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200 ANOS DO ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL Mosqueteiros - Desenho de Ana Maria  
A Exposição ROMANCE DE AVENTURAS ALEXANDRE DUMAS OUTROS AUTORES ESTRANGEIROS ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL
Antes das PlayStation

Paraliteratura de aventuras - Manuela Rêgo e Miguel Castelo Branco, Biblioteca Nacional

Revoltava-se em 1888 o ultra-romântico Pinheiro Chagas, na introdução à sua A jóia do Vice-Rei 1 (1888), contra a ideia, aliás muito difundida, da associação entre romance histórico e romance de aventuras à Dumas ou à Verne. «Mas quem os manda estudar ciência nos romances de Júlio Verne, e quem os manda estudar história nos romances de Alexandre Dumas?», perguntava, fazendo-se eco das preocupações literárias, cultoras do rigor dito positivista e do cientismo. Repelindo a associação a essa antiqualha que dera pelo nome de romance histórico – «a ideia de tomar a história como fundo de uma narrativa, e de entregar depois à imaginação o cuidado de desenhar as cenas, tinha inconvenientes tão graves, enlaçava de tal forma a mentira com a verdade que a nossa época ansiosa de exactidão começou a censurar esse adultério [...]» – rendendo, contudo, mesmo que contrafeito, tributo ao génio do encantador Dumas, para logo, preventivamente, atalhar que a obra do autor de Os Três Mosqueteiros, romantizada e não dramatizada, não compaginaria com o rigor pelas fontes.

O reconhecimento desta tensão contrastava com o momento literário do Portugal finissecular, ainda não preparado para a recepção do Simbolismo, antipositivista e antinaturalista, mas que ia aplaudindo esses afrescos de história narrativa, dramática e de expressão artística com que Oliveira Martins ia fustigando o Portugal Contemporâneo (1881). Algo de contraditório perpassava pela advertência de Chagas. O labor historiográfico, tal como o entendera o austero Herculano, não transigia com a concessão à efabulação, mas a história, «espelho da vida», essa permitira-lhe recriar, nas páginas de O Panorama, novelas históricas que passariam a marcar o imaginário colectivo sobre o Portugal pretérito.

O filão fora descoberto, ou antes, recebido de Walter Scott, e nas décadas seguintes uma série de «historiadores de género» dominou a cena editorial portuguesa.

De Rebelo da Silva, com Ódio velho não cansa (1848), a Andrade Corvo, com Um ano na corte (1850-51) – romance de intriga no ano da deposição de D. Afonso VI e do afastamento do seu válido Castelo Melhor 2 –, do aclamadíssimo e sempre reeditado Mário (1868), de Silva Gaio – novela que pretende debuxar os ódios insanáveis que dilaceraram Portugal durante a guerra civil 3 –, Teixeira de Vasconcelos, com O Conde de Castelo Melhor (1878) e O Prato de Arroz Doce (1862) – o quotidiano de uma família portuense durante a Patuleia –, mas também com Arnaldo Gama, Pinheiro Chagas, Alberto Pimentel, Bernardino Pinheiro, António Francisco Barata, Alberto de Castro... um infindável rol de textos impregnados de curiosidade pelos tempos passados domina o gosto de um vasto público mais ou menos letrado 4 . O interesse de Portugal pelo tempo morto – traço definidor tão bem caracterizado por Unamuno, que definia o país como «hermosamente triste y tristemente hermoso» – encontrará, talvez, explicação na conturbada vida colectiva de uma nação hesitante perante os umbrais da contemporaneidade.

O passado ausente-presente, invocado em todas as querelas políticas, literárias, religiosas, tão presente aos olhos desencantados da nossa intelligentsia, uma memória fugidia que povoava os sonhos de uma epopeia acabada, de um império residual e testemunhal, de desastres e tragédias marítimas e de uma Regeneração inconclusa, emprestou ao nosso nacionalismo um travo amargo que nem as façanhas de um Mouzinho, de um Alves Roçadas e da prometeica República conseguiriam disfarçar.O passado ausente-presente, invocado em todas as querelas políticas, literárias, religiosas, tão presente aos olhos desencantados da nossa intelligentsia, uma memória fugidia que povoava os sonhos de uma epopeia acabada, de um império residual e testemunhal, de desastres e tragédias marítimas e de uma Regeneração inconclusa, emprestou ao nosso nacionalismo um travo amargo que nem as façanhas de um Mouzinho, de um Alves Roçadas e da prometeica República conseguiriam disfarçar.

Ora, um dos efeitos da revolução dumasiana, neste catálogo por outros dissecada com propriedade, veio a revelar-se particularmente na incidência e permanência que as «aventuras portuguesas» conferiram ao enquadramento histórico dos seus enredos, sobretudo pelo facto de História e política, quadros mentais e opções estéticas – habitualmente conservadoras – tenderem a viver e reviver o passado, actualizando-o em todos os grandes transes da vida nacional, quer nas grandes comemorações (Camões, 1880; Marquês de Pombal, 1882; Infante D. Henrique, 1894; Viagem de Vasco da Gama, 1898) ou ainda na perseverança com que a auto-representação/autognose cultivou, no interior como no estrangeiro, a imagem das caravelas da Cruz de Cristo, dos grandes navegadores, dos direitos históricos de colonização e dos feitos que da lei da morte e do esquecimento nos cantou Camões. Portugal oferecerá, neste particular, um exemplo único de nacionalismo fundado na ideia de aventura. A «aventura portuguesa», nome com que nos expomos ao reconhecimento universal, imbrica-se num misto de acaso e desígnio nacional, provocador de espanto e incredulidade, mas também de resignada impotência perante o tempo e as ruínas. Considerações desta natureza numa curta introdução radicam-se em aspectos metodológicos ao seleccionar um corpus de obras representativas da literatura de aventuras em Portugal, no esteio da recepção do cânone/receita com que Deföe, Dumas, Stevenson, Twain, Verne e Salgari erigiram um género.

Importa, pois, uma breve incursão à teoria da literatura para avivarmos conceitos operatórios, tipologias definidoras e aquele grau de coerência e certeza necessários à formulação das seguintes questões:

– O que são as paraliteraturas?
– O que é o romance de aventuras?
– Qual a sua expressão, evolução e modos no panorama (para)literário português?
– Efeito de campo, esgotamento e transmigração do subgénero.

Paraliteraturas
As paraliteraturas constituem um perturbante continente situado à margem das preocupações dos teóricos e estudiosos da literatura. A bibliografia que lhes é dedicada é, entre nós, quase inexistente 5, e da Europa acedemos, a custo, a escassos trabalhos de grande perspectiva consagrados ao tema 6. Estudos monográficos sobre autores axiais há-os em profusão, mas privados da amplitude necessária para qualquer generalização. À literatura «canonizada» (obras consideradas valiosas pelo meio literário – escritores, críticos, professores – e aceites pela comunidade como parte fecunda e imperecível da sua herança cultural) 7, a literatura-instituição, a literatura-sistema, que é ensinada, antologiada, estudada, relida e reinterpretada, opor-se-ia uma não-literatura. «Género menor», «literatura juvenil», «infraliteratura», «subliteratura», «literatura de consumo» e «literatura ligeira» fazem parte do jargão que marca qualitativamente uma atitude de (des)valor para um veio imenso que povoou o imaginário de sucessivas gerações. A feliz descoberta da expressão paraliteratura, menos nociva, é relativamente recente, decorrendo de uma nova atitude compreensiva, destituída de preconceito e crivo judicativo. Porque falar de «subliteratura» era, por exemplo, até 1914, citar pejorativamente Baudelaire; porque falar de «literatura menor» era, até há bem pouco, fazer o inventário da hoje tão aclamada «literatura feminina».

O romance de aventuras ou paraliteratura épica caracterizar-se-ia por uma acção violenta e pouco usual desenrolando-se em cenários exóticos, fossem estas épocas históricas, paragens longínquas ou próximas exercendo forte sedução sobre o imaginário dos leitores, ou ainda tipos sociais e condutas marginais que a tradição envolveu em aura misteriosa. Do ponto de vista narrativo, os enredos organizavam-se em sequências bem definidas, com episódios bem demarcados, economia de meios e esquema actancial linear (decisão + aventura + vitória), com clara afirmação de personagens tendencialmente monolíticas.Paraliterários foram os folhetins jornalísticos, o «teatro de capa-e-espada» e a literatura dita de cordel, a produção cinematográfica não admitida nos cineclubes, a 9.ª arte e muitas outras formas de expressão que, desde sempre, justificaram a fuga a soturnos como asfixiantes horizontes. Sempre ao arrepio das vanguardas literárias e dos cânones nobilitadores das belas?letras, primícia literária para todos os grandes e pequenos leitores, foi escarnecida e refugada pelas academias onde se criva o que fica e o que passa. Até que, subitamente, Alexandre Dumas – um dos tais autores que todos leram mas de cuja prole poucos se reivindicam – ascendeu ao Panteão dos Imortais e se transformou em clássico, repousando os seus restos mortais na companhia de Voltaire, Rousseau, Hugo, Zola, Fénelon e Malraux. As universidades, instituições de conservação e resistência, que haviam recusado este tipo de literatura, resolveram encarar de frente o incómodo intruso, num misto de dúvida benevolente e de fastio.

O que são, pois, as paraliteraturas? Como refere um pioneiro dos estudos paraliterários 8 citado por Aguiar e Silva, paraliterária – marginal, periférica – será toda aquela não superiormente canonizada e não inscrita no catálogo de textos fundamentais sob os aspectos estético, semântico-pragmático e linguístico. Esta perspectiva possibilita, porém, uma admissão dos géneros inferiores, inscrevendo-os na história literária enquanto expressão de um dado momento histórico, ou seja, enquanto literatura cronotópica.

O romance de aventuras
Suspendendo quaisquer incursões nos domínios da análise actancial, regras codificadoras e no programa narrativo da literatura de aventuras, diríamos, com Tadié 9, que esta paraliteratura de aventuras se inscreve como herdeira do romance ocidental, nascido no século XVII, onde também se inscrevem o romance fantástico, o romance policial, o romance popular, o romance histórico e de ficção científica. O traço de união formal entre todos é, sem dúvida, o deleite pela trama aventurosa.
Este gosto pela aventura, permanente em todas as culturas herdeiras da civilização indo-europeia 10, traço distintivo, logo transfinito, exprimiu-se de diversas formas no tempo longo da produção literária ocidental. A evocação de fastos guerreiros, o culto dos heróis e da ética de desafio pressente-se nas cosmogonias e recitativos dos povos nascidos nas margens do Indo, ganhando especial relevo na Hélade, na Roma Antiga, nas florestas da Germânia e nas paragens nebulosas da Escandinávia: as lendas heróicas de Orfeu e Eurídice, os trabalhos de Hércules, a fúria de Aquiles e deambulações de Ulisses no seu longo regresso a Ítaca, as sagas nórdicas, exibem esta a exaltação viril. Cristianizadas, persistiram nas novelas de cavalaria sob a forma de amores, aventuras guerreiras e lutas com gigantes, ganhando epítomes de tipo com a lenda do Santo Graal. Depois, com o advento da era gâmica, a aventura espraiou-se pelas quatro partidas do mundo a bordo das naus do trato e dos galeões das armadas ou transformou-se, na literatura picaresca, em culto paródico do anti-herói heróico, transgressor e desafiador de uma ordem que o rejeita mas que acaba por o acolher pela sua excentricidade insistente 11. Não serão os nossos soldados práticos, os mercenários alternadamente ao serviço dos arqui-inimigos reis do Sião e Birmânia, o próprio Fernão Mendes, exemplos acabados do pícaro possível 12?

Subitamente, nos inícios do siglo de oro, na escalvada meseta castelhana, deu-se uma revolução literária que marcaria doravante profundamente toda a literatura europeia. A edição de El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha, em 1605, da autoria de um homem que blasonava ter perdido a mão direita para glória da esquerda, certifica o início da moderna ficção. O nascimento do romance – inquirição intelectual sobre a vida, sobre o mundo real e presente 13 – produzirá o nascimento de uma relação nova do homem com o mundo. Na literatura desaparece, por ora, o sincretismo entre homens e entidades míticas: dragões, monstros, feiticeiras e prodígios eclipsam-se; a prática do mal e do bem, da virtude e do vício passa a desenvolvem-se no plano da responsabilidade humana. O homem virtuoso – aquele novo homem no qual Baltazar Gracian educou em qualidade e engenho 14 – produz o herói moderno 15. A literatura de aventuras terá neste cadinho antropológico o seu berço. O herói das novas aventuras pode ser qualitativamente superior aos outros homens, mas está submetido ao meio natural. É mortal, sofre a dor, o medo, a ansiedade, luta, ama e é amado. Defensor de causas nobres ou daquelas crenças que repetidamente a civilização vai mobilizando para garantir a sua boa-fé e a ficção dirigente num aprimoramento da espécie, trava uma luta sem quartel contra a injustiça.

O romance de aventuras ou paraliteratura épica caracterizar-se-ia por uma acção violenta e pouco usual desenrolando-se em cenários exóticos, fossem estas épocas históricas, paragens longínquas ou próximas exercendo forte sedução sobre o imaginário dos leitores, ou ainda tipos sociais e condutas marginais que a tradição envolveu em aura misteriosa. Do ponto de vista narrativo, os enredos organizavam-se em sequências bem definidas, com episódios bem demarcados, economia de meios e esquema actancial linear (decisão + aventura + vitória), com clara afirmação de personagens tendencialmente monolíticas 16.O uso que aqui fazemos do pretérito prende-se com o reconhecimento de que este subgénero teve um nascimento, uma expansão e um definhamento claramente situados no tempo. Encarada na sua dimensão cronotópica, a literatura de aventuras desenvolve-se em três momentos bem demarcados, inscrevendo um arco cronológico que poderemos situar em princípios do século XVIII, com Daniel Deföe (1660-1731) – autor de Robinson Crusoe, de Memórias de um Cavaleiro e Moll Flanders – e Jonathan Swift (1647-1745), o criador das Viagens de Gulliver, ganhando magna expressão com o magistério de Alexandre Dumas – com o cortejo de aclamados escritores que fizeram do último quartel do século XIX a era por excelência da literatura de aventuras: Stevenson, Twain, Verne, Salgari, Haggard – definhando depois ou transmigrando para outros domínios da produção ficcional a partir das décadas de 20 e 30 do século XX.

Uma abordagem ligeira ao tema remete-nos, necessariamente, para uma perspectiva redutora, isto é, para a localização de marcas ideológicas (exaltação do imperialismo, do colonialismo, do nacionalismo e racismo, características do século XIX europeu) ou para a detecção de uma sub-cultura microburguesa escapista, alienante e massificada, apostada em reduzir os efeitos da anomia resultante do nascimento da nova sociedade industrial. Estas abordagens simplificadoras não resistirão a um conhecimento elementar do género que erige, quantas vezes, em heróis, os povos colonizados (Sandokan), os selvícolas (Tarzan) e os fora-da-lei (Edmond Dantes; Capitão Nemo, Capitão Morgan). Nesta relação entre «espírito da época» e literatura de aventuras importa ainda proceder a uma curta reflexão sobre esgotamento do imaginário que deu volume aos «livros de aventuras». O culto do herói guerreiro – exacerbado a partir do romantismo nacionalista – terá encontrado nas figuras de Giuseppe Garibaldi, o agente da unificação italiana, de Ungern Sternberg, o cossaco que pela Mongólia reinou nos dias trágicos da guerra civil russa, e do barão von Richthoffen um certificado de autenticidade. A Grande Guerra (1914-18) e o rol de desgraças que se abateu sobre o mundo com a Segunda Guerra Mundial mataram definitivamente o gosto pelas grandes mortandades ou pelo risco gratuito. As obras de um Hemingway (Por Quem os Sinos Dobram), de um Malraux (A Rainha de Sabá) ou de um Jean Lartéguy (Os Centuriões), por mais apaixonadas que se revelem), deixaram de ser apaixonantes após Verdun, Estalinegrado, Hiroxima, Nagasaki, Vietname e outras mais do tempo presente, a conquista do espaço e o completo domínio do homem sobre as profundezas dos oceanos, dos desertos gélidos e abrasadores. Os últimos heróis mitificados – que contariam hoje 75 anos, idade pouco propícia a grandes lances – foram, no imaginário ocidental, Che Guevara e James Bond, o primeiro caído nas selvas da Bolívia, o segundo possivelmente vivendo da pacata reforma que o Estado garante a funcionários públicos aposentados. A aventura, entretanto, mudou-se para o espaço sideral, para mundos paralelos ou regressou às cavernas dos dragões de Tolkien, à magia de Harry Potter e às mutações do Homem-Aranha.

As grandes aventuras de hoje dão-se em formato digital. Impõe-se-nos fazer um último apontamento. Literatura de aventuras e «literatura juvenil» constituem duas realidades distintas. A confusão que geralmente se estabelece entre ambas deriva do facto de algumas obras de aventuras se terem transformado em obras de leitura destinadas a jovens. Verificou-se um processo de juvenilização dos leitores de alguns clássicos que, por si, não remetiam para um público de características etárias definidas. Entre estes, podemos citar, à laia de exemplo, Moby Dick, de Melville, as obras de Stevenson, Jack London e Kipling.

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