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  «Variações sobre um mesmo tema» em Augusto Abelaira
MANUELA VASCONCELOS

Bolor, publicado em 1968, e «Bolor/2», publicado sob o título Quatro paredes nuas em 1972, são variações sobre um mesmo tema e foram escritos sensivelmente no mesmo período (ambos na década de 60, embora os textos de «Bolor/2» antecedam os de Bolor). Os materiais existentes no espólio, relacionados com estas obras, impressionam pela sua dimensão e pela sua diversidade (planos, projectos, versões autógrafas, prefácios e outros textos), permitindo-nos viajar pelos bastidores da obra do autor e assistir ao processo de construção das narrativas.


Augusto Abelaira — Bolor
[BNP 41/cx. 15]

Bolor: mãos que preparam, mãos que fazem e desfazem

Ir desfazendo sempre a história à medida que a escrevo?

No verso da capa do plano I

Se podemos dividir os escritores entre aqueles que escrevem o que já pensaram antes, a partir de um plano pré-definido, e os que escrevem sem plano, sendo o próprio processo de escrita que conduz e articula o romance, de que lado situamos Abelaira romancista? À primeira vista, parece situar-se no segundo grupo. Abelaira não escreve para dar respostas, escreve à procura de respostas que nunca encontra, descobre de caneta na mão. Mas o que nos dizem os seus papéis?

Existem no espólio dois planos para a elaboração do romance [ver n.º 11] e quatro versões deste romance identificadas pelo autor. Ao plano mais antigo, constituído pela sinopse de 61 capítulos, sem data e numerados, corresponde a versão identificada pelo autor como «a», que desenvolve 47 desses capítulos, com a mesma numeração do plano. Este plano I parece preceder esta primeira versão e, se assim for, estaremos perante um escritor do primeiro tipo. Mas este plano, quase sem rasuras (será uma passagem a limpo?), contém em si o embrião da sua própria destruição. No verso da capa do Caderno Escolar Ideal de cor laranja que lhe serve de suporte, surge a seguinte interrogação:«Ir desfazendo sempre a história à medida que a escrevo?» Esta interrogação passará a instrução e, de versão em versão, Abelaira irá construindo e «des-construindo» o romance que «planeou».

A esta versão «a», redigida «ao correr da pena sem pensar muito nas implicações do que vou escrevendo e de por que vou escrevendo», sucede a «b», mais longa, com títulos alternativos (Angiografia cerebral, Tricot, Divertimento), muito diferente da anterior: os capítulos estão datados, não seguem a ordem do plano I, e surgem novos textos sem local preciso de inserção. Terminada esta versão, o autor procede à sua leitura, e vai anotando na página da esquerda — deixada sempre livre no momento da escrita do texto — instruções para a sua alteração, relacionadas fundamentalmente com a arquitectura da obra. Algumas notas sugerem uma organização em três partes: «Pôr isto na 1.ª parte? (Adriano) [p. 92v]; passar para a MR, 2.ª parte [p. 80v]; Isto passa para o Aleixo, parte III com algumas modificações [p. 62v]». Multiplicam-se as indicações para a deslocação de capítulos: «vem para aqui a pag. 83 [p. 54v]». Esta fase de reformulação terá dado origem a um segundo plano, com 66 capítulos, identificados por datas, não havendo na sua estrutura uma 1.ª e uma 2.ª parte, embora haja uma 3.ª autonomizada. Analisando a versão «c», graficamente diferente das anteriores (no verso de muitas páginas há colagens de recortes de jornais de 1966 com notícias contemporâneas da escrita do texto, embora não referidas nele), verificamos que as datas e a ordenação dos capítulos correspondem em grande parte a este plano. Mas este plano II, submetido também a uma releitura, passou a incluir na página da esquerda novas sugestões: «Tema a repetir várias vezes [p. 1v]; Diminuir o n.º de intervenções dele [p. 1v]; Se metesse aqui o diário do Aleixo e só mais tarde voltasse à MR? E após de novo ao Aleixo e ao Adriano? [p. 4v]; Não revelar que desconfio dele. Só na 3.ª parte [p. 4v]; Meter aqui um diário na pessoa dela ou de Adriano? [p. 8v]»; e aparecem localizados e numerados os diários a introduzir em nome de Maria dos Remédios: «MR1 [...] MR7». Algumas destas notas são directamente transportadas para a página da esquerda da versão «c», sendo acrescentadas outras do mesmo tipo. Mais uma vez esta versão dá origem a uma outra,«d», reelaborada, como as anteriores, de acordo com um processo de montagem. Nesta versão, à data inicial dos capítulos foi acrescentada uma outra que corresponde à da versão impressa. Embora as datas acrescentadas indiquem que estamos próximos de uma versão final, as sugestões de alteração continuam, embora agora em número reduzido, quanto à estrutura: «Este capítulo e mais dois ou 3 semelhantes passarão para trás […] [p. 87v]; Meter aqui a Mulher do Aleixo? [p. 121v]» e quanto ao apagamento das pistas de quem escreve: «Não: o romance deve terminar de modo que não se saiba quem escreve (e aqui sugere-se que é o Aleixo)». E, na mesma página, «Por isso o outro capítulo não deve ter datas, para não se saber se é o Aleixo ou o Humberto quem escreve [p. 130]».

Quando confrontamos as versões anteriores com esta versão autógrafa e com a impressa (não há versões dactiloscritas no espólio) o que salta à vista são os novos capítulos, que remetem quase todos para a própria escrita material do romance.

Observando os papéis do autor, podemos assistir ao processo de construção da narrativa, que obedece a vários planos e não a um único plano, que se vai construindo (e destruindo) de versão para versão numa complexidade crescente em termos de arquitectura. Mas é a própria escrita e a reflexão que vai sendo feita a partir dela que estrutura (e «des-estrutura») este romance de Abelaira. Que tipo de romancista é, afinal, Abelaira?

Bolor/2: mãos que hesitam

Para ti, estas nove (oito) variações sobre um mesmo tema
cuja publicação tenho vindo a adiar de há três anos para cá.
Porquê?

Dedicatória do projecto 1

Estamos em 1968, Abelaira acaba de publicar Bolor. Olha à volta para os papéis que não fazem parte dessa obra e vê um conjunto de textos, «quase todos já anteriormente divulgados em revistas […] e escritos por encomenda». A obra está feita, mas o autor pergunta-se: Como publicá-la? O que é isto? São contos, novelas, histórias, narrativas, diálogos, o quê? Lê-os como se de um outro Bolor se tratasse. Será um romance? O que é um romance?

O que nos dizem os seus papéis sobre estas hesitações? Os dois projectos de edição [ver n.º 21] intitulados «Bolor/2», incluem, para além da dedicatória em epígrafe, duas listas alternativas, que correspondem a diferentes hipóteses de ordenação destes textos. O autor procura uma ordem que reflicta a unidade subjacente, que permita ao leitor lê-los como se fosse um único texto. Nesse mesmo projecto, anota: «Deixa-se ao leitor a liberdade (ou a escravatura) de considerar as páginas que se seguem (as páginas abrangidas pelo título Bolor, 2) uma novela constituída por seis capítulos ou seis contos que nada têm entre si». No projecto II, surge um índice que divide a obra em duas partes: «Bolor/2» e «Mais duas histórias». Fazem-se cálculos sobre o número de páginas da obra, mas a dúvida quanto ao estatuto a dar a estas variações sobre um mesmo tema persiste: «(contos?)».

Estas interrogações e reflexões são desenvolvidas na «Advertência» incluída em «Quatro paredes nuas». De realçar que, no projecto I, o autor dá conta do desejo de escrever um posfácio a esta obra, mas não o faz porque os críticos acabariam por discutir mais o posfácio do que o livro. Admitiu fazê-lo para uma 2.ª edição, mas afinal não resistiu a incluí-lo logo na 1.ª, mas datando-o ficcionalmente de 10 anos mais tarde, ou seja, de 1982, e sugerindo pertencer a um diário íntimo descoberto após a sua morte. E aí se diz:«se eu lhes tirasse (aos contos) os títulos e uniformizasse os nomes das personagens (das personagens que de conto para conto mantinham um diálogo ininterrupto) não obteria um romance? […] E não poderia, ao romance assim involuntariamente recuperado, chamar Bolor/2?» Publicou estes textos como contos, mas a dúvida persistiu: «porque não fiz destes contos um romance […]? Qual a razão por que o continuum narrativo que um autor traz dentro de si […] se rompe umas vezes ao fim de quinze páginas e outras somente ao fim de trezentas?» Pergunta sem resposta. Abelaira é, como ele próprio se define neste posfácio, «um homem de perguntas e não de respostas».

 
© Biblioteca Nacional de Portugal 2007