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Adolfo Rocha: Infância e Juventude | 1907 a 1933

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O Rosto e a Máscara

Já foi, contudo, Miguel Torga a publicar A Terceira Voz, em 1934, com prefácio de Adolfo Rocha: “Somos irmãos e temos a mesma riqueza”:“despeço-me de cena e dou a minha palavra de honra que não reapareço”; “…a minha voz mudou – porque o horizonte é maior”, “a máscara, essa diz o senhor ensaiador que fique com a mesma, que serve.”

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“O leviano que eu fui” nomeara e entregara “à sanha farisaica” “o Cristo que metaforicamente supus existir em mim”Diário XV, “dividido desde então em duas metades”:“uma condenada à cruz de uma existência emblemática, rectilínea, coerente” ”e a outra cingida apenas à ética profissional e às leis da civilidade”.Diário XVI

 



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O pseudónimo convocava dois génios ibéricos, Miguel Cervantes e Miguel de Unamuno - mestres deste outro filho da grande Ibéria e clarões nas trevas em seu redor desde o golpe militar de 1926 – e a torga , a erica lusitanica, urze e flor do monte cor de vinho que deita raizes fortes sob a aridez da rocha .

O poeta Manuel Alegre (talvez influenciado pela alacridade dos seus três e ) havia de propor, no ano 2000, razões adicionais para a escolha do outro nome : “Veja-se o e de Miguel e o o de Torga, vogais abertas, mas, sobretudo, nem percebo porque nunca ninguém deu por isso, veja-se o g de Miguel e o g de Torga.
Esse é o segredo: vogais, consoantes, sonoridades, correspondências, mistérios. Seja como for, ele só podia ter aquele rosto, “rosto do homem antes do homem” “como nunca outro assim”, e aquele nome. É por isso que não sei quem é Adolfo Rocha.”Manuel Alegre, Prefácio a Miguel Torga / Fotobiografia

“Cronista eventual dos [s]eus estados de alma” começou então a escrever um Diário - com grandes “hiatos na suspensão dos dias”Diário XVI, “registo, em sínteses alegóricas, do quotidiano significativo”, “ponto dos acontecimentos”,
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“biografia secreta” a “manter …até ao último dia”Diário XIV como retrato da maturidade e da velhice - cujo primeiro volume saiu em 1941, reunindo as poucas páginas esparsas de 1932 a 1937 (algumas delas poemas) - tendo prosseguido dali em diante mais regularmente.
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O autor de Mensagem (publicada em Dezembro de 1934) fora-se-lhe impondo pela grandeza poética e humana . O artigo do seu último ano de vida, a propósito do projecto de lei contra as Associações Secretas (entre as quais incluiria o Conselho de Ministros e a Companhia de Jesus em artigo subsequente) suscitara aplausos, que não apenas os deste poeta que sempre viveu pela poesia e pela pátria, fazendo parte da sua cartilha de cidadania o zelo pela res publica .
Data de 3 de Dez. de 1935 uma comovida notícia necrológica no Diário I : “Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era”.

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No Dia de Camões de 1948, a propósito do artifício da figura de “escritor oficial” alheio à alma colectiva, havia de sugerir que Pessoa substituísse Camões, vastíssimo poeta, mas “cristalizado numa época”: “Fernando Pessoa, culturalmente considerado, não será muito mais poeta nacional deste século do que Camões?”Diário IV

Em 1983, aquando da inauguração, em Vila da Feira, de um monumento a “um dos mares literários que Portugal tem”Camões e António Nobre, os outros., foi oferecida, ao orador Miguel Torga, a bandeira nacional que cobrira o monumento e ele levou para casa “por ser o símbolo da Pátria e por ter envolvido emblematicamente a glória do poeta. Glória pura que, como poucas, merecia a graça desse póstumo calor materno. Ninguém antes tinha realizado o milagre de criar de raiz um Portugal feito de versos”.Diário XIII


Três anos antes, no poema “Lápide, Torga havia atribuído a Luís Vaz de Camões “o milagre de ressuscitar / A pátria em que nasceu” pela recriação da língua portuguesa, com a qual a “pátria exígua” fora alargada “aos cinco continentes, lusitanizando oceanos, terras e almas”.Diário XVI

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Em Janeiro de 1936 funda, com Albano Nogueira, Manifesto Trajecto em A Criação do Mundo, Revista de Arte e Crítica: “procurávamos um caminho de liberdade assumida onde nem o homem fosse traído, nem o artista negado”, “uma arte rebelde enraizada no circunstancial”.

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Afonso Duarte, Alvaro Salema, Bento de Jesus Caraça, Branquinho da Fonseca, Joaquim Namorado, Lopes Graça, Paulo Quintela, Vitorino Nemésio acompanhavam-no nessa intervenção contrária ao individualismo presencista, alienado do real (que Eduardo Lourenço identificou, em 1957, no Comércio do Porto, com o artigo Presença, ou a Contra-Revolução do Modernismo Português ).
Fernando Pessoa tinha lugar, naquele primeiro número, com o poema “Nevoeiro” (o “ fulgor baço da terra / que é Portugal a entristecer”, e o vaticínio duma “Hora” lusíada a vir), junto ao comentário sobre a sua morte e obra, já sendo sinalizados os leitores para a importância do espólio inédito: “Fernando Pessoa era, porventura, o maior poeta português deste século. Engrandecido pelo seu isolamento, obscurecido pela sua obra só parcialmente publicada…”.

Naquele ano Salazar criava a Legião Portuguesa e a Mocidade Portuguesa, abria as colónias penais do Tarrafal e de Peniche e, solidário com Franco (que, na escola militar, sustentara "a ocupação desta faixa ocidental em poucas horas”), apoiava a Guerra Civil de Espanha iniciada com o golpe militar de 17 de Julho de 1936.

Miguel Torga fazia aparecer O Outro Livro de Job, cujas “Lamentações” e demais poemas, conheceram impacto imediato.

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Em 1937 começou a imprimir A Criação do Mundo, “génese progressiva, numa consciência, da imagem da realidade circunstancial”Do prefácio à versão espanhola, Ed. Alfaguara,1986., “visão de um mundo criado à nossa medida, original e único”, “povoado de seres reais que o tempo foi transformando em fantasmas”Do prefácio à versão francesa, Aubier , 1985.. Ainda no mesmo texto o projecto era identificado como “crónica, romance, memorial e testamento”, “peregrinação” “temerariamente concebida na mocidade, imprevisível na trama e no rumo”, “desde a infância à velhice no chão duro duma realidade proteica”.
Como o Diário, também esta obra era registo da sua vida, mas, algumas vezes, sob nomes fictícios ou criptónimos.

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Ainda naquele ano Torga deu início à sua colaboração na Revista de PortugalRevista de Portugal , 1, Out.1937, de Vitorino Nemésio (professor de português na Universidade Livre de Bruxelas, donde lamentava o exílio:”Toda a minha razão de ser está aí. Tenho aí as raízes e aqui a sede”Carta de 8 Jan. 1939) com páginas em prosa - “algumas Horas da Criação do Mundo”, a que se seguiriam algumas páginas do Diário, algumas dos contos que viria a reunir sob o título Bichos – e algumas outras em verso.

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Concluída a especialização em otorrinolaringologia, iniciada no consultório dum colega e prosseguida e aprovada oficialmente, “o sentimento do vazio”, o “sentir o chão peninsular oscilar debaixo dos pés”, os versos de Mallarmé (La chair est triste, hélas! et j´ai lu tous les livres / Fuir! Là-bas fuir! / Je sens que les oiseaux sont ivres / D´être parmi l´écume inconnue et des cieux”Do poema Brise Marine) incitavam-no à viagem ( “Viajar, num sentido profundo, é morrer”, “desfazer-se em espanto”, “em movimento pelo mundo além”Diário I) que iniciou, no “Dezembro pardo” daquele ano, tendo por objectivo Espanha, França e Itália.

“A onda de tirania submergia os cinco continentes.” “O fascismo em Espanha completava o cerco à liberdade” e “o grito simbólico duma causa”, emitido pela Passionária (Dolores Ibarruri) em Madrid cercada pelos nacionalistas, estivera até na origem das “estrofes candentes” do poema “Não Passarão” que o autor veio a reunir com outros, em 1952, sob o título Alguns Poemas Ibéricos (refundidos e acrescentados, mais duma década depois, como Poemas Ibéricos).

Peninsula Ibérica
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“Português hispânico”, respirando o “ar peninsular”, Torga atravessou a Espanha franquista em armas e pôde “presenciar, ao vivo, alguns dos horrores” do “fratricídio intolerante” da Guerra Civil, tomar conhecimento, in loco, do cortejo de desgraças perpretadas contra os republicanos por caudilhos nacionalistas, com “esquadrões marroquinos, batalhões nazis e divisões fascistas”, deplorando que o mesmo fascismo totalitário se tivesse instalado em Portugal sem a “força afirmativa do povo espanhol”: Morrem filhos e filhas da Nação, / Não morre um Povo.”


Por sua vez, na pátria antiga de Augusto, submetida à demagogia arrogante de um “novo Cesar”, o poeta presenciou o “nirvana emocional”, desencadeado pelos discursos do Duce, e o desespero da alma romana esmagada pela “fome, racionamento, ódios e o desespero recalcados”. Deambulando, em comunhão com o passado, “por uma grandeza que nunca concebera sequer que existisse”, deu-se conta que a gente vigiada que a habitava “temia a própria sombra”.

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Já de regresso, mergulhou nos gigantescos comícios anti-fascistas de Paris e, também ele pediu paz, justiça e liberdade. “À teima dos exilados da oposição para que ele ficasse e assentasse arraiais literários”, argumentava que “nunca poderia ser uma autor português fora de Portugal”, faltando-lhe a “linguagem da terra, a gramática da paisagem, o Espírito Santo do Povo”.

Em Junho de 1944 registou no Diário: “Esta guerra minou-me os alicerces.” “Quero morrer e viver ao mesmo tempo, no mesmo instante. E o pior é que esse instante dura há anos, e não sei quando acabará.”
Mas a viagem, que o fez descer a funduras apocalípticas e entender melhor “a nossa própria impotência escarnecida”O Sexto Dia da Criação do Mundo , foi também “passeio pela Europa” e “banho lustral”, ministrado pela inteligência e pela arte das nações e capitais de cultura (Bilbau, Madrid, Roma,Veneza, Florença, Genève, Paris), “numa avidez de pobre a fazer provisão de beleza”, “vivendo num só momento séculos de originalidade e de diversidade”.

Quanto a outras artes, que não a sua, havia de escrever na Nota autobiográfica de 1950: “Gosta de música, particularmente de Bach”. “Em pintura moderna admira Picasso, Siqueiros, Orozco e Portinari.”

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“Gostava de ser pintor e chegou mesmo a pintar um auto-retrato que atirou ao mar no Portinho da Arrábida”.Nota autobiográfica de 1950
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Regressado ao país no início de 1938 deu a lume O Terceiro Dia da Criação do Mundo. Em Julho daquele ano, “esmagado pela bota opressora” da Censura, Manifesto cessava no quinto número.

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Em meados de 1939 “…preso ao encanto feminino da cidadezinha de ruas de curto fôlego e praças de intimismo familiar”, “a ressumar história e cultura por todas as pedras”, abriu consultório em Leiria. “Especialmente como médico de aflições da alma”, viria a descrever Fernando Valle, “rebento vivaz de um romantismo cívico” e seu companheiro de várias lides entre as quais a venatória.

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“O homem primitivo que nunca se resignara dentro de mim só vinha à tona em toda a sua plenitude de cartucheira à cinta”.
O gosto pela caça, defendido como expressão da “intimidade lúdica com a natureza”, era nele paralelo com o de “montanhês por devoção”, “a calcorrear os montes do [s]eu Douro transmontano e os pauis dos campos do Mondego ( atrás de perdizes e de narcejas”Nota autobiográfica de 1950) e com o de “geófago insaciável”, a empaturrar-se “de horizontes e de montanhas” sem dispensa diária “de alguns quilómetros de nutrição” entre as tensões criadoras e os ossos do ofício .



“…ainda encandeado pelo clarão” da “dilacerante digressão” por “uma Europa convulsionada que me devolvera à pátria em carne viva” fora traduzindo, em “memorial dorido” e com “mil dificuldades oficinais”, o abalo daqueles dias e as “raivas irmãs” das que moviam os combatentes contra os regimes opressores.

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Mas o “poder estava vigilante”. Publicado como O Quarto Dia da Criação do Mundo, o livro seria apreendido, retirado das livrarias de norte a sul do país e, três dias depois ( 2 de Dezembro), detido o autor em Leiria pela PSP (Polícia da Segurança Pública).

 

 




 

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Acusado, sob o estandarte bordado a ouro, Pela Ordem e pela Pátria, de “defender ideias subversivas” e, desde então, incomunicável e entregue à “pura arbitrariedade” da PIDE , foi transferido, para Lisboa, sob custódia, na camioneta de carreira (que quatro amigos acompanharam de automóvel, revezando-se por étapes) e confinado ao “isolamento” da Cadeia do Aljube, “tombo de agonias” da qual seria libertado em Fevereiro de 1940.

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No dia de Natal, ainda encarcerado, “em vez dum aberto e jubiloso poema de natividade, pus-me a escrever um apertado soneto de letal desespero com a Pietà de Miguel Angelo a doer-me na lembrança”: “A Virgem Maria dum presépio ingénuo” “era agora uma Mãe dolorosa; e o menino das palhinhas , um homem morto estendido no seu colo”.O Quinto Dia da Criação do Mundo

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“Como Teseu dentro do labirinto , sonhando receber da filha de Minos, o fio libertador”, o poeta intitulou Ariane um outro poema, e também nome dum veleiro sueco ancorado no Tejo que avistara da janela da enfermaria do Aljube: “Eu, destas grades, a ver / desconfiado”.





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Libertado em 2 de Fevereiro regressou a Leiria e ao consultório e, nesse ano ainda, o volume Bichos foi distribuído nas livrarias.

A polícia política tardaria a entender o alcance daquelas histórias de animais com homens por detrás (os “bichos com juizo”) que foram fazendo o seu caminho dentro e fora do país. Nos 25 anos da editio princeps a Censura ordenou o corte integral do artigo comemorativo, assinado por Ruben A. no Diário Popular.

 

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A vida afectiva. A única que vale a pena.Diário XIV
Em Julho casa com Andrée (Jeanne Françoise) Crabbé, estudante de nacionalidade belga - aluna de Estudos Portugueses, ministrados por Vitorino Nemésio em Bruxelas - que viera a Portugal para frequentar um curso de férias na Universidade de Coimbra.

Na aceitação prévia de que ela seria como “companheira de viagem, dona da sua personalidade e do seu destino”, foi com ela que veio a partilhar “a intimidade total do homem e do artista” até então concedida a raros.

Portugal

A partir daquela data um “roteiro da pátria”, “que se fora escrevendo, “por assim dizer sozinho”, durante a conformação do “eco solidário com todas as revoltas” que o levara à prisão, foi-se “organizando lentamente de norte a sul”, visando um Portugalcurioso, apreendido por todos os sentidos e compreendido em todas as dimensões”, “radiológico, endógeno, medular” que só viria à luz seis anos depois.
“De tudo que fomos, restam-nos apenas a paisagem e a língua” resumiria em página do Diário, anos mais tarde, a propósito dos percursos portugueses de então.

Paralelamente ao “livro aplicadamente descoberto” (“Eu perdi-me em Portugal, e procuro-me nele”Diário VIII ou, como elucidou Sophia de Mello Breyner , “Miguel Torga é um poeta em que um país se diz”) fora irrompendo um outro, “ludicamente inventado, onde uma fauna estranha se movia a cumprir com romanesca naturalidade as leis da vida e da morte”. Tratava-se duma “surtida no misterioso mundo dos irracionais”. O Sexto Dia da Criação do Mundo

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Em Setembro foi a S. Martinho de Anta “mostrar a mulher aos velhos ”(mas “quanto oiro fino incrustado no cascalho grosseiro”!), à Senhora da Azinheira e ao negrilho. “Gostaram todos”.

Um último registo do Diário I informa: “Fui mostrar-lhe a Vila. Mas fui mostrar-lha como os meus avós a mostraram às mulheres deles - a pé. Foram só seis léguas…”





Desencantado da “pequena cidade mesquinha, bisbilhoteira, doméstica” o casal muda-se definitivamente para Coimbra, “a Agarez alfabeta” cuja “graça lírica e a provinciana prosápia doutoral” concentra, sob uma “luz mediúnica”, a “atmosfera mental do povo português”.O Quinto Dia da Criação do Mundo

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“S. Martinho foi o lugar de onde.
Coimbra o centro desse mundo misterioso e apaixonante que de lá perspectivei”.Diário XVI
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Ocupam, então, o nº 32 da Estrada da Beira, “velho casinhoto alcandorado numa ravina sobranceira ao rio” - com um pequeno quintal lavrado pelo poeta, ”horas a fio a cavar”, “ensinado da lavoura na época em que tudo se aprende” -





 

 

 

 

 

 

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e o primeiro andar do nº 45 do Largo da Portagem, com “a tabuleta pintada de fresco”, onde, por mais de meio século, teve consultório com vistas para o largo, para o relógio de um edifício público defronte - que lhe forneceu, anos e anos, o “gráfico da minha própria agonia”Diário XI- e para “a frescura líquida do rio remansoso”.

“O nome exposto na tabuleta correspondia ao cidadão comprometido na honra do sangue, no grau das habilitações, nos deveres de urbanidade”.O Quinto Dia da Criação do MundoNo consultório serviu Esculápio, franqueou “a porta do confessionário”, deu espaço à vocação de “apertar, no rigor da grafia, a lisura do pensamento e dos sentimentos”, contemplou o Mondego, “minguado e preguiçoso que serpeava sob a ponte de ferro”, tendo transformado o lugar, com o rodar dos anos, “num centro de cavaqueira e de conspiração que os agentes da PIDE vigiavam do largo fronteiriço”.O Sexto Dia da Criação do Mundo
“... a única maneira de ser livre diante do poder, é ter a dignidade de o não servir”.Diário XVI

Mas naquele ano de 1941 foram vários os livros que deu à estampa: Diário I, cujos “gritos irreprimíveis dum mortal que torceu mas não quebrou, que, sem poder, pôde até à exaustão”, só se extinguiriam sessenta anos depois e um total de dezasseis volumes;
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Poema de abertura de Diário I


um volume de teatro : Terra Firme / Drama rústico em três actos e Mar / Poema dramático;
um volume de contos Montanha, logo apreendido e só reeditado, em Portugal, no ano 1953: “Mais um velho livro meu, a Montanha que desfiz e escrevi de novo”.Diário VI

 

 

 

 

 

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Entre 1942 e 1943 continuou a editar ele próprio os seus livros, eximindo-os à censura prévia e assumindo os riscos por inteiro:
Rua
(contos, 1942),
Lamentação / poema, Diário II
O Senhor Ventura (1943)
A este último reescrevê-lo-ia, após mais de quatro décadas, na mesma compulsão de “remendar velhos textos”, como fizera e faria com outros “num tempo agónico de versões sucessivas dos mesmos”, em “ tentativa desesperada de lhes restituir a carga da evidência que tinham tido na minha ilusão”, de reparar “a frase mal lançada”, “a imagem incolor”, “o verbo repetido” na “língua sempre dura, resistente, a desafiar o martelo e a bigorna.”Diário VI
“Em matéria literária, o meu desespero nunca desespera”.Diário XV

Andrée Crabbé Rocha doutora-se, em 1944, com uma tese sobre O Teatro de Garrett , passando a assistente de Vitorino Nemésio na Faculdade de Letras de Lisboa -, até ser expulsa por delito… democrático, três anos depois, numa leva de demissões políticas.
Só em 1970 seria reintegrada pela chamada “primavera marcelista”.

Em 1944 o volume de poemas Libertação e Novos Contos da Montanha vêm a público.
Em Fevereiro Torga e Sophia de Mello Breyner conhecem-se no Clube dos Fenianos Portuenses onde ele proferia a conferência O Porto. No fim do ano, fez sair em Coimbra, Poesia, volume de estreia desta autora.

Em 1945 sai do prelo o romance Vindima.

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O romance decorre entre as escarpas dos rios Douro e Pinhão -
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Vindima no Douro
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- “romanceei um Doiro atribulado, de classes, injustiças, suor e miséria”Do prefácio à tradução inglesa (Grape Harvest) in Diário XV- constituindo o livro a única produção romanesca de Torga.


... na vindima
De cada sonho
Fica a cepa a sonhar outra aventura.

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Em 1945, “na hora decisiva da capitulação”, “a dignidade perdida do país ”, o “espírito nacional acostumado à canga”, o “amorfismo geral” e os “plesbicitos de arremedo” reduziam Portugal “a um “campo de concentração” vigiado pelo “perfil duro do ditador” e pela sua “sanha inquisitorial”. “A censura férrea mantinha a imprensa silenciosa”.

Quase no fim do ano a celebração do centenário do nascimento de Eça dá origem à conferência, Eça de Queiroz, um problema de consciência, que o autor lê no Ateneu Comercial do Porto.

Diário IIIAmpliar esta imagem Ampliar esta imagem Ampliar esta imagem

“Perfil de contrabandista espanhol”Nota autobiográfica de 1950.- ”Pélo-me por vir de vez em quando a estas terras raianas saborear nas barbas dos guardas o eterno triunfo dos guardados”- Torga reconhecia-se, também, nos traços do Bispo e “inquisidor castelhano” que inspirou o poema, de algum modo os aproximando ascetismos e transgressões.

 

Odes de juventude
Cantadas com saúde
E alegriaDo poema Memória

Em 1946 surgem nos escaparates Diário III, “mistura de lirismo e crítica” e Odes (“Gosta de deuses pagãos a quem tem cantado nas suas Odes. Mas não conta com eles, para o dia da morte, que teme como uma noite sem madrugada”):Nota autobiográfica de 1950.


Sinfonia, Poema dramático em quatro actos, foi editado em 1947, mas a Censura só daria por ele dez anos depois, apreendendo-o então.

Andrée Rocha, suspensa do seu lugar académico, passou a fazer traduções e a ajudar o marido na sua actividade profissional.

Projecto de capa

Em 1948, com direcção de Álvaro Taveira (editor da Manifesto), Torga projecta lançar uma revista literária mensal de nome Rebate que a Censura, suspeitosa dos colaboradores, não chegou a autorizar.

Invocando hipotéticos “propósitos de minar a ordem” a PIDE negar-lhe-ia , mais uma vez, o pedido de visto para sair do país, tendo de sofrer dilação o projecto de visitar Velasquez no Prado e Memling em Bruges no Museu do Hospital de S. João.Diário IV



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A meio do ano falecia a mãe: “…a mão sinistra tocara carne de que eu era carne”, “…fui encontrá-la morta já no caixão, só à espera de mim para partir”. “Faltava-me agora não sei que justificação primordial.”O Sexto Dia da Criação do Mundo
“O mais trágico é que, apesar de crucificado, nem assim o poeta emudeceu”Diário IV:

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O livro de poemas Nihil Sibi encerrou o ano:O poeta é uma fonte / Nada reserva para a sua sede.”
A insatisfação transformava em pecado mortal cada obra que publicava”.O Sexto Dia da Criação do Mundo

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Pátria vista da fraga onde nasci.
Que infinito silêncio circular!

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Eu sou um homem de granito.

…a encarnação humana destas serras inamovíveis.Diário IX

Já Torga, “Marão que sou, longamente reclamara o lugar homónimo como “… a grande pedra de ara da minha meninice” que “dividia o mundo em dois”, quando Teixeira de Pascoais, ideador do Saudosismo, cantou fraternamente este outro filho das fragas que delas fez derivar a sua poética.

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“Do meu Marão nativo abrange-se Portugal; e, de Portugal, abrange-se o mundo”.

Já Camilo, outro dos maiores, se havia refugiado antes naqueles fraguedos, entre ramadas, como “filho adoptivo dum Marão escalvado”, hipotética sede da “civilização dolménica do Alvão”.Diário XVI
“Doiro, rio e região, é certamente a realidade mais séria que temos”.Portugal, opus

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Com folhas volantes para o povo transmontano, “a partir de Coimbra, Meca do fascismo português” (“em vez de morada dilecta do espírito, era um sepulcro dele”), Torga participou activamente na campanha de candidatura do General Norton de Matos à Presidência da República .

Republicano, nem liberal, nem conservador, nem socialista, nem comunista dizia, de si mesmo, o general que resistia, simultaneamente, a Salazar e à política colonial da Primeira República .




O Paraíso/ Farsa e Diário IV acrescentam então a bibliografia torguiana.
Em 1950 poemas de resistência de um pungente panfletarismo vêm a público em Cântico do Homem:

Oh! Maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas.
  Dies Irae
Sobre a ponte insegura é que é passar!
Fica o rio a correr dentro das veias.
  Haja Temeridade!
Abaixo! E que ninguém se importe!
Antes o caos que a morte.
  Ar Livre

e também vem a público Portugal, o “livro do peito”, identitário da realidade nacional e da realidade humana do autor, “a pátria vista e decifrada pelos olhos do corpo e da alma”.Diário XV

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Avivo no teu rosto o rosto que me deste

Um homem só se descobre a descobrir.

Nómada inquiridor Torga procurou reflectir, naquele retrato colectivo, “… um país marcado a ferro no mapa” “por uma espada triunfadora”, “ independente, singular, responsável …” e “…um povo que pelos séculos dos séculos teria de arrastar um destino próprio, a fazer milagres da pobreza do chão, das vogais da língua, do lirismo da alma”.Portugal ,  opus

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Bichos aparece, em tradução inglesa, como Farrusco the Blackbird.
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Ainda em 1950 o poema dramático Mar é encenado em Londres e representado na BBC, devido aos bons ofícios tradutivos e cénicos de Ruben A., então leitor no King´s College.



 

 

 


Na companhia da mulher e dum amigo, Torga viaja de novo por toda a Espanha , Itália e França : “…dava paz verificar que, embora à custa de muito sofrimento, a humanidade fora capaz de banir do mundo os monstros sem alma e de recomeçar vida nova”.
”Nas terras ibéricas, infelizmente, as coisas passavam-se doutra maneira”: ”…nos dois países irmãos reinava a paz apática dos cemitérios”.

Entre 1951 e 1952 são publicados os contos Pedras Lavradas e Diário V (1951).
Alguns Poemas Ibéricos (1952) reúnem composições de 1935 a 1939, algumas delas impressas na revista Manifesto e na Revista de Portugal.

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Tinha clientela , construíra uma casa, correspondera às esperanças de Agarez.O Sexto Dia da Criação do Mundo

Em 1953, o casal Rocha muda-se para a Rua Fernando Pessoa, nº3 e o Diário VI entra na cena editorial.

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Na companhia de Fernando Valle, o poeta viaja pela Grécia e pela Turquia para reconhecimento, “ao natural”, de lugares fundadores da civilização do ocidente.








Em 1954 faz sair mais um livro de versos, Penas do Purgatório.
Em Junho visita Zurbaran, em terras espanholas, reflectindo sobre a questão ibérica: “A ideia de nação” “não é de certeza a última palavra em matéria de arrumação do mundo.” “Uma noção mais ampla e profunda de comunidade de sentimentos e de interesses há-de substituir-se, inevitavelmente, a esta actual fraternidade murada e compartimentada”.Diário VIITal convicção nem anulava “a velha suspicácia de ibérico livre”, nem o seu atávico constragimento quando, proveniente do “rectângulo rebelde”, transpunha a raia.
“O meu iberismo é um sonho platónico de harmonia peninsular de nações. Todas irmãs e todas independentes”.Diário XV

A fim de participar em São Paulo num Congresso Internacional de Escritores, realiza, em Agosto de 1954, uma segunda viagem ao Brasil (naquela América do Sul “réplica da Ibéria em desmedido”Diário VI), sulcando de novo o mar antigo “que atravessara uma vez em pânico e outra em crispação, e era agora também o cantado por Camões, suspirado por António Nobre, pintado por Raul Brandão e mitificado por Fernando Pessoa”. Viaja, como congressista, “na primeira dum luxuoso barco moderno”O Sexto Dia da Criação do Mundo, ardendo-lhe ainda na memória o cheiro a desinfectante dos corredores estreitos e do dormitório do porão eterno da sua viagem (trágica e) marítima como emigrante:

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Sou poeta,
Vou de poeta







O tema geral, “falar como europeu da América”, fixou-o o conferencista na “interacção criadora-reveladora” da Europa/Novo Mundo, analisando-a como “obscuro modelador”e “humilde cronista da sua grandeza”.
Segundo ele veio a reportar, foi então entendido como “bandeirante anacrónico” pelos “sábios e literatos”; “a fraterna comunhão que sonhara” apenas fora possível “com milhares de patrícios” nas associações lusas.
No Brasil “reinava então uma ditadura nada suave, presidida por Getúlio Vargas cujo suicídio (“treva metafísica das circunstâncias”) suscitou uma onda de consternação que condenou a aguardada mudança de regime.
Abandonando o “encanto natural” do Rio e o “permanente estado de graça” dos seus habitantes, reflectidos nas telas de Portinari, nos versos de Manuel Bandeira e de Drummond e na prosa de Graciliano Ramos, procura depois o tio que reencontra octogenário e surdo, mas “dono e senhor do mundo”, "rei absoluto nas suas matas e grotões tropicais”.

Na Fazenda de Santa Cruz 25 anos depois

Da sua adolescência, porém, “só restavam os farrapos descosidos duma saudade informe”. “Outras casas, outras árvores, outras caras”. “O resto… perdera-se para sempre”.
“Liquidara as contas com o passado”, “juntara as duas metades da vida”. Conquanto sensível à “luxuriante natureza tropical”, sentia-se filho da “inquietação europeia”O Sexto Dia da Criação do Mundo: só aspirava ao regresso às fragas de origem.
Na viagem de volta aporta a Cabo Verde. O campo concentracionário do Tarrafal e o “martírio da tirania” que o criara, comparecem na “voz dorida” que anotava “o quotidiano comentário, tenaz e crispado, dos anos que corriam”.O Sexto Dia da Criação do Mundo


Traço de união / Temas portugueses e brasileiros (já incluindo a conferência Trás-os-Montes no Brasil, proferida no Centro Transmontano de São Paulo) sai em 1955. Acerca do prefácio da obra considerava Ribeiro Couto, então embaixador na Bulgária, que ele era “a coisa mais substancial que se escreveu acerca do Brasil contemporâneo.
Não há nada que se lhe compare em língua alguma”.Carta de 21 Mar. 1955.

Em 3 de Outubro de 1955 nasce Clara, “rosa da inocência”, “humana flor da infância e “o melhor viático” “para a viagem do além, que esta[va] prestes a fazer”Diário VIII o avô, Francisco Rocha.
O pai e a filha

poema “ Nascimento”Poema final do Diário VII

Com o pai

“Firme na sua humanidade inteiriça” “a morte da companheira” fizera dele um “desasado no mundo”. “De decantação em decantação, chegara ao ouro puro”.


“Semanas depois de lhe ter posto nos braços secos a vergôntea de vida tenra”, “para que alguma da sua grandeza humana se transmitisse àquele frágil rebento que me nascera tardiamente”, “uma hemorragia cerebral maciça fizera-o tombar de vez” ”ao entardecer dum inverno serôdio”. O cortejo da mãe, “estava a primavera no seu esplendor”, tinha avançado para o cemitério “através dum festival cósmico”. O pai, pela boca do qual sempre lhe falara “o chão transmontano”, foi “sepultado debaixo de chuva, neve e trovões”.Diário VIII

“…perdera o apoio de uma estaca vital. O responsavel pelo clã passara a ser eu”. “Ficara realmente orfão no mundo.”O Sexto Dia da Criação do Mundo

Apresentação da neta ao avô

 

 

 

 

 



 

 


 

 


 

 

 

Ainda nesse ano publica o Diário VII e a Censura apreende Sinfonia, em circulação desde 1947 (“… já só me indignei por fora.” “…na desolada e crónica convicção de que eu próprio vivo apreendido há trinta anos”Diário VIII ).
Fora em vão que o pai desaprovara sempre, conhecendo “que desde Camões não havia poetas felizes”: “deixa-te de escrevedoiros, que é o teu mal”.

Em 1958 Mar é levado à cena por António Pedro no Teatro Experimental do Porto (TEP) e são publicados os poemas de Orpheu Rebelde.

ORFEU REBELDE

Orfeu rebelde, canto como sou:
Canto como um possesso
Que na casca do tempo, a canivete,
Gravasse a fúria de cada momento;
Canto, a ver se o meu canto compromete
A eternidade do meu sofrimento.

Outros, felizes, sejam os rouxinóis...
Eu ergo a voz assim, num desafio:
Que o céu e a terra, pedras conjugadas
Do moinho cruel que me tritura,
Saibam que há gritos como há nortadas,
Violências famintas de ternura.

Bicho instintivo que adivinha a morte
No corpo dum poeta que a recusa,
Canto como quem usa
Os versos em legítima defesa.
Canto, sem perguntar à Musa
Se o canto é de terror ou de beleza.

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…médico e poeta num quotidiano sem horizontes.Diário XV

 


Em Coimbra teve de aceitar, a contra-gosto, a iniciativa dos condiscípulos de há 25 anos (“o meu curso resolveu lapidar-me”) e resignar-se a ver “o nome com que cumpria a penitência de escritor”O Sexto Dia da Criação do Mundo, afixado “em letras de bronze, cravadas num bloco de granito de Agarez”, na república onde vivera quando escolar de Medicina.

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Revisita a França, então na rota do gótico francês e do santuário paleolítico de Lascaux, seguindo para a “Holanda, outro país com a dignidade que o mar impõe”, e para a Bélgica, por via da Exposição Universal de Bruxelas, “à procura duma unidade humana que não consegui[u] vislumbrar” no grande certame de “forças centrífugas, hostis umas às outras”.

Ainda naquele ano, Humberto Delgado, que passaria à história como “general sem medo”, foi o candidato independente, pela oposição democrática, à Presidência da República.
Os comícios com vivas à liberdade e morras à tirania alastravam pelo país. Torga que então registara num verso “Nasci subversivo, também registava, após o comício em que interviera - embora ressalvando que o “protesto” “repõe o indivíduo marginal no seu tempo histórico” - “que, no caso particular português, os clamores são praticamente ineficazes” restando ao cidadão o papel de “lusíada espectral” no “automatismo das palavras e dos gestos”, “tragédia de um português de agora que tenha vergonha na cara”.Diário VIII
Pormenor - Ampliar esta imagem

Na frente ocidental nada de novo

Uma orquestrada fraude eleitoral havia de dar por vitorioso um outro general, mas situacionista, e transformar Humberto Delgado em trânsfuga, até ser assassinado pela PIDE, em Espanha, sete anos mais tarde.

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No ano seguinte sai a público o Diário VIII sendo apreendido de imediato (20 Fev.) pela PIDE.
Os intelectuais protestam com um abaixo-assinado tendo compelido as autoridades a anular a ordem de apreensão cinco dias depois, embora a Censura tivesse persistido em proibir referências ao livro na imprensa.



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Proposta à Academia Sueca, por J. B. Aquarone (professor da Universidade de Montpellier que ensinara em Coimbra) e pela Sociedade Portuguesa dos Homens de Letras, a candidatura de Miguel Torga ao Prémio Nobel suscita o entusiasmo da ala da intelligentzia nacional não apoiante da candidatura simultânea de Aquilino Ribeiro. A iniciativa levou os “cafres desta infeliz literatura portuguesa” a “levantarem as pedras do Chiado”.Carta a J. B. Aquarone, 11 Mai. 1960. “Dos quadrantes menos esperados choviam pedradas”.

“Estava agora ainda mais sózinho”…”descomprometido de todas as maneiras.”O Sexto Dia da Criação do Mundo



Naquele ano “a casa nativa” é “actualizada com todas as sombras do passado pintadas de branco”.Diário IX
Torga continua a cruzar e a descruzar as terras espanholas para “encher o bornal de largueza, de beleza e de grandeza” que o aliviassem do “semi-analfabetismo do Chiado” e doutras rasteirices nacionais.

Pátria magra, meu corpo figurado…
Meu pobre Portugal de pele e osso!









“Incapaz de reconhecer os sinais dos tempos, o ditador “ confundia e “levava a oposição a confundir os interesses da nação com os do regime”.
As colónias (crismadas províncias ultramarinas anos antes) revoltam-se

Portugal e África

massacrando os portugueses (ou emigrantes ou de geração local), desencadeando a repressão do continente que incorporou à pressa, nas suas fileiras, a “mocidade, estudantil” e operária, alguma dela tendo desertado “a engrossar a leva dos que só longe da pátria a podiam amar em liberdade”.



“Enquanto o mundo for governado por velhos ai dos novos.” Diário IX

“Os anos corriam iguais em monotonia e desesperança”: “o país enlutado, os hospitais militares cheios de mutilados”. “As novíssimas camadas universitárias, desmotivadas”. “Por todo o país só se vêem paralíticos, seres entorpecidos…” “Falar, é denunciar-se; ouvir , é comprometer-se.Diário X

Arredado dos cafés e das tertúlias Torga continuava a escrever (e a reescrever obras anteriores), buscando sempre recados do passado no “húmus nativo”- “o menir erguido num planalto, a pintura rupestre num abrigo, o dólmen solitário num ermo, o castro desmoronado num outeiro”Diário IX -, mas invejando a liberdade à “águia que paira sobre as serranias”, indiferente, no seu “céu de solidão”, aos “acenos do mundo”.

Saíam, entretanto:
Câmara Ardente, 1962
Diário IX, 1964
Poemas Ibéricos, 1965
Mar
sobe ao palco no Teatro Experimental de Cascais em 1966 com encenação de Carlos Avilez e cenografia de Almada Negreiros.

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Em 1967 Portugal celebra o centenário da abolição da pena de morte e Miguel Torga, na “dupla condição de poeta e de médico”, participa num colóquio comemorativo do acontecimento na Universidade de Coimbra, pronunciando-se, a propósito do "iníquo pesadelo", contra “qualquer forma de aniquilamento humano”.

 


Assina um manifesto no qual é pedida a aprovação duma lei da Imprensa, a abolição da censura prévia e a interposição de recurso no caso de apreensão de livros.

Em 1968 sai a público o Diário X , no ano em que Dubcek acende em Praga a primavera à qual o exército soviético põe fim violento em Agosto indignando o mundo ocidental.

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Salazar, imune à restrita acção duma Oposição vigiada e senhor exclusivo dos destinos pátrios por quase meio século, cai duma cadeira , finando-se dois anos depois “no meio da indiferença cansada da nação”. “…Só a pura impotência ou a pura cobardia deixara imperar tantos anos” o “Ditador, expressão portuguesa do andaço tirânico da sua época triste”, “que teve a suficiência intelectual coimbrã, a devoção paroquial dum campónio, a crueldade plebeia , a astúcia e a rusticidade dum pastor da Estrela.”Diário XVI

Marcelo Caetano, delfim do tirano desaparecido e “o novo senhor”, “vinha como um continuador”, sem reconhecer “idoneidade cívica” ao povo, nem curar em despertá-lo da modorra letárgica provocada pela longa autocracia. “O momento português” não requeria apenas um simulacro de “abertura política” e o novo governo obstinava-se na anacrónica manutenção dum império colonial em luta pela independência.
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Em 1969 Torga recusa o Prémio Nacional de Cultura, com que o regime quis galardoá-lo e fazer prova de mudança, mas acolhe a distinção do Prémio Diário de Notícias que contempla o volume décimo do Diário e o conjunto da obra. No agradecimento, em jeito parabólico, relembra o velho cavaquinho, escaqueirado contra a parede por um adulto irascível considerando que, “cinquenta anos de sucessivas ilusões desfeitas” lhe permitiam aceitar um “novo bandolim” de “consciência tranquila”.Diário XI

Ainda em 1968, com outros oposicionistas, desafia, mais uma vez, a ordem estabelecida e participa no II Congresso Republicano de Aveiro . A um jornalista que lhe solicitou “uma palavra para o jornal” desiludiu-o: “Desculpe, mas estou aqui como povo, e o povo, em Portugal, não diz nada”.

Subscreve, depois, um Manifesto dos Escritores ao País que reivindicava o “restabelecimento completo das liberdades em Portugal”, a consulta popular , a libertação dos presos políticos e a dissolução da “máquina repressiva do regime”. Proibido pela Censura o documento não chegou a circular.

“Sem diálogo possível com gregos e troianos da confraria da pena” vive “mergulhado num poço de solidão crispada e activa”.Diário XI

Colónias portuguesas em África

Em 1973, no intuito de “sentir pulsar o coração austral, de contemplar os cenários das nossas grandezas passadas e das nossas misérias presentes”, Torga empreende uma extensa viagem pela África lusófona “no pressentimento de que chegara o fim da epopeia” lusa.



Luanda aparece-lhe como “uma Sodoma de irresponsabilidade cercada de maldição”. Viaja de cidade em cidade, acompanhado pelo Padre Valentim Marques, gerente da Gráfica de Coimbra onde os seus livros sempre se imprimiram. Por toda a parte são “quarteis, soldados, carros de assalto”. “Fora do perímetro de cada povoado a lei do sertão continuava inalterada”. Todos os povos dominados “condenavam inapelavelmente Portugal”.

“Tínhamos perdido o norte da nossa capacidade civilizadora”.O Sexto Dia da Criação do Mundo

Revolução de 25 de Abril
Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares.Diário XII

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Zé Povinho por Rafael Bordalo Pinheiro
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“O exército, que durante quase meio século apoiara o tirano e depois o sucessor”, compreendera - “graças à influência ideológica da massa estudantil” que fora obrigado a recrutar – a inevitabilidade do fim do império colonial e do fim da ditadura. Arvorando-se em “campeão da democracia” e numa “revolução sem opositores” “a liberdade foi outorgada ao povo tão arbitrariamente como fora usurpada” (em 28 de Maio de 1926).
Surpreendida pelo milagre da pacífica revolução militar, “a alma nacional explode de alegria” de norte a sul.

Em Coimbra Torga participa no 1º de Maio pelas ruas da cidade: “Segui o caudal humano a desfilar…”: “Dentro de mim ressoava apenas uma pergunta: em que oceano de bom senso iria desaguar aquele delírio? “

O Quinto dia da Criação do Mundo
, relato circunstanciado, e circunstancial, da prisão do autor e da vida nas prisões da ditadura , saiu então do prelo, mas “secava nas montras” democráticas: “já ninguém precisava de exibir credenciais de rebeldia”.

Na “situação tragico-cómica de um poeta em bico de pés em estrado cívico “, mas profundamente empenhado na congruência dos destinos da pátria, Torga discursa, como independente, em comícios socialistas: Lisboa , Sabrosa , Coimbra, Arganil.

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o país alfabeto ainda não deu conta que delira


Mas “o que principiara por ser uma equívoca reivindicação de privilégios” e se convertera em movimento libertador de um povo submetido, cedo se transformou em “desconexo movimento libertário” (“a mais arbitrária revolução da nossa história”Diário XIV ) e objecto de fruição de intelectuais do mundo, teóricos do materialismo dialéctico ou simples voyeurs, que procuravam presenciar o espectáculo e participar, instruindo o povo reaccionário.

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A revolução, “hipertrofiada ao nível do universo” por um provincianismo crónico, e a realidade, condicionada “por meia dúzia de primários” e de “estadistas de pronto-a-vestir”, iam gerando descontentamento em muitos dos cidadãos que haviam levado a vida na esperança duma restauração democrática.

“Numa precipitação de culpados iniciámos uma descolonização insensata” tendo precipitado “o fim, sem grandeza, de uma grande aventura”, sem a contrapartida do “achamento interior protelado séculos a fio”.
As populações, ultramarinas e emigradas, como que em “refluxo insólito da história” exilavam-se no continente europeu e “atravancavam a pequena casa lusitana”, afundada no “aviltamento individual” e na “irresponsabilidade cívica” dos “messias de momento”.

 





A pretexto duma das Crónicas Vagantes de Natália Correia no jornal diário A Capital, Torga dirige-lhe uma Carta, também VaganteCarta de 28 Fev. 1975, A Capital, 6.3.1975, solidarizando-se com a denúncia da “corrida leviana que nos leva à perdição” em vez de uma “terapêutica inteligente, dinâmica e imaginosa” que congraçasse os valores culturais, as crenças, o passado e a vontade do povo português.

Em Maio de 1976 encontra-se com Gunter Grass ( as sintonias comuns convertem o encontro em reencontro), reflectindo os dois acerca da legitimidade da intervenção política dos intelectuais, da recorrência com que “misturam estética com ideologia” e se julgam “fundadores do futuro”.Diário XIII
Ainda em Maio, no Sítio da Nazaré, Mar é “representado por marítimos autênticos. Pescadores de verdade na pele de pescadores de ficção”.Diário XIISinais do tempo são-no, igualmente, as leituras dos poetas nas escolas .

Fogo Preso, antologia de textos sobre literatura e sobre política (congregando também antigos textos das campanhas democráticas em ditadura), aparece nas bancas .

A degradação das construções, da alimentação, das práticas, dos costumes e a perda do sentido da História são preocupações recorrentes no poeta: “Morro com duas convicções arreigadas: a de que não há terra mais bela do que a lusitana e outra tão infeliz”.Diário XII

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Em Setembro é-lhe atribuído o Prémio Internacional de Poesia. Recebê-lo-á, no ano seguinte, na XII Bienal de Knokke-Heist, em Bruxelas, tendo feito o elogio da “velhíssima e nobre língua latina espalhada pelos cinco continentes”, da poesia em que o “verbo se faz carne em cada poema” e da condição do poeta, “rebelde que sabe que a poesia subverte porque transfigura”.

Entretanto reaviva ali duas antigas paixões flamengas: Bosch e Brughel. De caminho visita, na capital inglesa, “o que foi espoliado aos quatro cantos do mundo”que “acaba por honrar o ladrão e a arte roubada”, trazida “morta das terras onde foi criada” e mostrada “viva numa terra incapaz de a criar”.Diário XII

No Natal, restaurada a velha escola, o antigo aluno planta mimosas no terreiro à volta, manejando a enxada com mão segura, não com vista a “reflorir o passado, mas a florir o futuro”.

O Diário XII sai ainda a público em 1977.

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Acerca do documentário em quatro episódios, Eu, Miguel Torga, realizado e assinado por João Roque naquele mesmo ano, o poeta comenta nas páginas íntimas: “Não: nunca poderei ser contado cinematograficamente!”. “O álbum animado da minha vida”Diário XIV veio a ser completado, a insistências suas, com “as realidades primordiais e ancestrais” que lhe teriam definido o perfil. O documentário seria visionado na televisão, nos seus oitenta anos, dez anos depois.


 

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À reunião de poetas -“só pelos noticiários o povo ficou a saber que nos tinha”-, realizada em Dezembro no Solar de Mateus, Miguel Torga faz suceder, como anfitrião e guia , um reconhecimento dos “lugares sagrados e consagrados da região” onde, segundo ele, paira a “alma religiosa da pátria.” Os convidados homenageiam então a sua carreira poética e o percurso cívico.

 

O meu perfil é duro, como o perfil do mundo
Quem adivinha nele a graça da poesia?

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Solar de Mateus, 8 de Julho 1978 – “Repensar Portugal. Desde rapaz que o tento de todas as maneiras e em todos os lugares”.

Repensar Portugal - Ampliar esta imagem

Chaves, 12 de Setembro 1978 – “…não consigo alhear-me da comédia democrática que substituiu a tragédia autocrática no palco do país! Só nós!”

Entre dias arqueológicos dedicados aos lugares de Castro do Pópulo ao Cachão da Lapa e à reflexão sobre a inconsistência dos “profissionais da política” (“…o político” “tem qualquer coisa de predador humano que ameaça a paz dos demais viventes da selva”) convém no proveito duma docência morigeradora que oponha, à exaltação idealista, aos “vanguardistas de fachada”, “os direitos da razão nacional.”

Em 1978, cinquentenário da sua estreia literária, é organizada uma nova propositura ao Nobel que o anterior laureado, Vicente Aleixandre, subscreve com outros nomes destacados.
A Secretaria de Estado da Cultura homenageia solenemente a data na Fundação Gulbenkian (homenagem dita pelo poeta como uma “espécie de segunda inspecção, desta vez civil”, na “longa viagem de tacteio e angústia” “por toda uma ancestralidade civilizacional”Diário XIV) com uma ampla participação de criadores e de ensaístas.
A Medalha de Honra da Associação Internacional de Reitores premeia, por sua vez, o poeta laureado.

Em 1979 a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra dedica-lhe uma exposição bibliográfica e uma sessão solene.

Torga prossegue, sem desfalecimento, a avaliação crítica da situação nacional: a “juventude vadia e petulante, sem memória colectiva” (“o instinto de conservação sabe que a morte é perder a memória”) , as “reivindicações sucessivas a torto e a direito” dum povo “a vingar, no presente, a resignação dos nossos avós”, a Igreja na aparente aposta da “dessacralização do mundo” referendada pela última Encíclica papal.

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Em 1980, terceiro centenário de Camões, o Prémio Morgado de Mateus é-lhe atribuído ex-aequo com o poeta brasileiro Drummond de Andrade.
Em “nome da glória da poesia” aceita a recompensa por lhe ter sido fiel.

Mateus, 20 de Abril 1980: “Mais um prémio. Mais uma crucificação sem cruz aparente”.







Visita, pela última vez, a ilha da Madeira, “gávea de pedra”, “espécie de alucinação da natureza”.

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Vim sem vontade e vou desesperado

Em Fevereiro de 1981 sai a público O Sexto Dia da Criação do Mundo, cessando, com ele, o processo narrativo duma demiurgia íntima que, desde 1937, este “Job, de caneta, descrente e rebelde” levara a público. “Setenta anos de sofrimento em mil páginas de disciplina” não tendo logrado, contudo, o derradeiro acerto de contas que nove anos depois ainda lamentava: “Levo O Sétimo Dia da Criação do Mundo atravessado no pensamento.” “um cento de páginas ofegantes , impiedosas, sem contemplações comigo e com os mais“.Diário XVI
Em Março recebe em Hamburgo o Prémio Montaigne, que deve o nome ao fundador da “objectividade crítica”, cujo galardão aceita por ele “representar a voz criadora da língua pátria”, expressão do génio lusitano e universal tendo dado Camões como exemplo maior.

Uma Antologia Poética, que procurava “meter em varais mais apertados” poemas antigos que desmereciam o “império das palavras”, sai a público ainda nesse ano de 1981.

Uma selecta de trechos do Diário - Franchise Intérieure. Pages de Journal (1933-1977), Ed. Aubier Montaigne - desencadeia uma torrente de interesse por parte da imprensa crítica francesa, incentivando a difusão da obra do autor: "Ainsi Montaigne est sain et sauf..." "Il vit au Portugal dans la province de Trás-os-Montes, sous le nom de Miguel Torga" (Sud-Ouest Dimanche, 1982) .

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Em 1983 morre a irmã Maria, “…anos a fio à janela da solidão e observadora realmente excepcional”, “S. Martinho falava pela sua boca mais eloquentemente do que pela minha pena. Numa imagem, num rifão, consubstanciava toda a realidade física e metafísica que a rodeava”.Diário XIV




Em Outubro do mesmo ano Samora Machel, Presidente de Moçambique, visita oficialmente Portugal. Apresentados em Coimbra Miguel Torga fez questão de mostrar-lhe a região duriense percorrida de helicóptero na companhia do Presidente português, em conversa fraterna acerca das duas pátrias e da indissolubilidade dos seus destinos. No diário de 20 de Outubro de 1986 lamentaria o “fim trágico e prematuro” daquela “vida agitada e carismática”.


O Diário XIII, dado a público ainda em 1983, acrescenta os doze tomos anteriores.

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O poeta começa o ano de 84 procurando, em Yuste, vestígios da expiação penitente de Carlos V e, em Guernica, “o natural da imagem emblemática da violência do nosso tempo”.
De novo na companhia do Padre Valentim Marques viaja pelo México visitando, em Oaxaca, o “recinto cerimonial do Monte Alban”, “um dos lugares sagrados” do mundo; em Chinchen Itza o largo cenário da “violência ritualizada” dos templos maias e, na grande Cidade do México, as ruínas dos monumentos aztecas derrubados por Cortez , o museu antropológico e “os quatro evangelistas da pintura mexicana”: Orozco, Tamayo, Rivera e Siqueiros.

Lá, como cá, “um quadro não muda um homem. Mas um verso sim”.

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No regresso cultua Portugal: “do Minho ao Algarve toda a paisagem me sabe bem”.

Em Julho faz “auto-de-fé de todos os manuscritos antigos”: “…o que pretendo legar aos vindouros” “é o mais vivo de mim, o que não testemunhe a tortura do percurso, mas a graça da chegada”.Diário XIV

Prossegue, incansável, o reconhecimento dos lugares emblemáticos portugueses, naturais ou construídos, bem como as denúncias do “entremez político”( com o inevitável cortejo de “mediocridade, avidez e desplante”) e do “alheamento trágico” do país perante o status quo. E sempre, em paralela assiduidade crítica, a notificação dos acontecimentos significativos do orbe, os episódios da profissão de sessenta anos, as reflexões acerca da literatura e da vida intelectual.

A entrada de Portugal no Mercado Comum, cuja ratificação ocorre no “heráldico cenário do claustro dos Jerónimos” em 12 de Junho de 1985, leva-o a enunciar a “perda da vontade colectiva” e a falta “dum propósito nacional” como dramáticos óbices ao sucesso comunitário português, insurgindo-se contra a ideia da “subserviência às ordens de uma Europa sem valores, incapaz de entender um povo que nela sempre os teve...”

Em 1986, ano de novas eleições presidenciais, o seu voto é “descorçoado” devido à “triste realidade política nacional”.

Morro sem saber nada de mim. Nó cego de contradições nunca consegui desatá-lo.
Em Fevereiro, tendo sido traçado o diagnóstico médico “pelos impiedosos olhos da ciência”, é submetido a uma cirurgia com a dolorosa consciência da proximidade do fim e de que “nenhum bem se compara ao de acordar de manhã e aninhar nos olhos a paisagem do mundo”.Diário XIV

Em 8 de Agosto é uma crise cardíaca a ter de ser sofreada.

Em 19 de Novembro de 1986, “quatro horas fechado numa câmara de silêncio”, declama oitenta poemas para o disco comemorativo dos seus oitenta anos de vida que saíu a público em 30 de Junho do ano seguinte.

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Em Abril de 1987, no processo de “assinatura da transmissão a curto prazo da soberania de Macau”, Miguel Torga aceita falar na celebração do Dia de Camões naquele “recanto da pátria”, “últimos confins de Portugal”( “Extremo Oriente da inquietação / Lá vou!”), também aliciado pelo velho desejo de “conhecer ao natural terras e mares” por onde se aventurara “na personalidade inventada do Senhor Ventura”.Diário XV
No caminho aéreo para Macau, que entende “como que sonho confuso de Portugal”, compõe o poema Errância.

Pormenor da Gruta de Camões

No Leal Senado exalta a figura de Camões, “português comum e seu arquétipo” “nas horas negras e solares da grei”.

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O regresso é por Goa ( tendo passado por Cantão e Hong-Kong) em busca da presença portuguesa da qual só restam “ igrejas e baluartes”; por Bombaim, herdeira de Buda que “ensinou cada alma a bastar-se” e que este “descendente infeliz de uma raça heróica e absurda” faz contrastar com a “aflição colectiva do ocidente”; por Paris, exemplar da “civilização ocidental no apogeu “ que carece, todavia, de esperança.
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Em Agosto, banhando-se no mar algarvio de Oura e considerando a velha paixão marítima, constata: “Nasci de facto em terra firme. Mas sou anfíbio, carnal e espiritualmente.”Diário XV. Ainda nesse mês completa uma leitura integrada dos feitos náuticos do conterrâneo Fernão de Magalhães (“que arredonda pela primeira vez o mundo nas consciências renascentistas”Diário XVI), reproduzidos pelos cronistas que acompanharam o navegador, enquanto clama contra a descaracterização de Portugal, à sombra dum “progresso que não sabe melhorar sem desfigurar” e reclama, para a poesia, a condição de “ permanente e grave prestação de contas à vida.Diário XVI

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Em 1987 o Diário XIV (que faz encerrar com o poema “Estuário”, “O rio chega à foz.”) e o disco 80 Poemas saem ainda a público.

 

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Coimbra, 18 de Abril 1989 – Prémio Camões.
Os meus leitores mereciam-no.

A cerimónia da atribuição decorre no dia “do maior génio da raça” e “figuração perfeita da universalidade mental enraizada”, sendo o galardão atribuído “por um júri das duas pátrias irmãs que trago no coração”. A cerimónia, presidida pelo Presidente da República, ocorre nos Açores, Ponta Delgada - “pátria insular”, aonde Antero se imolou e reduto da “paz arcaica” que escasseia na capital do continente, tendo feito nela “prestação de contas à comunidade de todos os passos de poeta” como ”homem, artista e revolucionário”, recebendo a “distinção em nome dos companheiros de pena, e de penas, que acreditam numa portugalidade viva”, manejando “uma língua de virtualidades infindas” e “aptidão planetária”.

Em 2 de Junho 1989 é-lhe imposta a condecoração de Oficial na Ordem das Artes e Letras da República Francesa.

Exulta com o “sismo da História”, que foi a queda do Muro de Berlim, com o fim da tirania romena, e chora a morte da Passionária, de Sakharov e de Beckett. “Tombo de vivências” que não perdeu nenhum lance do tempo que lhe coube, porfia em acreditar que a hora pode ser de esperança, como assinala o poema final do Diário XV.

Coimbra, 22 de Novembro 1990: “O mundo com vários abcessos prontos a rebentar. Ainda há pouco exultávamos de esperança e já ninguém tem paz na alma.”Diário XVI

O poema Pórtico, dá início ao último volume do projecto monumental que o “absurdo de vir e de partir com a mesma sem razão dos sonhos” poderia não deixar concluir-se.
No dia 26 de Março o Diário XV “está finalmente nas montras”.
O Goethe Institut de Coimbra, em sessão presidida por Karl H. Delille, homenageia o poeta e este a Curt Meyer-Clauson, no seu ofício de tradutor, nomeando-o como um dos “bem-aventurados que o Espírito Santo bafejou, e são capazes de dar ubiquidade à expressão” refrescando “a alma continental” do “planalto cultural do planeta” com algumas “notas marginais do rumor oceânico deste extremo da Europa”.
A liberdade, longo mote do “poeta inquieto”, não foi senão o acesso dele à identidade, ela sim “o supremo bem do homem que se perdeu por muitos caminhos do mundo e todos os de Portugal”:

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Pátria até que meus pés
Se magoem no chão.

 

 


A “teimosa afirmação física e lírica do milagre da vida”, dada pelo rejuvenescimento do negrilho, “magestoso e tutelar no Eirô” depois de um “pânico ameaço de morte”, “ fez-me bem a recessos secretos de angústia”, entre os quais a perda colectiva de rumo anotada em 1 de Maio de 1990 e a convicção de que “é escusado teimar! A ser banal, a dizer banalidades e a pensar banalidades é que o português é português”.

 

Coimbra, 12 de Maio 1990: “Amanheci com a boca torta e sem poder articular”. “Sou uma caricatura de mim”.

Dez dias passados o poema Visita noticiava o esconjuro da ameaça: “Bateu a morte à porta e não entrou.”

Coimbra, 28 de Maio 1990: Crise cardíaca. “Quando fui jovem estudava anatomia nos cadáveres da morgue.” “Agora estudo-a em mim...”

Coimbra, 12 de Julho 1990: "Estou perdido. Já não tenho ânimo nem forças para dobrar as palavras e organizar com elas um texto onde sejam imprevisíveis, ressuscitem com nova vida e não lhes sinta a degradação. "

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Em 27 de Julho de 1990 celebra os “cinquenta anos de casado. Os sins de que eu fui capaz contra os nãos da vida”.

BILHETE

Não te sei dizer mais.
Depois de tantos versos,
Que te baste o silêncio
Dum poeta ardente,
Que sempre, naturalmente,
Foi além das palavras
Do amor, amando.
Que, em cada beijo,
Selava os lábios que o nomeavam.
Que aprendeu, a sofrer,
Que tudo acontecia
No acontecer.
Que, até nas horas de evasão, sabia
Que a verdadeira vida vive-se a viver .
 
10 de Dezembro de 1990
 













Continua a sopesar os acontecimentos que iam configurando o mundo : a “reunião alemã”, a “invasão do Kuwait pelo Iraque”, o adensamento dos “ares do Golfo” soprados pelo Pentágono ( e o iminente “festival guerreiro no Golfo”), Gorbatchov, o imaginador da Perestroika, em visita à Espanha a pedir auxílio económico ( o comunismo culpando-se de ter gerado miséria, o fascismo vangloriando-se de ter possibilitado riqueza!) a poucos meses da colossal manifestação em Moscovo contra ele, Walesa eleito presidente da Polónia, “as atrocidades do ditador de Cuba” , a troca de mísseis entre o Iraque e Israel, a desarticulação da Jugoslávia , etc.

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Na ordem interna, “os escândalos políticos sucessivos”, “inquéritos, demissões, prisões, mas tudo a fingir”.
“A execrável tirania de há pouco tinha ao menos o mérito de ser frontal, culta e de respeitar o inconsciente português. Esta de agora, é sorna, analfabeta, e agride e ofende diariamente o que de mais profundo e sagrado há em nós”.Diário XVI

“Não há dúvida. Perdemos colectivamente o rumo e não há bússola política que nos valha”.Diário XVI, 3 de Maio de 1990

 




No âmbito do sétimo centenário da fundação da Universidade de Coimbra, Miguel Torga é homenageado “por ter permanecido”, segundo ele interpretou, “indefectivelmente fiel ao melhor do seu espírito”, por sua vez prestando homenagem à juventude académica na qual sempre respeitou a “desenvoltura afirmativa e as virtualidades potenciais”.

Coimbra, 2 de Janeiro 1991 - Quimioterapia. “O homem tem o triste vezo de, quanto mais a sente fugir, mais se agarra à vida.”

A “sensação íntima de estar por um fio” não o impede de arrastar-se diariamente para o consultório, por via dos "doentes conterrâneos" que o procuram em "ultima instância"-“É sempre a brocar o inconsciente dos padecentes que consigo compreendê-los e ajudá-los”- e arrastadamente regressar à tardinha depois das consultas.

ArritmiaDiário XVI

Coimbra, 8 de Fevereiro 1991- “Cento e oito mil alunos fizeram hoje a prova de acesso à Universidade, debruçados sobre uma página deste Diário.” “Oxalá que, entre tantos jovens” “descubram que um escritor não é dentro da pátria um inimigo público embuçado, mas uma prestável voz fraterna.”

CordialDiário XVI

 

 


Coimbra, 12 de Abril 1991- “...longo e penoso tratamento no Hospital de Oncologia” como um “náufrago que em pleno mar esbraceja contra a evidência da impossível salvação”

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Em Março de 1992 recebe o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores.
“Soube sempre, desde a hora temerária do começo, que escrever é um acto ontológico...”, “... nada mais pretendi do que” “ser humilde e livremente um fala-só que falasse por muitos.”Diário XVI

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Em Junho de 1992, compelido “por mil circunstâncias adversas” a desfazer-se do consultório (seu “reduto” de medicina e de escrita), “vazio nas salas já esvaziadas”, “sem passado, sem presente e sem futuro”, sentindo-se “a ser descarnado, a tornar-[s]e humanamente espectral”, anuiu ao pedido telefónico do envio da tabuleta, acrescentando, “de voz estrangulada, se queriam que também mandasse o meu cadáver”.Diário XVI


Em Sabrosa, em 27 de Junho, reage ao “pesadelo” de “ver já póstumo, hirto e metálico num pedestal”, “mumificado em bronze”, “quem sempre se sentiu e entendeu vivo e em carne e osso” e certo de que a sua “verdadeira imagem está nos livros” que escreveu.
"Com o meu rosto, ficam memorados nos monumentos que o perpetuam, todos os transmontanos".

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Em Julho, entre transfusões (“Que outras naturezas estou a integrar na minha?), manifesta-se contra a proposta de regionalização portuguesa.“O mundo, a braços com o drama das diversidades, e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional” “vamos desmioladamente destruí-la?”.

O Prémio Figura do Ano dos Correspondentes da Imprensa Estrangeira, tributa o “repórter inquieto dum quotidiano sem fronteiras”, “débil cantor e anotador dos íntimos estremecimentos da sua alma”.

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Em Setembro o Salão do Livro de Bordéus atribui-lhe o Prémio Écureuil de Literatura Estrangeira em sessão na Câmara Municipal de Coimbra, na presença das autoridades, escritores e críticos.





Em Outubro a Universidade de Massachusetts, Amherst, organiza um Colóquio Internacional sobre Miguel Torga. As Actas foram reunidas em 1997 sob o título Sou um Homem de Granito.

O Diário XVI , que acompanha muitos dos passos da longa e mortal agonia física, encerra com o poema “Requiem por mim”, como que uma despedida da escrita e da vida.

REQUIEM POR MIM


 
Aproxima-se o fim.
E tenho pena de acabar assim,
Em vez de natureza consumada,
Ruína humana.
Inválido de corpo
E tolhido da alma.
Morto em todos os órgãos e sentidos.
Longo foi o caminho e desmedidos
Os sonhos que nele tive.
Mas ninguém vive
Contra as leis do destino.
E o destino não quis
Que eu me cumprisse como porfiei,
E caísse de pé, num desafio.
Rio feliz a ir de encontro ao mar
Desaguar,
E, em largo oceano, eternizar
O seu esplendor torrencial de rio.
 
Coimbra, 10 de Dezembro de 1993

O ultimo volume sai em 1993 e é logo considerado, quase unânimente, como o mais poderoso dos volumes das confissões do poeta .

No ano seguinte a Universidade de Fernando Pessoa, Porto, organiza o 1º Congresso Internacional de Miguel Torga com a presença de várias personalidades entre as quais Torrente Ballester. Este, entrevistado por Miguel Viqueira em 1986, havia declarado: “Uma literatura que produz, no mesmo século, dois vultos do calibre de Pessoa e Torga, pode considerar-se uma literatura de excelente saúde”. No Congresso o seu depoimento acrescentava, então, que Miguel Torga era “um homem clarividente perante a realidade”, interior e exterior, “um descobridor de mundos”, autor de “um dos conjuntos literários mais impressionantes da Europa.”

Ainda no mesmo ano recebe o Prémio da Crítica do Centro Português da Associação Internacional dos Críticos Literários e é homenageado pelo Conselho Distrital de Coimbra da Ordem dos Advogados, proferindo o Procurador Geral da República a conferência : Representações da Justiça em Miguel Torga .

Em 17 de Janeiro morrem o médico Adolfo Rocha e o poeta Miguel Torga. Ambos repousam, sob uma única lage, em campa rasa no cemitério de S. Martinho de Anta.

Andrée Crabbé Rocha jaz sob a mesma campa desde 2003.

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A MORTE

E o Poeta morreu.
A sombra do cipreste pôde enfim
Abraçar o cipreste.
O torrão
Caiu desfeito ao chão
Da aventura celeste.

Nenhum tormento mais, nenhuma imagem
(No caixão, ninguém pode
Fantasiar).
Pronto para a viagem
De acabar.

Só no ouvido dos versos,
Onde a seiva não corre,
Uma rima perdura
A dizer com brandura
Que um Poeta não morre.

In Nihil Sibi, 1948

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