Bocage 1765-1805
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Inimigo de hipócritas e frades [...]
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Deslocando-nos ainda para outras regiões longínquas, deparamos no Brasil, junto das classes sociais menos cultivadas, com um conceito estropiado de Bocage. Efectivamente, o cidadão comum identifica-o não com um poeta, mas sim com o português esperto e sem escrúpulos, o fura-vidas que não olha a meios para atingir os seus fins ínvios, o arrivista, uma personalidade que tem sempre resposta pronta para sair dos apuros em que se encontra. Tal imagem é perceptível, por exemplo, nos vários folhetos de literatura de cordel brasileira que o contemplam.

Porém, contrastando com esta perspectiva notoriamente falsa, existe no Brasil um interesse inusitado pelo poeta, consubstanciado nas múltiplas edições da sua obra e em inúmeros textos por ela catalisados. Evoquemos ainda, como assinalou Artur Anselmo, uma figura mitológica do nordeste brasileiro, apelidada de “Camonge”, uma curiosa simbiose dos nomes de Camões e de Bocage.

Duzentos anos depois do seu falecimento…o que nos toca verdadeiramente ao ponderarmos o legado de Bocage? O que está vivo e o que foi obliterado pela usura inexorável do tempo?

Em primeiro lugar, a sua poesia de primeira água, cinzelada em inúmeras versões que nos permitem aquilatar, com acuidade, o processo criativo, da génese do texto até à lição final. A ela indissoluvelmente ligado, encontra-se o seu estilo ígneo, um discurso que tantas vezes despreza a Razão – paradoxalmente em oposição, portanto, ao Iluminismo que pontificou nas suas opções de carácter filosófico –, dando cidadania ao extravasar torrencial do sentimento. Estamos, na realidade, em presença de uma voz peculiar da literatura portuguesa. A sua poesia lírica, satírica, erótica e de intervenção social é, por um lado, parafraseando Fernando Pessoa, “fonte contínua de exaltação estética” e, por outro, considerando o seu universalismo, está em sintonia com as eternas questões que inquietam o ser humano.

Afirma António Feliciano de Castilho que o soneto atingiu o seu apogeu na literatura portuguesa com Bocage, tese melindrosa considerando a obra de Camões e de Antero de Quental; porém, parece-nos lícito admitir que o escritor setubalense o compôs de forma lapidar, tal como o fez relativamente ao idílio, à ode, à cantata, à canção e à epístola. Outros géneros poéticos que cultivou, como o elogio, a elegia, a écloga e o epicédio, foram circunstanciais, o corolário de uma mera obediência aos cânones literários coevos ou decorreram da miséria vivenciada, como o próprio poeta tem a preocupação de assinalar, numa evidente mensagem para os vindouros:

“E se entre versos mil de sentimento
Encontrardes alguns, cuja aparência
Indique festival contentamento,

Crede, ó mortais, que foram com violência
Escritos pela mão do Fingimento,
Cantados pela voz da Dependência.” 1

Em segundo lugar, parece-nos lícito enfatizar a filosofia de vida de Bocage. A leitura atenta da sua obra legal e clandestina revela-nos uma dialéctica apurada na gestão da sua forma de se assumir na sociedade. O “Antigo Regime” português caracterizava-se, entre outros atributos, pela hierarquia rígida, pelo controlo social, pela ausência de liberdade e pela inexistência do diálogo vivificador que o estatuto periférico do país ainda mais acentuava. Na época de Bocage, Pina Manique velava atentamente pela manutenção do “trono e do altar”, ameaçados pelas propostas cada vez mais inequívocas da Revolução Francesa, a Real Mesa Censória coarctava quaisquer veleidades alternativas de carácter ideológico e o tribunal do Santo Ofício, embora debilitado pela acção do Marquês de Pombal, opunha-se tenazmente a comportamentos – no domínio da fé e da moral sexual – que considerava atentatórios dos bons costumes.

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1 Bocage – Obra Completa – Vol. I. Sonetos. Edição de Daniel Pires. Porto: Caixotim, 2004, p. 7.

Não sou vil, vil assassino [...]
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