
Destinado ao sacerdócio presbiteriano, Daniel
Foe – o aristocratizante prefixo De foi colado
ao seu plebeu nome de origem para assinar violentos
panfletos que o popularizaram e o levariam ao cárcere
– viajou pela Europa ocidental como comerciante,
antes de se consagrar ao periodismo político.
O envolvimento na agitada vida pública nos anos
que antecederam a Gloriosa Revolução de
1689 trouxe-lhe dissabores, primeiro como opositor dos
detestados Stuart, depois como fervoroso partidário
de Guilherme III de Orange, um rei estrangeiro tolerado
mas não amado pelos ingleses. A braços
com insolúveis problemas de sobrevivência
e suspeitas, fundamentadas, de trabalhar como agente
secreto da coroa, abraça aos 60 anos uma vida
literária que o viria a eternizar. Em 1719 publica
a Vida
e Extraordinárias e Portentosas Aventuras de
Robinson Crusoe de Iorque (Versão
traduzida da lingua francesa por Henrique Leitão
de Sousa Mascarenhas e Versão
da Edição completa Inglesa, 1903),
a que se seguiram Moll
Flanders (1722) – a biografia aventurosa
de uma meretriz londrina –,
Diário do Ano da Peste (1722), Coronel
Jack (1722), Roxana
(1724), Histórias
de Piratas (1724-28) e o Perfeito
Comerciante Inglês (1725-27).
Iniciador de uma infindável galeria de histórias
de naufrágios, ambientadas ao século XVIII
– robinsonadas que cativaram a atenção
de um público sensibilizado para as tragédias
marítimas numa época em que a Union Jack
se desfraldava vitoriosa por todos os oceanos –
Deföe dá vida, na figura de William Selkirk,
ao homem comum subitamente privado dos confortos da
civilização, confinado a uma ilha selvagem
e exposto a uma natureza pródiga como implacável,
num exílio que se prolonga por 28 intermináveis
anos de provações. A novela, com claro
enquadramento na reflexão antropológica
da segunda metade de Setecentos, transporta uma legibilidade
que a mantém viva fora do quadro epocal em que
foi produzida, facto comprovado pelas centenas de edições
e pelo fascínio que tem exercido sobre inúmeros
realizadores de cinema. Odesvalido Crusoe aporta à
paradisíaca ilha sem agasalhos mas, ao contrário
do bom selvagem de Rousseau, carrega o fardo de todas
as crenças e instituições da longínqua
pátria, incluindo a escravatura, que impõe
ao ingénuo Sexta-Feira, sua única companhia
de infortúnio. Entre tempestades súbitas,
animais ferozes e canibais, Crusoe metaforiza a história
da humanidade arrancada da natureza e condenada a uma
luta sem quartel pela sobrevivência. |