BORDALO N'A BERLINDA
ANOS 70 por Eduardo Lourenço UMA BERLINDA EM BOLANDAS por Guilherme de Oliveira Martins BORDALO: UMA SETA DE LUME por João Paulo Cotrim
RAFAEL BORDALO PINHEIRO por Júlio César Machado O POÇO QUE RI por Joaquim Leitão OS RETRATOS DE RAFAEL por Ramalho Ortigão
Bordalo: Uma seta de lume por João Paulo Cotrim

Minhas Senhoras, Meus Senhores

A caricatura é uma das mais terríveis armas de guerra aplicadas ao ridículo humano. Pior do que o canhão! Porque o canhão mata — a caricatura mutila. Antes das duas linhas de legenda que são vitríolo atirado ao rosto da personagem, a caricatura despenteia-a, deforma-a, desarticula-a, fá-la dançar o S. Vito da desfiguração, até categoria, poder, majestade se tornarem bonecos de pasta sobre que caiu chuva em quarta-feira de cinzas. A par destes golpes de jiu-jutsu que torcem as articulações, a caricatura atordoa a vítima com o gás asfixiante do riso desencadeado pela mísera figura.

Cada época, porém, tem os seus problemas e seus conflitos, e a caricatura seus temas e seus alvos. Para Daumier e Henri de Monnier — o criador de Monsieur Prudhomme —, os adversários do humorista eram os burocratas, os magistrados e a burguesia.
Sucederam-lhes no patíbulo os parlamentares. E como o tempo actua sobre a táctica da caricatura como sobre a de qualquer arma, à medida que se aproxima do período contemporâneo, à bonomia e à graça rendem-nas a ironia acerada e a crueza. A ênfase do Senhor Prudhomme que fez rir a geração anterior à nossa, tinha no fundo certa ingenuidade inofensiva. Basta compará-la com a violência das páginas de Hermann Paul ou de Forain por onde os mesmos tipos perpassam. Entre as cortesãs de Gavarni, de Grevin, de Bertall ou de Grandville, seres de graça e de abandono, arroxeadas de melancolia, e as mulheres de Toulouse-Lautrec ou de Steinlen, que abismo! As primeiras comovem — as segundas repugnam.

O riso perdeu em amargura o que ganhou em sarcasmo, como em Forain que podia dispensar o lápis e contentar-se com a legenda escrita a fogo. Na própria conversa, os seus ditos já não eram bolas de papel, mas balas dum-dum. Lembro... quatro ou cinco.

Uma noite em casa de certa princesa parisiense, Forain ceia com Marcel Prévost, Cécile Sorel e outras personagens do mundo literário e teatral francês. Em dado momento, a conversa incide sobre a velhice da mulher e principalmente das actrizes. Cécile Sorel declara categórica:
— «Quanto a mim, tenho resolução formada: ao primeiro sinal de velhice, desfecho a minha browning e meto uma bala na cabeça!»
— «Fogo!» — exclama Forain.
Outro dito sangrento: um amigo de Forain desposa o próprio modelo. Forain é convidado para a cerimónia religiosa. Terminada a missa, os noivos recebem na sacristia os cumprimentos. Forain aproxima-se do ex-modelo de pintores, e como cumprimento diz-lhe:
— «É extraordinário, como fica bem depois de vestida!»
Um dos mais notáveis desenhos de Forain, antidemocrático, anti-republicano, anti-hebreu, é uma mulher, a República, pálida e definhada que por legenda tinha estas palavras:
«Como era bela a República sob o Império!»
De uma dama republicana, tão importante como mal educada, disse Forain:
— «É uma das inúmeras pessoas convencidas de que a gentileza faz parte dos privilégios abolidos pela Revolução.»
A sua sátira acerba exerceu-se em todos os campos. Num dos desenhos da série intitulada Os Animais, as galinhas vão ao Jardim Zoológico ver os macacos. Uma delas pergunta:
— Que falta aos macacos para serem homens?
Responde outra:
— Dinheiro!
Poderia passar o serão a contar ditos de Forain e a recordar a evolução da caricatura através dos tempos.
Porque a verdade é esta: poucas produções artísticas como a caricatura sofrem a influência dos séculos.
O riso é eterno. A maneira de fazer rir andou e andará sempre sujeita às leis da moda.

Rafael Bordalo, como todos, é o caricaturista do seu tempo. A sua obra é o espelho de Portugal do século XIX. Aos seus lápis, aos seus carvões, aos seus nanquins, pode ir-se buscar documentário para inventariar e reconstituir tipos, costumes, meio e indumentária, a própria história desse fim de século.
A própria história! Afirmou-o Hintze Ribeiro, a alguém que estranhava a comparência do estadista no funeral de Rafael Bordalo.
— V. Ex.a foi das figuras mais... caricaturadas pelo Bordalo.
— Fui... E por isso mesmo quando quero recordar a minha vida política, folheio as páginas do Bordalo. A minha história política não está no Diário das Câmaras, mas nas colecções dos jornais de caricaturas de Rafael Bordalo.

Exacto: nos seus desenhos e esboços encontra-se o facto flagrante e a semelhança em que tinha, imprescindivelmente, de assentar o seu alacre poder de deformação caricatural. As suas caricaturas, antes de partirem à carga, baioneta calada, deixam retratos admiráveis como todos os de Hintze, como o de Teodorico, único documento iconográfico do popular actor que nunca consentiu que lhe fotografassem a papeira e o cachaço giganteu.

Essa faculdade anda no dote dos grandes caricaturistas. Mayor, que os Estados Unidos cognominaram, com espírito e certa justiça, «o maior caricaturista do mundo», perante a sua galeria dos políticos americanos e das personagens mundiais que compuseram a primeira sessão da Sociedade das Nações, dispõe desse dom até o inverosímil e até à anedota. Mercê dessa força, caricaturou todos os homens públicos norte-americanos, encomenda dada e paga pelos adversários de cada justiçado, justamente porque o processo de Mayor é exagerar os defeitos ou incorrecções físicas de cada modelo. Basta-lhe para isso vê-lo uma vez. Essa prodigiosa memória valeu-lhe apanhar um motorista fugido com avultada demasia. Mayor chegou a Roterdão, tomou um automóvel e pagou com uma nota grande.
O motorista pôs o automóvel em movimento e desapareceu. Mayor foi queixar-se à policia.
— «Número do carro?»
— «Não reparei.»
— «Nome do chauffeur?»
— «Não sei.»
— «Então...»
— «Mas posso desenhar o retrato dele...»
E, com a facilidade com que fez a minha caricatura numa noite de Florença, traçou em minutos o retrato do motorista gatuno, imediatamente reconhecido, identificado e preso.

Bordalo executava pelo mesmo processo, e com a mesma maestria, quantos abalavam com glória que lhes não pertencia.
Até as vítimas ficavam intrigadas, perguntando entre si onde e quando Bordalo as surpreendera, como sucedeu com Barjona de Freitas. Vendo-se, em caricatura, de trajes menores e capote à espanhola, Barjona cismava:
— «Mas quando é que aquele diabo me viu assim?!»
Vira-o uma vez que, sendo Barjona Ministro da Justiça, Rafael Bordalo fora a casa dele, incorporado numa comissão da Imprensa, para qualquer reclamação platónica. Barjona era um noctívago, os jornalistas foram acordá-lo, e, para os não fazer esperar, saltou da cama, cobriu-se com a capa à espanhola e assim lhes apareceu.
Também vingou-se bem. Barjona ficara sempre coimbrão, sempre fulgurante de espírito. Lembro-me de Emídio de Oliveira me contar que, perguntando-lhe se era mação, Barjona respondera:
- «Sou... toda a gente é maçon.»
- «Mas você frequenta a Maçonaria?»
— «Ah! isso não! Só lá fui uma vez... para a iniciação. Encontrei lá a tratar-me por irmão sujeitos que eu não queria nem para primos, nunca mais lá voltei.»
Dias depois da caricatura do capote à espanhola, Barjona encontrou Bordalo na Avenida. Foi direito a ele, enfiou o braço no braço de Rafael e andou uma meia hora a passear, para cima e para baixo. Nesse tempo, Lisboa toda, a Lisboa política, burocrática e mundana, ia todas as tardes «fazer Avenida».
Barjona — assim que cumprimentou o Rei, que em ligeira «vitória» passara e repassara fardado de generalíssimo e ajudante à esquerda, a Rainha acompanhada da Dama de Serviço, o Senhor Infante, ministros, o meio oficial, a comparsaria política, — despediu-se de Bordalo com esta frase:
— «Esta gente toda que nos viu passear de braço dado há-de dizer lá com os seus botões: Tão bom é um como o outro!»

Esta faculdade de retentiva e semelhança em que insisto, porque, além do mais, atesta o domínio do desenho que ele tinha e o sr. Saavedra Machado tão amplamente demonstrou, anunciou-a Bordalo logo de entrada, à estreia, no Calcanhar de Aquiles que participa mais de registo de celebridades do que da flechada humorística, mais álbum do que panfleto.
Os próprios caricaturados riam, a começar por Herculano. Quando Bordalo lhe foi mostrar à loja do Bertrand a caricatura que o figurava de azeiteiro ambulante, latas ao ombro e funil na mão, o sisudo historiador começou por corar. Mas acabou por lhe achar graça. De cabeça inclinada para a estampa, passou o lenço tabaqueiro pelo nariz repetidas vezes, e repetidas vezes se ficou a dizer:.
— «Sim, senhor! Sim, senhor!»
O iracundo Bulhão Pato, a recitar, de caçadeira em punho, entre coelhos e perdizes, compreendeu o preito que Bordalo lhe votava.
Nem Rebelo da Silva, nem Pinheiro Chagas, nem Ramalho, nem Júlio César Machado, nem Fernando Palha, nem Teixeira de Vasconcelos, nem João de Deus, nem Manuel de Arriaga, ninguém da plêiade literária de duas gerações se deu por magoado.

À cabeça das mais mordazes caricaturas estava a de António José Viale. O professor Viale, mestre de grego no antigo Curso Superior de Letras, foi sempre um bombo de festa. Fialho celebrizou-o como classicista que levava o seu entusiasmo camonista a pontos de mesmo na vida doméstica se servir de estâncias dos Lusíadas. O ironista dos Gatos caricaturou o pobre professor Viale, a entrar para o banho; ao meter a perna direita na banheira, Viale exclamava:
— Aqui onde a terra acaba e o mar começa...
Bordalo inaugurou a flagelação de Viale, representando um curso de grego, frequentado pelas celebridades literárias do tempo, que a palavra do helenista adormecia, e fazia cabecear a vela que os alumiava, o relógio de parede, os objectos e adornos da sala.
Não consta, porém, que Viale desafiasse Bordalo para o duelo à pistola, tão no gosto da época.
Só Castilho, o intangível patriarca do Olimpo português, se arrenegou ao saber-se caricaturado num cenário ateniense, de túnica, manto e lira.
Mas o Calcanhar de Aquiles roçava mais pela homenagem do que pelo ataque.

N'A Berlinda, a que ainda não pode chamar-se jornal, Bordalo mostra todavia, objectivos de charge à política internacional, figurada e recamada daquela superabundância de pormenorização concretizadora que lhe ficou até ao fim da carreira, com excepção das páginas de síntese que atingiram a sobriedade das obras primas.
No Brasil é que o caricaturista se afirmou plenamente. O Mosquito, jornal ilustrado fluminense, proporciona-lhe o sonho doirado de ir trabalhar para o Brasil. Vai viver para uma república, nas Laranjeiras, com Artur Napoleão e Ciríaco de Cardoso.

Rafael Bordalo tem, então, trinta anos e o diabo no corpo. Com a mesma desatenção pelos próprios interesses que toda a vida o acompanhou, a primeira coisa que faz ao chegar ao Brasil, contratado por jornal brasileiro, é caricaturar o Brasil e os brasileiros, o Imperador e os seus ministros, intrometer-se com tudo e com todos, envolver-se numa campanha anti-clerical, a maior, a única preocupação política que atravessa a sua obra, mais do que a ideologia republicana.
Essa mesma não vinha de dentro para fora mas de fora para dentro, pois que a questão religiosa debatia-se e apaixonava, ao tempo, o Brasil, tanto ou mais do que o abolicionismo.

A celebridade para ele foi uma escalada. E tão célebre como o seu lápis só a sua elegância e a sua alegria.
Deram brado algumas das suas partidas, como esta. Pleno carnaval, aquele carnaval brasileiro, sumptuoso, trasbordante, vivo, mais intenso do que o oficializado carnaval de Nice. Na pedra do jornal, como toda a imprensa da época instalado na Rua do Ouvidor, e cuja administração ficava ao rés da rua, Bordalo desenhou a caricatura do Comissário da Polícia que enormes colarinhos caracterizavam.
Sucesso da gargalhada, multidão aglomerada diante da pedra, trânsito interrompido.
O Comissário da Polícia acode, a saber o que provoca tal aglomeração. Dá com a própria caricatura e manda dizer por um guarda que safem aquilo. Bordalo suprime a figura, mas deixa ficar os colarinhos.
Maior êxito, gargalhadas retumbantes.
O Comissário da Polícia torna a passar e ordena, enfurecido, que apaguem o resto.
Bordalo cumpre. Apaga os colarinhos, mas escreve na pedra esta simples e inocente legenda:
— «Foram para a lavadeira». Estas e outras folias quase o incompatibilizaram, com o Brasil e ei-lo que regressa a Lisboa, depois de criar no Rio de Janeiro o tipo do Fagundes — espécie de conselheiro Acácio brasileiro, — consagrado numa das suas mais faladas páginas fluminenses.
Estamos no reinado de D. Luís, ou se quisermos no reinado de Fontes — os dois mártires do lápis caricatural de Bordalo no António Maria, cujo título fora buscar aos dois primeiros nomes do estadista: António Maria de Fontes Pereira de Melo.
Geração política de gigantes, Braamcamp, Hintze, Lopo Vaz, José Luciano, Sampaio, António Augusto de Aguiar, Mariano, João Crisóstomo, José Luciano, Tomás Ribeiro — Bordalo brinca com ela, faz dela gato sapato.

A vítima pertinazmente distinguida pela mordacidade de Bordalo — Fontes.
Falasse nas Câmaras ou estivesse calado, o estadista podia contar que Bordalo não o esquecia.
Já não era uma personalidade da política portuguesa, mas um símbolo, o alvo.
Fontes, sempre e de todas as formas e feitios: de coroa na cabeça, de fadista, de ama de leite com Rodrigues de Sampaio ao colo, de arlequim, de prima dona decotada e magricela, de ché-ché, de trintanário, de jesuíta, de Maria Rita, de tanga, de pelotiqueiro e de manto real, até de Santo António de Lisboa!

Desfilam outros figurantes de S. Bento e do Paço. Todos — o Duque de Ávila, o Bispo de Viseu, o general Macedo, o conselheiro Arrobas, Saraiva de Carvalho, o Rosa Araújo e o conde do Restelo, D. Luís, o Infante D. Augusto, D. Fernando, o conde de Burnay, deputados, Pares do Reino, ministros, archeiros, o infalível jesuíta da sua obra, e sempre, sempre — a mulher de capote e lenço, Fontes, o gato e o resignado Zé Povinho, criação formidável de Bordalo.

Afora a política, as letras e as artes dão-lhe páginas de interesse e oportunidade, como as consagradas a João de Deus, ao Mandarim, do Eça, a Camilo, a Calderón, ao Portugal contemporâneo de Martins, aos centenários de Camões e de Pombal, e às visitas a Lisboa de Júlio Verne e de Afonso XII.

Quem quiser reviver o teatro da época não tem mais do que folhear o António Maria. Saltar-lhe-ão aos olhos as glórias do palco português e estrangeiro: a Virgínia, a Júdice, a Delfina, a Sarah Bernhardt, a Rosa Damasceno, Borghi-Mano, a Paladini, o Tamagno, o Gayarre, o Rosa Pai, o genial António Pedro.
Uma pundonorosa atitude com a imprensa diária fá-lo acabar voluntariamente com o António Maria.
Quatro meses depois ressurge o panfletário do lápis nos Pontos nos ii.
Mas a esse tempo, o caricaturista sai-nos oleiro. Apaixona-se pelas Caldas, e transporta para o barro a sua alegria e a sua veia de caricaturista.
Em todo o caso, um transe nacional agita-o como a todo o povo português — o Ultimatum. E Bordalo encontra outro alvo: a Inglaterra. Não apenas no jornal mas em ilustrações, como as d'A Marcha do Ódio de Junqueiro, deixa iconografia patriótica que traduz e documenta o momento histórico.
A seguir ao 31 de Janeiro, um artigo de Fialho, intitulado Glória aos Vencidos, expõe o jornal à suspensão.
E Bordalo reaparece um mês depois com o 2.° António Maria, série irregular, dada a absorvente jornada ceramista.
O caricaturista está enfastiado da caricatura política. Sente-se-lhe mesmo certo cansaço. As suas aparições têm intermitências. Atribulações da Fábrica das Caldas e qualquer amargura íntima quase emperram o lápis genial.

A cerâmica torna-se-lhe paixão, a fábrica vive precariamente, dos fornos sai a Jarra Beethoven que, exposta em Lisboa no Jardim de Inverno do Teatro D. Amélia, deslumbra, como a toda a gente, o senhorio da casa do Largo da Abegoaria onde Rafael viveu vinte e nove anos sem pagar renda. Dizia o senhorio que por bem pago se dava com a honra de ter tão grande artista por inquilino. Perante a impressão que a jarra lhe fez, Bordalo quis oferecer-lha. O excepcional senhorio recusou:
— «Não aceito. O que V. deve fazer é ir ao Brasil vendê-la!»
Assim se gerou a ideia de levar a Jarra Beethoven ao Brasil. E um belo dia Rafael Bordalo sai outra vez a barra.

Vai para tornar, apenas fazer uma exposição das suas loiças no Rio de Janeiro: os seus gatos, os seus sacristães, as suas lagostas, os seus repolhos, os seus pratos de azeitonas, os seus Zé Povinhos, as suas mulheres de capote e lenço, os seus John Bull, as suas andorinhas, e principalmente a Jarra Beethoven.

Declarado êxito, artístico, material, afectivo, apenas com umas horas de inquietação — as que se seguiram à extracção da Lotaria da Candelária a que subordinara o sorteio da Jarra Beethoven.
O nome e as relações de Bordalo, conjugados com a influência de Vasco Ortigão (filho de Ramalho), não conheceram dificuldade em espalhar os bilhetes da tômbola.

Andou a roda. Sabido o número da sorte grande, Rafael procurou o possuidor do número correspondente da tômbola. Não havia na lista nome correspondente a esse número. O Vasco, sua alavanca, afectuoso, devotadíssimo e desinteressadíssimo tutor nessa jornada, também se não lembrava.

Bordalo fica sobressaltado, preocupado com o aspecto moral do caso. O que se não diria, se o acaso quisesse que a jarra lhe saísse a ele?! Mas tal não podia suceder, porque os bilhetes estavam todos passados. Quem era, então, o possuidor do bilhete premiado?

E Rafael, a quem, quando lhe dava para empreender numa qualquer preocupação, ninguém levava a palma, dava voltas à memória.
Até que lhe ocorreu que, na tarde inaugural da exposição, recebera um sobrescrito fechado, no mesmo momento em que chegava o Presidente da República. Recordando-se mais que nesse dia se vestira de sobrecasaca, mandou um próprio ao hotel ver se nas algibeiras estaria o tal sobrescrito. Seu dito seu feito: o demónio do sobrescrito lá estava, contendo nem mais nem menos do que cinco bilhetes da tômbola recusados pelo conde de S..., e entre esses cinco justamente o número premiado.

Nova arrelia de Rafael, a sua repulsa de ficar com a Jarra Beethoven e a resolução de a oferecer ao Brasil, o que fez. Lá a vi anos depois no Palácio do Catête.
Tudo se passou pelo melhor: Jarra Beethoven vendida por soma que nenhum particular em Portugal ou Brasil cobriria nem atingiria, repercussão aclamadora do belo gesto da oferta ao Brasil. Só não passou a Rafael a birra com que ficou ao conde de S... a quem nas conversas crivava de anedotas, de ditos, de análises, de facécias, ilustrando os comentários com um kodak que ele prometia publicar quando acabasse o folhetim sobre o Visconde de Faria, e que representava o titular de pé, no banheiro, a puxar a corrente da duche. O que Bordalo ria e fazia rir com a vaidade que o conde mostrava ter na sua barriguda academia!
Mas o folhetim humorístico, inspirado no visconde, salvou o conde de S... do pelourinho caricatural de Bordalo, que todavia o não poupava ao sarcasmo oral.

Tirada essa sombra, a viagem de Rafael Bordalo foi uma embaixada de gala que, além de o restaurar financeiramente, teve o grande mérito de lhe levantar o moral e de o restituir à vida de produção.
Datam dessa época as minhas estreitas relações com Rafael Bordalo Pinheiro.
Como na véspera da partida de Rafael, bastante abatido, eu o visitasse e o primeiro artigo de saudação que ele leu ao desembarcar no Rio de Janeiro fosse um artigo meu, no País, de que era colaborador, a primeira visita que Rafael, alegre, ressuscitado, fez em Lisboa foi à minha tebaida do Loreto.
Lisboa era, então, uma cidade de trato ameno como o seu clima. Não havia convulsões políticas, e, além do pagamento semestral da renda de casa, o lisboeta desconhecia quaisquer outros sobressaltos.
A vida social decorria sobre um leito de certezas, como águas de rio.
Os partidos governavam cada um três anos, uma vez o Hintze, outra vez o José Luciano, sabendo-se que se os Regeneradores estavam contentes os Progressistas andavam tristes, e que quando tocasse aos primeiros a vez de rirem, os outros tinham de choramingar, lembrando certas garrafas de Anis del Mono, com as duas faces uma a rir outra a carpir.
Com o mesmo sincronismo se sabia que em Março, o Teatro D. Maria e o Teatro D. Amélia davam às outras casas de espectáculos o sinal de encerramento da época e à Praça do Campo Pequeno o toque de alvorada.
O calendário do lisboeta era matemático: dia certo da partida para as termas, para o campo, para as praias.
A cidade, em Agosto a meados de Setembro, tornava-se deserto.
Outubro entrante, chegava a hora deliciosa da Avenida, o breve outono com as promessas teatrais, o elenco de S. Carlos, os projectos dos homens de letras e artistas, e o regresso às tardes da Avenida. Essas tardes davam à Lisboa dos fins do século XIX e alvores deste trepidante século XX, a sua singularíssima característica: misto de aglomerado provinciano, convivendo no parque da terra, e de cidade europeia.
Ninguém faltava: o funcionalismo, a política, a arte, o dinheiro, a beleza, a burguesia, e a corte. A Família Real também aparecia, D. Carlos de pequeno uniforme de generalíssimo, a Rainha, às vezes os Príncipes, o Infante D. Afonso, nos seus landós. Duas filas de carruagens subiam e desciam, a trote, a Avenida, enquanto as senhoras, com o livro de missa dentro do regalo, sentadas nas cadeiras de ferro, desengonçavam as cabeças, a corresponder aos chapéus altos que amoleciam as abas com os repetidos cumprimentos.
O próprio Marquês de Soveral, nas suas raras visitas a Lisboa, comparecia na Avenida. Estou a vê-lo em certa primavera, ainda bem moço, farto bigode negro trasmontano, chapéu de coco castanho de grandes abas, a dizer com fraque também cor de castanha, que abotoava com uma tranqueta de dois botões, pormenor que estonteou os leões alfacinhas.
A Avenida era uma sala de visitas ao ar livre, sem liberdades. Basta dizer-se, e digo-o sob palavra de honra: nesse tempo as senhoras andavam vestidas.
Tanto que os janotas sexagenários, de luva de pele de cavalo, a fumar por boquilha de âmbar, chapéu alto e reluzente, calça a desenhar-lhes as pernas de cavaleiros, postavam-se à beira dos passeios, para ver entrar nas carruagens as senhoras que se haviam apeado, a dar uma volta a pé. Era a cúpida esperança de que, ao pousar o pézinho no estribo da carruagem, a dama subisse um pouco mais a saia que pousava na biqueira da bota, e entremostrasse a canela!
Candurosos tempos, candurosos e lentos que davam tempo a que o lisboeta perdesse duas horas, na esperança de ver um osso!
Também, se conversava ainda, e todos entendíamos a linguagem comum, porque o calão ainda não dividira os portugueses.
Não se concebia a vida sem as tardes da Avenida, onde se namorava, se sabia dos acontecimentos parlamentares, se discutia o discurso de António Cândido, se comentavam as audácias de João Arroio ou as arremetidas de José de Alpoim.
Ali se encontrava toda a gente e se ouviam as grandes novas da política ou os escândalos que hoje dariam enfadonhos casos de acanhada castidade. Dali se conheciam todos de vista e de nome, pelo menos.
Foi esta sociedade e esta época a última que Bordalo comentou, criticou, satirizou, celebrizou na Paródia.
Não se faz ideia da retumbância desse último semanário de Bordalo! Anos e anos calado, exilado nas Caldas, remetido ao seu silêncio de oleiro, quando reapareceu uma aclamação o recebeu.
O semanário saiu aí pelo meio dia; e às três da tarde, recebia eu, no meu refúgio da York House, às Janelas Verdes, este telegrama de Rafael Bordalo:
«Grande sucesso. Hoje, jantar no Bragança. Não falte.»
Éramos além do Pai Bordalo, o Manuel Gustavo, João Chagas, Justino Guedes... ao todo treze. Passou-se um ano, sem morrer qualquer de nós, e continuámos a juntar-nos ou para jantar ou depois do jantar.
Oh! esses jantares do Tavares! que alegria e que apetite! Bordalo, então, excedia-nos a todos, quer numa quer noutro.
Fosse jantar de casaca, como o do Bragança, ou de jaquetão como os do Tavares, a cena repetia-se. Bordalo, saboreada a sopa, exclamava:
— Rica sopa! Há muitos anos que não comia uma sopa assim! Sim, senhor! Apetece não comer mais nada!... E se repetíssemos, vocês que dizem? Outro pratinho, ein? Não querem? Pois quero eu. — E chamando o criado: — Traz lá outro prato de sopa.
E, todo o jantar, assim era louvado um ou outro prato e repetido por excepcional. Bordalo não era propriamente um comilão. Comia pouco e lentamente, porque se interrompia com as suas anedotas. Ceava todas as noites no Tavares que se pagava com a honra de o ter por frequentador. E a ceia a maior parte das vezes era «açorda com chapéu de palha», isto é, açorda de alho com um ovo estrelado em cima.
Se não se jantava, aparceirávamos para o café.
Eram, então, as noites inesquecidas do Suisso e do Tavares que abriam por um longo concílio para a escolha dos licores.
— Que tomam?
Aí rompia a descompostura em mim, que fui sempre abstémio:
— Pois, olhe, agora quando estive no Rio de Janeiro fui dar com este fenómeno: os meus amigos de há quarenta anos que bebem vinho com os cabelos pretos, os que sempre beberam água com os cabelos brancos. É lógico. O álcool conserva. Ora como a minha corpulência me não permite meter-me dentro de um frasco de álcool, qual peça anatómica, meto álcool para dentro de mim! — E ria, com aquele riso trepidante e estrepitoso que contagiava quem o ouvia e terminava frequentemente por um impertinente ataque de tosse.
Tornava à conversa:
— E você que toma?
Sem ouvir resposta, interrogava o criado:
— Ainda tens daquele conhaque do outro dia?
— Então não houvera de ter? Para o sr. Bordalo há sempre.
— Então, traz!... Olha, traz também genebra e Piperman...
— Verde ou amarelo?
— Verde... os dois, traz os dois.
O criado já ia a correr e ele chamava-o!
— É sempre bom trazeres também um Sherry...
O criado abalava.
— Espera aí! não te esqueças do anis...
O criado atravancava a mesa com a bataria, e Rafael desfechava as suas intérminas anedotas, intercaladas com cálices de conhaque e cigarros de diversas qualidades.
Mas a sua bebida predilecta era a Aguardente Macieira de que, durante anos, e a título de reclamo, lhe ofereceram às caixas.
À meia-noite saíamos e o Tavares ficava deserto.
Aí íamos em bando, acompanhar o Pai Bordalo a casa, mas dali do Tavares, na Rua do Mundo, a casa de Rafael, no Largo da Abegoaria, nunca levávamos menos de três horas.
Sem noção do tempo, Rafael Bordalo continuava a conversar, a rir, a fumar, a fazer caricatura oral, mal se resignando com a debandada quando começava a amanhecer.
Nunca chegava a casa no mesmo dia como nunca chegou ao teatro a tempo de assistir ao primeiro acto de uma peça. Sucedia mesmo e frequentemente, vestir-se de casaca para ir a S. Carlos, e quando descia o Chiado já encontrar o público a sair do teatro. Cavaqueador infatigável, ficava-se à mesa a cavaquear com a família. A conversar e a tomar o café, que era revestido de rigoroso ritual: feito numa máquina de metal branco, diante do oficiante, e tomado em xícaras minúsculas, como se usa no Brasil. Bordalo que exigia vê-lo passar, acabava por o tomar frio, acompanhado de cálices de aguardente também muito pequenos.
O fim do jantar entrava, pois, pela noite dentro, e o regresso a casa pela aurora.
Por mais que a nossa ternura o quisesse poupar a noitadas, Bordalo não transigia.
Já muito no fim, uma noite estávamos no Tavares alguns dos amigos do costume: Ciríaco de Cardoso, João Chagas, o cantor António Andrade, Manuel Gustavo, Alfredo de Mesquita, Manuel Penteado, Augusto Pina, o Jorge Cid, às vezes Fialho, outras o João Saraiva, grupo numeroso que obrigava a juntar duas mesas; Bordalo conversava, ria, e num acesso de tosse mais violento ficou roxo, pendeu-lhe um pouco a cabeça, que um de nós segurou.
Foi um momento curto mas horrível. Por fim a tosse deixou-o, Bordalo levantou a cabeça, olhou para nós, viu-nos assustados, compreendeu o que cada um sentira, e só disse:
— Estão todos com cara de caso! Ainda não foi desta.
— Um acesso mais forte da bronquite, nada mais! protestámos.
Então, secamente, Bordalo replicou :
— Bem sei! a bronquitezinha dos cardíacos...
Mas isso lembrou-lhe logo uma anedota, e continuou a palestrar e a rir como nunca vi rir ninguém.
Até a trabalhar, a criar. Nada mais curioso! Duas, três pessoas no quarto de trabalho, ele à banca, atravessada no ângulo das duas janelas que dão para o Largo da Abegoaria e Rua da Trindade, ao favor da luz.
João Chagas, então o principal colaborador político da Paródia, dava-lhe uma ideia.
Bordalo ouvia, repetia o tema, mas não lhe pegava.
João Chagas dava outra volta à ideia. Bordalo ouvia e no fim recusava formalmente:
— Não dá!
Outro acudia com ideia diferente. Ainda não era coisa que Bordalo aproveitasse.
Outra e outra e outra, até que, já fatigados, desanimados, algum começava a esboçar nova ideia... De repente, Bordalo nem o deixava acabar: era ele que completava a ideia, a rir, a rir sem fim.
Batera a hora a que o seu génio improvisador se confirmava: a sua mão aristocrática pegava no lápis, e traçava nervosamente a figura principal. À medida que desenhava, o censo caricatural ampliava, completava a ideia. Parava então a ver o conjunto, e ria, satisfeito, divertido, como se fosse página de outro caricaturista e ele o leitor. E, de cada vez que deitava os olhos ao desenho, encontrava mais um pormenor que lançava ao papel, e tornava a rir. Mostrava, ria, um rir de rapaz que faz cócegas a alguém aborrecido, e ia acrescentando pormenor sobre pormenor, aumentando assim o poder caricatural da página.
Daí vem a riqueza, às vezes o excesso de pormenor cómico que têm os trabalhos de Bordalo, e daí parte a infalibilidade do seu triunfo.
Dispunha como ninguém do senso humorístico, e era o primeiro a rir com a própria obra.
Não forçava o assunto. Precisava primeiro encontrar o ser ou o aspecto caricatural. Antes mesmo de o reproduzir, só à ideia do que via ou imaginava, ei-lo a rir, com as suas gargalhadas incessantes.
Ao estrebuchar de um Carnaval, último ano em que a Avenida viu um simulacro de batalha de flores, resolvemos passar juntos as três noites de entrudo.
E o que mais o divertiu foi ver o Manuel Gustavo a rir. Manuel Gustavo fora educado pelo avô, e quando Rafael estava no Rio de Janeiro ficara também em Alcobaça. A educação severa do avô, e a admiração de Manuel pelo génio do pai faziam com que não ousasse ostentar a sua graça diante de Bordalo, que tinha muita pena de não gozar o espírito do filho. Tomás Bordalo, irmão de Rafael, pai de Pedro e Dinis Bordalo Pinheiro, foi dar com ele, justamente nessa noite de Carnaval, escondido atrás de uma coluna do hall do Teatro D. Maria.
— «Que estás aí a fazer?
— «Estou a ver o Manuel a rir com uns amigos!...»
O resto da noite, Bordalo divertiu-se como pode. Aí pelas duas horas da manhã, sentámo-nos num recanto do foyer. Nisto, os olhos de Bordalo dão com um pobre diabo vestido de pierrot, estiraçado numa banqueta, a dormir, esfalfado de sensaboria. E, desatou a rir do cómico daquela máscara, estafada, vencida, dominada pelo sono e pelo tédio.
Tirou a carteira, pegou no lápis, fez o esboço e rubricou : — O carnaval de Lisboa!
Compreende-se que não pudesse viver sem conviver com os espíritos e os factos do seu tempo, de que saíam os temas caricaturais, sem o constante contacto com a vida que lhe deu a mais vasta galeria da sua comédia humana.
Por isso a sua figura inconfundível aparecia em toda a parte: nas primeiras representações do D. Amélia, e nas exposições de rosas, nas noites de S. Carlos, de casaca, claque, e luvas brancas, como o documenta a soberba tela de Columbano, nos toiros, a passeio, de jaquetão azul marinho e chapéu cinzento, de longe em longe na Avenida, de farta sobrecasaca e plastrão, chapéu alto, e o inseparável monóculo como na caricatura dos «Vinte anos depois», moreno, elegante, másculo, e bem disposto.
De vez em quando, ao despedir-se à porta de casa, anunciava-nos:
— Amanhã vou às Caldas.

E desaparecia uns dias.

Por um luminoso dia de Janeiro, arrastou-me com ele às régias termas.
Outra personagem completamente diferente: blusa, com as pontas da lavalière às pintas azuis e brancas por fora da gola e boina — o oleiro.
Percorreu comigo a via sacra das Figuras do Bussaco, inesquecível romagem! Ao passar, levantou os panos que cobriam um busto de mulher admiravelmente bela — era a Visconti, antes de o cancro ter destruído a obra prima da sua beleza. Foi um relâmpago: tornou a velar o busto e foi talvez a única vez em que vi no rosto dele uma velatura de melancolia.
Logo adiante, um motivo de hilaridade esboçado no barro: nem mais nem menos do que o Marquês de Franco, a que Bordalo implacavelmente castigou por certa desatenção. Coisa de nada! Rafael mandara pedir ao Marquês de Franco que lhe cedesse, numa noite célebre, uma das duas cadeiras de S. Carlos. O Marquês respondera que uma era para ele e a outra para o seu sobretudo.
Bordalo caricaturou-o cruelmente! Começou por lhe desenhar a cadeira, guardada a corrente e cadeado; depois, apresentou-o de bouquet em punho ante as bailarinas, e acabou por o ver e mostrar aos Raios X. Quando lhe aplicou os Raios X às algibeiras da sobrecasaca, não se imagina o que a placa revelou: charutos, — uns enormes para ele, outros mais pequenos para os amigos —, pratos com sardinhas, guardanapos, talheres, ramos de flores, o diabo!
E para cúmulo o pelourinho do barro, que creio não se chegou a acabar. Mas era flagrante, era o Marquês de Franco, a sobrecasaca cintada, levantada pelas proeminências e pelas algibeiras atafulhadas.
E Bordalo ria, porque aquele homem, em quem se pressentia certa amargura, sobretudo depois de ter modelado o Busto que ele mal desvelara, só tinha na sua oficina, quer trabalhasse com a pedra litográfica quer com o barro, um único material: o riso. Quando alguma página apoteótica criava, e as personagens eram ídolos do seu coração ou do seu cérebro, Bordalo imolava-se, a ele próprio ou ao gato, para que o público e ele tivessem sempre o seu quinhão de alacridade. Nas suas festas de família, no próprio aniversário, Bordalo punha uma coroa de louros na cabeça e ria da sua figura, ria do absurdo: a glória em Portugal, a sua glória.

Nunca o ouvi lamentar-se de não ter aceitado os contratos que Madrid lhe oferecera, nem a sugestão e convite que Joaquim Nabuco — o Cícero brasileiro — lhe fizera: ir para Londres colaborar em jornais humorísticos ingleses.
O seu portuguesismo decerto não se arrependera de cá ficar.
E, a inferir das suas páginas sobre a aliança inglesa, não se daria muito bem entre nevoeiros do Tamisa.
Para nós, Portugueses, foi bom que rimos, pelo menos enquanto ele vivo foi. Hoje, nem todas as suas páginas fazem rir. A obra vastíssima tornou-se documentário histórico e marca as décadas convulsas de 1880 a 1910: o Centenário de Camões, o Ultimatum, a hora da caricatura panfletária. Mas por entre as sínteses, algumas sangrentas, outras trágicas, outras explosivas, há ainda repertório de riso.
Sob a crescida erva que cobre o túmulo dos acontecimentos, ouve-se sempre a gargalhada trepidante, estrondosa, repetida, intérmina de Rafael Bordalo Pinheiro.
Tal como no estranho poço de certa região tropical. Duma confluência do Índico parte uma estrada que leva a esse poço. Vegetação densa, de cor argêntea se o vento sopra, é pouco prudente meter-se alguém ali e quem tal ousa, em poucos minutos de marcha, apercebe-se logo de se ter perdido no coração da África. Crescido capim o rodeia, o enleia e lhe cerra o horizonte a dois metros de distância.
Lutando, arrependido de se aventurar por tais paragens, chega a um atalho, com cerca de vinte centímetros de largura. Embora o capim retarde o passo, consegue-se avançar. Mais meia dúzia de metros andada, novo embaraço. E o homem mais sereno, exclama:
— Onde diabo me vim meter!
Quase debaixo dos pés do viandante, uma voz repete:
— «Onde diabo me vim meter!» E, por sobre o natural mutismo, julga-se ouvir alguém que ri a chasquear.
A risada passa. O homem torna:
— Esta agora !...
O eco subterrâneo repete estas palavras. E uma nova risada cascalhante soa...
O homem rompe, e, por entre a resistência da vegetação, encontra-se, então, com uma buraca negra aberta no solo, e tão profunda que mal se distingue a água.
Nessa água negra como pez, e coberta de espuma verde, revoluteiam coisas negras.
A impressionante gargalhada era apenas o gorgolejar de uma pequena fonte que surge a meia altura do poço que ri.
Os objectos negros voltejam e, quando o murmúrio da fonte cai sobre a rocha, a risada converte-se em verdadeira explosão de hilaridade.
Assim é a vida e a obra de Bordalo.
Caminhando século XIX além, topa-se com ervaçal de ridículos; ao exprimirmos alto o nosso juízo, ouve-se um eco — é a caricatura de Bordalo; continuando, vai-se dar ao poço motejador que não é senão a gargalhada do artista batendo na rocha da época, e que faz gorgolejar a água negra onde revolteiam tipos e costumes no fundo do poço que ri.

Joaquim Leitão

BORDALO: UMA SETA DE LUME por Joćo Paulo Cotrim
CRONOLOGIA por João Paulo Cotrim
VISITE-NOS
 
Retrato de Joaquim Leitão - Não está disponível
Citação de Júlio César Machado: “...E UM VERDADEIRO TALENTO. Não se calculou por muitos anos a força criadora do seu génio. O vê-lo por aí a toda a hora prejudicava a estima que a sua aptidão devia inspirar. Supunha-se que não estudava, passava para alguns por moço de alguma habilidade, o que geralmente costuma chamar-se ter seu jeito...”

2005 BIBLIOTECA NACIONAL. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS | CRÉDITOS DESTE SITE