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Plano Topografico do Continente do Rio Grande e da Ilha de Santa Catarina de José Correia Rangel de Bulhões (1749-c.1800)

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BULHÕES, José Correia Rangel de, fl. 1749-1800

Plano topografico do continente do Rio Grande e da Ilha de Santa Catharina … / por Joze Correa Rangel de Bulhoens. - Escala [ca. 1:1 000 000], Hum Grao Dividido em 18 Legoas = [10,70 cm]. - [S.l. : s.n.], 1797. - 1 mapa : gravura, p&b ; 56,8x79,8 cm em folha de 65,7x92,8 cm.

Contém informações geográficas e diplomáticas sob o título, bem como legenda descritiva.
C.C. 877 R
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Os primeiros mapas de Portugal, impressos em Portugal, resultaram do processo diplomático e científico desencadeado em 1720, a propósito da redefinição de fronteiras na América do Sul. A vinda para Lisboa de Manuel de Azevedo Fortes com a incumbência de preparar as equipas de cartógrafos que deviam partir para o Brasil, bem como a contratação de artistas gravadores estrangeiros que apoiassem os trabalhos da também então criada Academia de História, conjugaram-se para que os mapas de Portugal, das diversas Províncias e do Patriarcado de Lisboa fossem impressos entre 1729 e 1730, e insertos na Geografia Histórica de todos os Estados Soberanos da Europa (1734-1736) de Luís Caetano de Lima. Quase duas décadas depois são ainda os gravadores estrangeiros radicados em Lisboa que abrem as chapas das primeiras imagens do Brasil, existentes nas colecções da Biblioteca Nacional.

Um dos mais notáveis exemplos desse universo cartográfico é o Plano Topografico do Continente do Rio Grande e da Ilha de Santa Catarina de José Correia Rangel de Bulhões (1749-c.1800), militar da arma de Infantaria "com exercício de engenheiro". O autor tem o seu nome ligado à cartografia de dois espaços brasileiros: o Rio de Janeiro e o Rio Grande do Sul. Desde o início dos anos de 1780 que se conhecem trabalhos seus sobre a Ilha Grande (Rio de Janeiro), mas é na segunda metade da década de 80 que são elaborados vários mapas de pormenor em torno da Ilha de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul.

Terá sido com base em toda a experiência de campo e na construção das correspondentes cartas e ainda de todo o material de apoio compilado, que Rangel de Bulhões desenhou este magnífico exemplar dado à impressão em 1797. Sobre o conhecimento directo do espaço afirma na nota-legenda, sob o título: "As linhas pontuadas seguidas de cor parda denotão os caminhos por onde andei em companhia do Marechal de Campo Jaques Funk".

Trata-se de uma visão do território continental a partir do litoral, figurado desde a Lagoa Mirim até à ilha de São Francisco. O mapa está, pois, orientado com o Oeste no topo, sendo cortado ao meio, na vertical, pelo grande rebordo do planalto e pelo curso do rio Gahibo (Jacui). Para Norte ficam os "Campos da Vacaria de Cima da Serra", cortados pelos vales do Taquari e do Jacui; para Sul, a Campanha dos Tapes e o interior da Lagoa dos Patos. Mas o mapa, para além do relevo, da rede hidrográfica e do povoamento, sempre com algum detalhe e muita informação completentar, divulga aspectos económicos e características das vias de comunicação, sejam elas marítimas, fluviais ou terrestres. Poderíamos mesmo pensá-lo como um croquis de Geografia regional, sem que os dados qualitativos tenham sido posteriormente convertidos em símbolos, sobre os elementos do fundo de mapa.

Embora o autor refira que o Plano Topografico... se baseou nos "Planos dados em 1781 para a instrução dos Comissarios da Demarcação do Sul (...) dezenhado e acrescentado com varias notas instructivas sobre o mesmo Plano", julgamos que as fontes cartográficas não foram apenas estas. De facto, a Primeira Partida de demarcadores, que tentara confirmar no terreno as directivas do Tratado de Santo Ildefonso, assinado entre Portugal e Espanha em 1777, e que tinha tido a seu cargo as delimitações territoriais entre Castilhos Grandes e o rio Jaurú, actuara mais para Sul. Quer o extremo Norte da Lagoa Mirim, quer Santa Tecla, pontos estratégicos na fixação da linha de fronteira, encontram-se no limite da margem esquerda do mapa.

O Plano...de Rangel de Bulhões não é, assim, mais um exemplo de cartografia diplomática, mais ou menos confidencial. Como se refere no título, trata da parte continental ligada e dependente dos centros litorais do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, à qual a Capitania de São Paulo fazia concorrência. Aliás, o Rio das Pelotas, limite entre os governos do Rio Grande e de São Paulo está deste modo devidamente assinalado, a meio do planalto e, para a figuração desses espaços terá também o autor compulsado e aproveitado a cartografia regional correspondente.

Mas, perante este exemplar cartográfico gravado, de grande qualidade e, aparentemente, único, fica a dúvida sobre o seu objectivo e o seu enquadramento, ou não, numa obra impressa sobre o espaço que representa.

João Carlos Garcia


BIBLIOGRAFIA

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BARRETO, Abeillard - Bibliografia Sul-Riograndense: a contribuição portuguesa e estrangeira para o conhecimento e a integração do Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura, 1976.

GUEDES, Max Justo, coord. - História Naval Brasileira. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1979. Vol. II, tomo 2.

GUERREIRO, Inácio, coord. - Cartografia e Diplomacia no Brasil do século XVIII. Lisboa: Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1997.

VITERBO, Sousa - Expedições Cientifico-Militares enviadas ao Brasil. Lisboa: Ed. Panorama, 1962. Vol. I.

 

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