Sophia
de Mello
Breyner
Andresen
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O espólio de Sophia na BNP
Nos últimos dias de Novembro de 2010, o espólio de Sophia de Mello Breyner Andresen chegou à Biblioteca Nacional de Portugal, doado pela família. Veio de uma sala no Centro Nacional de Cultura onde Maria Andresen de Sousa Tavares leu e identificou cada documento e Manuela Vasconcelos, arquivista da Biblioteca Nacional de Portugal os classificou. Mas, mais remotamente, o espólio de Sophia veio da sua casa na Travessa das Mónicas, em Lisboa. Veio dos grandes armários, com portas de vidro, onde ela fechava à chave tudo o que não queria destruir; armários que no fim da vida estavam cheios como um ovo.

 

O espólio de Sophia traz, naturalmente, as marcas da vida, com todos os seus acidentes biográficos. São cadernos e folhas soltas com rascunhos e diferentes versões de vários tipos de textos, esboços de projectos, traduções; são cartas, agendas cheias de notas sobre afazeres do dia-a-dia (números de telefone, receitas de cozinha, contas domésticas), diários de viagem, desenhos, recortes de jornais com depoimentos e entrevistas, fotografias; são impressos que documentam gestos de solidariedade e envolvimento cívico e político. Mas, para além de tudo isto, o espólio traz a marca vincada daquela procura obstinada da palavra «exacta», como ela própria dizia, que no poema encontrou a sua forma mais resistente e secreta, mais clara e eficaz. Traz o rasto e a história da sua tentativa. Encontramo-la na quantidade de manuscritos sem título, não datados, em muitos casos com a aparência de fragmentos de outros textos maiores; nas várias versões de poemas que viríamos a conhecer publicados; nos cortes, hesitações, emendas; nas versões autógrafas dos cinco textos chamados «Arte Poética», numerados de I a V; nas inúmeras versões de alguns poemas editados, no interessante acervo de poesia inédita. E encontramo-la, magnificamente, na evolução da própria letra escrita, no seu desenho, nos sinais de pressa ou de vagar, de impaciência, na mancha da tinta; no modo como o tempo foi transformando a caligrafia, como foi alterando os nn, os aa, a ponto de, a partir dessas marcas, podermos datar os papéis.

Há também o fruto de descobertas surpreendentes. Por exemplo, no fundo de um pequeno móvel, meio abandonado estavam, escondidos e alinhados, vários cadernos, os mais antigos cadernos de poemas. Dentro da ideia de que os desperdícios contam histórias, pode-se dizer que esta é uma das partes mais interessantes do espólio. Estes cadernos contêm escritos datados entre 1932 e 1941. Alguns já não têm capa, os poemas são escritos a lápis ou a tinta permanente; há passagens quase ilegíveis. Contêm os primeiros esboços de poemas, tentativas adolescentes que remontam aos 12, 13 anos. E contêm, em manuscrito, muitos dos poemas que viriam a ser publicados ao longo da vida.

Num destes primeiros cadernos, quase todo escrito a lápis e sem capa, encontramos, numa folha solta, dobrada, o primeiro poema escrito, assim referenciado por Sophia num outro manuscrito, muito posterior, presumivelmente do início dos anos 80:

Comecei a escrever numa noite de Primavera, uma incrível noite de vento leste e Junho. Nela o fervor do universo transbordava e eu não podia reter, cercar, conter – nem podia desfazer-me em noite, fundir-me na noite. (...)

O poema referido está intitulado «Primeira noite de Verão». No fim da folha, à direita, está a indicação: «Porto, 9-V-1934»
Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto a 6 de Novembro de 1919 e morreu em Lisboa a 2 de Julho de 2004.

Assinalando a sessão da entrega do Espólio à BNP, no dia 26 de Janeiro de 2011, foi inaugurada a Exposição «Sophia de Mello Breyner Andresen - Uma Vida de Poeta», comissariada por Paula Morão e Teresa Amado.

Maria Andresen S. Tavares

Fotografia retirada do filme Sophia de João César Monteiro
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