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200 ANOS DO ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL Mosqueteiros - Desenho de Ana Maria  
A Exposição ROMANCE DE AVENTURAS ALEXANDRE DUMAS OUTROS AUTORES ESTRANGEIROS ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL
Estudos sobre a vida e a obra
Recepção do Romance de Aventuras por Claude Schopp Alexandre Dumas, a paixão é a aventura por fernando Guerreiro Alexandre o conquistador por Ernesto Rodrigues Duas notas sobre Alexandre Dumas em Portugal, por josé-Augusto França
Duas notas sobre Alexandre Dumas em Portugal por José -Augusto França
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O teatro de Dumas na Rua dos Condes

Foi por via teatral que Dumas entrou no consumo literário português, tal como se passou com Victor Hugo, e ao mesmo tempo que foi a grande época da companhia francesa de Emile Doux, no teatro da Rua dos Condes, e dele sozinho depois, à frente de uma improvisada companhia portuguesa declamando traduções mais ou menos apressadas também.

Teatro em francês, houve-o de Janeiro de 1835 a Abril de 37, e em português até 1840, com o encenador francês a bater-se por fazer «sair (os actores nacionais) do estado miserável em que se encontravam». Ele passou depois ao teatro do Salitre de pardieiro em pardieiro, indo ao Ginásio aberto em 1846 e ao D. Fernando adaptado na igreja desafectada de Sta. Justa três anos depois, para ali fazendo traduzir o famoso drama de Scribe Adrienne Lecouvreur.

Nota 1
Nota 2
Deux remarques sur A. Dumas au Portugal

E na sua vasta acção educou os actores portugueses da geração romântica, os Epifânios, os Teodoricos, o Rosa-pai, e inventou a primeira grande vedeta feminina que foi Emília das Neves, a «Linda Emília» que tinha 18 anos em 1838 e seria aplaudida até 1883. Todos eles aparecem nos elencos das peças de Dumas, A Torre de Nesle, Ricardo Darlington, Catarina Howard, senão da Lucrécia Bórgia de Hugo, que os folhetos do Archivo Theatral publicavam regularmente, até 1845, com larga divulgação. Junto de um público que lia perto de 40 jornais consagrados ao teatro, já desde o fim dos anos 30.

Depois, seria o teatro nacional que Garrett teve de criar desde o princípio, escrevendo Um Auto de Gil Vicente para a Rua dos Condes, em 1838, – e, em 1840, no aniversário de D. Maria II, fazendo representar Filipa de Vilhena com clara intenção política, pelos alunos do Conservatório setembrista que ele próprio criara, no convento meio arruinado dos Caetanos. Tratava-se de fundar uma «escola de bom gosto» e de «contribuir para a civilização e aperfeiçoamento moral da nação portuguesa». No mesmo movimento se encontravam Herculano e Castilho, mas numa «Associação de Gil Vicente» que punha o teatro «português» do Salitre contra o teatro «francês» dos Condes. Porém, ali Doux encenou o famoso Antony de Dumas, em 1837 – a mesma peça que Ramalho Ortigão retraduziria em 1872, e em 39 teve curiosa e inesperada edição em Coimbra.

O drama, em 1848, surge na morte de «Maurício» como modelo romântico do que é o primeiro herói (por demais esquecido) do romance nacional, em Memórias de um Doido, de António Pedro Lopes de Mendonça. E nele se inspira o Arnaldo Gama de Paulo, em 1853. O primeiro texto de Dumas traduzido ou publicado em português foi, porém, em 1829, Amaury – a Sala das Feiticeiras, republicado em 1836 e ainda em 1852 (A. Gonçalves Rodrigues, A Tradução em Portugal… Lisboa, 1992-).

As peças mais famosas de Dumas foram, contudo, editadas em 1838-39, a Torre de Nesle, Catarina Howard, Ricardo Darlington e Antony, mas Henrique III e a sua corte, embora representado em 1837, só o foi em 1842, apesar de ser a obra que marcou a sua entrada em cena e que, entre o Cromwell e o Hernani de Victor Hugo, confirmou a grande vitória do romantismo nos palcos e na vida mental de Paris, com os seus escândalos de estreia, entre 1829 e 30 – datas impossíveis para a Lisboa miguelista desse tempo. Como impossíveis podiam parecer para a França de Carlos X, em semelhança política e ideologia. Só que num lado havia Hugos e Dumas e no outro não. Ou era impensável que Garrett e Herculano, se tivessem ficado em Portugal e não emigrado politicamente, pudessem ter-se batido contra o absolutismo analfabeto vigente, em sítios de teatro – que de todo em todo não havia para isso… Mas a liberdade assim conquistada nos palcos do Boulevard de Saint-Martin abriu o caminho para aquela que viria a poder assumir uma nova situação da civilização portuguesa, na qual Dumas e Hugo seriam referências fundamentais, anos liberais depois.

Mesmo que, logo em 1840, no Porto, Gomes Monteiro afirmasse que a Torre de Nesle, como a Lucrécia Bórgia de Hugo, eram «monstruosidades de depravação», embora «maravilhas de talento», e que em Portugal, aos corações ainda não «corrompidos», só podiam causar «asco e horror»! E na Revista Universal Lisbonense, de Castilho no ano seguinte, decretava-se que era necessário arredar dos nossos palcos esses «terrores absurdos», essas «imoralidades douradas» – cujas «imitações servis», dos novos autores portugueses, sete anos mais tarde, nas mesmas colunas, se lamentava. E já Herculano, em 41, via o drama «prostituir-se moralmente cada vez mais», por culpa dos empresários cujo «evangelho era o livro de caixa». O que, ao mesmo tempo, testemunhava sucessos inegáveis, cujas referências eram sempre Dumas e Victor Hugo.

Em 1839, porém, Mendes Leal estreava um êxito próprio, que seria referência também, na história do teatro português, não tanto por discutível qualidade literária, mas por intenção de acerto de seu passo com as passadas francesas. Tratava-se d’Os Dois Renegados que foi publicado com um prefácio de relativa importância para nós.

Nas proporções possíveis, esse texto correspondia ao prefácio célebre de Hugo no seu Cromwell. Nele se fazia o elogio ideológico do drama romântico, com a sua grande intenção moralista – para que o público viesse a preferir a virtude ao vício que lhe eram apresentados regiamente, pelo dramaturgo. As referências para o jovem autor eram Hugo, Dumas, Delavigne e também Shakespeare.

«Figurinos franceses» de que Garrett troçava em 1843, decerto, mas eram eles que garantiam o desenvolvimento de uma dramaturgia nacional, e mesmo ele e Herculano a eles se sujeitavam, sem que todos os praticantes pudessem estar à altura, numa produção que foi evoluindo desde os anos 80 até ao fim do século dos Marcelinos de Mesquita, dos D. João da Câmara, dos Lopes de Mendonça, até ao mais longevo Júlio Dantas com um historicismo que caíra em desuso em França, e em Lisboa ia da cena do teatro D. Maria até às cenas da pintura dita «de História», em ensino da Academia e exposições anuais, de idêntico prestígio.

… Mas Alexandre Dumas era também, e mais passou a ser, os romances históricos, ou de aventuras históricas, desde Os Três Mosqueteiros, traduzidos pela primeira vez em 1840, e com Vinte anos depois, passados três anos (N. Sra de Paris, de Victor Hugo, foi traduzida em 1841, segunda obra dele, depois de Han d’Islandia, em 40), e depois, desde 1847, O Conde de Monte Cristo, A Dama de Monsoreau, O Cavaleiro da Maison-Rouge (traduzido por «da Casa Encarnada» o nome da família), O Colar da Rainha, A Rainha Margot (sem que no original se lembre que ela foi noiva apontada para o nosso D. Sebastião – coitados de ambos…), Os Quarenta e Cinco, As Memórias de um Médico ou José Bálsamo («inocente burla» da «ardente cabeça» do autor, que Camilo denunciaria), etc., etc., com Os Mohicanos de Paris em 1861, e A San Felice em 1865, no fim excelente da sua carreira. Houve uma Isabel de Baviera que A. P. Lopes de Mendonça traduziu em 1841, e a San Felice teve tradução de Pinheiro Chagas. E houve também a novela Dom Martim de Freitas, em 41, tema tão «português» quanto possível, com algumas confusões devidas à fonte de Dumas, o cronista Telesforo de Truche, que o tradutor F. P. da C. Gonçalves aponta.

Nacionais, e em épocas várias, foram, de Herculano, d’O Bobo de 1843 (aliás desde o Rausso por Homízio de Rebelo da Silva, no ano anterior), do Garrett do Arco de Sant’Ana de 45-50, e outros Rebelos da Silva – até 1871, com o mais animoso de todos os romances «joaninos» de capa e espada, De Noite todos os gatos são pardos. Arnaldo Gama ocupa os anos 60, como o Chagas, desde 1867, ainda em 90 activo com A Jóia do Vice-Rei (que é D. Francisco de Almeida nas Índias), há um Marreca, um Corvo, um Lousada (Rua Escura, de 1856, que vale a pena lembrar), um Bernardino Pinheiro, vários Teixeira de Vasconcelos, e mesmo uma estreia de Oliveira Martins, que a renegou (Febo Moniz, 1867), além de vários Camilos – e do Eça d’A Ilustre Casa de Ramires em 1900, e etc., etc., até Alberto Pimentel, Campos Monteiro, Eduardo Noronha e (muito) Rocha Martins. Enquanto, nos anos 50, a «Biblioteca Económica», recomendada pelo governo fontista (e não sem críticas puristas), publicava Dumas, Hugo, Sue e Chateaubriand, e a «Biblioteca dos Dois Mundos», cerca de 1865, a concorria – sempre com muitos Paul de Kock, que não era histórico mas vendia popularmente…

Uma curiosidade: a continuação apócrifa d’O Conde de Monte Cristo em A Mão do Finado, devida a Alfredo Possolo Hogan, em 1853, que passou por obra legítima de Dumas.

Outra curiosidade: a adaptação do mesmo romance, ou parte dele, ao teatro, em Edmond Dantès (em data que não sei), por dois hábeis e fecundos autores, Rangel de Lima e César Augusto de Mesquita, deputado e especialista aduaneiro que conde foi, do apelido, em 1901, pela coincidência de ter casado com uma sobrinha de Fontes Pereira de Melo.

… Mas «Monte Cristos» assim, ou «Margots» ou «Mosqueteiros» do rei, onde os havia em Portugal para tanta inspiração? Deve notar-se que a história pátria pouco deu para aventuras navais, depois das portentosas Histórias Trágico-Marítimas coligidas no tempo de D. João V, no talento imaginativo dos nossos autores do romantismo, epocal ou tardo. Sérios de mais como Herculano, hábeis de menos como Rebelo da Silva ou Arnaldo Gama, ou pensando em outras coisas mais a peito, como Camilo…

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