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[ICONOGRAFIA]
Um cartaz português da I Guerra Mundial: o jogo simbólico num caso emblemático de marketing político-militar

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Gameiro, Alfredo Roque, 1864-1935
[Futebol em missão de guerra] [Visual gráfico] : [a demanda da vitória]. – Lisboa : A Editora, [1916]. – 1 cartaz : color. ; 124x91 cm. – Provável propaganda da preparação do Corpo Expedicionário Português (C.E.P.), registando o momento de acolhimento de delegação aliada. – Tít. impresso na margem superior, ilegível, quase totalmente cortado. – Data segundo análise iconográfica, período de actividade conjugável do autor e da editora, e contexto da entrada de Portugal na I Guerra Mundial. – BN - I Guerra Mundial: cartazes da colecção da Biblioteca Nacional, 2004, n.º 253. – BN - 300 Anos do cartaz em Portugal, 1975, n.º 133, referido sem título, com diferente data e sem a conotação acima indicada
BNP CT. 164 G. Cx.

Esta obra de grandes dimensões constitui um dos “tesouros da Biblioteca Nacional”: único exemplar conhecido de cartaz português da I Guerra Mundial. Note-se que a BN é detentora de um notável conjunto de 256 cartazes, sobretudo americanos e franceses, relacionados com o trágico conflito de 1914-1918. Entre eles contam-se, com efeito, alguns espécimes em língua portuguesa. No entanto, com excepção do cartaz em apreço, trata-se de edições inglesas que eram distribuídas em diversas línguas para servirem de propaganda pró-aliada, ou de edições portuguesas publicadas no pós-guerra, convocando a população a actos memoriais, como o apelo ao simbólico “minuto de silêncio”. Importa, pois, salientar a importância deste cartaz, o qual, aliás, só há pouco tempo foi “descoberto” como documento gráfico da Grande Guerra.

Adquirido em 1975 pela BN a um alfarrabista de Lisboa, este cartaz anónimo foi pela primeira vez divulgado na exposição “300 Anos do cartaz em Portugal” realizada por esta instituição nesse mesmo ano, com título (“Futebol”) e data (“ant.or a 1914?”) atribuídos. A obra disponibilizada desde então, permaneceu, no entanto, no mesmo estado de pesquisa. Nestas circunstâncias, não será de estranhar que a sua “redescoberta” tenha acabado por ficar a dever-se a um facto meramente fortuito. Por feliz coincidência, em 2004 a BN realizou, entre outras, duas exposições com inauguração consecutiva e permanência parcialmente simultânea: “Desportos & Letras” (assinalando a realização da fase final do “Euro 2004” - Campeonato Europeu de Futebol - no nosso país), da responsabilidade da Área de Investigação em Cultura Portuguesa e “I Guerra Mundial: cartazes da colecção da Biblioteca Nacional”, da iniciativa da Área de Iconografia. Assim, encontrando-nos a ultimar os trabalhos relativos a esta última, tivemos ocasião de observar o aludido cartaz que entretanto tinha sido requisitado com vista a figurar no catálogo da primeira exposição, devido ao título que lhe fora atribuído no registo catalográfico.

Na verdade, em primeiro plano surge um jogador desse tipo de desporto, porém, neste caso, tinha sido “vista a árvore, mas não a floresta”. Ao analisarmos pela primeira vez esse cartaz – e, certamente, por estarmos sensibilizados para o tema – logo se afigurou que o mesmo possuía outro sentido e que seguramente, pela sua iconografia mais detalhada e pela tipologia, se tratava de um cartaz da I Guerra Mundial. Faltava apenas apurar o seu significado mais profundo.

Pretende-se, pois, aqui dar conta do percurso de uma reflexão no âmbito iconográfico e dos seus resultados. Assim:

Para uma leitura cabal desta obra, sugerimos começar por mudar o “ponto de vista” e determo-nos no que se desenha em 2.º plano. Neste deparamo-nos com dois regimentos de tropas em parada e, do lado direito, perspectivado ao fundo, um navio couraçado, ou melhor dizendo, um vaso de guerra, e alguns dos seus tripulantes dirigindo-se para terra numa pequena barcaça. Cotejando a tipologia dos fardamentos [1] e do navio  [2], facilmente se conclui que estamos em presença de elementos que rondam o período da I Guerra Mundial (1914-1918).

Por outro lado, olhando para o 1.º plano, nota-se que o jogador está ferido (alusão aos ferimentos de guerra), mas nem por isso desiste de jogar (como cabe ao soldado heróico no campo de batalha) [3]. Aliás, o círculo que envolve o jogador remete-nos para uma outra cena: um campo de futebol, com outros dois jogadores correndo. E eis que também aqui assistimos ao simbolismo do contexto de guerra: sobre a relva (verde) perspectiva-se o céu, não na comum tonalidade azul mas em vermelho (alusão ao “sangue derramado” de milhões de mortos e feridos). No plano metafórico, estabelece-se um paralelismo entre o terreno de jogo e o campo de batalha , e aproveita-se essa correspondência com acentuação nas duas cores – verde e vermelho – que são as da bandeira nacional de Portugal (apelo aos valores do patriotismo). E, como que a por em risco essa expressão de unidade nacional (união das cores verde e vermelho, respectivamente, símbolos de esperança e de coragem), vemos interpor-se um “friso” de perturbantes nuvens que transmitem um pathos dramático sobre a cena (espelho dos tempos conturbados que se viviam).

Pelo que referimos acima, é muito provável que este cartaz tenha sido produzido para assinalar o acolhimento da Missão naval inglesa que veio a Portugal em Maio de 1916 [4] para tratar dos moldes da participação do Corpo Expedicionário Português no teatro de guerra, ou até por ocasião da estadia da Missão militar anglo-francesa que chegou pouco depois, no final de Agosto de 1916, para acertar pormenores e acompanhar a preparação das tropas na base de Tancos [5]. E nada melhor para estreitar os laços entre os Aliados do que promover um desafio de futebol (jogo que, como se sabe, é de origem britânica e estava a começar a ter sucesso entre nós [6]), aproveitando-se também este evento para motivar a incorporação das tropas [7] e suscitar na opinião pública em geral o sentido patriótico e de coragem para combater por uma causa politicamente inscrita como um desígnio nacional. Mas também poderá considerar-se, ainda que com menor probabilidade, um outro momento inerente à partida de um contigente de tropas [8]  fosse para França [9], ou para os territórios coloniais de Angola ou Moçambique [10] .

No que respeita a menções de responsabilidade, apenas vem inscrita a chancela do editor – a empresa A Editora [11] – cuja actividade conhecida se inscreve nas duas primeiras décadas do século XX. Já a sua autoria artística é omissa no cartaz, como era vulgar ocorrer nos trabalhos publicitários, podendo neste caso, acrescer um certo pudor do(s) autor(es) em associar-se publicamente a um acto de sedução de homens que estariam, muitos deles, condenados a serem “carne para canhão”. Ora, tudo leva a crer que o seu autor seja o aguarelista Roque Gameiro [12], director artístico da referida empresa [13], e Pires Marinho, seu colaborador [14], o executor do trabalho técnico de impressão.

Quanto à personagem que terá inspirado ou mesmo servido de modelo do desenho da figura do jogador, da pesquisa que efectuámos por fotografias da época, apresentam-se duas hipóteses alternativas como sendo as mais prováveis, ambos jogadores do Sport, Lisboa e Benfica: Cosme Damião [15] e Carlos Homem de Figueiredo [16]. O primeiro, além das características físicas correspondentes, foi fundador do clube, capitão da equipa durante 12 épocas sucessivas, tendo-se retirado como jogador aos 30 anos, a 26 de Fevereiro de 1916, embora continuando nas funções de treinador que já vinha exercendo, sendo já então uma personagem mítica do futebol português, e logo depois teve direito a ter um troféu com o seu nome – a Taça Cosme Damião (1917), disputada entre Benfica e Sporting [17]; o segundo coincide ainda mais em traços fisionómicos [18] com a representação do cartaz, ainda que o seu palmarés de jogador não tenha alcançado a relevância do seu referido companheiro de equipa [19]. Trata-se, no entanto, em ambos os casos de meras suposições que carecem de confirmação [20], apesar do que agora se discorre.

Em suma, julgamos ter justificado aqui a importância deste cartaz e, simultaneamente, apontado os caminhos de uma leitura de âmbito iconográfico. Porém, uma dificuldade subsiste como desafio a futuros investigadores: falta decifrar o elemento textual do cartaz – o lettering – que revelaria o título próprio do cartaz e que, eventualmente, nos permitiria compreender melhor a contextualização e todos os sentidos possíveis desta obra, assim como o seu público-alvo. Aquele surge obliterado de tal forma, devido a um corte transversal no topo, que apenas deixa entrever uma pequena parte do desenho inferior das letras dos extremos. Assim, apenas podemos entrever um inequívoco “A” no final e um hipotético “C” (?) no início, interpolados por quatro “hastes inferiores” de outras letras. Os contactos que fizemos com a instituição militar revelaram-se infrutíferos, mas não se exclui a possibilidade de ainda existir outro exemplar “perdido” nalgum arquivo ou na posse de um particular. Aguardam-se, pois, novos contributos que possam fazer melhor luz sobre este importante documento para a história do design gráfico e da propaganda política e militar em Portugal.

Lisboa, Fevereiro de 2007

João David Zink


NOTAS
| Bibliografia | Texto

[1] O desenho das tropas em parada é apenas esboçado e em tons cinza, indistinto na cor e nos pormenores, mas deixando perceber que se trata do exército (à esq.ª) e da marinha (à d.tª) , e que coincide em linhas gerais com os uniformes que foram usados por Portugal e a Inglaterra na I Guerra Mundial (sem o apontamento da cor e faltando a pormenorização, não podemos ser concludentes quanto à nacionalidade das tropas envolvidas, embora nos pareça que se trata do exército português e da Royal Navy). Note-se que, para além das diferenças cromáticas havia uma assinalável correspondência entre alguns dos fardamentos militares de ambos os países – isto é, sem termos aqui em conta as peculiaridades dos várias regimentos, graduações, fardas de campanha e de gala, etc. –, que eram grosso modo muito semelhantes no recorte dos figurinos, embora, no que respeita ao exército, os dos portugueses (ver, entre outros, Almanaque ilustrado do jornal O Século, 1918, p. 65-87, e 1919, p. 72-79, e Ilustração portugueza, n.ºs 593, de 2 Jul. 1917, p. 1-3, 595, p. 45-47, 596, de 23 Jul. 1917, p. 63-66, 597, de 30 Jul. 1917, p. 88-90) fossem em tecidos de tons mais claros – predominantes para as fardas de campanha, e mesmo quando usavam o escuro, prevalecia o claro para as calças (ibidem, n.º 596, p. 74 ) –, os casacos mais curtos, abotoados até à zona do colarinho e terminados em gola como o dos norte-americanos, enquanto os dos que os dos ingleses eram mais escuros (o que era extensivo às calças), e com bandas que formavam um pequeno decote em “v”, além dos bolsos serem um pouco maiores. Já na indumentária da marinha, enquanto entre nós podia variar para o torso mas as calças eram brancas (excepto no oficialato) (ver Mala da Europa, edição especial, n.º 53, de 10 Ago. 1899), a sua congénere britânica caracterizava-se pelo predomínio do azul escuro a corpo inteiro, o que nos permite ser mais concludentes em relação à força em presença à d.ta no cartaz, onde é bem patente tal homogeneidade no fardamento (ibidem, n.º 64, de 30 Nov. 1899, Almanach Bertrand, 1917, p. 175, e Ilustração portugueza, n.º 597, de 30 Jul. 1917, p. 91). Quanto ao exército português e às suas variantes relacionadas com as diferentes “armas”, categorias e funções, além da documentação fotográfica conservada no Arquivo Histórico Militar (em Lisboa), em parte publicada em periódicos da época como os acima citados, podem também facilmente consultar-se as imagens reproduzidas nas mais recentes obras dedicadas à História de Portugal (ver Matoso, vol. 12, p. 138, 184, 198, 212, 298 e 302; e Medina, vol. 10, p. 258, 274, 275, e vol. 11, p. 65, 82, 89, 90, 180, 254, 265, 266, 270, 275 e 276). Pelas eventuais analogias com a cerimónia ou acto militar em presença, importa destacar a fotografia de tropas da Companhia de Infantaria 16 em parada que ilustra o artigo “Exército portuguez – Mobilização da I Divisão”, publicado no periódico Mala da Europa, Ano 22, n.º 1070 (10 Out. 1916), p. 2, e o cliché de Benoliel aproveitado para a capa da Ilustração portugueza, n.º 581 (9 Abr. 1917), legendado “No caes de embarque – o chefe da missão militar ingleza conversando com um oficial portuguez”.
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[2] Embora, por estar colocado em último plano, não seja possível identificar o navio com segurança, poderá tratar-se de um couraçado inglês, mas não podemos excluir que seja um navio da marinha de guerra portuguesa (habitualmente encomendado no estrangeiro), como o cruzador S. Gabriel (1898-1925) (ver foto no n.º 358 da Revista da Armada [em linha] disponível na WWW <URL: http://www.marinha.pt/extra/revista/ra_nov2002/pag2.html> [consult. 23 Fev. 2007]. Porém, estamos convictos que a representar-se um único navio português em acto emblemático, seria mais natural que se tivesse sido escolhido o cruzador D. Carlos I (rebaptizado de Almirante Reis, sob a República, o qual em 1902 era referido como “o melhor navio da marinha de guerra portugueza” (cf. Mala da Europa, Ano 9, n.º 350, de 15 Fev. 1902, p. 7), e foi destacado por Roque Gameiro – provável autor da aguarela que serviu de base para este cartaz – na estampa “Navios da marinha de guerra portugueza no alto mar” (Suplemento à op. cit., Ano 10, n.º 404, de 8 Nov. 1903). Contrariamente, faz todo o sentido que uma missão inglesa viesse num navio de menor porte, por ser mais veloz, o que já não seria suficiente para um transporte de tropas em larga escala.
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[3] A sua indumentária, com uma camisola de listas verdes e brancas, na vertical, parece configurar o equipamento do Victória Foot-ball Club (actualmente Vitória Futebol Clube, vulgo Vitória de Setúbal), que veio a ser o vencedor do “Campeonato Regional [de Lisboa] de 2ªs categorias em 1916-1917” (ver “Do nascimento à Glória” [em linha], disponível na WWW in: <URL: http://www.vfc.pt/clube/historia> [consult. 13 Fev. 2007] , o que não deixa de corresponder à enfatização simbólica apontando para a esperança – apanágio da cor verde – na vitória (!). Aliás a carga simbólica deste equipamento – documentado em fotografias da época – está muito para além do carácter clubístico, assumindo valor universal. Inclusive um conhecido benfiquista – Ribeiro dos Reis – baseia-se no sistema de listas verticais para ilustração da capa do seu livro Football, ainda que mude o verde para vermelho, e no interior da obra inclui diversas fotografias da equipa do Vitória. Em todo o caso, não pudemos até à data confirmar se tal equipamento já correspondia na época ao do clube setubalense, posto que, embora o mesmo surja em fotografias coevas por nós consultadas mas sem indicação da equipa em causa, no actual site do clube (ibidem) vem reproduzida uma fotografia de “Uma das primeiras Equipas do Vitória” – clube fundado em 1910 – com equipamento muito diferente, deixando por esclarecer quando foi adoptado o figurino das listas verdes e brancas (pelo menos em 1926, isso já sucedia, mas não conseguimos obter comprovação inequívoca anterior a essa data).
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[4] A revista Illustração Portuguesa publica algumas fotografias que documentam essa estadia e refere-se à sua repercussão nos seguintes termos: “A missão naval inglesa que se encontra em Lisboa tem continuado a ser alvo das atenções do nosso governo e da nossa marinha de guerra e de vivas manifestações de simpatia do povo em geral. Os ilustres oficiais ingleses mostram-se também profusamente impressionados com tal acolhimento e seguem com satisfação o que Portugal tem feito e está fazendo pela sua defesa marítima” (ver op. cit., 2.ª série, n.º 536, de 29 Mai. 1916, p. 622).
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[5] Apesar desta outra missão que veio “combinar com o nosso estado-maior os pormenores da participação de Portugal na Guerra” (cf. Mala da Europa, Ano 22, n.º 1065, de 5 Set. 1916, p. 2) ser de menor patente e tenha supostamente chegado de comboio, o uso deste meio de transporte pode ter sido encenado, para iludir o inimigo – e não encontrámos notícia da forma como regressou –, sendo de qualquer dos modos natural que assistisse a uma parada com os dois ramos das forças armadas: exército e marinha de guerra (a aviação ainda não tinha ganho expressão que sustentasse uma autonomia) e não apenas das tropas de infantaria acantonadas em Tancos. A Illustração Portugueza refere-se-lhe do seguinte modo: “A nossa preparação para irmos em breve travar o posto que nos pertence na linha de batalha em França ativa-se de uma maneira que muito honra a organização dos nossos serviços militares (…) Não podia ser mais digno das nossas tradições de tantos séculos e da nossa qualidade de aliados do primeiro império do mundo, o aspecto que em todo paiz e movimento das nossas tropas está offerecendo à missão militar anglo-francesa que se encontra entre nós” (2.ª série, n.º 550, 4 de Set. 1916, p. 284). Ainda assim, inclinamo-nos mais para relacionar o cartaz em destaque com a vinda da missão precedente, inclusive pela sua maior relevância diplomática e institucional, enquanto esta última tinha um carácter essencialmente prático (ver nota 4).
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[6] A consolidação deste desporto no nosso país nas vésperas da eclosão I Guerra Mundial, é comprovada pela constituição, a 12 de Janeiro de 1914, da União Portuguesa de Futebol (Federação a partir de 8 de Março de 1927), cf. 50 anos da Federação Portuguesa de Futebol (p. 7), ainda que os campeonatos estivessem circunsritos a Lisboa e Porto e que “as competições ao nível nacional não se disputaram até à época de 1921-22” (ibidem, p. 13 ). Note-se que “A primeira exibição pública, entre nós, ainda a título de ensaio, a ver se despertava interesse, realizou-se em Outubro de 1888, em dia não identificado, por iniciativa de Gilherme Pinto Basto, que regressara com dois irmãos, de Inglaterra, dois anos antes, onde haviam frequentado um colégio” (ibid., p. 9).
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[7] Isabel Pestana Marques, num recente texto intitulado “1914-1918. Comportamentos de guerra”, salienta que “Os jogos de futebol, os concursos desportivo-militares, os concertos de bandas de música militares, as sessões de cinematógrafo, organizados na retaguarda, satisfaziam duas funções complementares: por um lado, a autoridade militar criava momentos de competição entre nacionalidades e/ou entre unidades militares, onde o brio e o orgulho corporativo e patriótico eram exaltados pelos comandos de cada exército, e, por outro lado, possibilitava momentos diferentes dos quotidianos de guerra, nos quais a festa e o entretenimento eram fundamentais – em ambas, a construção de um bom moral das tropas era o objectivo a atingir”. (in: Barata, Nova história militar de Portugal, vol. 5, p. 123-124)
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[8] O primeiro momento significativo de recrutamento relacionado com o embarque de tropas no contexto da primeira guerra mundial foi “logo a 18 de Agosto de 1914 a mobilização de dois destacamentos mistos destinados a servirem em Angola e em Moçambique” (cf. Fraga, Portugal na Grande Guerra:o recrutamento…, p. 12), a que se seguiu outro, três meses depois, ditado por decreto de 11 de Novembro (ibidem, p. 13), tendo a substituição dos primeiros sido ordenada por decreto de 11 de Setembro de 1915 (ibid., p. 14). Mas, para além das movimentações de tropas para fazer face às tentativas de sedição indígena nas colónias, fortemente marcada por incitamento germânico em contexto de guerra não declarada com a Alemanha – a declaração formal de guerra viria mais tarde, em 9 de Março de 1916 –, a mobilização para a frente europeia chegou a estar prevista “ainda antes do final do ano de 1914” (ibid., p. 19).
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[9] O embarque para França do 1.º contingente de tropas do C.E.P. só veio a ocorrer em 30 de Janeiro de 1917, tendo o 2.º contingente partido no mês seguinte, em 23 de Fevereiro.
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[10] Somos tentados a afastar esta hipótese – ainda que não a omitamos perante o leitor – dado que as tropas do exército em parada (à esq.ª) não envergam nem o chapéu nem o capacete próprios das campanhas coloniais (ver http://www.viriatus.com/U1900_1.asp e http://www.viriatus.com/WWIAfrica_01.asp [consult. 23 Fev. 2007].
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[11] Sediada no Largo Conde Barão, n.º 50, em Lisboa, sucedeu, embora com nova designação e sede social, à antiga Casa Editora David Corazzi (ver Catálogo de 1906 e sgs.), primeiro como Companhia Nacional Editora (ver, entre outras, a obra de Elwall, George – Palavra de soldado. Lisboa : Companhia Nac. Editora, 1902), passando em 1903 a denominar-se Sociedade A Editora (ex.: Petösi, A. – A corda do carrasco. Lisboa : Sociedade A Editora, 1903) e só a partir do mesmo ano como A Editora Limitada (ex.: Blasco Ibañez, Vicente – Terras malditas. Lisboa : A Editora, 1903). Entre outras publicações, nas suas instalações funcionava e era impresso o periódico Mala da Europa, dirigido por José de Melo, anterior gerente da filial no Brasil da firma Corazzi. Em 1912, o seu “administrador-gerente” Justino Guedes vendeu a empresa a Francisco Alves, sócio-gerente da firma Aillaud, Alves & C.ª, com sede na R. Garrett, 73 e 75, em Lisboa, proprietária das “Antigas Livrarias Aillaud e Bertrand” (ver Catálogo de 1913). Não se sabe ao certo quando terminou a sua actividade, mas prolongou-se, pelo menos até finais de 1916 (ver anúncio no Almanque Bertrand [para] 1917, extratexto, p. 192-193).
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[12] Eventualmente, tal atribuição poderá parecer polémica, pois este artista é sobretudo conhecido pelas suas obras de caracter pitoresco, de trajes e costumes portugueses ou de exaltação romântica do passado histórico nacional, mas vejam-se, por exemplo as ilustrações que este produziu para o livro Duas revoluções – “Tu, afinal, sempre foste um macambuszio” (no anterrosto) e “Agora já se sentava no leito” (Moreira, extratexto, p. 63), em que a personagem comum a ambas denota fortes correspondências no traço com a figura do jogador – , assim como a estampa Navios da marinha de guerra portugueza no alto mar (referida na nota 2), com tipologia muito idêntica podendo quase falar-se de uma transposição parcial da representação ou que muito simplesmente tenha servido de modelo, e logo encontraremos as fortes semelhanças de estilo. Baseamo-nos também no facto de nenhum outro cartazista coevo conhecido poder, em nossa opinião, ser igualmente associado às características estilísticas expressas no cartaz em causa.
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[13] Ver Catálogo de “A Editora” (1906), onde surge a sua fotografia em destaque, logo a seguir à do proprietário, com menção do cargo que nela ocupava, e, bem assim, sendo particularmente visível o seu papel como principal ilustrador na Mala da Europa (1894-1916), periódico produzido na mesma empresa.
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[14] Essa colaboração está expressamente patente, entre outras, na gravura a que já nos referimos na nota 2.
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[15] Com efeito, Cosme Damião é uma das figuras mais destacadas na História do futebol português, ultrapassando a própria dimensão do seu clube de eleição – o Sport, Lisboa e Benfica, que ajudou a fundar – , não apenas pelo seu papel de pioneiro da introdução deste desporto em Portugal, mas pelas suas qualidades de intrépido jogador, treinador, e dirigente desportivo. Entre as inúmeras fotografias que lhe foram feitas, destaco a que vem publicada em primazia na obra 50 anos de futebol Benfica-Sporting (Oliveira, extratexto, p. 8-9).
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[16] Carlos Homem de Figueiredo integrava a equipa do Sport, Lisboa e Benfica nas épocas de 1909-10 a 1916-17, mas não nas seguintes (ver Mendonça, Almanaque do Benfica, p. 48-64), pelo que se colocam as questões: Ter-se-á então retirado do futebol, transferido para outro clube ou sido mobilizado para a guerra? Era natural ou residia em Setúbal, tendo estado em algum momento ligado ao Vitória Futebol Clube? Aguardamos ainda uma resposta dos dois clubes mencionados aos quais endereçamos estas dúvidas.
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[17] Tratou-se do jogo inaugural do então novo “Campo do Benfica”, na Quinta de Marrocos, nas traseiras da sede na Av.ª Gomes Pereira, em Lisboa, um derby entre Benfica e Sporting (ver no website <URL: http://www.slbenfica.pt/Info/Clube/Estadios/EstadiosAnteriores/info_clubEstadioAnteriorCampoBenfica.asp> [consult. 2007-02-10]).
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[18] Vejam-se, por exemplo, as fotografias publicadas no Almanaque do Benfica (ibidem).
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[19] Uma hipótese que sustentaria tal correspondência, seria uma eventual amizade ou relacionamento próximo do autor do desenho com este jogador.
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[20] É possível que algum familiar destes jogadores, do autor da representação, ou do editor, possua alguma informação a este respeito, mas as respectivas fontes orais não foram exploradas.
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BIBLIOGRAFIA | Notas | Texto

Monografias:

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Catálogo de “A Editora”, antiga casa David Corazzi. Lisboa, 1906
Catálogo das edições e obras de fundo de “A Editora”, antiga casa David Corazzi. Lisboa, 1910
Catálogo das edições e obras de fundo de “A Editora Limitada”, antiga casa David Corazzi. Lisboa, 1913

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Periódicos:

Almanach Bertrand. A. 1 (1900)-a. 72 (1971). Lisboa : Antiga Casa Bertrand, 1899-1970

Almanach illustrado do jornal O Seculo. A. 1(1897)-1952. Lisboa : Empreza do Jornal O Seculo, 1896-1951

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