
O veronês Emilio Salgari foi, ao longo de um
século, leitura iniciática e obrigatória
para gerações de jovens ávidos
de aventuras exóticas. Em Itália, a sua
vasta obra foi mais lida que a de Dante – de estudo
obrigatório nos liceus – e ainda hoje,
quase um século após a sua morte, permanece
como um dos 40 autores italianos mais traduzidos. Não
sendo, decididamente, um grande autor – foi sempre
ignorado pela crítica –, é um clássico
sucessivamente reeditado ou transposto para o cinema.
Fenómeno de longevidade, concitou recentemente
o interesse de estudiosos das paraliteraturas.
Salgari aprendeu os rudimentos da arte de navegar
num navio-escola de cabotagem do Adriático, passando
a utilizar abusivamente o título de «capitão»
ao longo da vida. A sua autobiografia, relato de supostas
aventuras nos mares do Oriente, ter-lhe-ia inspirado
a galeria de heróis destemidos que enchem os
quase 90 romances de sua autoria e os 50 apócrifos
publicados após a sua morte pelos seus filhos
Omar e Nadir, bem como por Luigi Motta. É pacífico,
porém, que Salgari jamais sulcou outros mares
que os da sua febril imaginação e nunca
conheceu outros piratas senão os sucessivos editores
que o exploraram ao longo de uma vida de indizíveis
privações e que o levariam a um suicídio
digno da aura de exotismo que toda a vida cultivou:
cometeu um arremedo de hara-kiri.
Os jornais estrangeiros, a literatura de viagens e
enciclopédias inspiraram os enredos aventurosos
dos quatro principais ciclos da produção
(Piratas da Malásia; Corsários das Antilhas;
Corsários das Bermudas; Far-West). Os seus heróis
são proscritos, fora-da-lei ou «bárbaros»
perseguidos pela avidez de colonizadores «civilizados»,
denunciando o fundo libertário da visão
salgariana de um mundo então eurocêntrico,
racista e imperialista. Sandokan,
um príncipe malaio acolitado pelo português
Yanez de Gomera (!), pelo audaz bengali Tremal-Naik
e pelo jovem marata Kammamuri movem ao pérfido
«rajá branco» de Sarawak, o famigerado
James Brooke, uma guerra sem quartel; o Corsário
Negro e o Capitão
Morgan dedicam
a sua vida à luta contra os ávidos colonizadores
das Caraíbas, enquanto os corsários das
Bermudas, ao serviço da causa independentista
norte-americana, desbaratam sucessivas esquadras britânicas.
A prolixa galeria de figuras e enredos de Salgari inscreve
também, em tantos outros romances isolados, a
temática canónica do género aventureiro:
naufrágios, expedições a regiões
inóspitas, quadros históricos, civilizações
desaparecidas e mesmo uma incursão aos domínios
da ficção protocientífica. Nas
suas Maravilhas
do ano 2000,
a história termina em Lisboa, com os heróis
da aventura enlouquecidos pela «saturação
eléctrica» de um mundo dominado pelas máquinas.
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