
Aprendiz de tipógrafo, piloto no Mississípi,
garimpeiro na corrida ao ouro, jornalista globe-trotter
e depois escritor a tempo inteiro, Mark Twain, pseudónimo
de Samuel Langhorne Clemens, representa uma certa América
feita de excentricidades regionais que o processo de
nacionalização cultural – e uniformização
económica e política decorrente da Guerra
da Secessão – condenaria ao desaparecimento.
O seu quadro de tipos e situações, entre
o anedótico e o épico, se bem que fortemente
marcados por uma atitude rebelde, inconformista e crítica,
depressa passaram a constituir um dos muitos alicerces
da mitologia americana. Se Tom
Sawyer e Huckleberry
Finn resistiram à morte do Sul rural,
aristocrático e provinciano, transformando-se
em ícones da cultura popular moderna, o mesmo
não aconteceu com a numerosa produção
contista de Twain, aquela que, no seu tempo, maior popularidade
trouxe ao escritor.
Há muito conhecido do público português
– os primeiros contos apareceram, sob a forma
de folhetins, em finais da década de 1880, traduzidos
por Fernandes Costa – o autor de o Príncipe
e o Pobre conheceu entre nós verdadeiro
culto entre as décadas de 40 e 70 do século
XX pela conjugação simultânea do
triunfo da cultura de massas norte-americana e colapso
da ideia do herói tradicional (europeu) criado
pelo romantismo, que se americaniza, democratiza e simplifica.
Ou não somos todos nós, homens comuns,
aspirantes a heróis? |