Sophia
de Mello
Breyner
Andresen
anos 30
Sophia,
com a mãe
Início Introdução 1920 1930 1940 1950 1960 1970 1980 1990 2000 Bibliografia e Prémios

Comecei a tentar escrever com doze anos. Depois aos catorze escrevi mais e a partir daí fui sempre escrevendo. Aí entre os 16 e os 23 escrevi mais do que em todo o resto da minha vida. Tenho imensa coisa por publicar dessa época.

outros poemas:Noite de AbrilMeio-dia

JCV Os poemas mais antigos são...
De quando tinha para aí 14 anos. Logo do princípio.

JVC Os primeiros versos incluídos na «Poesia» escreveu-os apenas com 14 anos!?
Sim, alguns, só dois ou três. Às vezes eram poemas muito mais compridos e que eu cortava, cortava, até ficarem três ou quatro versos. Mesmo no «Dia do Mar» há um poema que era muito longo e que ficou reduzido a dois versos. Chama-se «Evohé Bakhos».

MAP Há dois dos seus primeiros poemas intitulados, um, «Homens à beira-mar», outro, «Mulheres à beira-mar». As mulheres «têm o corpo feliz de ser tão seu» e «a boca colada ao horizonte». Os homens «nada trazem consigo» e os horizontes são-lhes longínquos e o seu corpo «é só um nó de frio»...
Esses poemas têm a ver com as manhãs da Granja, com as manhãs da praia. E também com um quadro de Picasso. Há um quadro de Picasso chamado «Mulheres à beira-mar». Ninguém dirá que a pintura do Picasso e a poesia de Lorca tenham tido uma enorme influência na minha poesia, sobretudo na época do Coral... E uma das influências do Picasso em mim foi levar-me a deslocar as imagens. Quanto ao mais, eu penso que há uma diferença entre o homem e a mulher, e os feminismos não podem... Para mim o machismo não é considerar que há uma diferença entre o homem e a mulher, o machismo é tentar fazer um negócio dessa diferença...
continua...

Excerto de uma entrevista de Sophia
Excerto de uma entrevista
de Sophia
Manuscrito do poema  O Vidente dedicado  a Ruy Cinatti
Manuscrito do poema
O Vidente
dedicado
a Ruy Cinatti
Poema O Vidente
Poema O Vidente
 

Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.

in Poesia, 1944

1938 Inscreve-se no curso de Filologia
Clássica da Universidade de Lisboa,
que não viria a concluir
  1939 Conhece a pianista Helena Santos Costa   Conhece Ruy Cinatti, que referencia com entusiasmo em cartas à Mãe e sobre quem escreve o poema «O Vidente»
LEGENDA Fotografias: Colecção Família de Sophia de Mello Breyner Andresen
Manuscritos: Espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen
Entrevistas: MAP - Maria Armanda Passos
JCV - José Carlos de Vasconcelos
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