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UM SONETO DE ANTERO DE QUENTAL: TRANSCENDENTALISMO

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QUENTAL, Antero de, 1842-1891 .- [1876 Jul. ou posterior].- 1p. ; 15x10 cm Autógrafo (com numerações ms. a tinta verde) .- 1º verso: "Já socega, depois de tanta luta,".- Data atribuída segundo Cartas I : [1852]-1881. Organização, introdução e notas de Ana Maria Almeida Martins. Lisboa : Editorial Comunicação ; [Ponta Delgada] : Univ. dos Açores, 1989, p. 352-353.- Soneto de que foi enviada cópia a João Lobo de Moura, em carta de 5 Julho a 8 de Agosto do ano supra e a Joaquim de Araújo em carta de 22 de Maio de [1878].- Publicado, pela 1.ª vez, em "Renascença", Porto, fasc. V-VII, Maio-Jun. 1878, p. 76. Publicado também em Sonetos. Porto: Imprensa Portugueza, 1881, p. 32 e em Os sonetos completos de Anthero de Quental. Porto: Livr. Portuense, 1886, p. 101 com dedicatória "Ao sr. J. P. Oliveira Martins", o organizador da edição.
BN Esp. N48/18

Na sua última carta pedia-me V. algum soneto [...]. Há quase um ano que não fazia versos [...]. Mas veio a ponto a inspiração, acudindo-me ontem com este soneto. Era o dia 5 de Julho, do ano de 1876, segundo a data atribuída pela investigadora anteriana Ana Maria de Almeida Martins. Antero encontrava-se em Ponta Delgada e dava início a uma carta a João Lobo de Moura que só concluiria a 8 de Agosto, já a residir no 2º andar do nº 12 da Praça da Alegria, em Lisboa. Na segunda parte da missiva transcreve o soneto com o primeiro verso "Ja socega, depois de tanta luta," na grafia original, que mais tarde intitularia "Transcendentalismo".

Essa carta (BN Esp. N48/34) integra a Colecção Antero de Quental à guarda da BN desde Março de 1997, data do Protocolo de transferência com os Arquivos Nacionais Torre do Tombo anteriores detentores dessa documentação. Não se trata, como é usual na grande maioria dos espólios literários da BN, de documentos "coleccionados" pela personalidade que dá o nome ao acervo, mas é um inestimável "tesouro" de autógrafos de um autor que inutilisava muitos dos seus escriptos, porque, embora tivessem o applauso dos seus admiradores, mais tarde ou mais cedo não lhe satisfaziam, nas palavras de um dos seus contemporâneos, Manuel de Arriaga, publicadas a p. 100 do In Memorian do poeta.

Analisando o acervo no seu todo conclui-se que, para a sua formação, em muito terá contribuído o espólio de Oliveira Martins, um dos amigos de Antero de Quental que passou a letra de imprensa outro dos testemunhos sobre o destino a que o poeta remeteu muitos dos seus originais. Referimo-nos ao ensaio que antecede a 1ª edição de Os Sonetos Completos onde pode ler-se a este propósito: Anthero de Quental resolveu destruir todas as suas poesias lugubres [...]. Entendia que esses versos tetricos não podiam consolar ninguem [...]. D'esse naufragio onde se perderam verdadeiras obras-primas, salvei eu as poesias [...]; e salvei-as porque as possuia entre os originaes remettidos em cartas, e mais de uma vez como texto de noticias do estado do seu espirito [...] (QUENTAL; 1886: 23).

De facto, não só os cinco poemas das "Poesias lúgubres" integram a Colecção Antero de Quental, como também dela fazem parte três cartas endereçadas pelo poeta ao historiador. A "Correspondência de Terceiros" - o conjunto das missivas em que Antero não é agente directo - será, porventura, mais exemplificativo dessa constatação, já que 18 das 19 cartas que a integram, foram enviadas a O. Martins por ocasião do desaparecimento do poeta. A outra, escrita por este, é dirigida a João Lobo de Moura, o destinatário de 18 cartas de Antero aqui também reunidas. É, portanto, de supor que os vinte e cinco "Manuscritos do Autor" (20 sonetos e 5 poesias) que completam o acervo tenham sido enviados a estes e outros amigos.

Se, por um lado, são relativamente raros os autógrafos de Antero de Quental por outro, constata-se que foram legadas à posteridade mais do que uma versão de alguns deles. É o caso do soneto "Transcendentalismo". O espólio guarda a transcrição supra referida e a que seleccionamos para incluir nesta exposição virtual de Tesouros da BN. è uma versão (BN Esp. N48/18), também sem título, onde o autor hesita no segundo verso do último terceto que reescreve e anula optando pela primeira forma. Mas existe outra, inclusa na carta de 22 Maio [1878], enviada a Joaquim de Araújo - hoje na Biblioteca Nacional de Veneza -, publicada e reproduzida em fac-símile na edição das Cartas... organizada por Ana Maria A. Martins. O soneto, já com título, Escrito há já bastante tempo, [...] preferia que continuasse inédito, pois o pensamento que o inspira é-me muito íntimo para que me não custe vê-lo mal compreendido (QUENTAL; 1989: 420- [423]), destinava-se à revista "Renascença". Foi publicado no fascículo de Maio-Junho de 1878.

Dois anos mais tarde é publicado, com dedicatória, em epígrafe, (Ao sr. J. P. Oliveira Martins), na edição dos Sonetos Transcendentais, constituída por apenas 28, mas não vulgares, que o mesmo Joaquim de Araújo levou em gosto publicar [...] como brinde aos assinantes da "Renascença", nas palavras do autor, em carta a Alberto Sampaio (QUENTAL; 1989: 541). Refere-se a Sonetos, editados pela Imprensa Portugueza, com o nº 1 da colecção "Biblioteca da Renascença", que apresenta duas datas de edição: "MDCCCLXXXI" na capa e "MDCCCLXXX" na página de título.

A nota da redacção da revista, impressa a p. [35], esclarece sobre a decisão de reunir em volume sonetos já passados a letra de imprensa em publicações periódicas. Nas cartas de Antero ao editor, do último trimestre de 1880, pode constatar-se a opinião de poeta sobre a edição sugerindo o destaque de tal advertência já que, depois de 8 anos sem publicar, não tomaria tal iniciativa. Não deixa, contudo, de cuidar da preparação da obra, burilando sonetos, indicando dedicatórias a incluir e pedindo provas, nomeadamente uma última, integral, para revisão das emendas introduzidas.

"Transcendentalismo", será posteriormente (1886) incluído em Os Sonetos Completos... publicados por Oliveira Martins, a sua autobiografia psicológica [...] pois nela está retratada uma evolução intelectual e sentimental, as "memórias duma alma", escreve Antero comentando o projecto de edição com António de Azevedo Castelo Branco (QUENTAL; 1989; 742). Opta pela sequência cronológica dos sonetos estabelecendo como marcos os anos de 1860 e 1884. Mas aquele, que havia sido escrito a 4 de Julho de 1876 e publicado pela primeira vez na mesma década, surge no início do ciclo 1880-1884, período que corresponde ao da sua publicação em volume. Com esta ordenação, mantida por Antero na 2ª edição da obra, em 1890, "Transcendentalismo" passou a assumir relevância no contexto do seu legado poético, na data em que foi pensado como elemento integrante de uma obra em detrimento da data de criação.

Fátima Lopes

BIBLIOGRAFIA

ANTERO DE QUENTAL : In memorian. Ed. fac-simil. com pref. de Ana Maria Almeida Martins. [Ponta Delgada]; Lisboa: Ed. Presença; Casa dos Açores, 1993.

Quental, Antero de, 1842-1891

Cartas [1852]-1891. Org., introd. e notas de Ana Maria Almeida Martins. [Ponta Delgada]: Univ. dos Açores ; Lisboa: Editorial Comunicação, 1989. 2 v.

Sonetos. Porto: Imprensa Portugueza, 1881.

Os sonetos completos... Porto: Livr. Portuense, 1886.

Os sonetos completos... 2ª ed. aumengtada com um appendice contendo traducções em allemão, fancez, italiano e hespanhol. Porto: Livr. Portuense, 1890.

 

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