Sophia
de Mello
Breyner
Andresen

anos 80
Viagens
O desencanto com a política
Sophia em Nova Iorque, fotografada por Pepe Diniz, 1991.
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VI

Navegavam sem o mapa que faziam

(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Trémula a bússola tacteava espaços

Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente

1979
In Navegações, 1983

outros poemas: Descobrimento

MSP «Navegavam sem o mapa que faziam» é um dos versos mais assombrosos de toda a poesia que tenho lido. Aparece em Navegações, o último livro de poemas publicado até ao momento por Sophia, no ano de 1983. Hoje, ela está de acordo em caracterizar pelo dizer desse verso o movimento essencial da sua escrita.
Há coisas em que uma pessoa navega tacteando. Houve uma fase em que reflecti muito sobre a natureza da escrita. Agora não me interrogo muito sobre o modo, o quê e o como do que escrevo. Vou navegando. Vou encontrando, vou dizendo o que surge e o que faço. Sem dúvida, a palavra é uma forma de não se ser devorado pelo caos, pela confusão, pela contradição e o tumulto, apesar de ter um pacto com tudo isso e de sem isso não atingir a sua plenitude.

EPC Já agora, uma pergunta que encaixa bem aqui. Escreve, regularmente, isto é, procura ter um hábito de escrever, ou escreve por ciclos de obsessões?
Escrevo bastante irregularmente. Às vezes por ciclos de obsessões. Por exemplo, as Navegações foram escritas em duas tiradas, a primeira quando fui a Macau, a outra um ou dois anos depois, já não me lembro bem. Em geral há certos temas que começam a formar-se, mas fora disso, fora de certos ciclos como o das Navegações (que é bastante raro), normalmente escrevo de maneira muito irregular.
(…) A única vez que uma viagem de avião me deu a sensação de navegação foi quando fui a Macau. No avião uma pessoa é empacotada de um lado para o outro. Mas nessa viagem muito comprida, eu lembro-me de, depois de passarmos por cima do deserto e vermos aqueles poços de petróleo a arder, descermos na Arábia com imenso calor, – especialmente para mim que vinha de Londres... – de repente ter a sensação da «navegação».
E escrevi as Navegações por causa disso e um pouco porque quando eu ia no avião e de madrugada ouvi aquelas vozes celestiais que há nos aviões dizerem: «Estamos a sobrevoar a costa do Vietname». E eu fui para o andar de cima (o avião tinha dois andares), espreitei e estava uma madrugada radiosa: era a entrada na Ásia! Um céu azul com umas nuvens que depois aparecem no poema descritas como as «garças», eram nuvens «esgarçadas». Via-se a costa do Vietname, uma costa de verdura espessa com uma longa praia a bordar a verdura e depois no mar havia três ilhas de coral azul. O azul das ilhas, quase roxo, depois a laguna azul mais claro, depois o azul do mar e o azul do céu; tinha-se a impressão de que as ilhas eram os olhos azuis do mar... Era uma beleza inacreditável e eu pensei «O que terá sido chegar aqui desprevenido?» – quer dizer, dobrar um cabo, e não se sabe se do outro lado está um abismo, um deserto ou uma ilha paradisíaca.
continua...

Dois perfis: Sophia em Berlim, contemplando uma escultura grega, 12 Dezembro 1988
Dois perfis: Sophia em Berlim, contemplando uma escultura grega, 12 Dezembro 1988
 
Sophia com poeta Conceição Lima em São Tomé
Sophia com poeta Conceição Lima em São Tomé
Sophia com seu filho Xavier, no Algarve. Anos 80
Sophia com seu filho Xavier, no Algarve. Anos 80
Sophia com a filha Isabel, na praia da Granja. 1985
Sophia com a filha Isabel, na praia da Granja. 1985
Sophia com a filha Sofia, em Nova Iorque. Fotografia de Pepe Diniz, 1991
Sophia com a filha Sofia, em Nova Iorque. Fotografia de Pepe Diniz, 1991
Sophia na Grécia com a pintora Graça Morais, 1988
Sophia na Grécia com a pintora Graça Morais, 1988
Imagem da obra 1980 Edição especial de Méditerranée, com duas serigrafias de Vieira da Silva Imagem da obra 1983 Publica Navegações, com um disco gravado pela Autora
LEGENDA Fotografias: Colecção Família de Sophia de Mello Breyner Andresen
Manuscritos: Espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen
Entrevistas: EPC - Eduardo Prado Coelho
MSP - Miguel Serras Pereira
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