Começa logo porque fica no cimo de Portugal
Adolfo Correia da Rocha chegou a este mundo em 12 de Agosto de 1907 - “…nasci / Como um cabrito / Ou como um pé de milho”-, em S. Martinho de Anta (“ou das Antas, cujo nome atesta a sua ancestralidade megalítica” ), aldeia transmontana no concelho de Sabrosa, tutelada pela Senhora da Azinheira, “a branquejar no alto da serra”, “empoleirada na sua fraga a chorar ainda o filho crucificado”.
“A sua terra é para ele como para uma planta: sítio de deitar raizes”.
“É debaixo do chão que me procuro.”
Desta terra sou feito
Fragas são os meus ossos,
Húmus a minha carne.
“S. Martinho de Anta não é um lugar onde, mas um lugar de onde…” ,“…a terra onde nasci e de onde verdadeiramente nunca saí”.
“Este meu apego ao berço já não é tanto o mistério de raízes como um refrigério de cicatrizes”. “Tropeço em cada pedra, bebo em cada fonte, vou de anjo em cada procissão”. “O meu segredo é este: curo as chagas com pensos de terra” , na “beleza viril duma paisagem onde sempre me apetece parir ou morrer”.
“O destino” “plantou-me aqui e arrancou-me daqui. E nunca mais as raízes me seguraram bem em nenhuma terra.”
A povoação é sobrançada por um votivo olmo negro, o negrilho, presente nas páginas autobiograficas de A Criação do Mundo, como herói da festa da árvore da quarta classe dos pequenos plantadores- “lá está, no largo do povo, alto e frondoso como o sonhámos então” - que Miguel Torga cantou como “mestre da inquietação serena”, único poeta da terra onde ambos haviam nascido (“Os meus versos são folhas dos seus ramos”) e por cujo declínio temeu ao findar os oitenta anos.
Como José e Maria, seus irmãos, Adolfo era filho dos lavradores Francisco Correia Rocha - “bom no ofício de cavador” “que ganhava os dias a fazer o serviço de vendeiro”, “mordomo jurado da Senhora da Azinheira” e “omnipresença moral” - e Maria da Conceição Barros, “sensível ao colorido das coisas e ao sabor das palavras”,
que trauteara para ele velhas loas, e com quem fez duetos em criança , muito antes de os unir o “entendimento tácito” e do poeta a dizer, na sua morte, “a eterna mulher entre as mulheres”.
O casal trabalhava a terra difícil (“não há desgraça maior dentro da pátria” ) entre as fragas de xisto da Terra Quente e as de granito da Terra Fria, a nordeste, onde este novo Anteu , chegado da “terra de todos” com alma de poeta, sempre havia de buscar alento para lavrar os versos e a vida.
O baptismo, em 21 de Setembro de 1907 na Igreja Paroquial, confirmou o nome civil que lhe fora dado, ainda longe do “baptismo literário” que, aos 27 anos,
a si mesmo ele se daria e mais tarde declinou
como “destino impiedoso, impiedosamente imposto”.
A primeira comunhão ainda lhe foi recordada, no longínquo Abril de 1985 e no “silêncio da nave” da capela de Roalde, por alguém que a fizera ao mesmo tempo e “não esquecera o rapazinho que predicara aos companheiros no acto solene”.
“O solar da família, térreo, de telha vã, encimado pelo seu brasão de armas esquartelado, com enxadões em todos os campos” , veio a ser remodelado em 1960.
Aos 75 anos particularizaria: “A casa paterna. A matriz sagrada da família.” “Chego e adeus solidão. Fico logo acompanhado de todos os meus penates. Presenças virtuais, mas agentes, estimulam-me o entendimento, pacificam-me o coração, corrigem-me a pauta dos versos”. “Os poetas mudam-se mas não mudam”.
Aos 80, diversamente, mas não com menos verdade, particularizou: “Desde que a deixei pela primeira vez” “passei a sentir-me nela, quando venho, como que emprestado, ao mesmo tempo eu e um outro, na “sensação estranha de ser eterno e provisório no mesmo instante, sem pé num chão onde nasci e não pude crescer, e sei que cresci”.
"…a escola, ao fundo do povo, tinha mimosas à volta.”
Mas a gramática e a tabuada aprendeu-as o pequeno Adolfo, entre 1913 e 1917, com o senhor Botelho, professor primário em S. Martinho de Anta, embora tenha sido na escola de Sabrosa o exame da quarta classe no qual ficou distinto.
O pai ofereceu-lhe um cavaquinho, comprado no Bazar dos Três Vinténs (“tanto dedilhei na zanguizarra que lhe rebentei as cordas”), e a família celebrou a distinção assistindo a um filme no animatógrafo de um conterrâneo , com o desgosto antecipado de não poder proporcionar-lhe o ensino secundário no liceu de Vila Real.
Ainda sem forças para revolver a terra foi mandado, aos dez anos, para uma casa apalaçada do Porto, habitada por parentes da família que a própria mãe servira antes de casar.
O pequeno criado ganhava quinze tostões por mês e dormia num cubículo de campainha à cabeceira. Fardado de branco servia de porteiro, “moço de recados”, regava o jardim, “limpava o pó e polia os metais da escadaria nobre”, “atendia campainhas”, corria a cortina
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e mudava os cenários nas representações das crianças da família que montavam nele nas suas brincadeiras.
De “génio assomadiço” (“Vive pelos nervos”  ), agravado pelo espectáculo daquelas vidas diferentes e pela precoce intuição de estar a ser privado do direito à infância, o mar, então descoberto (“Quando pela primeira vez na meninice o vi em Leça , se não preteri o Marão nativo, ancorei-o em água salgada. E fiquei com duas referências cósmicas na vida”  ), entrava-lhe nos sonhos nocturnos e acenava-lhe com a ilusão de embarcar para o Brasil. |
Ao fim de um ano foi despedido, acusado de ingratidão pelos patrões que opunham, ao “asseio” e ao alimento
facultados, a constante insubmissão do pequeno rapaz de onze anos sempre pronto a erguer-se contra as injustiças do que o rodeava .
A família humilhada e a reprovação da aldeia, reforçaram o propósito paterno de o internar no Seminário de Lamego (transformado em quartel pela República e os seminaristas alojados em casas particulares) onde viveu “um dos anos cruciais”da sua vida, tendo melhorado os conhecimentos do português, da geografia, da história, aprendido o latim e ganhado familiaridade com os textos sagrados .
Regressado “com boas notas” nas férias de verão, o cabelo rapado à escovinha e a sobrepeliz de quando ajudava à missa, forjavam-lhe uma nova imagem, um novo respeito. Viu-se tratado então, em casa e na povoação, “como se fora outro” e bento, cercado por uma espécie “de redoma”, “isolado dos grandes e dos pequenos”. “Irremediavelmente sozinho no mundo”, fugia-lhe a infância “das palavras e dos gestos”.
Como “sem dar bem conta disso perdera a fé” – já seminal da confissão do “cristão do Sinai e não do Gólgota”, como Nemésio observou em 1939, ou, como ele próprio assinalou: ”…medularmente religioso faltava-me, contudo, a humildade necessária para acreditar” – no fim das férias comunicou ao pai que não seria padre (comutando assim o destino de “papa-hóstias” que ele
ouvira referir ao mestre-escola
).
A grande aventura juvenil
Firme na sua resolução a família teve de optar pela última alternativa
de o
menino grangear o pão para a boca, no dia a dia, e assegurar o do futuro.
Foi então enviado, aos doze anos, para o Brasil ( Minas Gerais) a fim de trabalhar, no caso de vir a ser aceite, numa fazenda que pertencia a um tio e respondera ao apelo do irmão: “Quem tem os filhos que tome conta deles”.
Embarcado no paquete Arlanza , numa terceira de “barafunda e lágrimas”, por sobre um “deserto azul” visto do convés, desembarcou no Brasil de “ilhas, e morros, e casas e barcos, e gente a acenar” com uma “grande aflição” dentro dele. O tio, que afinal o aguardava com uma fotografia na mão, transportou-o directamente a um “armazém de roupas” para que trocasse o “fato de surrobeco das Pintas” e o “chapéu que também não prestava” -“Nem me reconhecia no preparo em que fiquei”-, rapidamente se apercebendo o pequeno emigrante que “daquele estranho e dono ao mesmo tempo”, que o olhava como a “bichinho que saiu da toca”, não havia compreensão a esperar.
“Moleque do terreiro” na imensa Fazenda de Santa Cruz ( em cujo interior operavam até duas estações de caminho de ferro) “nada do que aprendera em Agarez servia ali”.“Ele e os insultos da minha tia ensinaram-me, em pouco tempo, a obrigação de todos os dias”: “carregar o moinho, mungir as vacas” “tratar dos porcos, ir buscar os cavalos da cocheira ao pasto, limpá-los e arreá-los, rachar lenha, varrer o pátio e atender a freguesia que vinha comprar fumo, cachaça, carne seca, feijão, ou trocar grão por fubá”; ir buscar o correio à povoação; “fazer a escrita da fazenda, verificar à noite se as portas e as janelas estavam bem fechadas.”
“Simples máquina de trabalho” “era o último a deitar-me e o primeiro a erguer-me”, “sem domingos nem dias santos” para que “a engrenagem funcionasse com perfeição”.
Quatro anos decorridos o tio, porventura cansado das resistências familiares ao “moiro de trabalho” do seu sangue, “de têmpera igual à dele”, “capaz de entender o que significava uma bagada de suor”, e reconhecendo, por um qualquer obscuro instinto, que era de sentido superior a diferença de que o acusavam, matriculou-o no Ginásio de Leopoldina.
O adolescente esforçou-se por ser “o melhor da classe”, logo lhe sendo reconhecida a superioridade que o “afiançava ao futuro”, tal como primeiro prognosticara o professor Botelho. Com dezasseis anos “lia quanto [lhe] vinha ter à mão”, sabendo “de cor a biografia de todos os autores que figuravam na selecta”. Datam de então as suas primícias poéticas à maneira de Casimiro de Abreu, em breve aprendendo a detestar os “lirismos postiços”.
Ao mesmo tempo descobria o cinema e os heróis do mudo, Charlie Chaplin e Buster Keaton. A passagem pela Presença, com o seu culto pela sétima arte, havia
de fazer-lhe
juntar a estes primeiros heróis, alguns outros do cinema falado.
Mas o sentimento de que vivera, na “pequena cidade cheia de sol”, “o espaço que ia do desespero cego à esperança lúcida”,
levou-o a reconhecer que a sua “inquietação já não cabia ali”.
Em 1925, na convicção de que ele havia de vir a ser “doutor em Coimbra”, o tio propôs-se pagar-lhe os estudos como recompensa dos cinco anos de serviço.
Regressou a Portugal acompanhado pelos familiares , “brasileiros torna-viagens”, viajando num outro paquete da Mala Real Inglesa, de nome Andes. Deixava para trás o exílio de cinco anos onde “nem os ninhos eram iguais”, “os pássaros cantavam doutra maneira, os frutos tinham outro gosto e, onde menos se esperava, havia cobras disfarçadas, enormes, bonitas, sempre de cabeça no ar, à espera.”
“Crescera por fora e por dentro.” “Aprendera a objectivar a vida”, embora
sempre tivesse sentido
aquele chão como “fabuloso e mágico” e aonde (havia de
reconhecê-lo) pudera ser “selvagem e natural”.
Na viagem, fartando “os olhos de letra redonda”, o futuro romancista e autor de contos descobria, com Machado de Assis, que “os autores procuravam criar símbolos perenes de realidades quotidianas”, através de “personagens que punham em movimento”.
O homem maduro havia de registar com distanciamento e quietação: “Um dos seus títulos de glória é ter passado a adolescência no Brasil” , “…o Brasil amei-o eu sempre, foi o meu segundo berço, sinto-o na memória, trago-o no pensamento”.
O paquete atracou, no termo da viagem, em “Lisboa, pálida, espraiada” nascida “do mar, do Tejo e das colinas” datando talvez de então uma primeira intuição do viajante de que a pátria era uma “…nesga de terra/ Debruada de mar”.
Os pais estranharam o sotaque, pediram-lhe que conversasse “à moda de cá” e, escutando à lareira o seu “monótono romance de sofrimentos”, choraram, não por ele, mas pelo “menino de doze anos” do qual se haviam separado um lustro antes. Sentia, então, que o cercava “de novo um muro de solidão”.
Passando a Coimbra, aluno interno com oito escolares muito mais novos - “Gulliver entre os pigmeus”- num Colégio particular, propriedade dum casal que ministrava o ensino das ciências, das línguas e a lição, natural, de existências possíveis “de afeição, de sensibilidade e de cultura”, foi ainda a solidão, mas “rodeada de livros” e ao som de Beethoven tocado num piano doméstico, que lhe fez ganhar o desafio de vencer, em dois anos, os cinco do primeiro e segundo ciclo do curso liceal de sete. Inscreveu-se, em seguida, no Liceu José Falcão onde completou o terceiro ciclo num só ano ficando apto a cursar
a
Universidade.
“Nunca tivera tempo para fitar demoradamente as coisas e os seres. E desforrava-me finalmente dessa fome profunda”. Compunha então sonetos, “arremedando” os de Antero, e já então para ele “a literatura relevava do sagrado”.
Em 1928, com 21 anos, inscreveu-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra : “…só na arte de Hipócrates poderia encontrar ao mesmo tempo uma profissão e um caminho humano paralelo ao que, sem diplomas de nenhuma espécie, tencionava seguir”.
No “artista, o mais receptivo e perceptivo dos mortais”, “a caneta que escreve e a que prescreve revezam-se harmoniosamente na mesma mão”.
Já estudante universitário na cidade “humanamente mais desenraizada de Portugal” , “praticamente isolado”, “alma penada a caminho das aulas ou a vaguear pelas enfermarias”, passou nesse ano “a letra de forma suspiros rimados” que intitulou Ansiedade, “uma pobre colectânea de sonetos e canções” que mereceu apenas “críticas reprovativas” e ele nunca reimprimiu.
Residia então na república Estrela do Norte , “habitada por nortenhos rudes e aplicados”, e frequentava as tertúlias literárias e políticas da pastelaria Central, do café Arcádia e da Farmácia da Mariazinha.
Na pastelaria travou conhecimento com as personalidades presencistas; no café e na farmácia reunia-se com outros intelectuais de esquerda.
A modificação de tom da voz poética
foi despoletada pela
dissecação do primeiro cadáver que lhe inspirou “Balada da Morgue” com a qual “verdadeiramente assinei pacto com Orfeu”. Os fenómenos da morte e da vida (o “ritual” e “a transcendência do parto” aureolavam
o segundo) impunham-se-lhe como balizas da profissão.
Em 1929, com 22 anos,
deu
início à colaboração na revista Presença , folha de arte e crítica, com o poema “Altitudes…”, discipular de Mário de Sá-Carneiro.
A revista, fundada em 1927 pelo “grupo literário avançado” de José Régio, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, era bandeira “literária do grupo modernista” e era também, “bandeira libertária”. O escolar de Medicina abraçou então “com entusiasmo o movimento renovador” cujo alvo era “o autêntico e o profundo” do “novo tempo romanesco de Proust e de Gide
”, vivendo, em grupo, “uma euforia colectiva”.
“A presença castrense na vida administrativa do país”, em consequência da ditadura (instituída pelo golpe militar de 1926 que pusera fim ao governo constitucional), fazia-o “abominar a caserna e o espírito de casta”. Convocado pela inspecção foi sujeito a uma recruta severa na qual se já entrara “civil por temperamento”, saiu, também, “paisano por convicção”.
Iam aparecendo, entretanto, “heróicos e escanda-losos” os números da folha em que colaborava. Joyce, Chestov, Bergson, Fernão Mendes Pinto, Dostoiewsky, Cecília Meireles, Ribeiro Couto habitavam-na, à vez, no “esforço hercúleo de abalar as raizes de Coimbra petrificada na tradição” e de fazer “reviver a lírica palpitante e viril de Camões.”
Tal intervenção já então a entendia Adolfo Rocha como o único modo de combate “numa pátria que é o cemitério da própria língua” e, à época, sem a compreensão de “que não há uma cultura ortodoxa”.
“Junqueiro sabia: a língua é uma pátria” , veio a escrever anos depois, talvez também ressoando nele a voz de Pessoa do Livro do Desassossego: “Minha pátria é a língua portuguesa”.
Explodia, entretanto, a dissidência latente entre os colaboradores e os directores da Presença, por “razões de discordância estética e razões de liberdade humana”.
Liderada por Adolfo Rocha, solidarizavam-se Branquinho da Fonseca (sob a égide dos dois, saiu em Julho, um número de Sinal , publicação literária que o principal promotor veio, posteriormente, a reconhecer “um desastre. Era ingénuo e tumultuoso” e projectava a “minha solidão.” ) e Edmundo de Bettencourt. Em folha volante, sob a forma de carta, os três assacavam aos mentores da revista, a intenção de fixar “um tipo único de liberdade”, “um caminho padrão”, e previam a sua “queda próxima num arcaísmo estético das escolas…”
Os “moldes estéticos” da revista e o “seu subjectivismo macerador” haviam feito enquistar o movimento.
A sua colaboração na Presença cessou com o texto em prosa : O Caminho do Meio , alegoria sobre o satanismo do Homem que pretendeu “criar o dogma da sua própria divindade”.
Foram seis as composições em verso de Adolfo Rocha publicadas na revista: “Altitudes”, “Baloiço” e “Inércia” , “Remendo” , “Balada da Morgue” e “Compenetração”.
Rampa, poemas veio a público, em Junho de 1930, com a chancela das Edições Presença, tendo decorrido, a propósito, uma troca de cartas entre Adolfo Rocha e Fernando Pessoa a quem o jovem poeta enviara um exemplar. O destinatário, embora lhe manifestasse apreço positivo, sugeria-lhe, a pertinência operativa duma “sensibilidade desintelectualizada” e duma “inteligência dessensibilizada”.
O ofertante, ofendido “na quarta dimensão”, reagira declarando ridículos os intelectuais e já passada a “era dos Mestres”. Na posse do “conceito de poesia” acremente reclamada ao correspondente, depreciava o culto da “consciência de si mesmo”, acusando como “postiça” a inspiração
que a cultivasse.
Em carta a Gaspar Simões, Álvaro de Campos fora responsabilizado pela primeira missiva. Mas, sob o lema dos estóicos, patere et abstine, fora Pessoa ele-mesmo que respondera e
foi ainda ele quem
fez cessar ali a contenda.
Em 1931, contista em Pão Ázimo e poeta em Tributo, Adolfo Rocha já aparecia a público em edição de autor, como aconteceu com Abismo, no ano seguinte, e como aconteceria pela vida fora.
Mas o “campónio de Agarez” e o “poeta do absoluto” degladiavam-se dentro dele.
No início de 1933 Adolph Hitler, a breve prazo líder do Terceiro Reich, era nomeado Chanceler. Em Portugal o regime de Partido Único ou União Nacional (instituída três anos antes) fundou o Estado Novo, fez ratificar uma Constituição corporativa, criou a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), proibiu as oposições
e criou o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), dirigido por António Ferro, ideólogo do regime e homem de cultura.
Concluído o curso universitário em 8 de Dezembro de 1933, “na hora em que esperava merecer da vida a alegria íntima do triunfo”, era “a imagem dum homem aterrado” que o espelho lhe devolvia. Colava-se-lhe, talvez,
o único verso que ele recuperou do volume Ansiedade, cinquenta anos mais tarde, inscrevendo-o como abertura da Antologia Poética de 1981: “Sinto o medo do avesso” ( quiçá o “terror fundo que não diz donde vem nem para onde vai”, como
ele anotou no dia da formatura ).
Regressado a S. Martinho de Anta a hostilidade de uns e o precavimento de outros erguiam-se contra o novo médico, com “fama de revolucionário” e labéu de ateísmo, que lograra transcender a “terrosa condição da família”. Esta, sentia ele então, deixara há muito de o compreender. “A partida de casa aos dez anos fora catastrófica.”: “perdera definitivamente o lugar privilegiado no seio da tribo. Estava sem estar”, julgando, então, que já não era dali.
“Hostilizado nos jornais pelos antigos companheiros” ainda devido ao “infecto caso da cisão” , longe das livrarias e dos amigos”, dos cinemas e dos cafés, mudou-se, para Vila Nova , a meio do ano de 1934, concelho de Miranda do Corvo, distrito de Coimbra, para exercer o seu munus de clínico geral, excêntrico ao apertado torno familiar e conterrâneo.
As circunstâncias colocavam-no , de novo, num “ Portugal velho e rotineiro, de senhores e servos” cuja aspereza ele bem conhecia. Mas o lugar permitia-lhe saborear a “pacatez da vida aldeã”, apesar das maquinações de classe dos colegas locais e das “visitas meteóricas a Coimbra duas vezes por semana”.
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