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  O texto-base de Mensagem
MARIA ALIETE GALHOZ


Fernando Pessoa — Mensagem, anagrama
[BNP Esp. E3/17-51]

Acerca do texto-base de Mensagem 1, escreve o Prof. José Augusto Seabra:

«A versão impressa do livro, cujas provas finais o poeta pudera corrigir, não o satisfez entretanto de todo em todo: conhece-se na verdade uma outra versão, posterior, que consta de um exemplar pessoal dessa 1.ª edição, onde introduziu várias correcções manuscritas e inscreveu ainda pelo próprio punho, as datas de um certo número de poemas. É essa versão que corresponde à última vontade expressa do autor que até nós chegou, tendo sido aquele exemplar conservado pela irmã de Fernando Pessoa, D. Henriqueta Madalena Rosa Dias, a cuja gentileza devemos a sua consulta e a possibilidade da sua reprodução fotocopiada. […]

Para a fixação do texto crítico da presente edição servimo-nos do exemplar de autor da 1.ª edição por ele mesmo corrigido nas condições referidas, atendo-nos rigorosamente à materialidade do corpo tipográfico e das alterações autógrafas dos poemas, bem como às indicações da errata do livro, após um cotejo com o original deste, que serviu de base à sua composição e impressão na Editorial Império, e com as provas de página (ou primeiras páginas saídas da máquina impressora?) revistas pelo poeta, documentos recentemente descobertos que permitem sem dúvida um conhecimento mais completo das últimas transformações sofridas pelo texto da Mensagem.

Essas transformações in fine são sobremodo significativas. Assim, no dactiloscrito entregue por Fernando Pessoa na tipografia e de que o índice, manuscrito, deve ter sido por ele acrescentado no momento de proceder à paginação do livro 2, vê-se que figurava ainda o título anteriormente previsto, Portugal, depois emendado a lápis para Mensagem,em duas páginas de rosto. O que, se vem confirmar o já conhecido depoimento do autor a esse respeito, comprova que a mudança se operou, efectivamente, no decurso da composição final do livro. Outras alterações não menos importantes são de assinalar, desde o título da 4.ª subdivisão da primeira parte do livro — “O Elmo”, substituído a tinta por “A Coroa” — até variantes maiores ou menores de certos poemas […]. Mas, para além disso, as hesitações do poeta quanto às versões de alguns desses poemas — cf. “D. Tareja” e “Afonso de Albuquerque”, cada um deles como duas versões, correspondentes à mesma paginação manuscrita, tendo a opção sido feita portanto in extremis — mostram como Pessoa se debatia numa indeterminação quanto ao texto a publicar.

As provas de página [… ainda na posse da família …] contêm quanto a elas algumas correcções a lápis. Dessas correcções só uma foi, porém, tida em conta na impressão do livro. Daí que persista a dúvida quanto a terem as demais sido feitas já sobre páginas impressas, embora estando nessa altura a capa, pelo menos, ainda por compor e imprimir, pois do jogo [de provas] consta apenas uma “maqueta” com o título definitivo de Mensagem. De notar que não foram nomeadamente corrigidos os erros que depois constariam, por isso mesmo, da errata final, bem como dois lapsos de índice que, curiosamente, o poeta também negligenciou no seu exemplar de autor emendado a posteriori».

Data de 1988 a revelação pública, por José Augusto Seabra, do reencontro, por ele feito, do rasto e presença do original de Mensagem e da colecção de provas existente, por dádiva de Fernando Pessoa, no património de seu primo segundo, Dr. José Jaime Neves. É o artigo «Do original às primeiras páginas impressas de Mensagem », acompanhado de um dossiê de reproduções fac-similadas de algumas páginas de uma e outra colecção 3, matricial para a já citada edição crítica de Mensagem. Escreve José Augusto Seabra:

«Dispõe-se — caso raro no conjunto do corpus pessoano — do texto de Mensagem correspondente à última vontade do autor, consignado num exemplar pessoal em que, após a saída do livro sob a chancela da Parceria António Maria Pereira (mas sob o seu cuidado pessoal junto da casa impressora, a Editorial Império), o poeta introduziu várias correcções manuscritas, datando também pelo próprio punho um certo número de poemas (nenhum deles era datado na edição distribuída). Esse exemplar […] serviu de base à 2.ª edição (Lisboa: Agência Geral das Colónias, 1941), que todas as demais, embora com incorrecções maiores ou menores, passaram a reproduzir, respeitando ou não a ortografia originária do texto.

Para a exploração do antetexto e o levantamento das variantes, dispunha-se até há pouco quer das versões de alguns poemas publicadas em revistas como Contemporânea (n.º 4), Athena (n.º 3), O Mundo Português (n.º 7/8), e mesmo o projectado n.º 3 de Orpheu , quer de um pequeno número de originais manuscritos e dactilografados existentes no Espólio depositado na Biblioteca Nacional de Lisboa, sem falar de documentos paratextuais atinentes aos projectos e ao processo de elaboração do livro, e nomeadamente ao título, cujo avatares são conhecidos, de «Legendas» a «Portugal» e deste, in extremis, a Mensagem.

Mas este reduzido número de elementos […] foi agora substancialmente reforçado com a descoberta […] do original, dactilografado e com o índice manuscrito, que serviu de base à composição tipográfica do livro. 4 […]

Sabia-se por outro lado, por referência de Isabel Murteira França no seu livro Fernando Pessoa na Intimidade 5, da existência de uma “maqueta definitiva” da Mensagem. […] Uma consulta directa ao documento, […] permitiu-nos verificar que se trata de páginas impressas do livro, com algumas correcções a lápis, das quais uma (“Gral” em vez de “Graal”, por eliminação de um “a”) foi tida em conta na impressão definitiva, o que indica portanto que se está perante uma prova de página extraída das primeiras folhas a sair da máquina impressora, ainda objecto de uma última atenção). O nome do autor e o título do livro, entretanto, não estavam então impressos, figurando em letras manuscritas, numa folha à parte, que é visivelmente um esboço da sua disposição gráfica (daí talvez a razão de ter falado de “maqueta”). De notar que é a versão final do título — Mensagem — que nesse esboço aparece, e são já a do título anterior — Portugal — que ainda constava, dactilografada, do original entregue na tipografia, embora tendo sido depois substituída, a lápis, pela derradeira opção.

É esta, de facto, a primeira nota a assinalar no texto desse original, que Pessoa deixou em poder da Editorial Império. Se isso vem de visu confirmar o que, por testemunhos do próprio Fernando Pessoa e por um documento de carácter anagramático existente no espólio 6, já se sabia, o certo é que atesta que a decisão do poeta foi tomada mesmo quando o livro estava em vias de composição e impressão. Na verdade, a mudança de título teve necessariamente lugar entre o momento em que Fernando Pessoa depositou o dactiloscrito nas oficinas tipográficas e a elaboração da «maqueta» acima referida, sendo de notar que as indicações sobre o tipo a utilizar, constantes das páginas de rosto onde Portugal foi riscado e trocado por Mensagem, se encontram referidas aos caracteres daquele primeiro título 7».

Consideramos fundamental, para o conhecimento das condições em que ocorreu a impressão da Mensagem, a entrevista publicada em Átomo, Jornal Ilustrado de Publicação Mensal, 23 (II), 30 de Novembro 1949, p. 16 e 21, sem nome de entrevistador, com o título: «No XIV aniversário da Morte de Fernando Pessoa — Algumas revelações curiosas do seu primeiro impressor Armando de Figueiredo». A entrevista vem acompanhada de uma fotografia de Fernando Pessoa, por Augusto Ferreira Gomes, e dela reproduziremos um trecho que consideramos fulcral:

«O título primitivo da Mensagem era Portugal — revelou Armando de Figueiredo.

Foi Armando de Figueiredo, gerente e proprietário da Editorial Império Lda., a pessoa que tomou a cargo a impressão da obra. […] Procurámo-lo em sua casa onde nos recebeu no seu vasto escritório apinhado de livros, a maior parte dos quais sobre artes gráficas e algumas edições raríssimas de primeiras obras impressas em Portugal. […]
— É verdade que foi o meu amigo o editor do único livro que Fernando Pessoa publicou? […]
— Verdadeiramente, não me posso considerar o editor dessa obra. Fui simplesmente o impressor, embora em condições especiais.
— Pode saber-se quais foram essas condições?
— Absolutamente. Fernando Pessoa apareceu, um dia, no meu escritório, acompanhado por Augusto Ferreira Gomes, o poeta do Quinto Império, técnico das publicações do S. N. I., que nos apresentou. Pretendia publicar um livro de poesias com o título Portugal. Porém, como declarou com ingénua franqueza, não tinha dinheiro para pagar, de pronto, esse trabalho, vinha propor-me a execução da obra, com a condição de me pagar na medida das suas possibilidades.
A obra foi dada à estampa. […]
— Como fazia ele a revisão das provas?
— Ia regularmente à tipografia e lá mesmo a fazia. Algumas vezes, se os seus afazeres não lhe permitiam aparecer, a revisão era feita pelo seu amigo, Augusto Ferreira Gomes, com quem tinha grande intimidade e a quem eu devo o ter conhecido o poeta. […]

Armando de Figueiredo levantou-se e foi a uma estante de onde trouxe uns livros e uns dossiês. Um destes continha as provas tipográficas da Mensagem, onde, realmente, poucas alterações se encontravam. Depois mostrou-me um pequeno volume em que estavam encadernadas as folhas originais da obra, todas dactilografadas, e com certo entusiasmo disse-nos:
— Aqui é que se encontram dois casos curiosos e que eu considero inéditos. São dois poemas, a que deu interpretações diferentes, substituindo os originais primitivos por outros que trouxe durante a revisão das provas.Tenho os dois de cada um…».

É, de seguida, dada a versão substituída da última estrofe de «D.Tareja», p. 22 da 1.ª edição, e a versão, também substituída, de «Affonso de Albuquerque», p. 45 da 1.ª edição — até então totalmente inéditas.

1 José Augusto Seabra e Maria Aliete Galhoz, «Nota Filológica Preliminar», em Fernando Pessoa — Mensagem/Poemas Esotéricos. Edição crítica coordenada por José Augusto Seabra. Madrid: Archivos/Fundação Eng. A. Almeida, 1993. P. XLI-XLIII.
2 Esse dactiloscrito-manuscrito ficou em poder do proprietário da Editorial Império, Armando de Figueiredo, cujo espólio foi mais tarde vendido pelo livreiro António Fumaça ao Dr. Miguel Quina, em 1965, tendo sido adquirido em 1990 pela Biblioteca Nacional. Ele esteve pela primeira vez patente na exposição biblioiconográfica organizada pela Missão Permanente de Portugal junto da unesco, no Centenário de Fernando Pessoa, de 13 a 17 de Junho de 1988.
3 Cfr. Nova Renascença, n.ºs 30-31, Primavera / Verão de 1988, p. 213-234.
4 Esse original, por alguns dado como desaparecido, foi felizmente bem guardado e preservado pelo Dr. Miguel Quina, que o adquiriu em 1 de Outubro de 1965 a António Fumaça, sendo proveniente do espólio do Dr. Armando Figueiredo, da Editorial Império, onde a Mensagem foi com composta e impressa em Outubro de 1934, conforme consta do colofão.
5 Lisboa: Publicações Dom Quixote (Rio de Janeiro: Livraria Paisagem), 1987. P. 294.
6 Reproduzido em Fernando Pessoa — O último ano. Lisboa: Biblioteca Nacional de Lisboa, 1985 [E3, 17-51, peça n.º 18 «Anagrama [de] Mensagem», p. 34. Tem a seguinte descriptagem a fonte do título Mensagem:«MENS AG|ITAT MOL|EM, primeiro segmento do v. 727 do Canto VI da Eneida de Virgílio: “mens agitat molem et magno se corpora miscet”»].
7 [Note-se que Mensagem e Portugal têm o mesmo número de letras].

 
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