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A ideia de uma exposição
dedicada a «livros de aventuras»
– Antes das Playstations – surgiu
no contexto do bicentenário de Alexandre
Dumas, muito embora se tenha procurado,
desde o início, que ela não
se ficasse pela simples efeméride
e trouxesse a público, de entre o
vasto património bibliográfico
da Biblioteca Nacional e, especialmente,
de entre toda essa galáxia de géneros
e subgéneros a que se tem chamado
de paraliterários, um catálogo
do «romance de aventuras» escrito
em português. A paraliteratura é,
como se sabe, um conceito vago e suficientemente
folgado para lá caberem coisas tão
diversas como a literatura de cordel ou
a ficção científica,
o romance de capa e espada ou o policial,
géneros que entre si pouco mais devem
ter de comum que a situação
periférica, em relação
aos cânones vigentes, a que todos
eles costumam ser votados. Em princípio,
será difícil encontrar aí
as marcas por que vulgarmente se identificam
os clássicos, ou vislumbrar algo
do que se passa na verdadeira obra de arte,
aquela em que, no dizer de Umberto Eco,
«as coisas nos aparecem sob uma luz
estranha, como se as víssemos pela
primeira vez», e que nos «remete,
antes de tudo, não para as coisas
de que fala, mas para o modo como as diz».
Na verdade, à paraliteratura vão
principalmente associados textos de entretenimento,
textos onde a imaginação,
por vezes transbordante, se materializa
em modos de ver e modos de dizer já
assimilados pelo grande público.
Se, de algum modo, também se lhe
pode chamar «literatura marginal»,
não é, pois, porque nos textos
paraliterários assome o inconformismo
social ou estético. Na maioria dos
casos, acontece, até, justamente
o contrário. A marginalidade para
que as academias, ou o gosto dominante entre
as elites, remetem este tipo de textos tem
a ver, sobretudo, com o facto de neles não
serem visíveis os traços pelos
quais uma dada época, ou um determinado
momento civilizacional, identifica a grande
obra de arte e o verdadeiro trabalho literário.
Autores como Cervantes ou Kafka, Shakespeare,
Pessoa ou Joyce, criam, cada um deles, um
universo original, que desafia os estereótipos
e obriga o leitor a abandonar os vários
mundos de sentido em que se arruma o seu
pensar e se instala a sua vida. A paraliteratura,
pelo contrário, embora crie a ilusão
da diferença e do exotismo, abrindo
a rotina à emoção e
risco por interpostos heróis, limita-se
a oferecer o quinhão de fantasia
que completa esse outro universo que é
o quotidiano do comum dos mortais. Reside
aí, aliás, o motivo principal
de tanto êxito que ao longo de séculos
obtiveram, apesar de marginalizados, muitos
livros de aventuras: sem ser questionada,
muito menos violentada, a sensibilidade
comum de crianças e adultos revê-se
na fantasia que percorre os melhores desses
textos e vê-se neles como que transportada
para mundos e situações cuja
estranheza, ou mesmo violência, paradoxalmente,
a confortam. Há quem diga que o enciclopedismo
de Borges e o seu gosto por livros de aventuras
e batalhas não era senão o
heroísmo consentido pela imaginação
a um descendente de militares a quem a cegueira
precocemente sentida vedava a carreira das
armas.
Nem sempre, escusado seria dizer, as coisas
são assim tão lineares. Há
casos de paraliteratura reavaliados pelo
tempo, seja por força da evolução
dos cânones ou da simples mudança
do olhar, o qual descobre uma outra obra
sob as aparências que inicialmente
a tinham remetido à categoria de
paraliterária. Karel Capec, por exemplo,
autor que ainda há meio século
quase não era editado senão
em colecções «menores»,
de aventuras ou de ficção
científica, aparece agora no «cânone
ocidental» de Harold Bloom, reconhecidamente
um dos académicos mais aguerridos
na defesa de uma paliçada onde resguardar
a literatura canónica da alegada
contaminação pelos «infra-textos»,
que o relativismo contemporâneo tenderia
a equiparar aos clássicos. E mesmo
Alexandre Dumas, ausente embora do catálogo
das literaturas de referência, nem
por isso deixou de franquear o Pantéon,
jazendo agora ao lado de Rousseau e Victor
Hugo, o que é também uma forma
de «canonização»,
porventura apenas tolerada pela aristocracia
académica que o ignora como génio
literário, mas aclamada por essa
multidão democrática que são
os seus leitores desde há mais de
um século.
As obras inventariadas nesta exposição
remetem todas para uma época bem
delimitada, que vai dos inícios do
século XVIII, com Daniel Deföe
e Jonathan Swift, e se prolonga até
meados do século XX, altura em que
«a Grande Guerra (1914-1918) e o rol
de desgraças que se abateu sobre
o mundo com a segunda guerra mundial»,
no dizer apropriado dos organizadores da
exposição, Dr.ª Manuela
Rêgo e Dr. Miguel Castelo-Branco,
«mataram definitivamente o gosto pelas
grandes mortandades ou pelo risco gratuito».
Não quer dizer que tenha terminado
aí a literatura de aventuras. Mas
terminou, pelo menos, essa literatura que
se alimentava de um exponenciar da realidade,
criando personagens e acções
que, por mais fantásticas, eram ainda
verosimilhantes. Pelo contrário,
o que hoje em dia se nos oferece de aventura
e triunfa como literatura de entretenimento
vive, cada vez mais, da emergência
de mundos virtuais, de onde o princípio
da verosimilhança começa a
estar de todo ausente.
O nome escolhido para a presente exposição
– Antes das Playstations -,
longe de proclamar a morte de toda a literatura
de evasão após a chegada dos
jogos de vídeo, pretende apenas evidenciar
e delimitar uma sua estação
já vencida. Porque há, sem
dúvida, para os livros de aventuras
uma época antes e uma época
depois das playstations, cuja diferença
passa, não só pelos imaginários
de que uma e outra são feitas, mas
também pelas técnicas narrativas
a que recorrem. Comentando o seu livro The
extremes, em que há parágrafos
que se repetem quase literalmente, Christopher
Priest dizia, há pouco, numa entrevista:
«Pareceu-me necessário
reflectir no texto o que acontece em alguns
jogos de vídeo, onde se repete uma
acção até se conseguir
fazê-la com êxito».
Aqui, no género de obras que compõem
o presente catálogo e que, até
há não muitas décadas,
representavam como que uma espécie
de ritual de passagem para o mundo da verdadeira
cultura, ou então o retorno ocasional
a um mundo da fantasia sem mescla de complexidade,
toda a acção obedece aos constrangimentos
a que está sujeito o real, pelo que
toda a efabulação, por mais
exótica, se contém à
superfície do planeta e nos limites
do virtuosismo de um herói. As playstations,
tal como outras máquinas fabulosas,
essas só viriam depois, quando os
tradicionais romances de aventuras começavam
a ficar-se pelas bibliotecas, definitivamente
estranhos para uma geração
que já cresceu longe de gente ainda
há pouco tão familiar como
os três mosqueteiros, Sandokan ou
Texas Jack.
PS – Para além dos investigadores
e demais funcionários que idealizaram
e realizaram a exposição
Antes das Playstations, a Biblioteca
Nacional é devedora a diversas entidades,
públicas e privadas, que, de uma
maneira ou de outra, se lhe associaram nesta
iniciativa e a quem, por isso, é
devida também uma palavra de muito
apreço e reconhecimento. Aqui fica,
pois, o nosso muito obrigado à Lusomundo,
empresa que comercializa em Portugal a PlayStation,
à Portucel SGPS, ao Museu Militar,
ao Museu do Brinquedo, em Sintra, e ao Instituto
Cervantes de Lisboa. |