BORDALO N'A BERLINDA
ANOS 70 por Eduardo Lourenço UMA BERLINDA EM BOLANDAS por Guilherme de Oliveira Martins BORDALO: UMA SETA DE LUME por João Paulo Cotrim
RAFAEL BORDALO PINHEIRO por Júlio César Machado O POÇO QUE RI por Joaquim Leitão OS RETRATOS DE RAFAEL por Ramalho Ortigão
Uma Berlinda em Bolandas por Guilherme de Oliveira Martins

Ao começar a folhear A Berlinda nos dias de hoje, vem logo à memória o marechal Saldanha e a sua conspiração de 19 de Maio de 1870. Nessa estranha «Saldanhada», do irrequieto cabo de guerra, que fez parte de quase todas as revoltas e que se foi aliando e dessolidarizando com todos os poderes, deu-se a circunstância mais inusitada e caricata – ninguém queria participar no seu Ministério.

E Bordalo Pinheiro representou o velho Marechal no Mercado de Melões entre a tia Ambição e a tia Consciência, palpando os frutos da época, que figuravam as principais personagens políticas do momento.

Foi a seguir a este episódio que Rafael Bordalo Pinheiro – a 5 de Julho de 1870 – lançou A Berlinda, como «Reproduções de um álbum humorístico ao correr do lápis». E de que trata a folha? Dos «Fossadores de Patriotismo», isto é, dos protagonistas da mais desastrada experiência política do período da Regeneração. E tão bizarra solução foi aquela de que o Rei, por ter dado as rédeas da governação ao Marechal, foi o primeiro a sofrer amargos de boca em consequência dos efeitos de tal destempero. E isto porque esse foi o único caso do tempo do rotativismo em que o Governo em funções perdeu fragorosamente as eleições. Cem dias foi o tempo de governo destes «fossadores». O Marechal aparece, como no desenho de 19 de Maio, em indumentária de personagem de opereta, o general Boum de Offenbach. «Quem quiser comer, siga-me.» E eis a imagem da vaca orçamental – esgotada e triste.
«Ó tio, vamos lá todos» – A Pátria e a Parentela... E o general Boum multiplica-se em saudações aos seus apaniguados, sobrinhos, familiares, amigos. E não falta a alusão ao primeiro ministro da Instrução Pública, o sobrinho do Duque – D. António da Costa. Afinal, Saldanha é o verdadeiro homem dos sete instrumentos – ele e só ele, e assim acabam-se os «magros» e ganha a «charlataneopatia»..

Na segunda página do «Álbum humorístico», o tema continua a ser o mesmo – o nepotismo e o peculato. E o latim bárbaro usado pelo humorista invoca o formalismo dos legistas às voltas com a defesa do insustentável. O marquês de Angeja tem a pasta das Obras Públicas e a Fazenda cabe a um velho amigo do bispo de Viseu, o José Dias Ferreira, lente de Coimbra e futuro Primeiro-Ministro nas confusões da bancarrota 20 anos depois. A crítica é arrasadora e a verdade é que interpreta de um modo muito fiel o sentimento do País, tal como viria a exprimir-se nas urnas. O general Boum descontrola a situação e é o ambiente de opereta que ressalta até para os mais distraídos.

A terceira folha dá-nos um mapa europeu – com 16 quadras escritas por Clemente dos Santos, sob o pseudónimo de «Micromegas», folhetinista em A Revolução de Setembro, que já colaborara n’ O Calcanhar de Aquiles. Quem domina é a Alemanha e, naturalmente, Bismarck. Portugal é um velho decadente, envolto por uma espanhola anafada e possessiva, empurrada por Castelar, republicanamente. O grande urso coroado é a Rússia, com uma pata poderosa assente na Turquia, enquanto a Grécia é um caranguejo agressivo contra o Sultão balcânico. A Finlândia é gelo puro, a Polónia uma mosca, a Escandinávia um bacalhau desinteressante, a Dinamarca uma lagosta e a Inglaterra (a pérfida Albion) um marinheiro bêbado, trazendo a Irlanda à trela e vomitando esquadras. Em Espanha há a luta pela coroa entre Afonso XII, os carlistas, Amadeu de Sabóia e o duque de Montpensier. Em Itália, os heróis da independência têm sortes diferentes, Mazzini dorme a norte e Garibaldi movimenta-se a sul. Na corte de Viena, Francisco José comanda um império atónito depois de ser derrotado por Bismarck em Sadova. Mas tudo se decide entre Napoleão III e o Imperador da Alemanha, que se prepara para o devorar, como devora, sem dó nem piedade, os Países Baixos. O Imperador dos franceses, esse recebe clisteres, enquanto Thiers lança uma pomba na direcção da rebelde Córsega. Bismarck era uma aranha e o equilíbrio europeu, com esse peso pesado, não existia mesmo...

Depois de interromper a publicação de A Berlinda com O Binóculo, Rafael vai regressar ao seu «Álbum humorístico» em 1871, ao longo de quatro derradeiras folhas, tendo como colaborador desta feita Mariano Cordeiro Feio. Nos Retalhos da Companhia dos Caminhos de Ferro do Leste o crítico é implacável na denúncia do mau serviço, da incúria, do desmazelo, da empresa dos Senhores Le François, e Companhia... Camões é o cicerone desta crónica de maldizer, cheia de perturbações e descarrilamentos.

Em 1871, o marquês de Ávila não poderia deixar de ser tema forte. É a «Hisopada». Enquanto há dificuldades em encontrar um novo Patriarca de Lisboa (com a «cadeira às moscas», tradução livre de «sede vacante») entre as candidaturas radical defendida pelo bispo de Viseu e conservadora de Ávila e Bolama, Ávila é representado com a conhecida coroa de penas de pavão (o régulo das Galinhas, Bola e Lama). Trata-se de um «mistifório político», que anuncia o fim dos «reformistas» da Janeirinha, partidários do bispo de Viseu («Janeiro os dá, Janeiro os tira»), que são, aliás, derrotados no confronto patriarcal com António José de Ávila. E tudo isto com citações de poetas de Arcádia: Filinto, Tolentino e Bocage. E, de novo, na sexta página regressa a erudição de Cordeiro Feio, com Camões, Nicolau Tolentino e o Reino da Estupidez. É a Parvónia que fica retratada, «onde por andar tudo direito anda tudo às avessas»... São as últimas cenas do último Carnaval.

A BERLINDA - Folha 7 - Veja em detalhe

E chegamos à última Berlinda, que permitiu à publicação tornar-se célebre e citadíssima. As Conferências Democráticas proibidas no Largo da Abegoaria são o prato forte. O governador civil (aliás, o futuro historiador Gama Barros) executou a ordem de encerramento do Casino Lisbonense a 26 de Junho de 1871, um mês e quatro dias após o início das Conferências. A 5 de Julho, Rafael Bordalo Pinheiro manifesta claríssima simpatia pelo «espírito das Conferências» e pelos seus protagonistas. O entusiasmo é tal que ele se inclui entre os injustiçados. São 30 imagens ordenadas em cinco planos com legendas do próprio desenhador. Ávila é representado com as penas de pavão e o seu inefável cache-nez. Carlos Bento,
o ministro da Fazenda, pede esmola (sempre os efeitos da crise...). Contra a decadência burguesa saem de dentro de um barrete frígio os heróis – «nós!» – Antero, Eça, Batalha Reis, Soromenho, Saraga e Adolfo Coelho. A ordem, que o pavão do cache-nez diz proteger, começa a tremer e a sofrer cãibras à medida que os oradores falam – Antero, Soromenho, Eça, Adolfo Coelho. Antero define as causas da decadência («Provado está por fás e por nefas que os padres, os reis e as colónias são as cataratas, o estrabismo de Portugal velho»), Soromenho oferece carapuças a toda a gente (de Castilho a Ramalho), Eça fala do realismo do Mistério da Estrada de Sintra e das Farpas, Adolfo Coelho dá machadadas na instrução pública que não existe e Salomão Saraga falaria dos historiadores críticos... se o deixassem falar. O marquês de Valada, um dos melões de que já falámos, e os seus amigos extraem de dentro de Ávila uma portaria. A ordem dá à luz... E Ávila é o próprio a usar a chave da portaria para fechar o casino. As Conferências estavam, assim, abafadas. De rolha na boca os jovens heróis injustiçados assinam o protesto. E, por fim, num happy end às avessas, Ávila é saudado como herói, por padres, burros e ministros... «Viva a liberdade!»

O último número de A Berlinda constitui para Rafael Bordalo Pinheiro um curiosíssimo exercício de mimetismo. Ele como que diz: As conferências também são de A Berlinda. Tudo começa pelo auto-retrato do desenhador, como se ele fosse também um dos injustiçados, a apontar «a purulenta e burguesa fisionomia do país»... E simbolicamente A Berlinda morre no cadafalso montado por aquela absurda portaria que a ordem deu à luz...

Guilherme d’Oliveira Martins

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Retrato de Guilherme D'Oliveira Martins não disponível
Citação de Ramalho Ortigão: “...ORA ACHO EU que assim como seu pai desenhava é que a gente deveria escrever, dominando tão absolutamente a palavra como ele risonhamente dominava a linha..”

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