Início Cesário Verde
Lugares e Figuras Ofícios e Letras Primícias Editoriais O poeta reconhecendo-se
Iconografia | Bibliografia
  Lugares e Figuras
A casa da Rua do Salitre, n.º 107
A casa da Rua do Salitre, n.º 107
A morte, em Maio de 1859, da segunda filha do casal, poucos meses após o nascimento do irmão Joaquim Tomás, incitou a família ao abandono do terceiro andar da Rua dos Fanqueiros n.º 9 que já havia sido alternativo à Rua da Padaria.

Em Maio de 1856 o cólera-morbus que grassava no Norte do país desde 1853, fazia as suas primeiras vítimas na capital, no pátio do Carrasco, em frente ao presídio do Limoeiro, habitado pelas famílias dos «presos pobres» que o abnegado rei D. Pedro V socorria.

Um estio abrasador arrastava a crise. Na Baixa lisboeta, na zona mais afectada, sobretudo as frequesias de Santa Justa e da Madalena, queimavam-se barricas de alcatrão na rua para purificar os ares dos miasmas pestíferos que iam alastrando, a Sul, até Setúbal e, a Norte, até Leiria.

A epidemia veio a provocar uma debandada geral dos lisboetas (clero, aristocracia, famílias com posses e comerciantes) para ares mais rústicos: «Que esta população, com um terror de lebre, / Fugiu da capital como da tempestade.»

Presídio do Limoeiro - Séc. XIX
Presídio do Limoeiro - Séc. XIX

A família Verde buscou refúgio na quinta de Linda-a-Pastora, com suas «eiras, prados e lezírias» batidos pela higiénica nortada, onde o chefe dela, dando largas a antigo gosto, desenvolvia a produção agrária, sobretudo frutícola.
Só em Novembro, uma vez garantida a saúde pública após a hecatombe em que haviam perecido cerca de 20.000 pessoas («rodavam sem cessar as seges dos enterros»), a família, acrescida da pequena Adelaide Eugénia, regressou a Lisboa.

 

Curta acalmia. Decorridos poucos meses uma epidemia de febre-amarela, latente desde o ano anterior na parte mercantil da cidade, forçava a um novo retiro no campo até a doença se encontrar controlada em Dezembro de 1857. Tais retiros instauraram na família o hábito daquele «salutar refúgio» que levaria Cesário a atribuir-se a condição de «provinciano» «Desde os calores de Maio, aos frios de Novembro» e Fernando Pessoa (pela voz de Alberto Caeiro) a descrevê-lo como «…um camponês / que andava preso em liberdade pela cidade» ou que «...andava na cidade como quem anda no campo» e «dava pelas coisas» como «quem olha para árvores».

Na Primavera de 1860 os Verde deixavam a freguesia da Madalena, instalando-se no primeiro andar do n.º 107 da Rua do Salitre, freguesia do Sagrado Coração de Jesus. Rodeado de quintais, à beira dos arvoredos do Passeio Público e com vista para a Praça da Alegria, as modernas condições de salubridade haviam atraído a família enlutada.   O Passeio Público já remodelado
O Passeio Público já remodelado

A permanência no local estendeu-se até 1877, ano em a mesma família Verde transitou para a Rua das Trinas do Mocambo, n.º 50, à Lapa, incitada pela proximidade da linha de carros eléctricos - os americanos - ligando a Alfandega à Rua dos Fanqueiros e pelo novo projecto camarário que se propunha intervir no Passeio Público.

Jaime Verde, nascido em 1863 de Gregório Eslebão Verde - outro tio paterno de Cesário e também ele comerciante ferrageiro -, teve por irmã Cristina Laura, a prima dilecta do poeta, seis anos mais nova, celebrada em De Verão, que se tornaria Viscondessa de Algés pelo casamento. Discípulo de Silva Porto e pintor ele próprio, Jaime residiu longamente em França, aonde terá convivido com o primo Jorge.

Edifício Sede do Diário de Notícias
Edifício Sede do Diário de Notícias
Em fins de Dezembro de 1864, Eduardo Coelho (dez anos antes caixeiro da firma da família Verde e compositor, em verso, de O Livrinho dos Caixeiros), fundava, de parceria com o tipógrafo Tomás Quintino Antunes, o Diário de Notícias, próspero jornal de anúncios da Rua dos Calafates do qual ele era redactor-chefe. Nove anos mais tarde viria a ser, naquela folha, a estreia literária de Cesário, filho do antigo patrão que sempre havia reprovado, ao antigo subordinado, o seu apego aos livros.

Único proprietário da quinta de Linda-a-Pastora - por herança paterna e do tio João Baptista – e então único proprietário da loja de família, José Anastácio constituíra uma firma de exportação para a Europa industrial de inóspitas paisagens com «montes de escórias» e «cidades fabris» «poeiradas de hulha».

Dez caixas de uvas despachadas para Londres em Agosto de 1874 talvez tenham constituído o arranque da empresa e compelido Cesário a iniciar-se nos circuitos da Alfandega e na faina dos embarques.

Outros produtos agrícolas, como as cebolas, as laranjas, os marmelos, a «uva prematura» e as «maçãs d' espelho» só mais tarde seriam introduzidos no negócio de exportação e a saga dos «fruteiros, tostados pelos sóis» também compareceu no memorial em verso da família.

 

Um aspecto do Vale do Jamor
 
Em Maio de 1861, ainda na freguesia da Madalena, nasceu Jorge, último membro do agregado familiar (e seu único sobrevivente) que em 1921 traduziria para francês, como Poésies Portugaises, oito dos vinte e dois poemas do irmão (reunidos, por Silva Pinto, um ano após a morte do poeta, como O Livro de Cesário Verde), três de Antero de Quental, um de António Nobre e oito dele próprio de escassa inspiração. Poésies Portugaises
 
Academia das Ciências | Convento de Jesus
Academia das Ciências | Convento de Jesus
A instrução primária de Cesário foi concluída em 1865, tendo a prova final decorrido numa das mesas sediadas na Academia das Ciências. Desde então praticante de ferrageiro na loja do pai, desconhece-se aonde Cesário terá feito estudos secundários e aprendido línguas.
 
Alfandega de Lisboa
Alfandega de Lisboa
 
Faina fluvial
Faina fluvial
« Anterior
Bibliteca Nacional de Portugal Ficha técnica © 2011 Biblioteca Nacional de Portugal, todos os direitos reservados