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CARTA DE ÁVILA A RODRIGO DA FONSECA

Estou numa situação pobríssima, sem futuro, e condenado a ir viver tristemente no meu país natal. Ajude-me V. Exª a sair desta situação, dando-me o seu auxílio para que vá ao parlamento, e prestar-me-ia assim o mais relevante serviço.

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ÁVILA E BOLAMA, Duque de, 1806-1881
[Carta], 1847 Set. 20, Paris [a Rodrigo da Fonseca Magalhães, Lisboa] / Antonio José d´Avila. - [2] p. em 1 f. ; 24,5x19 cm
Autógrafo assinado. - Papel com timbre igual ao utilizado pelo Barão de Rendufe.- Destinatário identificado segundo texto da carta. - Estando em Paris, ao serviço do governo português, o futuro Duque de Ávila expressa o seu desejo de ser eleito deputado pelos Açores e solicita protecção de Rodrigo da Fonseca para o efeito.
BN Esp. E21/cx. 1

No Outono de 1847, António José de Ávila auto-retratava-se assim, em Paris, ao seu mentor - Rodrigo da Fonseca Magalhães.

Tal plebeu arruinado não tardará a ser Duque de Ávila, com direito a estátua no seu "país natal" - cidade da Horta, ilha do Faial, Açores. Rodrigo recusou a distinção planeada pela realeza porque, numa terra de "brutos", pretendeu marcar a diferença.

Apelidaram uma rua alfacinha com o seu nome, amputado do último apelido, mas conforme a forma tradicional da época. No espólio de Rodrigo, exilado liberal em Inglaterra, parlamentar e ministro, encontram-se milhares de cartas que nos ajudam a perceber como foi possível tal mobilidade social num Portugal saído de uma dramática guerra civil.

A correspondência para a "Raposa" (conforme era apelidado na altura) espelha as sucessivas "fornadas" de pares, barões, viscondes, condes e até um Duque, o de que nos ocuparemos e que, pela sua espantosa trajectória, merece que uma das suas cartas seja seleccionada como tesouro da exposição online da BN.

O regime liberal teve dificuldade em implantar-se e agraciou os fiéis servidores da forma mais consentânea com as suas possibilidades, que não eram muitas.

Literatos, militares, financeiros ou lavradores aguardavam merecida recompensa pela sua dedicação à causa de D. Maria II, fossem eles cartistas, setembristas, cabralistas, regeneradores, históricos ou mesmo trânsfugas de uma facção para outra.

E parte dessas histórias, de grande e pequena grandeza, ficou registada sob a forma de cartas, muitas com a ressalva de confidencial, que, após vicissitudes várias, vieram parar à Biblioteca Nacional a fim de poderem ser estudadas para se fazer História. Esta carta foi escolhida como chamariz para a riqueza deste tipo de documentação.

A dificuldade em organizar milhares de missivas em que um obscuro sujeito passa a ser um ilustre nobre, numa época em que os apelidos dos indivíduos variavam sem qualquer regra inteligível, com a concomitante alteração onomástica, a tenacidade necessária para ler tanta caligrafia díspar, poderá parecer trabalho de somenos, e mesmo ingrato.

Os investigadores sabem, no entanto, que é nestes interstícios que frequentemente tudo fica mais inteligível.

O tom confessional epistolar complementa o discurso e a acção.

Daí que consideremos tesouro a este desabafo de Ávila, o Ávila nascido de origens humildes numa terra periférica e que viria a ser tantas vezes a reserva da nação, o político odiado por jovens promissores como Eça, Antero e todos os que já não se identificavam quer com um liberalismo guerreiro quer com um liberalismo de obras públicas.

Um sujeito anódino, capaz de marcar a vida de um país em tempos de lutas caseiras, em fase de depressão. Um homem que lutou por grandes causas e que passou à História como um censor da nova geração que queria - ela também - grandes causas.


Maria Teresa Mónica

ICONOGRAFIA:

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António José d'Ávila


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António José d'Ávila - caricatura O António Maria

 


Museu do Chiado - Pintura a óleo do Duque de Ávila por Miguel Ângelo Lupi, 1880 In Matriznet - http://www.matriznet.ipmuseus.pt/

 
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