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A «escrita» do ACPC
recortes de memória recente
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  A «escrita» do ACPC
recortes de memória recente

ANTÓNIO BRAZ DE OLIVEIRA

Luiz Fagundes Duarte já deixou escrito quanto baste para se perceber o oceano de subtilezas (e algumas incertezas) que atravessamos na demanda das «mãos da escrita». Ele mesmo moldou o título para dar nome à exposição que celebra, também, o 25.º aniversário do que é hoje o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea da BNP. O seu texto pertence já à memória do ACPC e passou, mutatis mutandis, pelos mesmos estádios de elaboração que qualquer outro. Ficará guardado aqui na versão final moldada para o efeito e, também, na memória «flutuante» do seu computador pessoal para recortes futuros. Tanto quanto me lembro, há vinte e cinco anos ainda não tínhamos plena consciência da facilidade com que poderíamos multiplicar os «trânsitos» (escaninhos, ficheiros, servidores) da memória a ponto de a tornarmos mais ou menos insuportável, isto é, susceptível de passar por intermináveis transferências de suporte, com todas as vantagens e desvantagens ecológicas consequentes. Pertencem já a um tempo em que o manuscrito autógrafo vai fenecendo as mãos com que recorto este depoimento para memória futura, lembrando os principais «gestos de escrita» do ACPC, que ofereço a João Palma Ferreira e José Carlos Gonzalez. Alguns daqueles gestos deixaram rasto, outros não.

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Ao primeiro recorte de memória do ACPC pertencem, como é natural, os momentos de iniciação da, então, Área de Espólios (1981-1986). Para memória do seu registo de nascimento, deixei um breve testemunho na apresentação do inventário do espólio de João Palma Ferreira, publicado em colaboração com Fátima Lopes, alguns meses após a sua morte. Contei aí como, numa estranha tarde de Dezembro de 1980, lhe ouvi (e dele recebi) a ideia inicial. Julgo que não andava muito longe da que David Mourão Ferreira, seu primo, desejara para o Museu da Literatura do Porto. Era apenas mais lúcida e foi, decerto, mais eficaz. Fica, pois, feita aqui uma pequena rectificação à certidão de baptismo. A proposta de criação de uma «Divisão de Espólios da BN» data de 2 de Fevereiro de 1981 e deverá ter subido, mais ou menos retocada, as escadas da então Secretaria de Estado da Cultura antes do Verão desse ano, já que no relatório que assinou a 2 de Setembro, João Palma Ferreira diz terem já sido entregues ao SEC as «propostas de legislação que são imprescindíveis à regularização do [entre outros] Serviço de espólios». Vale a pena recordar aqui outro passo do testemunho que deixou no citado relatório:

Dediquei particular atenção à aquisição de espólios para a Biblioteca Nacional. Logo após ter tomado posse, revendo o espólio de Batalha Reis, deparei com faltas de volumes que deveriam ter sido depositados quando o acervo veio para a instituição. Depois de diversas diligências fui encontrar a parte que faltava, num total de mais de duas dezenas de pacotes e sacos, na Direcção-Geral do Património onde, por inexplicável mistério fora há anos abandonada. Recuperada, imediatamente ordenei que sobre o espólio fossem feitos os primeiros trabalhos de reconhecimento, tendo interessado alguns investigadores na rica existência documental. Posteriormente, com o destacamento do Ministério da Educação da Dr.ª Maria José Marinho, conseguiu-se prosseguir, mais sistematicamente, o labor de reconhecimento.

Em Novembro de 1980 desloquei-me pessoalmente a Moledo do Minho para recolher o espólio do escritor, teatrólogo e pintor António Pedro, gentilmente cedido por sua viúva. Em Fevereiro de 1981, mandei recolher o espólio do escritor José Marinho, doado por sua família. Em Março iniciei as diligências preliminares para a aquisição do espólio de Raul Proença. Entretanto, por despacho favorável do Secretário de Estado da Cultura, os espólios de Fernando Pessoa, de Eça de Queirós e de Camilo Pessanha (parcial), foram definitivamente integrados na Biblioteca até então apenas sua depositária a título precário. Em Julho de 1981, foi recolhido, para tratamento, o espólio do escritor Mário Saa. Ao Ministério dos Negócios Estrangeiros foi solicitada a cedência do espólio de Ribeiro Saraiva, ali depositado há muitos anos.

Passaram vinte e seis anos e alguns meses. Que eu saiba aquela proposta de legislação não desceu as escadas que subiu, mas o trabalho tinha começado quinze dias antes… E com ele o melhor da «escrita» de que falo, pelas minhas mãos e, logo de seguida, «de mãos dadas» com Júlia Ordorica (Maio) e Maria José Marinho (Agosto), a que cedo se juntaram, por algum tempo, as de Teresa Mónica (Outubro). Só um ano depois, veio a Ordem de Serviço n.º 2/82, de 15 de Janeiro, em que a Área de Espólios é pela primeira vez nomeada, como serviço dependente da Divisão de Serviços de Reservados, onde, diga-se de passagem, começou por ocupar o espaço mais exíguo possível. Sobre aquela ordem de serviço contamos hoje o quarto de século. Ficou, então, «passada a papel» a criação da Área de Espólios que marcou o nosso destino e o destino de muitos papéis que, no mesmo dizer de João Palma Ferreira, se conservavam «nos mesmos caixotes ou caixas de cartão em que tinham sido colocados aquando da sua vinda para os serviços, anos atrás, e outros nem sequer tinham sido abertos apesar de já levarem décadas na Biblioteca».

Que impulsos ou «soma de vontades» determinaram, nos primeiros anos, os sucessos e insucessos da Área de Espólios, à margem dos pequenos soslaios e ciúmes com que também contou? A esta distância, diria que à visão e determinação de João Palma Ferreira, sempre presente nos anos em que foi director da BNP (1980-83) e mesmo para além deles, se ficou a dever, não apenas o baptismo do serviço, mas também a fotografia «tirada do lado de fora» com que o perspectivou. No activo da direcção da BNP assinada por Palma Ferreira ficou, entre muitas outras iniciativas, um estímulo ímpar dado às exposições e edições da casa. Ficcionista, memorialista e bibliógrafo ele mesmo, traçou e pôs em movimento — de mão com Pedro da Silveira, então director de Serviços de Investigação e Actividades Culturais — o mais ambicioso plano de investigação e extensão cultural que a BNP conheceu depois dos anos vinte, com a intervenção do famoso Grupo da Biblioteca. Seguindo-lhe de perto o exemplo, acrescente-se. Em apenas um ano, entre o final de 1980 e o de 1981, a BNP realizou, sempre acompanhadas dos respectivos catálogos, nada menos que dez exposições temáticas, entre a lembrança de Raul Brandão e de Três poetas do Surrealismo português e comemoração do Bimilenário de Virgílio. Na organização dessas exposições colaboraram diversos serviços da casa e nelas apareceram, quase sempre, as «mãos» de Pedro da Silveira, Luísa Ducla Soares e Manuela Rêgo.

Em mais de um escrito, Palma Ferreira reconheceu Jaime Cortesão e Raul Proença como figuras tutelares dessa visão a que a dinâmica da «infante» Área de Espólios se juntou, com decisivas consequências. Do mesmo ano inaugural de 1982, datam a exposição António Pedro: desenhos e manuscritos, preparada pela Área (em colaboração com a Área de Iconografia) sobre o autor de Andam ladrões cá em casa e a edição do seu Teatro completo, partindo, num e noutro caso, dos inéditos guardados no espólio. E não só. Pelo final do ano (adquirida, em Maio de 82, a transferência de Fátima Lopes após um ano de teimosa insistência…), iniciou-se a preparação de mais três títulos: a Revista Inglesa de Jaime Batalha Reis, de que se ocupou Maria José Marinho, A Correspondência para Raul Proença de António Sérgio e a Poesia de Mário Saa, organizada aquela por José Carlos Gonzalez e esta por João Rui de Sousa (chegados, ambos, por Outubro de 1982), sem esquecer a estonteante leitura que representou a edição da Devassa de 1771-1775, em que todos trabalhámos (incluindo, intempestiva, mas premonitoriamente, Aurora Machado) durante todo o ano em que a BNP celebrou o duplo centenário do Marquês de Pombal.

Não se pense, no entanto, que nessas descobertas e afazeres editoriais (e muitos foram) se esgotaram as nossas preocupações e energias. Logo no primeiro ano, enquanto os acervos passavam de seis a quinze, Júlia Ordorica ensaiou e concluiu com êxito a aplicação sistemática das regras de catalogação anglo-americanas (conhecidas pela sigla AACR2) à catalogação dos autógrafos de Eça de Queirós de que resultou o primeiro catálogo realizado pela Área de Espólios, que hoje olhamos como uma «relíquia». A seu lado, Maria José Marinho e eu mesmo progredíamos nos primeiros inventários, ainda sem a rede que, no Verão de 82, importámos da Alemanha. Aí fomos buscar os princípios de ordenação e inventariação de espólios de autores contemporâneos que se viriam a revelar o instrumento técnico preciso para levar a bom termo o desafio que tínhamos pela frente. Foi a adaptação das regras de ordenação de manuscritos do Arquivo da Literatura Alemã e as regras de inventariação da Associação Alemã para a Investigação que nos ensinaram a trabalhar em tempo útil e a sopesar, como devíamos, a importância das diferentes «mãos de escrita» que um espólio contém. Aí percebemos que, a par da biblioteconomia e da arquivística tradicionais, se insinuava a disciplina que tratava dos livros antes de serem livros, que tratava de textos que nunca chegariam a ter colofão. Vale a pena recordar as três notas finais que escrevi no relatório da viagem (6-23 de Julho) à Alemanha que acompanhou a tradução das regras:

A primeira é, decerto, a de que os princípios não pecam pelo seu assinalável pragmatismo e singular simplicidade, devotando todo o trabalho arquivístico a uma rápida divulgação do conteúdo dos espólios documentais manuscritos, tornando-os acessíveis aos investigadores num espaço de tempo excepcionalmente curto. Isso se torna demais patente pela conjugação das regras utilizadas com os procedimentos de trabalho que, na prática, são utilizados pelos inventariadores, «agilidade» que aqui não cabe particularizar. Isso proporciona que o investigador tenha rapidamente o retrato, tanto quanto possível completo, do acervo já ordenado e devidamente referenciado no ficheiro manual ou no inventário impresso, se vier a ser o caso.

A segunda observação é a de que alguns princípios não deverão ser aplicados sem as necessárias adaptações ao tipo de acervos que hoje compõem os fundos da Área de Espólios da BN. Tal resulta da circunstância de esta estar devotada apenas ao tratamento de manuscritos tout court, excluindo materiais que pela sua diferente natureza (iconográfica, musicológica, museográfica, etc.) não são normalmente considerados no conjunto a que pertencem, mas encaminhados desde logo para tratamento em outras Áreas ou mesmo outras instituições. A técnica utilizada no Schiller National-museum e no Deutsches LiteraturArchiv, considerando sempre a globalidade dos materiais que integram um espólio, se bem que mais correcta, porque totalizante, poderá ter de sofrer no nosso caso, pontuais desvios, se bem que aí também se considerem, para efeitos de tratamento, nas Áreas respectivas.

Direi, por último, que as técnicas utilizadas no DLA para a ordenação e inventariação dos espólios, por se destinarem a acervos de carácter estritamente literário, deverão ser ponderadas de molde a permitirem englobar acervos que relevam sobretudo pelo seu conteúdo crítico, erudito ou ensaístico, mas se consideram ainda susceptíveis de vir a ser englobados num Arquivo de Literatura Contemporânea, seja pela sua importância histórico-cultural, seja por completarem outros acervos já existentes.

A doutrina contida nas Richtlinien Handschriftenkatalogisierung e na Ordnung von Handschriften que importámos (na tradução que Verner Volke e Werner Bucher pacientemente acompanharam, através do inglês...) serviu-nos como «cábula» no molde que tinha em tradução mais ou menos fiel. Até ao dia em que a transformámos em código nosso, pronto a servir para o que desse e viesse. Contávamos já com os testes necessários e passávamos a dar conta, em cada ano, do número de documentos que inventariávamos. Tínhamos a nosso favor uma dupla vantagem: formávamos uma equipa jovem e generosa (no número e, sobretudo, no ânimo), sem grandes vícios ou preconceitos, e não nos faltava a matéria-prima mais variada que muitos investigadores reclamavam ver e explorar.

Assim foi. Cedo nos bateram à porta os primeiros leitores e no seu convívio e nas suas exigências soubemos encontrar estímulo para as aproximações mais difíceis. Nenhum investigador (quase sempre em trânsito de ser editor crítico) deixou de confidenciar-nos quais eram os respectivos projectos e deixou de contar, para os mesmos, com o nosso apoio. Ajudámos a ler (com bom apetite e melhor proveito) um pouco de tudo. Cartas, muitas cartas, de Almeida Garrett a Camilo Pessanha, poesia, quanto baste, de Batalha Reis/Fradique Mendes a Mário Saa, e prosa, muita prosa, de Eça de Queirós a António Pedro. De Fernando Pessoa lemos, é claro, um pouco de tudo, uns com mais provento que outros. Para os primeiros anos chegámos a criar um pequeno arquivo do que ia sendo publicado na imprensa e um ficheiro com as referências das edições preparadas com os papéis guardados no serviço. Infelizmente, desistimos desse registo por falta de tempo e de arrumos.

Pela sala de Leitura de Reservados, que nos servia, multiplicavam-se as «mãos de leitura» dos espólios, enquanto as nossas não tinham como medir a «escrita» do que todos os anos aportava à Biblioteca Nacional. Os inventários que conseguíamos produzir, aqui em ficheiro, ali em lista corrida tirada à máquina de escrever (uma e apenas uma, até 1986) eram oferecidos aos leitores interessados que, na volta, pediam mais. Alguns chegaram mesmo a corrigi-los, para melhor, e a publicá-los; outros não. Na nossa sala de trabalho comum cruzavam-se escritas a várias vozes e outros tantos idiomas, sem que por isso as leituras, versões e traduções se confundissem.

Em Fevereiro de 1983 mudámos de «mão». De serviço dependente da Divisão de Reservados (onde, desde meados de 82, ocupámos a excessiva e gelada sala que ainda hoje se chama Museu do Livro), para serviço integrado na Divisão de Investigação, em reconhecimento não apenas do trabalho realizado, mas, sobretudo, da «dupla face» que caracterizava o serviço: a ordenação e inventariação dos«papéis», para além das exigências que colocavam a quem o fazia, traziam à luz do dia a descoberta dos «ricos espólios de que a Biblioteca era possuidora ou fiel depositária», os tais que tempos antes se conservavam nos mesmos caixotes em que haviam chegado. Nem por isso mudámos de rumo, colaborando na exposição que nesse ano lembrou o centenário de António Sérgio e preparando afanosamente a exposição, comissariada por Jacinto Baptista, que haveria de celebrar os centenários de Jaime Cortesão e Raul Proença em 1984. Palma Ferreira bem o suspeitara… No catálogo que ficou impresso dessa exposição fazia-se justiça aos dois dirigentes da Biblioteca Nacional entre 1919 e 1927, trazendo a público novos contributos do muito que fizeram para o reconhecimento da missão da instituição, para além da intervenção cívica e política que tiveram durante a I República, entre a participação no movimento da Renascença Portuguesa, a fundação da Seara Nova, a oposição à ditadura militar e o exílio a que ambos foram forçados. Como disse Jacinto Baptista, que na Área de Espólios via uma espécie de sótão de alquimistas que transformava papéis velhos em documentos, a mais inéditos, a exposição,

nascida de um esforço colegial de pesquisa e descoberta, não apresenta teses de interpretação textual ou, sequer, contribuições biográficas e bibliográficas exaustivas: livre, dentro do molde tradicionalmente cronológico que adoptou, quer-se como proposição aventurosa de pistas para o conhecimento da lição de dois mestres e, talvez mais do que tudo, como incitamento à leitura da sua obra, pela convicção antiga, que comparto, de que essa é a melhor homenagem que se presta a dois escritores, além do mais não apenas autores, mas homens, e de primeira grandeza, do nosso país.

O catálogo abria com uma trintena de páginas assinadas por Jaime Cortesão, Raul Proença, António Sérgio e Aquilino Ribeiro e fechava com mais uma centena delas reproduzindo documentos e testemunhos extraídos da imprensa e dos respectivos espólios. A certo passo, registava-se que nele a BNP ensaiava, pela primeira vez,«para todos os tipos de documentos, os mesmos princípios internacionais de catalogação», o que não passou despercebido. Em 1985, a colaboração foi para a exposição sobre Aquilino Ribeiro, no primeiro centenário do seu nascimento e para a de Fernando Pessoa: o último ano, preparada por João Rui de Sousa e Teresa Sobral Cunha, entretanto integrada na Área de Espólios (Outubro). Nos catálogos das duas exposições, como já acontecera na de 1984, a catalogação dos manuscritos foi assinada por Fátima Lopes, consolidando os aplaudidos critérios que ainda hoje usamos.

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Pelo final de 1986, quando a BNP contava já trinta e seis espólios e havia um ano que Manuel Vilaverde Cabral a dirigia, mudámos mesmo de morada. Do excessivo salão do 3.º piso, para um espécie de «T6» que a Divisão de Serviços de Investigação passava a disponibilizar, para nosso conforto e expansão, no piso intermédio. Aí passou a Área de Espólios a dispor de sala de leitura própria, espaço de acolhimento, quatro gabinetes de trabalho e um depósito destinado aos acervos em fase de tratamento (os restantes continuaram, durante mais um ano, no depósito de Reservados). Consumava-se a aproximação, desenhada por Palma Ferreira em 1983 (nas O. de S. n.os 15 e 41/83 de 16 de Fevereiro e 10 de Maio) do trabalho que desenvolvíamos ao dos serviços de investigação, aproximação que iria acentuar a intervenção da Área na preparação e realização de boa parte do próprio programa de investigação e extensão cultural da BNP.

A esse segundo recorte de memória do ACPC (1986-1997) pertencem, porventura, os melhores momentos. Para o crescimento dos fundos (dos trinta e quatro acervos, existentes em 1986, haveria de passar para cento e um, em 1997) e para a multiplicação dos estudos, divulgados através da segunda série da Revista da Biblioteca Nacional (que Carlos Abreu modelou, desde o primeiro dia).

Em todos os números da Revista publicados entre 1987 e 1995 (19 ao todo), compareceram as «mãos de escrita» de investigadores e colaboradores da Área de Espólios que contava já com as mãos de Ana Maria A. Martins (Julho de 1987). Aí foram publicados, tendo por base os espólios que a BNP guardava, estudos, textos ou inventários sobre ou das mãos de, entre outros, Manuel Teixeira Gomes, Jaime Cortesão, Raul Proença e sua mulher Teolinda Proença, Jaime Batalha Reis, Antero de Quental, Ribeiro Saraiva, Fernando Pessoa, Álvaro Ribeiro, Mário Saa, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós e sua mulher Emília, João de Barros, António Tavares Magessi, Gama e Castro, Severino Gomes, António Sérgio, David Corrazzi, Basílio Teles, Luís de Magalhães, António Feijó, Cândido Figueiredo e Lima, Sampaio Bruno, Cesário Verde, Elísio Mendes, Augusto Ferreira Gomes, António Salgado Júnior, Mário de Sá Carneiro, Quirino de Jesus, além das do próprio João Palma Ferreira. Multiplicou-se o número de investigadores que, pela Europa e dos dois lados do Atlântico, exumaram dos acervos à guarda da Área de Espólios centenas de páginas da memória mais subtil e, por isso, menos conhecida, da que um deles chamou a «universalidade das letras portuguesas» e, em particular, das relações luso-brasileiras entre os finais do século XIX e início do século XX.

Daquelas e outras descobertas dão testemunho alguns dos depoimentos adiante arquivados e para a diversificação desses interesses foi, decerto, decisiva a disponibilidade e generosidade de Maria José Marinho (que dirigiu a Área entre 1987 e 1991), além da excelência do trabalho que prestavam Júlia Ordorica, Fátima Lopes e Aurora Machado (regressada ao nosso destino em 1987).

E também se celebrou, ou ajudou a celebrar, por extenso, em edição própria, a entrega à BNP do Arquivo Histórico-Social, com a exposição 100 anos de anarquismo em Portugal, 1887-1987, coordenada por Maria Alexandre Lousada, Maria de Lurdes Rodrigues, Carlos Abreu e João Freire, que neste mesmo catálogo regressa ao nosso convívio. E, de novo, Fernando Pessoa (1988), Fidelino de Figueiredo (1989), Augusto Casimiro (1989), Mário de Sá Carneiro (1990), Antero de Quental (1991), Irene Lisboa (1992), Maria Lamas (1993), Almada Negreiros (1993) Ramalho Ortigão (1994), Oliveira Martins (1995)…

Em 1988, com a celebração do I centenário do nascimento de Fernando Pessoa, aÁrea de Espólios viu-se no centro de muitas e generosas atenções que passaram a olhar os «autores e os seus papéis» com acrescido interesse e apetite. Para apresentação da exposição então realizada — que inaugurou a 7 de Novembro, em Madrid, e não em Lisboa — concorreram as mãos de Eduardo Lourenço (que lhe chamou «uma exposição impossível»), Ángel Crespo, Maria Aliete Galhoz, Cleonice Berardinelli, Yvette K. Centeno, Fernando Guimarães, José Blanco, Luciana Stegagno Picchio e as do próprio Manuel Vilaverde Cabral que bem soube compreender a valia do momento. Além do catálogo da exposição Fernando Pessoa No Seu Tempo, a BNP apresentou, no mesmo dia da inauguração em Lisboa (5 de Dezembro), a Fotobibliografia de Fernando Pessoa e um número especial da sua Revista em que compareceram, entre muitas outras, a assinatura de Ivo Castro e a de Luiz Fagundes Duarte (que «requestavam», com as melhores intenções, os nossos papéis pelo menos desde a «tragédia» das duas simultâneas primeiras edições da Tragédia da Rua das Flores), meses antes de se tornarem os «gurus» da Equipa Pessoa que iria preparar a edição crítica do poeta dos heterónimos e tornar-se nossa«cliente» privilegiada. Como confessou Ivo Castro, alguns anos depois:

Quando, há uns 12 anos, arrancou o projecto da edição crítica de Eça de Queirós, seguido a pouca distância pelo de Fernando Pessoa, ninguém sabia que futuro estaria guardado entre nós para o modelo de edição filológica que então propúnhamos, e que corria a par da crescente concentração de espólios literários na Biblioteca Nacional. Hoje, […] poucas dúvidas restarão de estar implantada a preocupação de que um texto se edita a partir dos originais, se os houver, e não da mais recente das edições. A moda pegou. Não só as edições de Pessoa e de Eça continuam activas como outras edições foram lançadas ou estão em estaleiro, adensando consideravelmente o escopo cronológico: tão implicados estão escritores quase nossos contemporâneos — Régio, José Marinho —, como um Garrett que nasceu no século XVIII, ainda que por uma unha negra. De outras edições poderíamos aqui ouvir falar (Camilo e Vergílio Ferreira vêm à memória), mas essas e outras não tardarão certamente a justificar outros encontros e conversas…

Com eles, chegava à proximidade da Área de Espólios Manuela Vasconcelos que, só sete anos mais tarde, viria a integrar definitivamente a nossa equipa (1996). A breve trecho, o serviço expandia-se para acolher, anexo às suas instalações, o «estaleiro» da Equipa Pessoa a que não faltavam os necessários recursos financeiros e, sobretudo, o saber filológico e crítico que trazia para o campo da arquivística literária (a «nossa» arte) as preocupações próprias da crítica genética (a arte «deles»). No ano seguinte, Luiz Fagundes Duarte assinava («Ericeira, 6 de Outubro de 1989») a sua tese de doutoramento sobre A Capital! de Eça de Queirós, o autógrafo mais emendado que havia saído das mãos do autor que (se) figurou Gonçalo Mendes Ramires e ninguém antes dele havia conseguido pôr em ordem… Aproximava-se o décimo aniversário do serviço e, para sua memória, submetíamos «à consideração superior» a publicação de um Guia breve do ALPC, apresentando maqueta, textos e tudo o mais, Guia que não andava longe do que adiante vai impresso.

A breve trecho (1990), a BNP mudava de direcção, encontrando em Maria Leonor Machado de Sousa, antiga leitora do espólio de Inocêncio Francisco da Silva, uma decidida impulsionadora de novas aquisições, bem na senda de João Palma Ferreira e Manuel Vilaverde Cabral. Pela sua assinatura passou a aquisição de novos espólios ou colecções (ou complementos dos que já existiam) com os nomes de Mário Henrique Leiria, João José Cochofel, Irene Lisboa, João Cabral do Nascimento, Jaime Cortesão, Francine Benoît, Alfredo Cortês, José Lopes de Oliveira, Paiva Couceiro, Aires de Ornelas, Norberto Lopes, Maria Lamas, Cruzeiro Seixas, Silveira da Mota, Almeida Eusébio, Domingos Lavadinho, Elina Guimarães, Elizer Kamenezky,Augusto Gil, José Saramago, Barbosa de Magalhães, Mário de Sá Carneiro, Almada Negreiros, Margarida Jácome Correia, Políbio Gomes dos Santos e Família Lopes de Mendonça.Tudo antes e depois da fusão da Biblioteca Nacional com o Instituto Português do Livro e da Leitura (Junho de 1992), que deu origem ao singular logótipo IBL, que aparece na correspondência da instituição e nos termos de doação então lavrados e a apenas alguns dias da publicação dessa referência a dez séculos de escrita que é o volume Tesouros da Biblioteca Nacional, cujo último capítulo traz por título «O manuscrito subjacente ao impresso: séculos XIX e XX», com vasta cópia de tesouros guardados nos espólios.

Por singular ironia, foi a lei orgânica que «extinguiu» a BNP que consagrou nas páginas do Diário da República a existência da Área de Espólios, com o nome, que há muito reivindicava, de Arquivo de Literatura Portuguesa Contemporânea (Decreto-lei n.º 106-E/92 de 1 de Junho, art.º 27.º). Manteve a respectiva integração na Divisão de Investigação, tal como haviam defendido João Palma Ferreira e Manuel Vilaverde Cabral nas propostas de revisão orgânica que idearam e não chegaram a ter seguimento (a de MVC, de que a aprovada em 92 é, de algum modo, tributária, ficou «em dormência» depois de Abril de 1989). Pelo estaleiro da Equipa Pessoa, e, de caminho, pela sala de leitura do ALPC, continuavam a passar diariamente, não apenas os mestres de que falei, mas também um sem número de outros pessoanos, mais ou menos devotos e curiosos, que ora completavam o trabalho que a equipa ia pacientemente dando à estampa na Imprensa Nacional-Casa da Moeda, ora mostravam outras «mãos de leitura» possíveis, partindo dos mesmos autógrafos cujo traço se ia tornando cada dia mais fugidio… A extinção da BNP não extinguiu o interesse que, em crescendo, rodeava as diferentes «arcas» recebidas nos «Espólios», nome por que continuava a chamar-se, com a afeição que colocamos em todos os diminutivos, o serviço e o grupo que nele trabalhava. Entre outros amigos, contávamos já com Jorge Croce Rivera, que teve a ousadia de preparar, com inexcedíveis rigor e paciência a edição das Obras de José Marinho.

Bons tempos foram os que passámos na nova morada e com aquele nome. Como disse, tivémos direito a tudo: gabinetes aquecidos (e uns poucos), mais gente de bom senso e bom gosto a trabalhar, sala de leitura própria que chegou a ter circuito interno de vídeo, depósito climatizado (que Manuel Vilaverde Cabral insistiu em tornar de sã alvenaria, e bem…) e, sobretudo, aquela mão cheia de investigadores que corriam atrás dos papéis que guardávamos e que nos tratavam, principescamente, como exímios manuscriptólogos. Ganhámos todos com isso: para muitos estudiosos transcrevemos muitas páginas de texto. Eles, bondosamente, explicavam-nos o que tínhamos lido…

Em 1995, ainda a braços com a colaboração que demos a Portugal, A Guerra e os Novos rumos da Europa, novo desafio chegou, de Vila do Conde, pelas mãos de Luiz Fagundes Duarte que em 1993 constituíra, em colaboração com Isabel Cadete Novais, a equipa para o estudo e edição dos manuscritos autógrafos de José Régio. Para a ordenação e catalogação dos manuscritos teve a bondade de pedir o nosso avisado conselho, não podendo prever as consequências «internacionais» do seu próprio projecto: uma boa parte das vontades que viriam a juntar-se no projecto europeu MALVINE (Manuscripts and Letters Via integrated Networks in Europe), nasceram aí, como, algum tempo depois, lembrei neste outro «recorte»:

Em tempo de globalização, nada na arquivística literária ficará na mesma. O acesso a manuscritos modernos e cartas autógrafas de autores contemporâneos obriga, nesse nosso inquieto desvario, a repensar as relações entre investigação, tratamento e divulgação de fontes primárias manuscritas em moldes inteiramente novos.

Foi com essa pré-ocupação, e aceitando esse pré-texto, que os promotores do Projecto MALVINE conspiraram, pelas nonas de Outubro de 1995, a integração da informação sobre alguns dos mais importantes patrimónios documentais europeus (tão diversos como os que efectivamente estão em causa) numa única rede de dados, através de alguns passos de mágica que aqui sumariamos. Assim foi: tudo começou no, e em grande parte pelo, lado português, em Maio de 95, num encontro realizado em Vila do Conde sobre os papéis de Régio, encontro a que não faltou quem, quatro meses depois, haveria de dar o primeiro passo para o encontro de que nasceu MALVINE. Estou a falar de Almuth Grésillon, então responsável pelo programa especial do CNRS (ITEM), chamado Patrimoine écrit.

No rescaldo/entusiasmo do encontro regiano, surgiu o eureka malvineano, cruzando duas pré-ocupações e dois pré-textos: do lado do ITEM e da Equipa Régio, liderada esta pelo Prof. Luiz Fagundes Duarte, a necessidade de proceder ao lançamento das bases de um Répertoire informatisé de manuscris littéraires modernes e de dar corpo ao Inventário do Espólio literário de José Régio; de todos os lados um certo «favor» prestado no encontro regiano à interdisciplinaridade entre arquivística literária e crítica genética.

De facto, nos instrumentos de trabalho que preparámos para esse encontro defendíamos que era interessante, porventura possível, e talvez um dia inevitável, introduzir nas descrições dos manuscritos de Régio a menção da forma ou estádio de realização do texto, conforme se tratasse de cenário, borrão, rascunho, primeira, segunda, enésima versão, passagem a limpo, etc. Para tanto inventámos uma simpática folha de recolha de dados, bastante generosa para o «inimigo» (estou a falar do tempo, essa nossa vertiginosa e indiscreta negação...).

Em Setembro desse ano, Almuth convocou uma reunião para Paris, a 4 de Outubro, reunião a que tive o pressentimento de faltar... Estiveram, todavia, pelo lado português, os Professores Ivo Castro (da Equipa Pessoa, também ele a braços com interessadas tentativas de salvar o «casamento» entre a crítica genética e a arquivística literária) e Fagundes Duarte, que, ademais de regiano, era já o emérito queirosiano de A Capital!.

Soube, alguns dias depois da reunião de Paris, que esta havia sido um sucesso, com rasgados e algo perigosos elogios à experiência Régio, bem quista de Jutta Weber da Staatsbibliothek zu Berlin ali presente. Fiquei a saber, também, que os meus queridos amigos e mestres Ivo Castro e Fagundes Duarte haviam declarado que Portugal estaria sempre na linha da frente de um qualquer projecto europeu nesta área (sugestão então feita por J. Weber), através... da Biblioteca Nacional. Passou algum tempo e, em Julho de 96, o projecto começou a tomar seu corpo telemático. A 8 de Novembro desse ano, a Biblioteca Nacional tornou oficial o interesse no projecto, já com reunião marcada para Londres, tentando seduzir a BRITISH LIBRARY, na distante indiferença da BIBLIOTHÈQUE NATIONALE DE FRANCE, a braços com as suas novas paredes de vidro... Durante os quatro anos seguintes não tive o prazer de voltar a encontrar, nestas quasi-demoníacas andanças, o Prof. Ivo Castro ou o Prof. Fagundes Duarte.

Se recorto, um tanto por extenso, o depoimento que fiz sobre a génese e edição de MALVINE, que ficou a dever a Manuela Vasconcelos um bom número de horas de sono, é porque elas determinaram decisivamente alguns dos momentos mais ricos do «recorte» seguinte e, em particular, o êxito da entrada do ACPC na senda da globalização.

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Como não há bem que sempre dure, numa outra estranha manhã de Inverno, de 1996, fomos mais ou menos surpreendidos com ordem de mudança. Sem apelo, nem agravo, que valores mais altos se levantavam. Assim tivesse acontecido... E lá fizemos, de novo, pacientemente, as malas para voltar para Reservados. A recepção não foi eufórica, e compreende-se bem porquê. Na bagagem levávamos apenas, para troca de instalações, uns quantos fragmentos de alma de autores excessivamente recentes, entre Eça de Queirós e Florbela Espanca ou, mais exactamente, trinta espólios, sessenta e uma colecções, nove depósitos e 1946 autógrafos avulsos. Fraco dote, o nosso. Mas a mudança fez-se, sem sobressaltos, para onde ainda hoje mora o ACPC. Na minha memória, fazia mais frio... Mas a minha memória é curta e, portanto, posso hoje fazer alguma confusão...

Era já o tempo de nova Direcção (a de Francisco Bethencourt, entre 1996 e 1998) e nova lei orgânica (a do Decreto-lei 89/97 de 19 de Abril), que repunha a Biblioteca Nacional na dignidade de origem, aquele com que aqui abro o terceiro e último «recorte» de memória do ACPC (1997-2007), um tanto já em «seara alheia», uma vez que esta coube a Fátima Lopes semear e ceifar. Lá pelo art.º 10.º n.º 3 da nova lei, aparecia, de novo na mão da Divisão de Reservados, minusculado, o Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea… Fosse como fosse, o certo é que já em Abril se dava conta da nova arrumação topográfica, sem prejuízo da continuidade do serviço aos leitores.

Entre 1997 e 2000, os acervos à guarda do ACPC passaram de 101 para 135. Nessa «dança de caixotes e seu transporte» apenas meti a mão nos que entraram até ao ano de 2000. Então, fui eu mesmo que mudei de mão, conservando pelo trabalho do ACPC o interesse e carinho que todos temos pelas coisas da juventude… Fátima Lopes sucedeu-me à frente do destino dos «Espólios», dando passos decisivos na consolidação e desenvolvimento dos projectos de informatização em curso, passando a contar com as mãos de Ana Isabel Turíbio, Isabel Cadete Novais (Novembro de 1997) e Almerinda Graça (Outubro de 2000). Ela própria dá conta, no depoimento que segue a estas linhas, dos passos por que passou esse desafio e os mais que enformam o «Como se trabalha no ACPC». Entre os meus papéis, desarrumados como é próprio de «recortes» recentes, guardo a informação que, logo em Novembro de 1999, a nova «chefe» prestou e que, na forma electrónica, traz por assunto: Síntese do historial da base de dados de Espólios Literários. Entre outras, essa informação serviu para o constante apoio de Carlos Reis (director entre 1998 e 2002) ao trabalho desenvolvido no ACPC, a dez anos de distância da sua A Construção da Narrativa Queirosiana (1989), em que registou com apreço e proveito a qualidade do inventário do espólio de Eça feito pela Área de Espólios (o natural desenvolvimento da «relíquia» de que atrás falei…).

Daí para cá, confundem-se-me os recortes de memória da «escrita» do ACPC que guardo, seja porque estranhamente me parecem mais distantes, seja porque, francamente, não encontrei ainda tempo para os ordenar e inventariar. Mas sei que na distante proximidade que sempre mantive com o serviço, teimei (ou, sem querer, «obriguei») que se organizasse o I Encontro Internacional de Arquivística Literária e Crítica Textual (1 e 2 de Junho de 1999), acompanhado da edição do precioso Contributo para um levantamento nacional de espólios literários, que inclui a primeira versão impressa do Guia dos Acervos do ACPC, adiante em segunda edição revista e aumentada, e comparecesse, por extenso, na memória devida a Eça de Queirós: a escrita do mundo (2000), Vitorino Nemésio: a rotação da memória (2001), presença de João Gaspar Simões (2003), José Marinho: «todo o pensar liberta» (2004), o Espólio do Conde de Arnoso (2005), «António é o meu nome», Rómulo de Carvalho (2006). E não só… Mania nossa de apresentar trabalho todos os anos…

Em todos esses momentos de memória recente, porventura excessivamente recente, encontro os mesmos desafios e as mesmas lições que repetidamente tenho recordado e com que aqui faço questão de terminar.

OS AUTORES E OS LABIRINTOS DA AUTORIA

Será sempre estimulante escutar — e pouco o temos feito — os criadores/escritores vivos convidados a depor em território que lhes pode parecer inimigo. Chamados a desvendar (sem intrusão excessiva na sua própria intimidade) o percurso da laboração escrita, poderão confidenciar-nos a quase inviabilidade do depoimento, entre a reserva devida ao pudor de falar na e, sobretudo, da primeira pessoa, e a subtil conspiratividade entretecida entre o autor do «crime» e as circunstâncias e resultado deste. Testemunhos demasiado próximos para poderem ser sumariados ou reescritos por terceiros, ajudariam a anunciar, cada um a seu modo, o que está por acontecer ao arquivista e ao editor crítico, ambos espectadores, antes da estreia, se esta chegar a acontecer. Se bem os escutarmos, mais fácil nos será compreender porque um espólio literário raro tem ordem ou génese pré-determinada, razão pela qual a operação a que os arquivistas designam por «classificação» se torna decisiva para o bom êxito de outras empresas.

Para o bem e para o mal, todavia, porque os «papéis» teimam em persistir — mesmo se não passam de impressões sucessivas mediatizadas pelo computador, ou envelhecidos rascunhos de ficções desencontradas — por amizade, desleixo, horror ao vazio, ou simples teimosia, nascem para a arquivística literária e para crítica textual como lugares de memória privilegiados. Com o tempo, ganham um estranho estatuto de despojos, entre outros fragmentos de memória, ora aborrecida, ora enternecida. Daqueles a que não couber tal sorte, restará na memória do criador uma folha em branco, pronta a ser preenchida de novo, por benévola recordação ou sagaz invenção.

OS LUGARES E TEMP(L)OS DA MEMÓRIA

Lugares e temp(l)os de memória, os manuscritos e outros documentos que integram os arquivos pessoais de autores contemporâneos ora espelham o pulsar da oficina de escrita própria de cada criador (mostrando a gestação e o devir da sua obra), ora desvendam o especioso percurso de que foi feito o impulso, sucesso ou insucesso, de muitas intervenções singulares e movimentos colectivos (literários, artísticos, cívicos, etc.) que marcaram decisivamente a nossa história cultural mais recente.

O que chamamos correntemente espólio documental de um autor permite, em primeira linha, o reconhecimento do respectivo percurso biográfico, quer como trânsito individual balizado pelas humaníssimas datas de nascimento e morte, quer como (com)vivência geracional e compromisso com a história, circunstanciado este pelo tempo em que a obra e a intervenção cívica do autor se inscreveram. Lembrando Pessoa, dir-se-ia que um espólio é o lugar em que se cruzam os testemunhos das duas vidas que todos temos: a útil e a sonhada ou inventada nas margens daquela, entre o estar aqui e o querer estar mais além. A génese de um texto é sempre, de igual modo, o percurso (um fragmento, pelo menos...) de uma «mão de escrita» que (se) assinala uma passagem.

Tal acervo importa, depois, para a compreensão situada da obra do autor, édita ou inédita, na sua seriação cronológica, contextuação temática, recepção crítica e tradição editorial, dando conta do acontecer da escrita, dos compromissos da forma e do conteúdo, da censura própria e alheia, dos ínvios caminhos, enfim, por que se tornou, ou não, conhecida do público. Permite, então, que se determine a exacta progressão da opera, tantas vezes enviesada da tradição corrente, a recorrência e/ou frustração dos géneros literários cultivados, o diálogo (conspirativo ou fraccional) entre pares da mesma aventura, a arquitectura ideada pelo operário real...

Os depoimentos de parceiros e «coleccionadores» ajudam a problematizar, em tom de diferente fidelidade e complexidade, as sucessivas aproximações a esse plaino abandonado que constitui a primeira preocupação dos diferentes «herdeiros» dos espólios literários, desde o relato da «vertigem» que representa o primeiro contacto, até ao progressivo estabelecimento de critérios fiáveis para a sua preservação, ordenação e descrição. No termo de tal percurso, cabe sempre a reflexão do editor crítico enquanto cúmplice do autor e seus herdeiros.

OS ESPÓLIOS E SEUS EXPLORADORES

Todo o trabalho de recolha, preservação e disponibilização dos espólios literários, em posse pública ou privada, ganha sentido na medida em que se encontra com diferentes grupos de utilizadores, especialistas ou não, que desejam explorar as múltiplas virtualidades informativas dos «papéis» que neles se conservam. Na sociedade de informação em que nos achamos agentes, já não activos ou passivos, mas interactivos, emergem desafios e soluções técnicas muito variadas que todos os dias põem à prova a nossa capacidade de concertar o saber antigo com as novas tecnologias.

Tornar compreensível e frutuoso o diálogo entre os utilizadores possíveis é, por si só, um propósito audacioso... Mas ensaiar as ferramentas que tornarão possível o acesso universal a milhões de documentos guardados em centenas de instituições repartidas pelos quatro cantos do mundo ultrapassa muito o que poderíamos imaginar alguns anos atrás. Tal propósito, como todos os projectos, vale também como pré-texto, ou ante-texto, em que diferentes cenários podem coexistir. A Biblioteca Nacional participa daquele diálogo não apenas como coleccionadora privilegiada que é, mas, sobretudo, como organizadora e distribuidora de informação que as novas tecnologias web vieram permitir que chegasse a nossa casa de forma legível (por vezes com vantagem sobre os próprios originais) e fiável, isto é, reconhecendo sempre que o conhecimento das fontes é um universo em expansão na razão inversa da nossa miopia...

A VISITA DAS FONTES E SUAS SURPRESAS

Escusado será sublinhar o contributo que a arquivístiva literária tem dado, não só no domínio das tradicionais crítica interna e externa dos documentos, mas também no âmbito da «intriga» lançada pela crítica genética que almeja interpretar e seriar os sucessivos estádios de construção da obra, precisando o respectivo dossiê preparatório (incluindo cenários, pesquisa e selecção de vocabulário, borrões, rascunhos, versões, etc.) os diversos estádios de sedimentação do texto e, por fim, as próprias legibilidades virtuais da escrita em disseminação.

Nesse contexto, torna-se decisivo o diálogo que é necessário estabelecer entre o arquivista e o editor, crítico e/ou interpretativo, franqueando-se o acesso às fontes e aos estudos que estas vão proporcionando, quer em sede de hermenêutica, quer em sede de antologia crítica, tendo em vista a coerência, se não excelência, da lição que se deseja disponibilizar. Cada vez mais, a visita das fontes é condição necessária, ainda que não suficiente, para garantir a fiabilidade da reedição da obra de um escritor que se não queira contentar com a reprodução infiel dos erros tradicionais. A todo este projecto interdisciplinar, não é estranha a ambição de descobrir o véu que envolve o próprio fenómeno da escrita como tensão criadora da representação do próprio e do outro, e não apenas como lugar do signo jacente, já dito ou inerte. Aí, cada autor deixa de ser apenas ele próprio para passar a ser um átomo do hálito de vida que supera o humano na sua transcendente humanidade.

Centrada nas letras do autor, a arquivística literária e a crítica textual introduzem-nos em todas estas intimidades, mas não se ficam por aí. Para além das áreas de conhecimento (ou re-conhecimento, se se preferir, de algum modo áreas que o próprio Aristarco de Samotrácia reconheceria sem grande esforço), situa-se o universo das relações epistolares, cuja exploração pouco a pouco nos introduz noutras constelações de letras, isto é, noutras intimidades letradas, com outros percursos biográficos e bibliográficos, outros ante-textos, textos e pós-textos, outras idiossincrasias literárias. E não raras vezes é aí que se suspende, ou recomeça, o nosso próprio diálogo com a ausência do autor (ou, na sua presença, com a sua suspensão) fazendo eco com novos interlocutores, novas sugestões interpretativas, inflexões do percurso cuja excelência instantes antes exaltávamos.

ANTIGAS E NOVAS ANDANÇAS ARQUIVÍSTICAS

A experiência portuguesa em matéria de tratamento e disponibilização de informação sobre acervos literários de autores contemporâneos era, há alguns anos atrás, por diversas razões, algo contraditória. De um lado,muitas instituições, públicas e privadas, guardavam zelosamente os preciosos manuscritos, ignorantes ou avaras do respectivo valor e importância histórico-cultural, sem disporem de elementares instrumentos de descrição, ainda que nos formatos tradicionais. De outro, surgiam projectos isolados, confortados por generosas fontes de financiamento, de contornos muito ambiciosos, visando construir bases de dados complexas para armazenamento de informação biblio-arquivística e exploração de textos críticos deste ou aquele autor em particular, num contexto preparatório da edição crítica das respectivas obras.

De algum modo, uns e outros exploradores/curadores de espólios literários mostravam uma atitude autista, ora centrando-se numa extática contemplação de tesouros manuscritos de que poucos usufruíam, ora imaginando uma exploração altamente sofisticada das virtualidades crítico-genéticas abertas pelo hipertexto e certas bases de dados relacionais que o comum dos mortais não reconhecia.

O panorama apresentava-se, pois, algo desfocado para o pesquisador de fontes textuais, epistolográficas e biobliográficas conservadas nos acervos de autor, armazenados em bibliotecas, arquivos e museus um pouco de norte a sul do país ou ainda em posse de familiares, as mais das vezes ignorantes da importância de tais «papéis velhos». O próprio comércio livreiro espelhava um sugestivo desinteresse pela compra e venda de manuscritos de autores contemporâneos, reservando para meia dúzia de nomes, preços mais generosos. Não raro, era possível encontrar em feiras de velharias segmentos de arquivos de autores transformados em «curiosas» colecções de postais ou em retalhos de cartas apregoadas pelos seus fracos méritos filatélicos.

NOTAS PARA UM DIÁRIO DE VIAGEM

A criação do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, no entanto, abriu caminho para um trabalho sistemático sobre os espólios literários guardados na Biblioteca Nacional, alguns dos quais justamente reputados pela singularidade dos autores que os haviam deixado, de Garrett a Saramago. Mas, também aí, o trabalho que foi possível realizar se centrou, nos primeiros anos, na recolha de espólios literários dispersos e mal conservados, e em experimentar novos processos de descrição deles que permitissem rapidamente referenciar a enorme massa documental adquirida.

Digo experimentar porque, afortunadamente, foi sempre preocupação do ACPC aceitar que o trabalho a realizar sobre tal tipo de acervos nunca está completo e que múltiplas soluções técnicas são possíveis, para além das que o nosso limitado horizonte em cada dia enxerga. Paralelamente, foi-se desenvolvendo, com o apoio directo da BNP, o trabalho de diferentes equipas de investigação sobre espólios de autores contemporâneos. É-me hoje particularmente grato relembrar os tempos de«gestação» de MALVINE e, também, reconhecer que, para o bem e para o mal, nenhum projecto é capaz de se conter nos limites em que inicialmente é concebido. A mais tratando-se da concepção de um corpo «telemático», num tempo em que a cada movimento ou click que dá, ele próprio se desdobra em inúmeros itinerários possíveis...

Nas margens da discussão dos primary data e metadata elegíveis para a transferência da informação sobre manuscritos e cartas de autores contemporâneos, alguns dos quais nos era possível descrever exaustivamente, senão mesmo editar em versão electrónica acompanhada de um quase infinito aparato crítico, restava-nos sempre o lastro deixado pela tradição patrimonial mais conservadora.

VELHOS PRECONCEITOS E NOVOS DESAFIOS

Vale a pena enunciar alguns (pré)conceitos que importa reavaliar e, se for caso disso, ultrapassar. Em primeiro lugar, importa perceber que em todas as instituições em que o conceito de topografia de segurança se encontra radicado, escassas são as referências acessíveis aos utilizadores, escassíssimo o acesso livre aos documentos. O efeito prático que o excessivo zelo de preservação dos originais tem, equivale a uma semiocultação, em que o conceito de acesso reservado se parece mais com o de acesso confidencial que com o de acesso condicionado pela precaridade do suporte em que, apesar de tudo, a respectiva substituição para fins de estudo e divulgação é possível, quando não desejável.

Em segundo lugar, anote-se que a singularidade dos originais não supõe uma exaustiva, e por isso sempre adiada, descrição paradigmática linear, estreitamente orientada sobre o reconhecimento dos respectivos eixos autor-título, local-data, mas permite uma descrição programática relacional em busca dos diferentes agente(s)-conteúdo(s)-estádio(s) que conformam os textos, em que as componentes pertinência e proveniência devem ser adequadamente avaliadas e exploradas, já que sempre co-existem.

Em terceiro lugar, lembre-se que pode existir uma verdadeira interdisciplinaridade ou disciplinaridade interactiva entre os saberes de bibliotecários e arquivistas e os saberes de todos os pesquisadores da comunidade científica que utilizam como matéria-prima de investigação os acervos de autores, eles próprios frutos da interacção sociocultural que os conformou. E que essa interdisciplinaridade permite construir uma espécie de referencialidade expansiva dos arquivos pessoais, tanto mais significativa quanto mais nos afastamos da filologia do autor ausente para nos aproximamos da filologia do autor presente.

Revejam-se, por fim, as próprias noções básicas de centro e periferia. Desde logo, numa perspectiva nacional, compreenda-se que a noção de centro distribuidor da referência não se confunde com a de centro produtor da referência, isto é, que a dispersão patrimonial dos acervos literários pode conciliar-se com a integração da respectiva informação em bases de dados homogéneas, aceitando um primeiro nível, elementar, de descrição, e, subsequentemente, ser partilhada em rede, aceitando diferentes centros difusores e diferentes níveis de descrição. Numa perspectiva já globalizante, isso pode ajudar-nos a perceber como abrir as portas ao reconhecimento e partilha de heranças deixadas e legados recebidos além-fronteiras.

Podem parecer elementares, senão banais, as lições que tirámos dos últimos anos de trabalho de arquivística literária na BNP. Mas talvez uma das maiores tentações do nosso tempo seja a de tentar esgotar rapidamente a utilidade das coisas. Tornando-as cada vez mais distantes da sua realidade, manipulando-as em ambiente virtual, somos levados a submetê-las a uma exploração sem limites. Só por si a tentação não é pecado. Resta-nos encontrar o tempo certo para assumir a vantagem de olhar para trás e reconhecer o sentido do que nos propusemos.

ALGUMAS LIÇÕES A ESTUDAR E REVER

Se assim é, diria que algumas lições podem também servir como pontos de partida para uma reflexão mais ampla, proveitosa a todos quantos aqui lidamos. Trata-se, então, de compreender:

  1. como ao conceito tradicional de topografia de segurança poderá ser interessante contrapor o de topografia de reconhecimento (com todos os desafios que o nosso tempo coloca: disponibilização e acesso em linha, digitalização, compatibilização de formatos através de tecnologias ASCII, HTML, SGML, XML, DTD ou EAD, redes europeias, mundialização...), em que o lugar do texto e o próprio texto como lugar de memória sejam entendidos como espaços revisitáveis, não unívocos na sua autenticidade e singularidade;
  2. como ao conceito de descrição paradigmática vale a pena contrapor o de descrição programática ou projecto de referência, em que todos os dados são susceptíveis de transferência para outras sedes de conhecimento que lhes podem enriquecer o conteúdo;
  3. como a interdisciplinaridade entre arquivística literária e qualquer outro ramo do saber exploratório do texto pode tornar-se disciplinaridade interactiva, traduzida em efectiva permuta da informação e consequente desenvolvimento de conhecimento;
  4. como, por fim, a sociedade de informação não tem centro nem periferia, e, por isso, todo o movimento de globalização só pode ser partilhado se não quiser perder o sentido.

O resultado prático destas reflexões pode hoje ser entrevisto nas margens do portal do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea em http://acpc.bn.pt, também referenciado no domínio de Literatura e Arte do portal da UNESCO, com Alberto Caeiro dentro e tudo. Tornou-se «navegável», através do ciberespaço, em estreito diálogo com iniciativas semelhantes desenvolvidas um pouco por todo o globo.

Tal é hoje uma das mais gratificantes expectativas abertas pelo nosso projecto. Se não nos era desconhecida a existência de alguns espólios literários de autores portugueses, nomeadamente em terras brasileiras, resultantes de exílios forçados nos anos quarenta e cinquenta do século XX, mal nos apercebíamos da viabilidade de construir uma ponte universal tendo por base a lusofonia, que os aventureiros, e algo indisciplinados, mareantes de Quinhentos, teimaram em inventar, sede de uma verdadeira utopia da língua e cultura portuguesas. Não serão as nossas hiperligações, por afinal serem menos utópicas, que as hão-de superar.

 

Para que se não diga que tanto texto não tem ao menos uma notinha de pé de página, aqui fica: Do «dossiê preparatório» desta exposição fizeram parte 18 e-versões do guião e no meu arquivo de correio electrónico guardei, até ontem, 326 mensagens pertinentes; o relatório de João Palma Ferreira existe impresso com o título Um ano na Biblioteca Nacional (Lisboa: BNP, 1981) e de todos os outros «recortes» a que fiz menção devem existir nos arquivos do ACPC os respectivos originais, ainda em papel ou já «flutuantes»; o passo que cito de Ivo Castro vem a p. 161 do n.º 5 da revista Leituras dedicado a «Arquivística Literária e Crítica Textual» (S. 3 Out. 1999-Abr. 2000); o «recorte» sobre a Equipa Régio e a gestação de MALVINE, só teve leitura integral e, depois, edição «comprimida» no CD-Rom que reúne extractos das intervenções feitas nas 8.as Jornadas PORBASE (BNP, 2000); as «lições» finais tiveram uma primeira versão no dito número de Leituras, uma estranha e-versão no citado CD-Rom das Jornadas, uma leitura inglesa no encontro final de MALVINE, uma outra versão na colaboração que L. Fagundes Duarte levou para o número especial de Veredas dedicado à crítica textual e, agora, este último jeito, para que eu próprio possa dizer que também tenho «mãos que refazem».

 
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