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200 ANOS DO ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL Mosqueteiros - Desenho de Ana Maria  
A Exposição ROMANCE DE AVENTURAS ALEXANDRE DUMAS OUTROS AUTORES ESTRANGEIROS ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL
Estudos sobre a vida e a obra
Recepção do Romance de Aventuras por Claude Schopp Alexandre Dumas, a paixão é a aventura por fernando Guerreiro Alexandre o conquistador por Ernesto Rodrigues Duas notas sobre Alexandre Dumas em Portugal, por josé-Augusto França
Alexandre, o conquistador - Ernesto Rodrigues
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Quando, em 23.11.1843, no n.º 14 da Revista Universal Lisbonense (p. 163-164), Almeida Garrett ironiza com o pronto-a-vestir literário, inscreve a importância, para «a nossa literatura original», dos «figurinos franceses de Dumas, de Eug. Sue, de Vítor Hugo», em que basta recortar, «de cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel de cor da moda, verde, pardo, azul», e depressa nasce o romance ou drama.

O leitor não tem de ser «pateta». A receita está actualizada no capítulo V de Viagens na Minha Terra e releva um Dumas tutelar, em claro processo de canonização. Hugo e Dumas ainda pairam nos capítulos III, IX, XIII.

A. A. Gonçalves Rodrigues (A Tradução em Portugal, II, 1992) rastreou a presença de Dumas entre nós desde 1836, quando o dramaturgo se impõe, apesar da afortunada novelística de Le Capitaine Paul (1838), que inspirará Paulo, o Montanhês (1853), de Arnaldo Gama.

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En Français: Alexandre, le conquéreur

Trata-se, também, de um dos «verdadeiros poemas» enumerados por Castilho na carta ao editor António Maria Pereira em posfácio ao Poema da Mocidade (1865); e Manuel Pinheiro Chagas tradu-lo em 1878. Adaptado à cena (1843), o actor Teodorico no papel do velho Achard foi memorado por Júlio César Machado (Os Teatros de Lisboa, 1875; 1991, p. 129).

La Tour de Nesle (1832), que inaugura a colaboração a quatro mãos, com Gaillardet, comparece no Archivo Theatral de 1838, ecoando no capítulo X de O Mistério da Estrada de Sintra (1870). Herculano fala, mesmo, de «génio», ao citar Hugo e Dumas, no Diário do Governo (12.07.1838), e convoca-o em recensão a D. Maria Teles (1842). Há-de envolvê-lo na crítica à indústria romanesca, quando ainda acreditava na regeneração política e literária do país (1851). Certo é que também a Revista Universal (01.10.1841), antes de ser Lisbonense, alerta para as «imoralidades douradas» da Torre de Nesle...

Dumas - Desenho de TagarroDumas é presença regular no Teatro Normal da Rua dos Condes, desde 1843: Don Juan de Maraña ou la Chute d’un Ange (1836) associa «O elemento do bem e do mal, simbolizados num anjo propício e num anjo adverso, [que] formam o fundo desta composição dramática que requer uma execução esmerada e completa para se fazer tolerar» (J. C. Machado, p. 128-129); catapulta aquele Teodorico como anjo mau, por doença do actor Rosa após a estreia. Un Mariage sous Louis XV (1841; Um Casamento no Tempo de Luiz 15.º, comédia em cinco actos vertida por Mendes Leal Júnior) pode ser vista em Outubro do ano seguinte: A Revolução de Setembro (12.10.1844) assinala que «Mr. A. Dumas sahiu desta senda comunissima, e affastando-se a ser rasoavel e verdadeiro, para ser original». Outra comédia em cinco actos, Les Demoiselles de Saint-Cyr (1843; As Duas Educandas), inaugura 1845 no mesmo teatro.

Êxito que modela personagem-tipo durante uns 85 anos, e pediria outra demora, Antony (1831; trad. em volume, 1839) será a peça-feitiço, menos pelas representações em palco que pela figura do jovem amante aí ensaiada. Além de conter um, doravante clássico, enjeitado que vive à margem da sociedade, ele julga salvar-se pelo amor. Desaparecera, contudo; Adèle casa com um coronel e tem uma filha. Natural.

Anuncia-se o seu regresso. Adèle foge, mas também do amor que se reacende, e teme. Aí, os cavalos fazem perigar-lhe a vida e alguém a socorre, dominando a pulsão animal. «Como Antony...», lembra José-Augusto França, ao curar de Maurício nas Memórias de Um Doido (na Revista Universal Lisbonense e em volume, 1849; 1982, p. 37), de António Pedro Lopes de Mendonça.

Dumas na companhia de um personagem feminino - Desenho de TagarroNem por acaso, Mendonça estreara-se aos 15 anos em letra de forma com tradução de Isabel de Baviera: Reinado de Carlos VI (3 vol., 1841), das Chroniques de France. Isabel de Bavière (Règne de Charles VI), 1835. Nos folhetins d’A Revolução de Setembro, onde pontificava, quase logo enfeixados em Ensaios de Critica e Litteratura (1849, p. 71), um Mendonça proudhoniano analisara já o drama «sahido das classes inferiores»: Dumas bastardo escreveu Antony; Dumas mulato traçou o romance de Georges [1843]; Dumas artista creou Kean [1836]; cada um dos aspectos da vida corresponde a uma solemne manifestação do talento.

O prólogo de Catherine Howard (1834) é citado «de memoria» na p. 76.
Ferido, Antony justifica-se e reconquista-a; mas Adèle ainda resiste, juntando-se ao marido em Estrasburgo. Persistente, aquele trá-la de volta a Paris; agora, é a filha que cria a hesitação. Desemboca, entretanto, o militar; bate à porta; e, na fuga já impossível, Antony apunhala Adèle, explicando: « Elle me résistait, je l’ai assassinée. » Esquivar o escândalo ou salvar a honra da amada levava a extremos lamentáveis. Os nossos heróis eram mais comedidos.

A cena do marido/pai que chega tem solução prosaica ou risível em Camilo Castelo Branco (Anátema, 1851; «Aventuras dum boticário de aldeia», Cenas Contemporâneas, 1855...); heróica no sacrifício pela irmã em Júlio César Machado («Os noivos», Contos ao Luar, 1861); fruto do acaso e verosimilhança negligente em Santos Nazaré (Eva, 1870).

Este, aliás, cria um Gustavo segundo Didier hugoliano (Marion Delorme, 1829), mas é lido como «verdadeiro Antony» no «Folhetim/Revista da Semana» que Pinheiro Chagas lhe dedica no Jornal do Comércio (14.01.1871), talvez porque, em Abril último, Antony subira ao palco do Teatro do Príncipe Real (cf. J. C. Machado, A Revolução de Setembro, 12.04.1870). Gomes Leal corroborara tal identificação («Considerações sobre o realismo. Duas palavras sobre a Eva do sr. Nazareth», A Revolução de Setembro, 29.12.1870), não sem avisar:

O velho Dumas dizia já no prefácio do seu romantico theatro que na Arte não se devia tomar conta ao escriptor do assumpto que tratára; mas sim da fórma por que o tratára.

Neste ponto, Eva baqueava. Quanto ao herói, resume excelentemente o tipo dumasiano, e seus efeitos:

Quando Bocage [célebre actor francês] em Paris interpretava aquelle lyrico e desalentado Antony, não se viam nos theatros, nos passeios e nas reuniões senão petits crevés escrupulosos como estampas, e pallidos como bistre, que andavam blasés e desalentados, e que olhavam doce e elegiacamente para as mulheres debaixo dos lorgnons. Elles tinham olheiras, rugas fingidas, e arrastavam-se custosamente, e eram romanticos e ridiculos.

O «frenesim desenfreado de Antony» (1849; 1982, p. 134) desaparece, em Mendonça, na refundição de 1859. Passa a negativo, caracterizando certa produção dramatúrgica, enquanto «descabelado Antony de algum drama de contrabando» (1849, p. 252) ou «Antony de algum pavoroso drama» (1859, p. 253).

PP-14427-v-1 - Lisboa 150 (3 Jul.1909)O excessivamente «sentimental Antony» («A mulher que o mundo respeita», Coração, Cabeça e Estômago, 1862) abunda em Camilo. É uma atitude dos leões das salas – do jovem portuense de 1849-1850 evocado por este, bem como por Ramalho Ortigão, ao versar o mesmo Camilo:

Vestiam-se em geral de um modo comum – calças á hussard, casaco ou sobrecasaca abotoada até ao pescoço, grande laço na gravata á lorde Byron ou á Antony. Como agasalho envolviam-se romanescamente no plaid de Walter Scott, em quadrados escocezes. (Quatro Grandes Figuras Literárias. Camões, Garrett, Camilo e Eça, 3.ª ed., 1924, p. 141)

Não raro, este janotismo de fazenda literária é desopilante – para o leitor: na cena de 1855, Camilo descreve Mariquinha Pires como «rapariga duma vez, e cousa de pôr a cara a um lado a mais de quatro Antonys de socos que lhe andavam por lá a regougar palavras de ternura».

Desinquietam as famílias e supõem(-se) os românticos que não tivemos. José-Augusto França, quase no final de O Romantismo em Portugal (1974, vol. 6, p. 1305), serve-se de carta de 1913 de Mário de Sá-Carneiro a Pessoa e lança a dúvida: «Admirador de Antony, de Dumas, não se sentia ele ligado ao ultra-romantismo?...» Álvaro Manuel Machado (Les Romantismes au Portugal. [...], 1986, p. 583-584) acrescenta cartas de 1915, sobre um projecto de «novela romântica», em que entrevemos, pasme-se!, «um Antony interseccionista, numa palavra».

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