Apresentação *
Daniel Pires

O espólio de Camilo Pessanha dispersou-se em 1926 na sequência do seu falecimento. Sabe-se que João Manuel Pessanha, dias depois do óbito do pai, iniciou a venda dos objectos de arte chinesa 1 que o poeta naquele ano não doara, por intermédio do governador de Macau Maia Magalhães, ao Museu Nacional de Machado de Castro 2. No que particularmente concerne aos seus manuscritos, a avaliar pelo depoimento de Sebastião da Costa 3, que visitou o poeta dois anos antes do seu falecimento e testemunhou o seu quotidiano caótico e a sua incúria, sofreram a usura do tempo e do acaso, sendo de lamentar o desaparecimento, por exemplo, da correspondência de Ana de Castro Osório, de Wenceslau de Moraes, quiçá do primeiro Presidente da República chinesa, Sun-Yat-Sen, com quem o poeta aparece em pelo menos duas fotografias 4, bem como aquela que se prendia com a sua actividade no seio da Maçonaria. Os poucos manuscritos que resistiram à insensibilidade de João Manuel Pessanha foram recolhidos em 1931, na sequência da sua chegada a Macau, por Danilo Barreiros 5. O presente núcleo documental pertenceu à família Castro Osório, que se relacionou amplamente com Camilo Pessanha, havendo inclusivamente laços familiares remotos, como é visível na correspondência mantida com João Baptista de Castro.

Com efeito, Ana de Castro Osório foi a mulher eleita pelo escritor 6 para partilhar a sua vida, havendo correspondência entre ambos relativa a um pedido de casamento que foi declinado em 1893; coube-lhe fazer publicar, em 1916, na revista Centauro, dirigida por Luís de Montalvor, um embrião da Clepsidra e, quatro anos mais tarde, dar à estampa, com a chancela da editora «Lusitânia», que lhe pertencia, aquela obra paradigmática da literatura portuguesa; na revista Atlântida, divulgou em 1918 uma tradução do chinês feita por Pessanha, «Vozes do Outono», e foi sua correligionária maçónica; Alberto Osório de Castro, jurista e poeta, colega íntimo de Camilo Pessanha na Universidade de Coimbra, visitou-o, no ano de 1912, em Macau, reencontro que relatou em texto de carácter memorialista 7; João Baptista de Castro, pai daqueles autores, apadrinhou Camilo Pessanha, pouco depois da sua formatura, no mundo da jurisprudência; João de Castro Osório foi o responsável pelas edições póstumas da Clepsidra que vieram a lume com a chancela da Ática – as únicas existentes até finais da década de 70 – de China - Estudos e Traduções e de múltiplos artigos de divulgação da obra de Pessanha; finalmente, José Osório de Oliveira, filho mais novo de Ana de Castro Osório e de Paulino de Oliveira, dirigiu a Descobrimento, revista que deu a conhecer, pela primeira vez em Portugal, as «Oito Elegias Chinesas», e redigiu algumas cartas pontuais que se revelaram importantes para o estabelecimento da biografia do escritor 8.

O presente núcleo, constituído por 189 documentos, foi adquirido, em 1979, pela Biblioteca Nacional a Pedro Falcão de Azevedo; mais tarde, integraram-no duas colecções de fotocópias que se prendem com o Caderno Poético 9 de Camilo Pessanha, surpreendentemente revelado, corria o ano de 1966, pelas vicissitudes e pelas ondas de choque da «Revolução Cultural» em Macau, no âmbito dos tumultos ali registados contra a soberania portuguesa 10.

Camilo Pessanha é, tal como Nicolau Tolentino, António Nobre e Cesário Verde, um escritor de livro único. Caracteriza-se a sua obra poética pela brevidade e pela depuração que a existência de múltiplas versões dos seus textos permite aferir. Os seus manuscritos autógrafos são raros por motivos que se prendem com a sua abulia, as suas fracturas, a incapacidade de se adaptar aos valores prevalecentes.

Deste modo, os que fazem parte deste acervo – dezoito do punho de Camilo Pessanha e um que aparenta ter sido por ele revisto – adquirem uma importância não despicienda para os exegetas do poeta.

A primeira edição da Clepsidra foi dada à estampa de uma forma pouco linear, à revelia quase total do seu autor. Com efeito, Camilo Pessanha, ao regressar a Macau em 1916, apenas deixou os mencionados manuscritos, sem indicações precisas no que diz respeito à sua ordenação, exceptuando as composições que abrem e encerram a obra, «Inscrição» e «Poema Final». Registou-se, portanto, uma intervenção mínima do poeta na sua estruturação e na recolha dos restantes onze poemas que constituem a obra, sendo, em contrapartida, a de Ana de Castro Osório decisiva. Assim, a consulta deste acervo é relevante para o editor literário que empreenda a tarefa polémica e pedregosa de publicar a obra de Camilo Pessanha.

Fazem ainda parte do presente núcleo poemas manuscritos copiados por terceiros, nomeadamente por João de Castro Osório, José Benedito de Almeida Pessanha, Alberto de Serpa e, eventualmente, por Ana de Castro Osório, os quais foram utilizados para a fixação do texto das edições de 1945 e de 1969 da Clepsidra; a correspondência, de carácter intimista, de Camilo Pessanha dirigida a Ana de Castro Osório, João Baptista de Castro e a Alberto Osório de Castro, já publicada por Maria José de Lancastre 11, essencial para a compreensão da sua psicologia e das suas opções de carácter poético; iconografia avulsa importante, porquanto o poeta raramente se deixava fotografar; toda a correspondência que a publicação, em 1920, da Clepsidra gerou, a qual revela uma franca empatia por parte dos intelectuais e da imprensa da época; dedicatórias de Camilo Pessanha a várias personalidades, designadamente as dirigidas a Ana de Castro Osório, elucidativas da cumplicidade e da afectividade que os uniu, das suas afinidades electivas e dos seus vínculos à Maçonaria. Acrescem ainda três outras edições pouco comuns: Catálogo da Colecção de Arte Chinesa, cuja publicação, em 1915, foi da responsabilidade de Carlos da Maia, governador de Macau e correligionário maçónico do escritor; Kuok Man Kau Fo Shü, um manual elaborado por José Vicente Jorge, destinado aos portugueses que se dedicavam à aprendizagem do mandarim, pertencendo a Camilo Pessanha a revisão das expressões portuguesas que o constituíam; Esboço Crítico da Civilização Chinesa de J. António Filipe de Morais Palha, que apresenta um longo e seminal texto introdutório de Pessanha. Não despiciendos são alguns documentos sobre a Maçonaria que demonstram a influência desta organização, durante a primeira República, nos meandros do poder; manuscritos e impressos, nomeadamente recortes, que se prendem com as incursões feitas pelo autor no domínio da tradução do chinês para a língua portuguesa.

Considerando que estamos em presença de um poeta de obra única e breve, que a Clepsidra marcou decisivamente a literatura portuguesa do século XX e ainda que Camilo Pessanha nunca se preocupou com a preservação dos seus raros manuscritos, o núcleo existente na Biblioteca Nacional de Portugal é relevante para acompanhar a evolução poética do escritor, para o estabelecimento da edição crítica daquela obra e para o conhecimento de uma personalidade peculiar, plural e humanista.

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* Publicada em Espólio de Camilo Pessanha : inventário. Lisboa: BNP, 2008, p. 9-12.
1 Cf. O Combate. Macau. (6 Maio 1926).
2 Cf. Camilo Pessanha Prosador e Tradutor. Organização, prefácio e notas de Daniel Pires. Macau: Instituto Cultural de Macau : Instituto Português do Oriente, 1993. P. 22.
3 Cf. Sebastião Costa, – «Camilo Pessanha». In Homenagem a Camilo Pessanha. Organização, prefácio e notas de Daniel Pires. Macau: Instituto Cultural de Macau : Instituto Português do Oriente, 1990. P. 9-19.
4 A mais conhecida foi publicada na nossa obra A Imagem e o Verbo – Fotobiografia de Camilo Pessanha. Existe uma segunda, em Macau, na casa-museu de Sun-Yat-Sen.
5 Cf. Danilo Barreiros – O Testamento de Camilo Pessanha. Lisboa: Bertrand Editora, 1961.
6 Cf. António Osório – O Amor de Camilo Pessanha. Lisboa: Edições Elo, 2005, passim.
7 Cf. «Camilo Pessanha em Macau». In Homenagem a Camilo Pessanha, cit., p. 45-53.
8 Estão inventariadas na fotobiografia citada.
9 Foi publicado com uma qualidade notável pela Revista de Cultura. Macau. N.º 11-12, (Jul.-Dez. 1990).
10 Cf. Danilo Barreiros – «O ‘Caderno’ Poético de Camilo Pessanha». In Persona. Porto. 10, (Jul. 1974).
11 Cartas a Alberto Osório de Castro, João Baptista de Castro e Ana de Castro Osório. Introdução e notas de Maria José de Lancastre. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984.

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