Colecção Antero de Quental
Apresentação Ana Maria Almeida Martins

É difícil, para não dizer impossível, imaginar um escritor que não guarde qualquer obra de sua própria autoria.

Nas estantes com os livros que Antero de Quental deixou em testamento à Biblioteca Pública da sua cidade natal, Ponta Delgada, figura apenas, de seu, a tradução alemã dos Sonetos oferecida «com a admiração e o agradecimento» de Wilhelm Storck a quem, muito a propósito, numa carta de 29-III-1891, Antero informava: «Os meus versos líricos foram publicados em volume em 1872, com o título Primaveras Românticas: a edição esgotou-se depressa e não se reimprimiu, de sorte que eu mesmo não possuo exemplar algum desse livro».

No caso de Antero, nunca existiu qualquer baú, arca, sequer algum grande envelope cheio de papéis. De tudo o que ele escreveu e foi publicando apenas se conhece, por enquanto, o precioso manuscrito de Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX, tesouro do Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea, da Biblioteca Nacional de Portugal, assim como o de A Poesia na Actualidade, conservado na Biblioteca Marciana de Veneza, mas acessível em Portugal graças à edição fac-similada do Centro de Estudos Anterianos, de Vila do Conde, precedido de uma apresentação crítica de Joaquim-Francisco Coelho (2000). Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX

Antero de Quental nunca se preocupou com o lugar que a posteridade lhe reservaria, ou não. Tinha mesmo, ele o escreveu, o mau costume de destruir quantos papéis lhe fossem parar às mãos, (carta a Joaquim de Araújo, 13-X-1886, na Biblioteca Marciana) incluindo as cartas de amigos, como Oliveira Martins, o maior de entre eles, conforme declarou ao seu tradutor italiano Tommaso Cannizzaro, e outros mais como João Lobo de Moura, seu condiscípulo em Coimbra e cuja amizade o acompanhou até ao final da vida.

Felizmente grande parte desses amigos guardou dele quase tudo, por vezes até o que pareceria ser o mais insignificante papelucho, nota ou postal de 3 ou 4 linhas apenas. A Colecção Antero de Quental, agora disponível no sítio Web da Biblioteca Nacional de Portugal, reveste-se de uma importância excepcional, sobretudo no que toca à apresentação de poemas manuscritos. Trata-se, além do mais, de consoladora recompensa, a nível nacional, para a falta do conhecido e celebrado Álbum de Vila do Conde 1, custódia dos últimos 13 sonetos, desaparecido há décadas, da Biblioteca Pública de Ponta Delgada, oferecido que fora pelos herdeiros de Antero em 11 de Setembro de 1931 (Correio dos Açores do mesmo dia).

Destaquem-se em primeiro lugar as chamadas «poesias lúgubres», como são conhecidas entre os anterianistas, embora seja porventura preferível a citação de Eduardo Lourenço que se lhes refere como «os grandes poemas agónicos». Fazem eles parte de um vasto conjunto posteriormente destruído pelo seu autor de que apenas se salvaram cinco, graças a Oliveira Martins, a quem Antero os enviara e que veio a incluí-los nos Sonetos Completos a seguir ao seu próprio prefácio.

A Colecção Antero de Quental possui os autógrafos de todos eles: «Os Cativos», «Hino da Manhã», «Os Vencidos», além de «Entre Sombras» e «A Fada Negra».

Eça de Queirós, no In Memoriam de Antero, refere-se ao «Hino da Manhã» como «um dos mais angustiosos lamentos que têm escapado a um forte e altivo coração de homem» e Eduardo Lourenço considera-o o mais desesperado dos seus poemas e talvez o mais belo 2.

A Colecção conta igualmente com 16 sonetos entre eles «Consulta», «Com os Mortos», «Transcendentalismo», «Anima Mea», «Redenção», «Voz Interior» ou «Solemnia Verba», esse soneto que tão bem reflecte a evolução do pensamento anteriano «emergindo de um pessimismo que lhe entenebrecia a existência» (carta a Vicente Machado de Faria e Maia, Vila do Conde, 1886).

Também o conjunto das cartas de Antero a João Lobo de Moura, apesar de reduzido, 16 apenas, será dos mais interessantes da sua epistolografia até porque aí se incluem sonetos em cerca de metade. Saliente-se a carta de 1-IV-1872 onde figuram justamente dois dos mais conhecidos, tão absolutamente autobiográficos, como aliás quase todos eles. O primeiro, «À Virgem Santíssima», diz a carta que «foi composto por um monge da Idade Média (aí pelo século 13.º) na solidão suave-austera do Monte Cassino, um contemporâneo talvez do autor misterioso da Imitação de Cristo, e é dirigido à Virgem-cheia-de-graça do sentimento cristão, a que mais tarde um pagão ilustre 3 deu o nome de Eterno Feminino», e o segundo, «Nirvana», «podia simplesmente ter por autor algum solitário, discípulo de Buda». Ainda na carta de 20-VII-1877, o admirável «Mors-Amor».

Numa drástica e, para alguns, inesperada mudança de registo, vamos encontrar um poema intitulado «Solão»: «Era uma vez um papão que morava num saguão…» dedicado depois a Ana Lobo de Moura, a sua preferida entre os filhos do amigo e por quem Antero tinha «um fraco, como quem diz de Tio» (carta de 17-VII-1878). Teixeira de Carvalho no prólogo à segunda edição de Cartas de Antero de Quental, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1921, informa-nos que o poema tinha sido escrito «para fazer rir a Ana que não compreendia os seus versos tristes, mas que gostava de os ouvir por serem dele».

A Colecção de Antero de Quental regista ainda, em Correspondência de Terceiros, diversas cartas enviadas a Oliveira Martins aquando da morte de Antero, demonstrando bem a amizade profunda que os uniu em vida. O historiador recebeu a notícia através de amigos micaelenses, alguns familiares próximos do poeta, mas também de Lobo de Moura e Alberto Sampaio, todos eles irmanados na mesma dor perante aquela morte tão surpreendente quanto inesperada, o contrário afinal daquilo que depois se tornou na tentativa de a apresentar como inevitável e coerente.

O Arquivo de Cultura Portuguesa Contemporânea guarda mais 119 cartas de Antero a Oliveira Martins, integradas no espólio do historiador (Esp. E20) e 22 outras – 10 a Germano Meireles, 2 a António Feijó, 2 a Oliveira Martins e 8 a Luís de Magalhães – que fazem parte do espólio deste último (Esp. E2).

Se o seu conteúdo é já conhecido e celebrado, em lugar proeminente na cultura lusíada, a beleza da letra de Antero fica agora ao alcance de todos os estudiosos, sem emendas nem riscados inestéticos de difícil e controversa decifração.

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1 António Salgado Júnior, Antero e os treze sonetos de Vila do Conde, Câmara Municipal de Vila do Conde, 1942.

2 «Le destin – Antero de Quental, Poésie, Révolution, Sainteté» in A Noite Intacta, Lisboa, Gradiva, 2007, p. 41.

3 O «pagão ilustre» é, obviamente, Goethe, que Antero não nomeou, por desnecessário.

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