Bocage 1765-1805
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Eis Bocage... duzentos anos depois

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A forma como, actualmente, se perspectiva Bocage é mutiladora e parcelar. Com efeito, apenas uma parte da sua obra é conhecida pelos estudiosos da nossa literatura, sendo o escritor, com frequência, associado a estereótipos limitadores ou falsos, que a tradição, ao longo de duzentos anos, tem laboriosamente sedimentado.

No que diz respeito à sua poesia, normalmente apenas se têm em consideração os sonetos, bem como as composições de carácter erótico e satírico. Textos lapidares como “Leandro e Hero”, “À Morte de Inês de Castro”, “Cartas de Olinda e Alzira” ou a emblemática, para muitas gerações, “Pavorosa ilusão da Eternidade”, não têm, hoje em dia, o reconhecimento e a divulgação que a sua qualidade exigiria.

Por outro lado, poucos são os estudiosos que estão cientes da actividade de Bocage como tradutor. As suas versões portuguesas de textos clássicos latinos, entre os quais se contam autores como Virgílio e Ovídio, caracterizam-se pelo rigor e pela originalidade. Estes juízos de valor poderão ser também aplicados às suas traduções da língua francesa de escritores que fizeram escola na época, como Voltaire, La Fontaine, Lesage, Florian, Lacroix, d’Arnaud, Delille e Castel.

Permanecem desconhecidos os seus poemas compostos para serem musicados e as suas breves incursões no âmbito dramático, designadamente as peças Atílio Régulo – publicada postumamente por Nuno Álvares de Pato Moniz – e A Virtude Laureada, que veio a lume pouco depois do seu falecimento.

Deste modo, a avaliação da obra de Bocage é, por vezes, feita a partir de conceitos redutores que a empobrecem sobremaneira. Não surpreende, assim, que o seu verdadeiro lugar na história da literatura portuguesa não lhe seja reconhecido e que, em Junho de 2001, tenha sido alvo – na companhia de outros expoentes das nossas letras como Fernão Mendes Pinto, Antero de Quental e Gil Vicente – de uma marginalização inaceitável: a exclusão do programa obrigatório do Ensino Secundário.

Outros estudiosos confundem erotismo com pornografia e vinculam o poeta a mais um estigma, por puritanismo, desinformação ou por seguirem cegamente a tradição eivada de preconceitos de carácter sexual.

Um outro estereótipo que menoriza o poeta prende-se com o extenso anedotário que lhe é atribuído. Na verdade, a generalidade da população identifica Bocage, de imediato, com as anedotas, tantas vezes primárias, que proliferaram na nossa sociedade. Sabemos, por outro lado, como, designadamente na primeira metade do século XX, o espírito ávido de editores sem escrúpulos foi perpetuando esta fraude, através de edições sucessivas e de inúmeras tiragens, indo ao encontro da procura assinalável de um público culturalmente indigente.

Por estranho que pareça, a associação espúria de Bocage ao chiste, estendeu-se a outras zonas do globo. Com efeito, em Macau – território que o poeta demandou, em 1789, na sequência da sua segunda deserção das forças armadas, oriundo de Damão, e no qual esteve apenas alguns meses –, faz parte do patois local a palavra “bocagem” que, sintomaticamente, significa anedota.

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