras e polémicas que Bocage ia também ciosa e apaixonadamente alimentando.

Tendo em consideração que o povo português encarou Bocage como se de filho seu se tratasse, houve a tendência natural para lhe atribuir a participação activa em ocorrências cómicas, satíricas ou brejeiras. Dir-se-ia que o seu aval tornaria as situações mais credíveis e humorísticas.

Os trinta livros de anedotas apresentados nesta exposição pouco têm a ver com Bocage. Pelo menos nada há escrito do seu punho de carácter anedótico. A tradição oral encarregou-se de ir perpetuando todo este acervo, como se fosse da sua autoria. Resta-nos apenas a filosofia subjacente a muitos destes livros, essa sim Bocageana, como muitos dos seus amigos - Pato Moniz, D. Gastão da Câmara Coutinho, Bingre, entre outros – testemunharam.

É bem verdade que Bocage foi a consciência crítica do povo, como já foi referido. Mas não é menos verdade que houve editores que, para ganharem dinheiro facilmente, instrumentalizaram o seu nome, optando pelo primarismo e pela obscenidade. Confundiram talvez conscientemente erotismo com pornografia, sensualidade com boçalidade, ironia subtil com sarcasmo.

O primeiro livro de anedotas atribuídas a Bocage de que há notícia remonta ao princípio do presente século e está directamente relacionado com a liberalização da sociedade portuguesa e com a comemoração do centenário do falecimento do escritor em 1905. A partir desta data, inúmeras edições foram vindo a lume.

De extrema relevância é o facto de a auréola bocageana se ter propagado exuberantemente ao Brasil. Com efeito, actualmente, o poeta tem mais livros à venda naquele país do que em Portugal e está amplamente representado na literatura de cordel brasileira, sendo o herói de aventuras tropicais e mirabolantes que ele não poderia ter protagonizado certamente na sua breve estada na Rua das Violas, no Rio de Janeiro, em 1786, a caminho de Goa.

Com o 25 de Abril, Bocage, poeta da Liberdade e do inconformismo, foi sendo cada vez menos o protagonista do anedotário popular. A liberdade de expressão, finalmente readquirida, deslocou o "epicentro" das anedotas para outros intervenientes do nosso quotidiano. Com ampla vantagem para o Bocage sonetista emérito, tradutor rigoroso, sátiro impiedoso, polemista incansável e arauto de uma sociedade em sintonia com os valores mais nobres da natureza humana.

Daniel Pires

(extraído de Exposição biobibliográfica comemorativa dos 230 e dos 190 anos do nascimento e da morte de Bocage. Setúbal: C.M.S., 1995)

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