Sophia
de Mello
Breyner
Andresen
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O espólio de Sophia na BNP
A realização deste site acompanhou a chegada à Biblioteca Nacional de Portugal do Espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen, doado pela família. A sua criação foi o ponto culminante de um trabalho de três anos sobre o conteúdo deste Espólio, realizado por uma equipa constituída por Maria Luísa Sarsfield Cabral, Manuela Vasconcelos, arquivista da Biblioteca, e por mim própria como coordenadora. Coube-nos ler e identificar cada documento que o constitui e proceder à sua pré-classificação.
 

O espólio de Sophia veio da sua casa na Travessa das Mónicas, em Lisboa; veio dos grandes armários, com portas de vidro, onde ela fechava à chave tudo o que não queria destruir, armários que no fim da vida estavam cheios como um ovo.

O espólio de Sophia traz, naturalmente, as marcas da vida, com todos os seus acidentes biográficos. São cadernos e folhas soltas com rascunhos e diferentes versões de vários tipos de textos, esboços de projectos, traduções; são cartas, agendas cheias de notas sobre afazeres do dia-a-dia (números de telefone, receitas de cozinha, contas domésticas), diários de viagem, desenhos, recortes de jornais com depoimentos e entrevistas, fotografias; são impressos que documentam gestos de solidariedade e envolvimento cívico e político. Mas, para além de tudo isto, o espólio traz a marca vincada daquela procura obstinada da palavra «exacta», como ela própria dizia, que no poema encontrou a sua forma mais resistente e secreta, mais clara e eficaz. Traz o rasto e a história da sua tentativa. Encontramo-la na quantidade de manuscritos sem título, não datados, em muitos casos com a aparência de fragmentos de outros textos maiores; nas várias versões de poemas que viríamos a conhecer publicados; nos cortes, hesitações, emendas; nas versões autógrafas dos cinco textos chamados «Arte Poética», numerados de I a V; nas inúmeras versões de alguns poemas editados, no interessante acervo de poesia inédita. E encontramo-la, magnificamente, na evolução da própria letra escrita, no seu desenho, nos sinais de pressa ou de vagar, de impaciência, na mancha da tinta; no modo como o tempo foi transformando a caligrafia, como foi alterando os nn, os aa, a ponto de, a partir dessas marcas, podermos datar os papéis.

Há também o fruto de descobertas surpreendentes. Por exemplo, no fundo de um pequeno móvel, meio abandonado estavam, escondidos e alinhados, vários cadernos, os mais antigos cadernos de poemas. Dentro da ideia de que os desperdícios contam histórias, pode-se dizer que esta é uma das partes mais interessantes do espólio. Estes cadernos contêm escritos datados entre 1932 e 1941. Alguns já não têm capa, os poemas são escritos a lápis ou a tinta permanente; há passagens quase ilegíveis. Contêm os primeiros esboços de poemas, tentativas adolescentes que remontam aos 12, 13 anos. E contêm, em manuscrito, muitos dos poemas que viriam a ser publicados ao longo da vida.

Num destes primeiros cadernos, quase todo escrito a lápis e sem capa, encontramos, numa folha solta, dobrada, o primeiro poema escrito, assim referenciado por Sophia num outro manuscrito, muito posterior, presumivelmente do início dos anos 80:

O poema referido está intitulado «Primeira noite de Verão». No fim da folha, à direita,

Comecei a escrever numa noite de Primavera, uma incrível noite de vento leste e Junho. Nela o fervor do universo transbordava e eu não podia reter, cercar, conter – nem podia desfazer-me em noite, fundir-me na noite. (...)

A realização deste site foi-me solicitada pelo então Director da BNP, Dr. Jorge Couto. Nele procurei inscrever, através dos seus grandes momentos, o rasto de uma vida no tempo - grandes momentos que foram gestos, lugares, pessoas, vozes, acontecimentos. Para isso, criei uma narrativa assente na linha temporal, dividida em décadas e, dentro de cada uma destas décadas (anos 20, anos 30, anos 40 ...), procurei encontrar as grandes áreas que, ao meu olhar, a definem. Assim, temos: “a infância”, “a família” “as casas”, “os amigos”, “a política”, “as viagens”, etc, etc. Procurei ainda que esta narrativa soasse como uma autobiografia. Para isso busquei surpreender, numa multiplicidade de entrevistas e em outros textos, o modo como Sophia fala da sua vida na primeira pessoa.

Para além desta narrativa na primeira pessoa, existe no site uma zona documental onde podem ser encontrados registos muito interessantes: Sophia a dizer os próprios poemas, poemas e depoimentos de Sophia sobre outros poetas e amigos, poemas de outros poetas sobre Sophia (por exemplo de Alberto Lacerda), entre os quais alguns inéditos; excertos do filme de João César Monteiro sobre Sophia, retratos de Sophia feitos por vários artistas: Arpad Szenes, Menez, Júlio, Martins Correia, etc; obras de vários artistas plásticos ilustrando livros de Sophia; Sophia fotografada por grandes fotógrafos; depoimentos, etc.

Nada disto teria sido possível sem o riquíssimo acervo que constitui o seu espólio, sem o longo trabalho que juntou Manuela Vasconcelos, Luísa Sarsfield Cabral e eu própria; sem a minha memória que permitiu a rede de aproximações e sem a preciosa e cuidada colaboração de Cecília Matos, responsável pelo web design e tratamento de imagem.

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1919 e morreu em Lisboa a 2 de Julho de 2004.

Assinalando a sessão da entrega do Espólio à BNP, no dia 26 de Janeiro de 2011, foi inaugurada a Exposição «Sophia de Mello Breyner Andresen - Uma Vida de Poeta», comissariada por Paula Morão e Teresa Amado, e foi lançado o respectivo catálogo (Sophia de Mello Breyner Andresen - Uma Vida de Poeta, Caminho, 2011).

Maria Andresen S. Tavares

Fotografia retirada do filme Sophia de João César Monteiro
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