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200 ANOS DO ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL Mosqueteiros - Desenho de Ana Maria  
A Exposição ROMANCE DE AVENTURAS ALEXANDRE DUMAS OUTROS AUTORES ESTRANGEIROS ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL
Estudos sobre a vida e a obra
Recepção do Romance de Aventuras por Claude Schopp Alexandre Dumas, a paixão é a aventura por fernando Guerreiro Alexandre o conquistador por Ernesto Rodrigues Duas notas sobre Alexandre Dumas em Portugal, por josé-Augusto França
Recepção do romance de aventuras, Eugène Delacroix leitor de Alexandre Dumas - por Claude Schopp Biógrafo de Alexandre Dumas
Atirar o livro pela janela  

Usando uma imagem trivial, se Delacroix devora Dumas, não o digere. Num primeiro momento atira-se aos romances, mas num segundo rejeita-os. O homem de gosto experimenta uma espécie de sentimento de culpabilidade por se ter abandonado à volúpia que aquela literatura lhe provoca – o que é, indubitavelmente, uma das particularidades constantes da leitura do romance de aventuras. Eis o que ele escreve: «Um dia de preguiça total [...]; voltei a cair no Monte Cristo», porque o prazer que se sente, apesar «dos imensos diálogos que enchem as páginas», não leva a lado nenhum: «depois de se ler aquilo, é como não ter lido nada» (5 de Fevereiro de 1847). A maior censura diz pois respeito à superficialidade da obra (mas não será a própria leitura superficial?), que se manifesta pelo recurso ao maldito melodrama: O Cavaleiro da Casa Vermelha: «muito divertido e muito superficial. Sempre o mesmo melodrama.» O próprio «querido Balsamo» não escapa ao vício denunciado, apesar do entusiasmo que sentiu por ele: «Essa mistura de partes com talento com o eterno efeito de melodrama dá-nos por vezes vontade de atirar o livro pela janela; e, noutros momentos, há uma curiosidade que nos retém toda a noite sobre essses livros singulares, nos quais não podemos deixar de admirar a veia e uma certa imaginação, mas cujo autor não podemos considerar artista.»

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Como se lê a literatura de aventuras?
Relações Humanas
Situações de leitura
Atirar o livro pela janela
Réception du roman d'aventure
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É em nome de uma estética clássica que Delacroix condena sem indulgência aquilo que leu com tanto apetite: «Continuo a ler o romance de Dumas, Nanon de Lartigues. Este romance é encantador ao princípio mas depois, como de costume, vêm as partes aborrecidas, mal digeridas ou enfáticas. Ainda não apareceram as passagens pretensamente dramáticas e apaixonadas, como ele costuma introduzir em todos os seus romances, mesmo os mais cómicos. Essa mistura de cómico e de patético é realmente de mau gosto. É necessário que o espírito possa situar-se e saiba para onde o conduzem [...] O meu pobre Dumas, de quem eu gosto muito e que certamente se julga um Shakespeare, não fornece ao espírito pormenores tão fortes, nem um conjunto capaz de constituir uma unidade bem marcada na recordação. As partes não são bem equilibradas; o cómico, que é a sua parte melhor, parece acantonado em certos lugares das obras; e depois, subitamente, introduz-nos no drama sentimental, e aquelas personagens que nos faziam rir tornam-se choramingas e declamatórias. Quem poderia reconhecer naqueles alegres mosqueteiros do início da obra, aqueles seres de melodrama arrastados no fim para aquela história de uma certa Milady, julgada e executada no meio da noite numa tempestade?»

Delacroix recusa a mistura de géneros, em nome da unidade do tom («Dei uma olhadela a um livro de Dumas intitulado Trois mois au Sinaï [Quinze jours au Sinaï]. É, como sempre, o tom ligeiro e de comédia musical que ele não consegue limar, mesmo quando fala das Pirâmides; uma mistura do estilo mais enfático, mais colorido, com brejeirices que ficariam melhor num passeio de burros em Montmorency. É bastante alegre, mas também igualmente monótono e não pude passar da metade do primeiro volume» (22 de Julho de 1860); em nome da composição que exige que as partes se subordinem ao todo, recusa a liberdade narrativa; recusa o pathos que viola a sua concepção estóica do homem. E, com uma espécie de furor significativo, fica «irritado com aquela incrível má qualidade» (leitura de Ângelo Pitou 21, 27 de Julho de 1858), de tal forma que, como vimos, tem vontade de «atirar o livro pela janela».

No entanto, a sua reprovação não se dirige apenas a Dumas, mas à maioria dos escritores contemporâneos, em particular George Sand, uma amiga chegada, a quem ele censura a mesma falta de unidade: «É o defeito habitual de Mme Sand. Quando acabamos de ler o seu romance, as nossas ideias sobre as personagens são completamente confusas», escrevendo a propósito da adaptação teatral de Mauprat: «Todas as peças de Mme Sand apresentam a mesma ausência, ou antes a mesma ausência de composição: o princípio é sempre picante e promete ser interessante; o meio da peça arrasta-se no que ela supõe ser o desenvolvimento dos traços de carácter das personagens, mas que não passa de formas de adornar a acção [...] Falta-lhe o tacto da cena, bem como o de certas conveniências nos seus romances; não escreve para os Franceses [...]; e no entanto, em matéria de gosto, não se pode dizer que o público de hoje seja muito difícil. É como Dumas que despreza tudo, anda sempre desleixado e pensa estar acima de tudo o que as pessoas estão habituadas a respeitar» (Segunda-feira, 28 de Novembro de 1853). Assim, em O colar da Rainha, apesar de algumas passagens interessantes, condena outras «cheias das mesmas inconveniências e dos mesmos excessos» (27 de Julho de 1858).

Através destes dois escritores entre os mais populares e que ele aprecia, vota ao desprezo público um século inteiro – representado pelos leitores ou pelos espectadores desprovidos de gosto: «Não têm pudor nenhum e dirigem-se a um século sem pudor e sem freio.»

A leitura é um espelho que reflecte mais a imagem ideal do leitor do que a do autor. Através dos seus juízos de carácter estético, Delacroix revela ser alguém mal sintonizado com o seu século, nostálgico de valores, morais e políticos, de cariz aristocrático. Mas, um retrato mais íntimo é-nos dado pelas citações dos livros que ele leu e que regista no seu diário.

Quais são os traços que ressaltam dos trechos extraídos de Alexandre Dumas? Um misantropo que abandonou o mundo porque o mundo o abandonou: «Maquiavel passou os últimos anos de vida na solidão e no desgosto. Retirado na aldeia de San Casciano, entretinha-se durante grande parte do dia com os lenhadores, ou a jogar ao gamão com o seu hospedeiro. Por fim, a 22 de Junho de 1527, extinguiu-se tristemente, e a independência italiana expirou com ele» 22; um «amador» diria Dumas, perpetuamente desiludido: «A rainha foi sempre mulher e gloriava-se de ser amada. Certas almas têm essa aspiração para a simpatia de tudo o que as cerca. E não são estas as almas menos generosas deste mundo»23; um solitário que recusa a vida conjugal, porque se pretende livre: De Dumas em Monte Cristo, a propósito do casamento da filha de Danglars. O pai pergunta-lhe o motivo da recusa: «– A razão? – replicou a donzela – ora! a razão!… não é porque o homem seja mais feio, ou mais tolo, ou mais desagradável do que outro qualquer; não: o Sr. Andreia Cavalcanti pode até passar, para os que consideram os homens pela cara e pela figura, por um bom modelo; não é porque o meu coração se sinta menos impressionado por ele do que por qualquer outro; essa razão serviria para uma colegial; eu não amo absolutamente ninguém, bem o sabe, não é verdade? Não vejo a razão por que, sem necessidade absoluta, irei prender a minha vida a um eterno companheiro. Um sábio disse, não sei onde: “Nada de demasias”; e, outro: “Transportai tudo convosco”. Ensinaram-me estes dois aforismos em latim e em grego. Um é, segundo creio, de Fedro, e o outro de Bias. Pois bem, meu querido pai: no naufrágio da vida, porque a vida é um naufrágio eterno das nossas esperanças, eu atiro ao mar a minha bagagem inútil, eis tudo, e fico apenas com a minha vontade, disposta a viver perfeitamente só, e por consequência perfeitamente livre» 24; um crítico das fraquezas e das misérias humanas: «Por isso, preferindo mil vezes a morte a uma captura, fazia coisas admiráveis, e que mais de uma vez me provaram que o demasiado cuidado que temos no nosso corpo é talvez o único obstáculo para o bom êxito dos nossos projectos, que careçam de uma decisão rápida ou por vezes de execução rigorosa e determinada.

E o facto é que, quando se faz o sacrifício da vida, não se é igual aos outros homens, ou melhor, os outros homens não são iguais, e quem toma essa resolução sente no mesmo instante decuplicarem-lhe as forças e alargar-se-lhe o horizonte.» 25

Essa misantropia, que se reflete no espelho das citações, não hesita em atribuir motivos baixos a quem não partilha da sua opinião: «Ao jantar, Merimée falava-me de Dumas com a maior estima: prefere-o a Walter Scott. Talvez que ao envelhecer ele esteja a tornar-se melhor, talvez louve muito, com medo de criar inimigos» (13 de Janeiro de 1856) 26.
Delacroix é um leitor ingrato, como muitos leitores de romances de aventuras, incapazes de confessar um prazer, se este não estiver à altura da representação que eles fazem de si próprios.

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