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200 ANOS DO ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL Mosqueteiros - Desenho de Ana Maria  
A Exposição ROMANCE DE AVENTURAS ALEXANDRE DUMAS OUTROS AUTORES ESTRANGEIROS ROMANCE DE AVENTURAS EM PORTUGAL
Vista da sala de autores portugueses
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Antes das Playstations: 200 Anos do Romance de Aventuras em Portugal - Texto de Diogo Pires Aurélio, Director da Biblioteca Nacional

Prof. Dr. Diogo Pires Aurélio, Director da BN

 

A ideia de uma exposição dedicada a «livros de aventuras» – Antes das Playstations – surgiu no contexto do bicentenário de Alexandre Dumas, muito embora se tenha procurado, desde o início, que ela não se ficasse pela simples efeméride e trouxesse a público, de entre o vasto património bibliográfico da Biblioteca Nacional e, especialmente, de entre toda essa galáxia de géneros e subgéneros a que se tem chamado de paraliterários, um catálogo do «romance de aventuras» escrito em português. A paraliteratura é, como se sabe, um conceito vago e suficientemente folgado para lá caberem coisas tão diversas como a literatura de cordel ou a ficção científica, o romance de capa e espada ou o policial, géneros que entre si pouco mais devem ter de comum que a situação periférica, em relação aos cânones vigentes, a que todos eles costumam ser votados. Em princípio, será difícil encontrar aí as marcas por que vulgarmente se identificam os clássicos, ou vislumbrar algo do que se passa na verdadeira obra de arte, aquela em que, no dizer de Umberto Eco, «as coisas nos aparecem sob uma luz estranha, como se as víssemos pela primeira vez», e que nos «remete, antes de tudo, não para as coisas de que fala, mas para o modo como as diz». Na verdade, à paraliteratura vão principalmente associados textos de entretenimento, textos onde a imaginação, por vezes transbordante, se materializa em modos de ver e modos de dizer já assimilados pelo grande público. Se, de algum modo, também se lhe pode chamar «literatura marginal», não é, pois, porque nos textos paraliterários assome o inconformismo social ou estético. Na maioria dos casos, acontece, até, justamente o contrário. A marginalidade para que as academias, ou o gosto dominante entre as elites, remetem este tipo de textos tem a ver, sobretudo, com o facto de neles não serem visíveis os traços pelos quais uma dada época, ou um determinado momento civilizacional, identifica a grande obra de arte e o verdadeiro trabalho literário.

Autores como Cervantes ou Kafka, Shakespeare, Pessoa ou Joyce, criam, cada um deles, um universo original, que desafia os estereótipos e obriga o leitor a abandonar os vários mundos de sentido em que se arruma o seu pensar e se instala a sua vida. A paraliteratura, pelo contrário, embora crie a ilusão da diferença e do exotismo, abrindo a rotina à emoção e risco por interpostos heróis, limita-se a oferecer o quinhão de fantasia que completa esse outro universo que é o quotidiano do comum dos mortais. Reside aí, aliás, o motivo principal de tanto êxito que ao longo de séculos obtiveram, apesar de marginalizados, muitos livros de aventuras: sem ser questionada, muito menos violentada, a sensibilidade comum de crianças e adultos revê-se na fantasia que percorre os melhores desses textos e vê-se neles como que transportada para mundos e situações cuja estranheza, ou mesmo violência, paradoxalmente, a confortam. Há quem diga que o enciclopedismo de Borges e o seu gosto por livros de aventuras e batalhas não era senão o heroísmo consentido pela imaginação a um descendente de militares a quem a cegueira precocemente sentida vedava a carreira das armas.

Nem sempre, escusado seria dizer, as coisas são assim tão lineares. Há casos de paraliteratura reavaliados pelo tempo, seja por força da evolução dos cânones ou da simples mudança do olhar, o qual descobre uma outra obra sob as aparências que inicialmente a tinham remetido à categoria de paraliterária. Karel Capec, por exemplo, autor que ainda há meio século quase não era editado senão em colecções «menores», de aventuras ou de ficção científica, aparece agora no «cânone ocidental» de Harold Bloom, reconhecidamente um dos académicos mais aguerridos na defesa de uma paliçada onde resguardar a literatura canónica da alegada contaminação pelos «infra-textos», que o relativismo contemporâneo tenderia a equiparar aos clássicos. E mesmo Alexandre Dumas, ausente embora do catálogo das literaturas de referência, nem por isso deixou de franquear o Pantéon, jazendo agora ao lado de Rousseau e Victor Hugo, o que é também uma forma de «canonização», porventura apenas tolerada pela aristocracia académica que o ignora como génio literário, mas aclamada por essa multidão democrática que são os seus leitores desde há mais de um século.

As obras inventariadas nesta exposição remetem todas para uma época bem delimitada, que vai dos inícios do século XVIII, com Daniel Deföe e Jonathan Swift, e se prolonga até meados do século XX, altura em que «a Grande Guerra (1914-1918) e o rol de desgraças que se abateu sobre o mundo com a segunda guerra mundial», no dizer apropriado dos organizadores da exposição, Dr.ª Manuela Rêgo e Dr. Miguel Castelo-Branco, «mataram definitivamente o gosto pelas grandes mortandades ou pelo risco gratuito». Não quer dizer que tenha terminado aí a literatura de aventuras. Mas terminou, pelo menos, essa literatura que se alimentava de um exponenciar da realidade, criando personagens e acções que, por mais fantásticas, eram ainda verosimilhantes. Pelo contrário, o que hoje em dia se nos oferece de aventura e triunfa como literatura de entretenimento vive, cada vez mais, da emergência de mundos virtuais, de onde o princípio da verosimilhança começa a estar de todo ausente.

O nome escolhido para a presente exposição – Antes das Playstations -, longe de proclamar a morte de toda a literatura de evasão após a chegada dos jogos de vídeo, pretende apenas evidenciar e delimitar uma sua estação já vencida. Porque há, sem dúvida, para os livros de aventuras uma época antes e uma época depois das playstations, cuja diferença passa, não só pelos imaginários de que uma e outra são feitas, mas também pelas técnicas narrativas a que recorrem. Comentando o seu livro The extremes, em que há parágrafos que se repetem quase literalmente, Christopher Priest dizia, há pouco, numa entrevista: «Pareceu-me necessário reflectir no texto o que acontece em alguns jogos de vídeo, onde se repete uma acção até se conseguir fazê-la com êxito». Aqui, no género de obras que compõem o presente catálogo e que, até há não muitas décadas, representavam como que uma espécie de ritual de passagem para o mundo da verdadeira cultura, ou então o retorno ocasional a um mundo da fantasia sem mescla de complexidade, toda a acção obedece aos constrangimentos a que está sujeito o real, pelo que toda a efabulação, por mais exótica, se contém à superfície do planeta e nos limites do virtuosismo de um herói. As playstations, tal como outras máquinas fabulosas, essas só viriam depois, quando os tradicionais romances de aventuras começavam a ficar-se pelas bibliotecas, definitivamente estranhos para uma geração que já cresceu longe de gente ainda há pouco tão familiar como os três mosqueteiros, Sandokan ou Texas Jack.

PS – Para além dos investigadores e demais funcionários que idealizaram e realizaram a exposição Antes das Playstations, a Biblioteca Nacional é devedora a diversas entidades, públicas e privadas, que, de uma maneira ou de outra, se lhe associaram nesta iniciativa e a quem, por isso, é devida também uma palavra de muito apreço e reconhecimento. Aqui fica, pois, o nosso muito obrigado à Lusomundo, empresa que comercializa em Portugal a PlayStation, à Portucel SGPS, ao Museu Militar, ao Museu do Brinquedo, em Sintra, e ao Instituto Cervantes de Lisboa.

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