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Quem eram os povos ameríndios
É conhecido o equívoco que esteve na origem do termo «índios», desde a viagem de Cristóvão Colombo, em 1492, ao atingir as Antilhas , convencido que tinha alcançado a Índia. Mas equívoco, ou não, já quando Colombo se encontrou com os primeiros selvagens das terras que acabara de descobrir, descreveu-os de modo muito semelhante ao de Pero Vaz de Caminha, sentindo que tinha encontrado o «Paraíso Terrestre», «(...) andan todos desnudos como su madre los parió, y también las mugeres, aunque no vide más de una afrto moça, y todos los que yo vi eran todos mançebos, que ninguno vide de edad de más de XXX anos, muy bien hechos, de muy fermosos cuerpos e muy buenas caras, los cabellos gruessos cuasi como sedas de cola de cavallos e cortos. (...) Ellos todos a una mano son de buena estatura de grandeza y buenos gestos, bien hechos.» (cf. Cristóvão Colombo, Textos e Documentos completos, Madrid, 1982, p. 30-31).

O problema da origem dos habitantes do continente americano tem sido um tema polémico desde as primeiras descrições desses povos. Já numa obra do século XVI, de 1576, um humanista lusitano, Pero de Magalhães de Gândavo sugeria que os «brasis» tinham origem asiática, comparando as suas fisionomias com a dos chineses, «(...) estes índios são de cor baça e cabelo corredio: têm o rosto amassado e algumas feições dele à maneira de chins...» (in História da Provincia de Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil, Lisboa, 1576).

Muitos milénios antes deste contacto dos Espanhóis e dos Portugueses com os povos ameríndios, o continente americano já estava habitado. As datas das ocupações mais antigas, as rotas e condições de migração e a proveniência das populações são ainda sujeitas a controvérsia. Pode-se, no entanto, afirmar que o homem ameríndio não é autóctone; no território brasileiro, como no resto do continente americano, não há nenhum indício de formas anatomicamente anteriores ao Homo Sapiens aparecido no Velho Continente.

Os «senhores da Terra» que as tripulações cabralinas avistaram no trecho da Terra de Vera Cruz eram os Tupiniquin, grupo tribal pertencente ao ramo Tupi da grande família Tupi-Guarani. Esta será segundo a maioria das teses, originária da Amazónia.

O padre Fernão Cardim menciona, num dos seus Tratados a existência de muitos e variados povos indígenas. «Em toda esta província há muitas e varias nações de diferentes línguas, porém uma é a principal que compreende dez nações de Índios: estes vivem na costa do mar, e em uma grande corda do sertão, porém são todos estes de uma só língua ainda que em algumas palavras discrepam e esta é a que entendem os Portugueses; é fácil, e elegante, e suave e copiosa, a dificuldade dela está em ter muitas composições...» (in Tratado da terra e gente do Brasil, Lisboa, CNCDP, 1997, p. 192-207).

Segundo uma proposta de reconstrução das migrações da família Tupi-Guarani, uma das sete que constituía o tronco linguístico Macro-Tupi, o grande processo de expansão dessa família terá ocorrido há cerca de 2500 anos, numa área situada entre os rios Madeira e Xingu, na margem direita do Amazonas (cf. Jorge Couto e Max Justo Guedes, O Descobrimento do Brasil, Lisboa, CNCDP, 1998, p. 19-21).

Crescimento demográfico e episódicos surtos de desertificação terão impelido os Tupi-Guarani a procurar nichos ecológicos mais favoráveis, e através dos cursos dos rios Madeira e Guaporé, terão chegado, por volta do início da presente Era, às bacias do sistema fluvial Paraguai-Uruguai, de onde terão irradiado para Leste, dividindo-se em dois ramos, os Tupi e os Guarani, e mais tarde em vários subgrupos.

Em 1500, os Tupi ocupavam a larga maioria da costa entre o Ceará e a Cananeia, actual São Paulo, e os Guarani, estabelecidos exclusivamente a sul do Trópico de Capricórnio, dominavam o litorial situado entre Cananeia e a Lagoa dos Patos (Rio Grande do Sul), além de importantes regiões no sertão.

Estas sociedades eram semi-sedentárias, ou seja, comunidades de horticultores-caçadores-recolectores-pescadores que baseavam o seu modo de subsistência no cultivo intensivo de raízes, sobretudo da mandioca, sem recurso à utilização do arado ou de adubos que são característicos da agricultura sedentária, na caça, na pesca, na colecta de animais, vegetais e matérias-primas, adoptando um padrão cultural que é designado de «cultura da floresta tropical».

Adoptaram normalmente padrões de estabelecimento modestos, construindo núcleos pequenos e dispersos, que eram condicionados pelas condições de subsistência e, na medida em que, a permanência das populações num local era temporária, cerca de três a quatro anos, a precaridade da instalação determinava, naturalmente, o tipo de materiais utilizados na edificação das habitações, como a madeira, cipós e folhas de árvore para as coberturas.

Nas sociedades ameríndias vigorava além da divisão etária, a divisão sexual do trabalho, em que os homens executavam tarefas que implicavam esforço intenso, assim como actividades arriscadas. Às mulheres competiam os trabalhos produtivos, de recolecção, domésticos e de apoio nas expedições guerreiras terrestres ou marítimas. Estavam organizados em famílias extensas, constituídas por famílias nucleares ligadas entre si por laços de parentesco e subordinadas ao patriarca da oca: o murubixaba, o principal.

A nível familiar os Ameríndios admitiam e praticavam a poligamia, ainda que só um reduzido número de indivíduos, sobretudo os mais importantes de cada taba, como o chefe, o feiticeiro e os grandes guerreiros, é que dispunham de várias mulheres, que era um sinal de prestígio. O casamento podia ser endogâmico ou exogâmico, conforme era realizado entre membros da mesma aldeia ou de povoações diferentes.

Nas sociedades Tupi-Guarani, o complexo guerra-vingança-antropofagia desempenhava um papel fundamental, sendo a guerra a sua instituição fundamental, mas sendo a antropofagia uma prática corrente entre os Ameríndios. Esta prática era, em termos antropológicos, parte indissociável da guerra endémica entre grupos tupi e uma prática corrente de algumas sociedades ameríndias, particularmente junto dos potiguares, caetés, tupinambás, tupiniquins e tamoios.

Considerou-se, durante anos, que os povos ameríndios não acreditavam em deuses, mas segundo o testemunho dos cronistas e viajantes quinhentistas e seiscentistas, sabe-se que existia um sistema de crenças e não uma religião organizada segundo os parâmetros conhecidos.

A visão cosmológica dos Tupi-Guarani não atribuía a formação do Universo a um ser supremo, concebendo esse processo como resultante de sucessivas acções parciais e incompletas. Acreditavam ainda em vários seres sobrenaturais, demónios, génios da floresta, espíritos que habitavam os bosques, os lugares escuros, além dos que habitavam a água. Entre as várias crenças, os caraíbas falavam nas suas andanças na «terra-sem-mal», que era um lugar de abundância, de ausência de labuta, da imortalidade, mas sobretudo da guerra e do canibalismo. Era o paraíso para os heróis, os guerreiros que se notabilizaram em façanhas guerreiras. Um paraíso terrestre, um lugar de abundância, onde não era preciso trabalhar, onde a juventude era eterna e onde existia a imortalidade. E, já durante a colonização era a procura de uma terra onde não fossem escravizados e dominados pelos europeus. Os Tupi-Guarani fugiam das epidemias, das doenças e da escravização.
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