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A polémica do achamento
«À volta da primazia de Cabral no descobrimento da terra que se chamou "Vera Cruz", tem-se estabelecido vasta polémica, continuando ainda por esclarecer as condições reais em que os portugueses alcançaram as terras brasileiras».
Jaime Cortesão ao defender a tese de que os portugueses tinham conhecimento anterior da existência do Brasil apoia-se em vários argumentos entre os quais o da descoberta ter sido realizada pelo cosmógrafo Duarte Pacheco Pereira que no seu Esmeraldo de situ orbis diz que D. Manuel I o «mandou descobrir a parte ocidental, passando além da grandeza do mar oceano, onde é achada e navegada uma tão grande terra firme», e o da carta que Mestre João enviou ao rei D. Manuel do Brasil em 1 de Maio de 1500, onde diz: «... mande vossa alteza trazer um mapa-múndi que tem Pêro Vaz Bisagudo e por aí poderá ver vossa alteza o sítio desta terra...» Jaime Cortesão defende assim «que o Brasil foi conhecido pelos portugueses não apenas antes de 1500 mas antes do Tratado de Tordesilhas, explicando a pouca informação existente pela política do sigilo seguida por Portugal» (cf. Descobrimento do Brasil, in Dicionário de História dos descobrimentos portugueses, vol. I).

Embora se saiba hoje que os portugueses conheciam suficientemente o regime dos ventos e as correntes do Atlântico Sul, tanto a hipótese da casualidade como a da intencionalidade da descoberta ainda têm defensores, uma vez que não se encontrou, até à data, nenhum documento suficientemente esclarecedor.

No entanto, seguindo Jorge Couto, «a investigação desenvolvida nas últimas décadas pelo almirante Max Justo Guedes no sentido de interpretar os textos quinhentistas à luz dos condicionalismos físicos do Atlântico Sul (...) conferiu bases significativamente mais sólidas à tese da intencionalidade do descobrimento do Brasil. Em síntese, as variáveis geopolíticas, diplomáticas, económicas e técnicas referidas apontam incisivamente no sentido de que o «afastamento da frota para Ocidente estaria no plano imperial da Coroa», pelo que Cabral terá recebido instruções reservadas de D. Manuel I para, no decurso da sua viagem para o Índico, explorar a região oeste do Atlântico Sul com o objectivo de encontrar o prolongamento austral do continente visitado por Colombo, Caboto e Duarte Pacheco, a fim de aí estabelecer uma escala destinada a apoiar o funcionamento da rota do Cabo» (cf. A expedição cabralina: casualidade versus intencionalidade, in Oceanos, nº 39, Jul.- Set. 1999).

Na expressão de Romero de Magalhães, «referir a descoberta do Brasil em 22 de Abril de 1500 é um anacronismo. Aceitável, mas nem por isso menos anacronismo. O Brasil não existia aquando da chegada das naus de Pedro Álvares Cabral a uma terra que foi designada por Vera Cruz. Essa descoberta não foi de imediato tida como especialmente relevante. Podia tratar-se de uma Ilha (assim o julgou Pêro Vaz de Caminha) mais uma, entre muitas do Oceano Atlântico. Importante foi depois de 1501 reconhecer-se a ampla costa e chegar-se à conclusão de que se estava num Novo Continente. As concepções dos antigos (nomeadamente as de Ptolomeu então dominantes) estavam definitivamente afastadas. Esse progresso no conhecimento do Mundo foi fundamental para a Humanidade» (in Centros Históricos, nº 2 - 2ª Série Jan. - Março 2000).
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