Sophia
de Mello
Breyner
Andresen
anos 70
25 de Abril
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1º de Maio de 1974
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25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
o dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

in O Nome das Coisas, 1977

outros poemas: Revolução

JCV Mais tarde chega a liberdade com o 25 de Abril. O que foi o 25 de Abril para si?
Um deslumbramento, uma festa.

JCV «Esta é a madrugada que eu esperava», «Este é o primeiro dia/ inteiro e puro», escreveu Sophia em poemas que me lembro de ter tido o gosto de ler no original e publicar no «Diário de Notícias».
Foi. Foi uma época inesquecível. Eu dizia que a poesia estava na rua. O 25 de Abril trouxe coisas óptimas no plano político, mas no plano cultural não. A demagogia, o consumismo, a pressa, as propagandas e muitas vezes a TV têm sido forças anticulturais. (...)

MAP A frase «a poesia está na rua» surge numa poesia sua dedicada «aos militantes do PS», partido em que esteve integrada. É sua esta frase que mais tarde inspira os cartazes da Vieira da Silva mas que desfila já com a multidão no 1.º de Maio de 74?
Antes do 1.º de Maio houve uma reunião na Associação de Escritores para preparar a manifestação e as frases para o desfile. Eu lembro-me de ter sugerido várias e uma delas «a poesia está na rua». Outras surgiram. «Ouvir África», por exemplo, levada pelo Luandino Vieira. Era antes da descolonização e infelizmente não foi seguida porque muitos dos erros da descolonização, parece-me, se deveram a não ouvir bastante. Muita coisa se fez em que, para se fazer melhor, se devia ter ouvido antes e muito. Aliás pouco tempo depois, numa circunstância pública, eu disse que a 25 de Abril a poesia estava na rua mas tinha sido rapidamente empurrada para dentro de casa.

MAP O 25 de Abril surge no entanto nos seus poemas como um momento de profunda euforia. Vai ser enfim possível «a festa do terrestre na nudez da alegria que nos veste», através de uma nova limpeza. Limpeza que, como a de Lagos, suscita «a nostalgia de um projecto racional limpo e poético». Projecto político e projecto poético coincidem?
No 25 de Abril há um momento poético extraordinário. Hoje em dia nós olhamos para trás e perguntamos a nós próprios se foi a nossa sede de uma ilusão que criou uma espécie de fantasmagoria. Mas não há dúvida de que eu me lembro uma cidade de Lisboa sem nenhuma polícia, sem nenhuma violência. Lembro-me da cidade de Lisboa onde todas as pessoas que encontrávamos sorriam, lembro-me de ver passar pequenos grupos de gente nova no Rossio que pareciam pequenos bandos de bailarinos ou gaivotas, e atravessavam de um lado ao outro da praça. Lembro-me de bandeiras que dançavam em cima da cabeça das pessoas e das expressões e dos gestos e das vozes. E tudo isso era um tão bonito e extraordinário momento poético e como que uma ilha noutro planeta... Talvez tivesse havido um momento em que, imagino, algo para toda a gente estava para além da política e que depois a política destroçou, a política tradicional. Creio que houve um estado de graça. Mas depois o pecado do poder destruiu esse estado de graça.

EPC A sua experiência concreta depois do 25 de Abril? Acha que foi positivo, que valeu a pena?
O 25 de Abril foi dos momentos de máxima alegria da minha vida. Foram dias que vivi em estado de levitação. Isso aliás aconteceu a muita gente. E está dito no poema que escrevi: «Esta é a madrugada que eu esperava/ O dia inicial inteiro e limpo/ Em que emergimos da noite e do silêncio/ E vivos habitamos a substância do tempo».
De facto fiquei em êxtase e foi como eu vivi. Mas ao mesmo tempo foi uma ocasião perdida, de uma maneira terrível, talvez porque não está na natureza das coisas cumprir aquilo que o 25 de Abril prometia... É um pouco como a adolescência que tem em si imensas possibilidades que depois se vão malogrando.
Há no entanto uma conquista positiva: estamos num estado democrático – não há prisões políticas, não temos colónias, não somos um povo colonizador, somos um povo que ajudou a criar liberdades e independências. Apesar de tudo, há um serviço de saúde melhor. Há outra atitude. Mas houve uma possibilidade de criar um tipo de sociedade diferente que não foi possível, mas também porque ninguém quis, ou muito pouca gente quis...
continua...


a poesia está na rua
Cartaz pintado por Vieira da Silva,  com a frase «a poesia está na rua»
Cartaz pintado por Vieira da Silva,
com a frase «a poesia está na rua»
 

Revolução — Descobrimento

Revolução isto é: descobrimento
Mundo recomeçado a partir da praia pura
Como poema a partir da página em branco
— Katharsis emergir verdade exposta
Tempo terrestre a perguntar seu rosto

in O Nome das Coisas, 1977

 
Liberdade

O poema é
A liberdade

Um poema não se programa
Porém a disciplina
— Sílaba por sílaba —
O acompanha

Sílaba por silaba
O poema emerge
— Como se os deuses o dessem
O fazemos

in O Nome das Coisas, 1977

Manuscrito das poesias 25 de Abril e Revolução
Manuscrito das poesias 25 de Abril e Revolução
Intervenção de Sophia na Assembleia Constituinte.
Intervenção de Sophia na Assembleia Constituinte.
Resposta de Sophia a um inquérito do Jornal Expresso  sobre arte e cultura.
Resposta de Sophia a um inquérito do Jornal Expresso
sobre arte e cultura.
Artigo no jornal Portugal Socialista.
Artigo no jornal Portugal Socialista.
Discurso Sophia
Parte de uma intervenção feita por Sophia na campanha da CEUD.
1970 Traduz Quatre Poètes Portugais (Camões, Cesário Verde, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa), a pedido da Fundação Gulbenkian.
Partitura Partitura da autoria de Fernando Lopes Graça para o poema Pátria. Janeiro 1971
Cartaz Liberdade, 25 de Abril 74 Cartaz de Vieira da Silva, 1984
Imagem da obra 1970 Publica Grades [Antologia de Poemas de Resistência] Imagem da obra 1971 É publicado o livro 11 Poemas
LEGENDA Fotografias: Colecção Família de Sophia de Mello Breyner Andresen
Manuscritos: Espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen
Entrevistas: EPC - Eduardo Prado Coelho
JCV - José Carlos de Vasconcelos
MAP - Maria Armanda Passos
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