Cronologia da Vida e Obra
de
Camilo Pessanha *
Daniel Pires

1867-1893 1894-1908 1909-1926 1927-2007

1867 7 DE SETEMBRO
Camilo de Almeida Pessanha nasceu em Coimbra, na freguesia da Sé Nova, pelas 11 horas da noite, filho de um estudante do 3.° ano de Direito, Francisco de Almeida Pessanha, e de Maria do Espírito Santo Duarte Nunes Pereira, sua governanta.
30 DE OUTUBRO
É baptizado.
1870 O pai conclui o curso de Direito e vai exercer em Vila das Velas, ilha de S. Jorge, nos Açores, como Delegado do Procurador Régio.
1874 O pai é colocado em Mogadouro.
Provavelmente neste ano, sofre um acidente que lhe paralisa a face.
1875 Morre, nos Açores, sua irmã, Madalena.
1878 Acompanha o pai, colocado em Lamego, onde deve ter concluído a instrução primária.
Habita na Rua da Corredoura, freguesia da Sé. 1880
Francisco António Pessanha é transferido para os Açores, na qualidade de Juiz de 3.ª . Exerce na Vila da Praia da Vitória.
1882 Promoção do pai a Juiz de Comarca em Vila Nova de Fozcoa; no ano seguinte, é nomeado para Vila Pouca de Aguiar.
1884 Completa os seus estudos secundários no Liceu Central de Coimbra.
Matricula-se na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, residindo durante os três primeiros anos na Estrada da Beira.
9 DE OUTUBRO
O pai perfilha-o na cidade de Coimbra.
1885 Conclui com êxito o 1.º ano do curso de Direito.
14 DE OUTUBRO
Compõe «Lúbrica», muito provavelmente o seu primeiro poema. No dizer de António Dias Miguel, as influências de Cesário Verde são evidentes.
1887 30 DE ABRIL
Publica pela primeira vez: «Madrigal», texto dado a lume no jornal republicano Gazeta de Coimbra.
No fim do ano lectivo, convive com a boémia coimbrã.
AGOSTO
Compõe os «Sonetos de Gelo».
9 DE SETEMBRO
Dá explicações de Português, Francês, Literatura e Latim.
23 DE SETEMBRO
Abel Aníbal dedica-lhe o conto «A Eterna Lei», publicado na Gazeta de Coimbra.
SETEMBRO
Escreve «Tenho sonhos cruéis n’alma doente», «Encontraste-me um dia no caminho», «Fez-nos bem, muito bem esta demora» e «Na pasta do Abel Aníbal».
NOVEMBRO
Data deste ano a redacção do conto «Segundo Amante».
Redige o conto «Dia Aziago».
Reside na casa do Dr. João de Almeida e Silva, amigo do seu pai.
Publica na Gazeta de Coimbra os seguintes textos: «Madrigal», «Entre Gaiatos», «Crónica da Alta», «Na pasta do Abel Aníbal» e «Sonetos de Gelo – («Ingénuo Sonhador - as Crenças d’Oiro»).
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1888 FEVEREIRO
Critica o livro Versos da Mocidade de António Fogaça: fustiga designadamente o seu «romanticismo decadente».
Reprova o 4.° ano de Direito. A este facto, não deve ter sido alheia a sua paixão por Madalena Canavarro, que não terá correspondido ao seu amor, de acordo com Francisco Carvalho e Rego.
OUTUBRO
Uma grave doença nervosa impede-o de se matricular na Faculdade de Direito, neste ano lectivo.
Escreve a seu primo, José Benedito: «[...] nas férias grandes passadas me luziu a ideia de duas séries, uma de prosa outra de verso, que deixavam a perder de vista todos os meus feitos de até então.
A prosa seria contos e chamar-se-ia Solidões, não minha, mas das figuras: estados de espírito diverso, apreendidos no olhar que uma avó estende pelo seu passado, no tremor de lábios de um velho na presença dos quinze anos de uma rapariga que o desdenha, ingenuamente impúdica, no corar de qualquer burguesinha, que vê da sua janela o último namorado que lhe mentiu, etc. Seriam rápidos como a maior parte dessas impressões, e a prova seria igual, embora diversamente sentida, sem esbracejamentos nem gritos porque tais entusiasmos bem os abafam os personagens que eu aproveitaria, que se mordem intimamente, mas conseguem respeitar a polícia e a gente casta.
O verso não teria nome. Dividi-lo-ia em duas partes. A primeira havia de ser a luta por uma aspiração falsa. Seria talvez pessimista: o prazer, não tendo realidade sua, era o aniquilamento do desejo, de forma que esta luta representaria ansiar a morte. A outra parte – excepções, consolações, aniquilamentos parciais do eu, êxtases, espasmos e modorras.»
Relativamente à sua produção literária, afirma: «Só a crónica é uma borracheira à parte e menos má, me parece... Que diabo ter de perfilhar tanta asneira e saber-se lá fora! Não mostres isso a ninguém.»
No final do ano, o pai é colocado em Marco de Canaveses, sendo, pouco depois, transferido para Monção.
Neste ano, colabora no jornal de Coimbra A Crítica, com os seguintes textos: «Na pasta do Abel Aníbal», «Crónica da Alta» e «Dia Aziago».
1889 OUTUBRO
Frequenta novamente o 4.° ano de Direito.
Reescreve o poema «Lúbrica», intitulando-o «Desejos».
DEZEMBRO
Reside na Rua do Marco da Feira, n.º 2 em Coimbra.
Passa o Natal em Coimbra.
25 DE DEZEMBRO
Redige uma «Crónica da Alta».
Convive intensamente com Alberto Osório de Castro, seu colega de Direito e director do periódico de Mangualde O Novo Tempo. Nele publica os textos «Crónica da Alta», assinada com as iniciais C. de M., «Crepuscular», «Crónica da Alta» e «Interrogação».
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1890 10 DE JANEIRO
Critica severamente o sistema de ensino português: «Cá estamos, pois então? Para nos formarmos, para sermos homens. Sim: que para sermos homens, quer dizer humanos, é preciso antes de mais nada, sequestrarem-nos do nosso meio, da nossa família, da nossa terra; é preciso remover quanto possa suavizar o trabalho, fazer-nos amar o trabalho; preservarem-nos das bênçãos dos nossos pais e dos beijos dos nossos irmãos mais novos; — de tudo isso que podia insinuar nas nossas organizações de futuros esteios da pátria o condenável, o deletério sentimento do amor. [...] Sim: cretinos, todos nós. Cretinizados pelo medo à palmatória e pelo medo ao lente. Cretinizados por um livro abominável em que pretenderam ensinar- nos a ler, e depois pelo trabalho deprimente de decorar os compêndios à pressa, no fim do ano, para ficarmos distintos nos exames.»
27 DE JANEIRO
Em carta a Alberto Osório de Castro, afirma: «Nós ficamos, nós ficaremos para pagarmos o nosso tributo de sangue. Vamos ao enterro do nosso condiscípulo como temos ido ao enterro das nossas ilusões. A nossa caravana tem deixado sepultadas à beira da estrada até as nossas consolações mais tristes, até os nossos sonhos de morte.»
29 DE JULHO
Conclui o 4.° ano de Direito em Coimbra, permanecendo nesta cidade durante as férias grandes.
OUTUBRO
Matricula-se no 5.° ano de Direito. Começa a trabalhar no foro.
Continua a residir na Rua do Marco da Feira, n.º 2, em Coimbra.
Sensivelmente por este ano, é profundamente influenciado por Verlaine, depois do encontro com a poesia de João de Deus e de Frei Agostinho da Cruz, poetas que o acompanharam na adolescência. Colabora no jornal do Porto Intermezzo – «Ó Madalena, Ó Cabelos de Rastos») e em O Novo Tempo, de Mangualde, com várias crónicas, contos e um poema.
1891 17 DE ABRIL
Na qualidade de finalista de Direito, defende duas causas em tribunal.
16 DE JUNHO
Forma-se em Direito.
JUNHO
Vai para Tábua-Pereira, onde permanece pelo menos um mês. Desta povoação, em carta a Alberto Osório de Castro, afirma: «[...] E não conte comigo em matérias literárias. O meu cérebro está sem consistência para formar um verso próprio, ou reunir sequer as sílabas de algum verso alheio.»
AGOSTO
Pondera a hipótese de ir trabalhar para África, numa das colónias portuguesas.
SETEMBRO
Toma posse do cargo de sub-delegado do Procurador Régio de Mirandela.
OUTUBRO
Entra em colisão violenta com o Juiz de Mirandela, Abílio Adriano de Sá, e com o administrador do concelho, membros activos do Partido Regenerador, suspeitos de estarem envolvidos numa agressão a um membro do Partido Progressista.
16 DE NOVEMBRO
O pai é transferido para Lamego.
19 DE DEZEMBRO
O jornal de Coimbra Gazeta Nacional anuncia que será publicada na edição seguinte «uma composição literária» sua. Infelizmente, o número de 22 de Dezembro não existe nas colecções existentes na Biblioteca Municipal de Coimbra, na Biblioteca da Universidade de Coimbra, na Biblioteca Nacional de Portugal, bem como no Porto e em Braga.
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1892 JANEIRO
Encontra-se em Lamego.
Concorre a um lugar de magistrado em Ovar.
PRIMEIRO SEMESTRE
Pretende exercer em Timor.
AGOSTO
Encontra-se de férias em Lamego.
28 DE AGOSTO
De Lamego, escreve a Alberto Osório de Castro, insurgindo-se contra o meio que o rodeia: «E depois as comoções violentas até absorverem o dia, da política, empenhada e convulsionada, braço a braço, em uma terra selvagem. A indignação por causa do Juiz, que pronunciou um dos quarenta sem fiança para o inutilizar na eleição de Janeiro. E as apelações e os agravos, e as denúncias e as sindicâncias, e todos os roubos e todas as violações, e as testemunhas que juram falso, e os assassinos e os engajadores, e todo aquele horizonte, desolado de estevais e montes maninhos, onde raro é o dia que não é morto algum homem, à foiçada, debaixo do sol rútilo.» A terminar, afirma: «Não lhe tenho escrito, em parte, para não o melindrar com uma carta tão lógica e tão grosseira como esta vai. Porque eu bem vejo que sou esta carta, minha alma.»
OUTUBRO
Põe a hipótese de ir exercer para Damão.
FINAIS DO ANO
Pede transferência para Óbidos, onde trabalha com Alberto Osório de Castro, Juiz municipal.
Data deste ano, de Óbidos, a composição do poema «Paisagens de Inverno», dedicado àquele seu Amigo.
1893 9 DE AGOSTO
Encontra-se extremamente deprimido, de acordo com a carta que dirige a seu primo, José Benedito: « Peço-te desculpa de há mais tempo não ter escrito, quando nas cartas para a tia tanto te interessavas pela minha sorte: – o que há-de ser do Camilo? Não é ingratidão, bem o sabes, mas esta tristeza que me vem das pequeninas misérias, das restrições deprimentes da vida, e da minha própria fraqueza, que me condena a um isolamento, em que por mim próprio me vou afundando sem remédio, não respondendo sequer às cartas dos amigos.» Confessa ainda: «Tenho sempre o coração em sobressalto por meu irmão Francisco.»
19 DE AGOSTO
É aberto o concurso para leccionar em Macau. Concorrem 39 professores.
É seleccionado, tal como os seus futuros amigos, Wenceslau de Moraes, João Vasco e Horácio Poiares.
NOVEMBRO
Encontra-se em Óbidos.
DEZEMBRO
Trabalha com o magistrado João Baptista de Castro, pai de Alberto Osório de Castro e de Ana de Castro Osório.
José Horta e Costa, fundador do Liceu de Macau, e José de Azevedo informam-no de que teria sido, de certeza, nomeado para aquele estabelecimento de ensino se não tivesse estado presente numa reunião do Partido Progressista.
Neste ano, compõe a «Canção da Partida», que apresenta um cunho marcadamente autobiográfico; Carlos de Lemos dedica-lhe um poema do seu livro Miragens.
Pede em casamento Ana de Castro Osório, que recusa por já estar comprometida. O desgosto é uma das razões que o faz partir para Macau, no ano seguinte.
16 DE DEZEMBRO
Encontra-se em Lisboa.
18 DE DEZEMBRO
Nomeado para exercer o cargo de professor da 8.ª cadeira, Filosofia Elementar, do Liceu Nacional de Macau.
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* Publicada em A imagem e o verbo : fotobiografia de Camilo Pessanha. Macau: ICM: IPO, 2005 e em Espólio de Camilo Pessanha : inventário. Lisboa: BNP, 2008, p. 85-143.
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