| Este
período é dominado
pelas traduções.
A época de ouro do mágico
folhetim, usando a feliz expressão
de Ernesto Rodrigues, em que
pontificam os franceses, os
espanhóis e timidamente
emergem os ingleses, não
vivesse o mundo sob a Pax
Britannica.
As traduções
de Verne,
executadas por Borges de Avelar,
Pinheiro Chagas, Henrique Lopes
de Mendonça e Manuel
de Macedo, conhecem um assinalável
sucesso editorial; As
Minas de Salomão,
de Rider
Haggard, ganham os favores
do público graças
a Eça de Queirós;
renasce o interesse por Robinson
Crusoé, de Deföe,
que fora traduzido pela primeira
vez para o português em
1816 por Henrique Mascarenhas,
agora pela mão do incansável
Pinheiro Chagas.
Estas iniciativas fazem-se
acompanhar por um friso de outras
novidades fasciculares que aguçam
a curiosidade de um público
entretanto desperto pelas grandes
expedições científicas
que antecipam a ocupação,
de facto, e subsequente partilha
do continente negro. Teófilo
Braga dirige
À Volta do Mundo
1
e Emídio de Oliveira
o
Jornal de Viagens 2
, publicações
copiosamente ilustradas. A Europa
colonialista, imperialista e
industrial domina do planeta,
mas em Portugal, que resistira
a custo ao scramble for Africa,
engolindo a humilhação
do Ultimato, o imaginário
das obras aqui escritas tem
outros horizontes de inspiração.
Volta-se para o passado distante
e medieval 3
– na esteira de Herculano
–, para o Grand
Siècle 4
, sob influência da escola
francesa da capa-e-espada, em
reflexo português das
lutas restauracionistas, ou
revisita insistentemente as
invasões francesas e
os ódios fratricidas
caseiros que se lhes seguiram:
a guerra entre liberais e legitimistas,
a Patuleia, as guerrilhas tradicionalistas
5
.
Na linha claramente dumasiana
da série de obras que
este realizou sobre a revolução
de 1789, assiste-se a tentativas
de abordagem do tema, com Carlos
Pinto de Almeida (O
Corsário Português)
e Pinheiro Chagas (As
Duas Flores de Sangue),
ambas de 1875.
Ainda que tímidas e
balbuciantes na escolha de outras
coordenadas geográficas,
históricas e temáticas,
algumas obras deixam entrever
opções que encontrarão
sucesso nas décadas seguintes.
Lembramos Arzila:
romance do século XV,
de Bernardino Pinheiro, sobre
as lutas entre portugueses e
marroquinos; Viriato,
de Teófilo Braga, um
retrato enérgico do caudilho
lusitano; A
Cruz pelas Riquezas,
de Carlos Pinto de Almeida,
que inicia um longo ciclo de
obras consagradas aos Descobrimentos
e, de Francisco Luís
Gomes, Os
Brâmanes, romance
de amor, ciúme e vingança
que decorre na Índia
por alturas da revolta dos cipaios,
em 1857. Por fim, destaque para
Paulo,
o Montanhês, de
Arnaldo Gama, publicado em folhetins
em 1853, contando as façanhas
de um fora-da-lei na melhor
linha de Goethe (Göz
von Berlichingen), Dumas
(Pascal
Bruno) e Schiller (Os
Ladrões).
 |
Capa
e espada / Henrique Lopes
de Mendonça. –
Lisboa : Portugal-Brasil,
[D.L. 1922]
BN L. 19250 P.
|
Em finais da década
de 1880, algo novo se vem acrescentar
à panóplia de
cenários. O frémito
patriótico desencadeado
pelas comemorações
da chegada dos Portugueses à
Índia, o nacionalismo
republicano, a anglofobia e
o surto historiográfico,
agora popularizado por histórias
de Portugal ao alcance de um
público mais vasto –
lembramos a História
de Portugal, de António
Enes, Manuel Pinheiro Chagas,
Eduardo Vidal, Manuel de Macedo
e Gervásio Lobato, publicada
entre 1876 e 1880, bem como
a de Oliveira Martins, saída
em 1879 – passam a premiar
temas relacionados com o desbravamento
dos oceanos e o século
das conquistas de Afonso de
Albuquerque e D. João
de Castro 6
.
Esta promissora onda de novidades
pára subitamente, por
volta da viragem do século.
Dir-se-ia que o «romance
histórico-aventuroso»
se cansara e que nem mesmo as
recentes aventuras africanas,
de Serpa Pinto, Capelo, Ivens,
Mouzinho e Roçadas sugeriam
temas para entreter um público
já suficientemente satisfeito
pela entrada em cena de uma
larga galeria de destemidos
heróis galopando por
pradarias, subindo aos píncaros
das nuvens em aeróstatos
ou percorrendo os interstícios
da Terra.
A década de 1910 é
dominada por Texas
Jack, O Terror dos Índios.
Uma infindável série
de aventuras que deixa em suspense
semanal miúdos e graúdos
cansados pela necrologia da
Grande Guerra, pelas batalhas
na fila do racionamento e pelo
terror da Gripe Espanhola. Mas
se o folhetim de Texas Jack
impera, tem rivais na Volta
ao Mundo: o mais sensacional
romance de aventuras de todos
os tempos e de todos os paízes,
de Henri de la Vaux e Arnaud
Galopin, na Guerra
dos Ares, de Wells, n’A
Invasão Amarela
– sombria antevisão
de um futuro dominado pelos
asiáticos, precedendo
a moda Fu Manchu –, que
esgotam edições,
em seriados infindáveis,
ao longo de anos. |