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200 ANOS DO ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL Mosqueteiros - Desenho de Ana Maria  
A Exposição ROMANCE DE AVENTURAS ALEXANDRE DUMAS OUTROS AUTORES ESTRANGEIROS ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL
Estudos sobre a vida e a obra
Recepção do Romance de Aventuras por Claude Schopp Alexandre Dumas, a paixão é a aventura por fernando Guerreiro Alexandre o conquistador por Ernesto Rodrigues Duas notas sobre Alexandre Dumas em Portugal, por josé-Augusto França
Recepção do romance de aventuras, Eugène Delacroix leitor de Alexandre Dumas - por Claude Schopp Biógrafo de Alexandre Dumas
Situações de leitura  

O Diário 7 transmite características inesperadas sobre as condições materiais em que Delacroix lê os romances de Dumas.

Ao contrário da maioria dos seus contemporâneos, que lêem os romances do escritor nos folhetins dos jornais: «Recordemos o peso que nos tiraram de cima do peito, o apetite com que tomámos o pequeno-almoço na manhã em que o Journal des Débats nos informou que Monte-Cristo saíra são e salvo do saque» 8, Delacroix, embora assinante, parece desdenhar esse suporte que, fragmentando a obra, não lhe permite julgar o conjunto com o recuo necessário.
O pintor só lê em folhetim, no jornal La Presse, as Mémoires de Alexandre Dumas, para troçar das suas pretensões de memorialista: «Esta manhã Dumas começa assim a análise da peça de Antony em La Presse: “Esta peça deu origem a tantas controvérsias, que eu peço que me autorizem a não a abandonar assim; aliás é não apenas a minha obra, a minha obra mais pessoal, mas uma dessas obras raras que influenciaram a sua época”» 9; ou para apreciar, interrogando-se, todavia, sobre os defeitos dos seus contemporâneos, o «artigo de As Minhas Memórias de Dumas sobre Trouville, no qual há algumas coisas encantadoras... O que falta a essas pessoas? Gosto, tacto, a arte de escolher entre tudo o que lhes vem à cabeça e de saber parar a tempo. É provável que não trabalhem; mas bastaria trabalhar para adquirirem o que lhes falta? Não creio.» 10 A última menção a Dumas no seu Diário, a 6 de Agosto de 1860, mostra no entanto uma mudança nos hábitos de leitura: «Dumas agradou-me também com as suas Mémoires d’Horace, inseridas em Le Siècle. É uma ideia feliz e do pouco que li, achei-as finas e engenhosas.» 11

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Como se lê a literatura de aventuras?
Relações Humanas
Situações de leitura
Atirar o livro pela janela
Réception du roman d'aventure
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Outra surpresa do Diário: não tem nenhuma menção de envio de livros ao admirado Delacroix. É verdade que a materialidade das edições não se prestava muito a isso: 18 volumes para O Conde de Monte Cristo 12, 26 volumes para O Visconde de Bragelonne 13. À semelhança do leitor comum, o pintor não compra os livros, aluga-os num livreiro que possuía gabinete de leitura: «Hoje aluguei finalmente um romance de Dumas», «Aluguei livros para 8 dias» 14.

Estas particularidades, provavelmente reforçadas pela vontade de Delacroix de não ceder à novidade, dão origem a uma leitura à margem da actualidade editorial. O tempo entre a saída na livraria e a leitura é, frequentemente, considerável: dois ou três anos para os mais célebres, O Conde de Monte Cristo e Os Três Mosqueteiros 15, bem como para O Cavaleiro da Casa Vermelha 16, quatro anos para Memórias de um Médico: José Balsamo 17 e O Visconde de Bragelonne, oito anos para O colar da Rainha 18, 10 anos para A Guerra das Mulheres (Nanon de Lartigues) 19. O tempo que medeia entre a publicação e a leitura acentua-se ainda mais para Impressões de Viagem 20: Delacroix só lê La Villa Palmieri e Quinze Jours au Sinaï respectivamente 11 e 20 anos depois.

Último traço característico, os romances de Dumas são geralmente romances de vilegiatura – hoje diríamos de praia. Exceptuando as leituras de 1847 (O Conde de Monte Cristo, Os Três Mosqueteiros e O Cavaleiro da Casa Vermelha), Delacroix lê Dumas à beira-mar (Dieppe, Setembro de 1852, Agosto-Setembro de 1854, Julho de 1860) ou numa estância termal (Plombières, Julho de 1858). Estas leituras veranis pressupõem da parte do leitor um horizonte de expectativas claramente definido. Porque é que, logo que chega ao local de vilegiatura, o pintor aluga a Mlle Capron ou à viúva Marais – os dois gabinetes de leitura de Dieppe – os volumes do escritor? «Pus-me a ler Dumas, que me ajuda a suportar o tempo que não passo na praia» (Dieppe, sexta-feira 10 de Setembro de 1852); «Recorri ao expediente habitual para afastar o tédio dos momentos em que não sei o que fazer: aluguei um romance de Dumas» (Dieppe, 25 de Agosto de 1854).

Afastado do seu quadro habitual de vida, desocupado, o veraneante considera a leitura um derivativo ao tédio. Alugar livros de Dumas é uma terapia preventiva, tanto mais segura porquanto os seus efeitos foram testados: «Passei a manhã a descansar e a ler no meu quarto. Comecei o Monte-Cristo: é bastante divertido» (Paris, 5 de Fevereiro de 1847); «Fiquei todo o dia em casa a ler. O Cavaleiro da Casa Vermelha, de Dumas, muito divertido» (20 de Março de 1847).

«Li Os Três Mosqueteiros até agora [3 horas da tarde] que me divertiram muito» (12 de Maio de 1847). A repetição do mesmo verbo divertir, acompanhado de um advérbio superlativo, indica a expectativa do leitor de Dumas: encontrar uma certa forma agradável de abstracção num mundo de ócio. A ficção serve para encher o vazio, para combater uma «liberdade total que conduz ao tédio». E o remédio revela-se eficaz, às vezes até ao excesso: «Com isto às vezes até me esqueço de ir ver o mar», regista ele a 25 de Agosto de 1854. Tão eficaz que, às vezes, devido às vicissitudes da livraria, continua o romance de vilegiatura no regresso a Paris; assim, a 3 de Setembro de 1854, o livreiro diz-lhe que os dois últimos volumes de Bragelonne, que, por infelicidade, contêm a parte mais interessante, lhe faltam, e propõe-se mandá-los vir de Paris. «Eis uma das tribulações de Dieppe que já sentira há dois anos quando estava a ler a história de Balsamo», regista Delacroix; com efeito, começado em Setembro de 1852, o seu «querido Balsamo» só pôde ser terminado em Outubro, em Paris.

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