BORDALO N'A BERLINDA
ANOS 70 por Eduardo Lourenço UMA BERLINDA EM BOLANDAS por Guilherme de Oliveira Martins BORDALO: UMA SETA DE LUME por João Paulo Cotrim
RAFAEL BORDALO PINHEIRO por Júlio César Machado O POÇO QUE RI por Joaquim Leitão OS RETRATOS DE RAFAEL por Ramalho Ortigão
Rafael Bordalo Pinheiro por Júlio César Machado

Afaz-se uma pessoa à ideia de que para lá do Rossio e do Chiado não haja mais nada, e, de repente, quando menos espera, vê ir um amigo por aí fora, já não quero dizer para países de que não se torne a ouvir falar desde que se estuda geografia, mas para um pouco mais longe do que Paço d’ Arcos ou Cascais, para o Brasil!

Lá está Rafael Bordalo Pinheiro; lá vai demorar-se três anos; lá ficará vivendo talvez – tudo é possível! Dá-se bem no seio daquela natureza que está a nascer, entretém-se com os conhecimentos novos que ali vai criando, diverte-se trabalhando, estuda divertido-se, e tem dinheiro – condição indispensável para viver satisfeito com gosto e aprovação, quem só ganhando-o o pode alcançar!

Caiu logo em graça a todos, e isso era de esperar, porque se acredita nele facilmente. É bem parecido, e logo se lhe nota no rosto ser homem de talento; - isso ajuda muito. A teoria das aparências tem no mundo, do mesmo modo que no teatro, grandes razões de ser; no teatro para que pareça natural que um homem enlouqueça de amores por uma mulher é preciso que ela seja bonita, e ninguém se capacita que uma formosa fique de cabeça perdida por um sujeito, por melhor que ele recite e represente o seu papel, se tiver olho maior que o outro e a boca à banda. O mesmo acontece na vida real com os homens de talento: para acreditar no grande espírito de um moço que se apresente em terra estranha a fazer ofício de ser engraçado, é indispensável que ele inculque pela fisionomia tal esperteza, que fique, logo à primeira vista, bem figurada a sua especialidade de espirituoso!

Moeu-se toda a vida Nogueira da Silva, o caricaturista que fez os desenhos para a edição do Tolentino que os irmãos Castro publicaram, por não ser de um exterior que inspirasse confiança. Era homem de impermeável seriedade, nariz arrebitado, testa pouco significativa, expressão de rosto arrepiado, atitude inteiriça: era feio enfim, parecia uma de suas próprias composições a andar pelo seu pé; foi homem de merecimento, aplicado sempre em adquirir conhecimentos novos e aclarar os que já tinha, mas prejudicava a sua reputação de artista quando aparecia, e, com o vê-lo, não havia quem se dispusesse a achar-lhe graça.

Sucede com Bordalo Pinheiro o contrário. É esbelto, de uma palidez interessante, tem bons olhos, bom cabelo, elegância desafectada no porte e nas maneiras. Insinua-se: produz efeitos graduados, como os crescendo musicais; ao princípio, enquanto não está a seu cómodo, num rancho, fala pouco, ri baixo, parece deixar-se ficar ali um instante por condescendência , entretendo a alegria alheia com um sorriso que resuma a tempo o assunto da risota e da conversação, e entremeando-o de ditos graciosos como quem entremete rosas nos laços!

Assim vai indo, primeiro em observações monossilábicas; dando tempo de se pensar nele e de poder cada um ponderar entre si que aquele sujeito tem uma inteligência superior, que, mesmo sem querer, e sem que talvez até ele dê por isso, se revela e se denuncia...
A pouco e pouco vai-se animando. Como na adivinhação dos jogos de prendas “quente, quente”, já a graça, a alegria, o riso, a crítica se lhe chegam... Vem uma observação, dali a nada uma malícia, duas ironias, uma gargalhada, três epigramas... E “agora me lembro” e “a propósito disso” e rompe para ali tudo quanto há em casos, as ratices de fuão, a sátira de beltrano, e “oiça o meu amigo agora isto” e “Vamos daí ao Martinho” e “Passemos ao camarim daquele Talma” e “Já agora não trabalho hoje; vamos cear! vamos fumar e rir”.

Isto não era gosto de entregar-se às ocupações da preguiça, como poderia cuidar-se, como alguns pensariam talvez. Precisava gastar tempo de vez em quando, como quem o perde; não o perdia, porém; criava nessas alturas, nessas demoras, nessas paragens mais ou menos justificadas, a força que só assim encontrava para depois poder fechar-se em casa, e trabalhar, de dia e de noite. Era feito assim. Não podia sofrer outro modo de trabalhar, nem de viver. Filósofo prático, entendia que no sítio em que estava bem, devia estar mais tempo e não se arredar de lá tão cedo. Esse tempo, porém, essas conversações como que perdidas, as manhãs do Chiado, as tardes aqui ou ali, as noites de camarim, de café, de loja de livreiro ou de simples palestra pelas ruas, ao luar, e sem luar, e com chuva até, tudo isso para ele era estudar, observar, e ir depois para casa com alguma novidade, que, a seu tempo, vinha a ver a luz.
Artista. Em tudo e de tudo artista. Organização nervosa, inconsequente, caprichosa. Sensibilidade finíssima; um temperamento de mulher. Ora exaltado, ora abatido, muitas vezes sem razão; susceptível de grandes rasgos, heróicos por vezes na lida, na ânsia do trabalho e da glória, mas dado a enfados, mudando de ânimo facilmente, tendo os entusiasmos e os desvios, a generosidade, o desinteresse, e também os despeitos súbitos, a inconstância febril, do artista!

É um verdadeiro talento. Não se calculou por muitos anos a força criadora do seu génio. O vê-lo por aí a toda a hora prejudicava a estima que a sua aptidão devia inspirar. Supunha-se que não estudava, passava para alguns por moço de alguma habilidade, o que geralmente costuma chamar-se ter seu jeito: um companheiro de artistas, antes que artista propriamente, um amador com préstimo, espécie de curioso atraído para a arte pelo brilho do talento dos outros. Quando se reparou verdadeiramente nele mercê dos seus últimos trabalhos, ficou-se meio surpreendido de ser ele que fizesse aquilo tudo!
Havia tido em tempo uma voga de ocasião, tinha-se falado dele durante um mês, nalgumas salas, a propósito de uma alegoria que fizera ao dia seguinte à primeira representação da comédia O Dente da Baronesa, alegoria de que Teixeira de Vasconcelos dera uma notícia que o obrigou a fazer a litografia em poucas horas, para que estivesse à venda no dia imediato. Era o seu primeiro trabalho impresso, e agradou, fez bulha, vendeu-se.

Daí nasceu O Calcanhar de Aquiles, álbum de caricaturas gravadas a água-forte, em que o seu lápis, inexperiente ainda, correu já com certo chiste. Lembram-se? Teixeira de Vasconcelos de amplo abdómen, e nariz majestático, recebia a oferta do álbum; Vidal, pequenino, débil, saía de uma flor; o Pato metido em grandes botas de caçar, procurava uma rima no espaço, enquanto as lebres lhe trepavam pela espingarda acima sem ele dar por elas; Alexandre Herculano ajoujado de latas de azeite, despedia-se das letras sem pena e sem saudade; Francisco Palha, metade empresário, metade raposa, se bem me lembro, ofertava uma coroa a Pinheiro Chagas, posto em traje vistoso de Morgadinha; e Ramalho Ortigão, Roussado e eu, íamos de braço dado, para não sei que pantagruélica folia.

Estava longe, talvez, tudo isso, de ser uma grande obra; mas revelava já incomparável facilidade no apanhar da semelhança por mais pequeninas que fossem as figuras, e ao imaginar das senas, delinear, expor, filosofar.

Começaram desde então as suas obras mais notáveis: A Berlinda, A viagem do imperador do Brasil [sic], os Teatros de Lisboa, e A Lanterna[sic]. Em todas elas espontaneidade milagrosa, graça e alegria irresistíveis. Podem alguns de seus trabalhos ser menos cuidados que outros, e até menos bem inspirados, – porque é loucura pretender que um talento seja sempre igual, e que, logo que o público estabeleça diferença nas suas obras, julgando umas sublimes, outras medíocres, ou mesmo más, a culpa seja do público que prove com isso não estar no caso de as apreciar. Com a fortuna! Não há espírito que seja sempre igual; e muitas vezes acontece que qualquer causa, por mais leve, baste para o perturbar, para o paralisar, e, pelo contrário também, para o excitar. Em Bordalo Pinheiro se dava isso frequentemente. Tinha dias de uma melancolia, de uma desconsolação, de uma irritabilidade, que eu próprio, que fui um dos seus amigos mais íntimos, chegava a inquietar-me por ele.~

Todavia, por entre sombras e tristezas, continuava a ver em tudo assunto para caricaturas, coisas que escapavam à observação de toda a gente, saltavam aos seus olhos. Quando trabalhámos no livro Teatros de Lisboa sucedia perguntar-lhe eu nalguns pontos da escrita:
- Isto dá-te uma caricatura?
- Isso? Dá quantas se queira. Isso é uma mina!
E deveras lhe sucedia, com essas minas, o que acontece com as outras: enquanto os pródigos deixam perder os tesouros à proporção que os descobrem, enquanto os estouvados passam sem as verem e os empáfios apregoam que não prestam, o que entende da obra assenhoreia-se delas, enriquece, e ainda o público lhe fica agradecido.

Nunca a caricatura em Portugal ocupou lugar tão importante na história da moda e dos costumes, como o que atingira ultimamente mercê do talento e dos esforços de Rafael Bordalo. A caricatura política ainda teve outrora certa significação, enquanto viveu o Suplemento burlesco: mas as caricaturas morais, as fantasias, as cenas íntimas, e os gracejos aos abusos exigem que o espírito do público colabore por assim dizer com o artista a poder de o apreciar, e não queira cortar-lhe as unhas como ao gato que arranha, ou açaimá-lo por qualquer coisa como ao cão que morde. Há nações onde se poderia escrever a história exacta da liberdade com o escrever a história das caricaturas; nós não temos censura, mas ela existe, senão na forma, no fundo, e é às vezes para tudo em Portugal a pior das tiranias; chama-se-lhe as conveniências; podia chamar-se-lhe a hipocrisia!

Os brasileiros receberam muito bem Rafael Bordalo, e pelas notícias que nos chegam vê-se que ele está contente. Brinca com eles, eles riem-se, gostam de o ver; estimam naturalmente que seja cortês, mas, por compreenderem que para fazer caricaturas não basta ser delicado, é preciso ter espírito, e que, do mesmo modo que um sensaborão não está longe de ser mau homem, uma caricatura insípida parece ofensa em vez de graça, pedem-lhe simplesmente que se divirta, mas que os divirta também a eles. É razoável!

Júlio César Machado

BORDALO: UMA SETA DE LUME por Joćo Paulo Cotrim
CRONOLOGIA por João Paulo Cotrim
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Retrato de  Júlio César Machado
Citação de Joaquim Leitão: “...A CARICATURA, é uma das mais terríveis armas de guerra aplicadas ao ridículo humano. Pior do que o canhão! Porque o canhão mata — a caricatura mutila....”

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