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A Correspondência
de António Sérgio para Raul Proença
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  Correspondências
MARIA TERESA MÓNICA

Praxis sociocultural, as cartas podem ser analisadas através da sua qualidade literária e/ou como valiosa fonte para a compreensão de determinada época. Poetas e prosadores, políticos e homens de letras com diferentes profissões, românticos, realistas, modernistas, todos recorreram a este meio de comunicação até à actual revolução nas telecomunicações, escrevendo cartas familiares, de amor, pêsames, congratulações, apresentações, recomendações de protegidos a conhecidos poderosos e apreciações literárias.

A leitura destas epístolas, que podem ser longas, bilhetes, telegramas, cartas ilustradas ou postais, pressupõe familiaridade com o contexto histórico, bem como com códigos de etiqueta. No período histórico que o ACPC abrange, de monárquicos a republicanos, fascistas a comunistas, governantes a anarquistas, num universo geralmente masculino, correspondem-se as elites, umas mais regularmente que outras, para colmatar ausências, conspirar — literária ou politicamente —, negociar ou matar saudades. Nascidos num país imperial, de exílio e emigração, os portugueses escreviam cartas, com ou sem ajuda. Portugal, nos séculos XIX e XX, viveu breves períodos de liberdade de expressão e de imprensa, pelo que devemos contar com uma leitura nas entrelinhas ou através de códigos privados e cifras. Quer a censura quer a intercepção de cartas por várias polícias políticas, espiões governamentais ou delatores inesperados acostumaram os portugueses a desconfiar da neutralidade da intermediação, de qualquer mensageiro e, por maioria de razão, do serviço estatal de correio.

Modo de comunicação com diferentes particularidades, conforme a cultura comunicativa em que se inserem, as correspondências são estudadas quer material quer formalmente, do ponto de vista da emissão ou da recepção, investigando-se o estilo, gramática e ortografia, formas de tratamento e de cortesia, relação de dependência entre o destinatário e o remetente, e, do ponto de vista do conteúdo, os segredos que os escritos publicados não revelam tão facilmente. Num país esmagadoramente analfabeto, o alvoroço produzido por uma carta chegada aos campos não era o mesmo para os letrados. Estes mantinham regularidade nas correspondências, constituindo um repositório de referências culturais e sociais, permitindo-nos aceder a uma esfera mais ou menos pública, mais ou menos privada, íntima, doméstica, incluindo percepções e emoções, representações e ideologias. Temas perenes são a falta de saúde e de dinheiro.

Éditas ou inéditas, salvas do desaparecimento ou zelosamente conservadas pelos próprios e seus descendentes, extraviadas ou parcialmente destruídas, manuscritas ou dactiloscritas, as missivas deste período de crescente individualismo e procura de
identidade possibilitam a reconstrução da produção e circulação do conhecimento, e das relações familiares, sociais, políticas e literárias. Os temas são variados, possibilitando ilustrar as grandezas e misérias de quem as escreveu. Umas mais espontâneas que outras, muitas confidenciais e reservadíssimas, meditadas ou impulsivas, são sempre esclarecedoras, acabando, por vezes, por chocar os admiradores das respectivas obras literárias propriamente ditas, pela revelação do cinismo, vulgaridade e cupidez de muitas glórias nacionais.

A riqueza das correspondências literárias, dando conta das relações entre gerações de criadores e entre autores e editores, guardadas nos espólios da Biblioteca Nacional, merece ser destacada, salientando-se, para a Geração de 70 e seus herdeiros mais directos, as cartas recebidas por Ramalho Ortigão, Jaime Batalha Reis, Oliveira Martins, Luís Magalhães, Bernardo Pindela ou Mariano Pina; para o Grupo da Seara Nova, a troca epistolar havida entre Jaime Cortesão, Raul Proença, António Sérgio, Aquilino Ribeiro; para o primeiro Modernismo, as cartas de Mário de Sá Carneiro para Fernando Pessoa, infelizmente sem rasto de resposta; para o segundo Modernismo, à volta da presença ou da Revista de Portugal, as confidências literárias e biográficas entre alguns dos mais notáveis intervenientes — José Régio, João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro,Vitorino Nemésio ou António Pedro; e, para as gerações mais recentes (entre surrealistas, neo-realistas e seus críticos), os valiosos repositórios de testemunhos conservados nos acervos de, entre outros, Vergílio Ferreira, Ruben A., Alberto Ferreira, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, José Augusto França, Luís Amaro.

Todo este mundo, visto por uns como secreto e por outros como público, está disponível no ACPC, podendo-se actualmente reconstituir mais facilmente os correspondentes, através de uma base de dados informática, cruzando-se automaticamente os remetentes e destinatários, e estabelecendo-se as redes comunicativas entre gerações literárias e/ou políticas.

 
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