Autor do mais importante
documento presencial do descobrimento do Brasil, Pero
Vaz de Caminha na sua Carta
conta-nos, como afirma M. Viegas Guerreiro, «o pouco que sabemos
da viagem de Cabral de Lisboa a Porto Seguro, para, depois, se entregar
a minucioso relato de quanto se passou em cada um dos dias - e foram
nove - que a frota aí permaneceu.
Adquire, assim, a carta a forma de diário e, por isso, se retomam
necessariamente os assuntos, não se repetindo, porém,
tanto os pormenores que enfadem, sempre vistos à luz de um
outro dia e acrescidos de novas ocorrências. (...) Vai a sua
atenção, sobretudo, para o índio tupiniquim do
litoral brasileiro. Só uma décima parte da narrativa,
no cômputo de alguns, lhe não é destinada. O estudioso
de Etnografia poderia organizar, com os dados dispersamente registados,
um quase completo esboço monográfico, com um plano como
este:
I - A Terra: morfologia, situação, clima, flora e fauna.
II - O Homem: caracteres físicos e indumentária (adornos).
III - Economia: recolecção, utensílios, embarcações.
IV - Alimentação.
V - A casa.
VI - A sociedade.
VII - As crenças.
VIII - As artes (música, dança, entrançados de
penas).
IX - Caracteres psíquicos.
X - Conclusão (com esta terra e gente que se poderá
fazer)».
(in Carta a el-rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil (1 de
Maio de 1500), Lisboa, 1974).
Já Jaime Cortesão na sua edição da Carta
de Pero Vaz de Caminha, em 1943, salienta no Capítulo V:
«Se a Carta nos permite chegar à identificação
do litoral brasileiro, visitado pela armada de Cabral; do Porto Seguro
onde ancoraram; do ilhéu; do rio e do lugar onde foi plantada
a Cruz, mais importantes são os dados que fornece como revelação
do conhecimento dum Novo Mundo (...) Na terra nova, recoberta de selvas
de incontáveis prumagens, onde tumultuavam aves nunca
vistas, Caminha e os seus companheiros contemplaram com pasmo um homem
novo. E essa foi para eles a maior e mais impressionante das novidades!» |
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