Bocage 1765-1805
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Bocage tradutor

Uma vertente menos conhecida da obra de Bocage é, indesmentivelmente, a tradução. Com efeito, os seus biógrafos só muito levemente focaram esta sua intensa actividade.

Bocage possuía uma sólida formação clássica. Na adolescência aprendeu latim com um padre espanhol, Don Juan Medina. Mais tarde, na sequência da morte da mãe, teve como mestre alguém pouco sensível aos atributos da persuasão, como o próprio Bocage evocava: "Se continuo mais tempo, aleija-me."

O escritor beneficiava ainda do facto de ser de origem francesa, língua que, consequentemente, dominava com maestria.

A primeira tradução de que há notícia remonta ao ano de 1793. Porém, só a partir de 1800 enveredou por uma actividade sistemática como tradutor. Coincide esta opção com um período de sedentarização de Bocage, cuja saúde se encontrava prematura e seriamente minada, e com um convite de José Mariano Velloso, director da famosa, pelas suas exemplares estampas, Tipografia Calcográfica do Arco do Cego.

Em 1800, foi dado à luz o livro de Delille Os Jardins ou a Arte de Afformosear as Paisagens, vertido para a língua portuguesa por Bocage. Esta publicação foi pretexto para os seus múltiplos adversários fazerem violentos reparos à sua tradução.

O poeta respondeu-lhes contundentemente, um ano depois, no prólogo do livro de Ricardo Castel As Plantas. Apelida-os de "aves sinistras", "corvos de inveja", "malignos", "maldito, grasnador, nocturno enxame que voar não podendo, odeia os voos", "zoilos", entre outros epítetos pouco lisonjeiros.

Nos ataques viscerais que Bocage sofreu, distinguiu-se José Agostinho de Macedo, arqui-inimigo desde a "Arcádia Lusitana", que subscreveu a composição "Sempre, oh Bocage, as sátiras serviram...". Pulverizando a argumentação do seu opositor, Elmano compôs a célebre sátira Pena de Talião, segundo reza a tradição, de um só fôlego, sob extrema emotividade. A polémica entre ambos foi alimentada por diversas vezes, até 1805, data do falecimento de Bocage, havendo, porém, a registar a reconciliação entre ambos, pouco antes do infausto desenlace. Reacendeu-se, porém, mais tarde quando os seus discípulos se envolveram com José Agostinho de Macedo, fazendo-lhe acusações gravosas, ao que parece fundamentadas.

Da autoria de Bocage é a tradução dos seguintes livros: Eufemia ou o Triunfo da Religião de Arnaud (1793), As Chinelas de Abu-Casem: Conto Arábico (1797), Historia de Gil Braz de Santilhana de Lê Sage (1798), Os Jardins ou Arte de Afformosear as Paisagens de Delille (1800), Canto Heróico sobre as Façanhas dos Portugueses na Expedição de Tripoli (1800) e Elegia ao Illustrissimo [...] D.Rodrigo de Sousa Coutinho (1800), ambos da autoria do poeta brasileiro José Francisco Cardoso, As Plantas de Ricardo Castel (1801),

O Consórcio das Flores: Epistola de La Croix (1801), Galathéa (1802) de Florian, Rogério e Victor de Sabran ou o Trágico Effeito do Ciúme (1802) e Erícia ou a Vestal (1805) de Arnaud.

Postumamente foi publicada a tradução de Paulo e Virgínia de Bernardin de Saint-Pierre. Corria o ano de 1905 e foi lançada no âmbito da comemoração do primeiro centenário do falecimento de Bocage. O autógrafo manuscrito pertencera a Camilo Castelo Branco que o ofereceu ao editor Lello; este, por sua vez, doou-o à Biblioteca Municipal do Porto, onde se encontra, neste momento, depositado.

Nas suas traduções, Bocage contemplou os clássicos – Ovídio, Horácio, Virgílio, Alceu, Tasso – bem como autores modernos, Voltaire, La Fontaine, entre outros.

A maneira cuidada como o poeta empreendeu as suas traduções é-nos descrita por ele próprio no prólogo a Os Jardins ou Arte de Afformosear as Paizagens: "...lhe apresento esta versão, a mais concisa, a mais fiel, que pude ordená-la, e em que só usei o circunlóquio dos lugares, cuja tradução literal se não compadecia, meu ver, com a elegância, que deve reinar em todas as composições poéticas."

Registe-se ainda o facto de Bocage se manifestar ostensivamente contra o uso de galicismos que enxameavam a nossa língua.

Daniel Pires

(extraído de Exposição biobibliográfica comemorativa dos 230 e dos 190 anos do nascimento e da morte de Bocage. Setúbal: C.M.S., 1995)

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