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CASTRO, Emília de, 1857-1934
Autógrafo assinado. - Data atribuída segundo texto da carta. - Em vésperas da morte de Eça de Queirós, sua mulher, Emília de Castro, lança um desesperado apelo ao 1.º Conde de Arnoso, evidenciando a plena consciência da dramática situação do escritor.

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CASTRO, Emília de, 1857-1934
[Carta, 1900 Ago.], Neuilly - Seine, [a] Bernardo [Pindela, Conde de Arnoso, Cascais?] / Emília. - [5] p. em 3 f. ; 18 x 11,5 cm
Autógrafo assinado. - Data atribuída segundo texto da carta. - Em vésperas da morte de Eça de Queirós, sua mulher, Emília de Castro, lança um desesperado apelo ao 1.º Conde de Arnoso, evidenciando a plena consciência da dramática situação do escritor.
BN Esp. E32/774

A carta que Emília de Castro, mulher de Eça de Queirós escreveu, de Paris, a Bernardo Pindela, conde de Arnoso, em Agosto de 1900, seria apenas o testemunho de uma profunda angústia se não nos desse, em vésperas da morte do marido, uma perspectiva dos seus sentimentos, diferente da geralmente conhecida.

Não estando datada só podemos pressupor que foi escrita depois de 11 ou 12 de Agosto, provável chegada de Eça a Paris, de regresso da sua curta e inútil estada na Suíça, e antes de 16, dia da sua morte.

Os termos em que Emília lança o seu desesperado apelo a um dos grandes amigos do escritor, evidencia o quanto estava ciente da dramática situação que viviam: "Ele está muito doente! muito gravemente doente e parece-me obrigação avisar a família, não digo os pobres pais que estão tão velhos, mas a minha cunhada Aurora [...]"

A compreensão do que realmente de estava a passar contraria alguns testemunhos da época, sendo um dos mais citados, o de Conceição Eça de Melo, prima e amiga muito presente do casal, pois as suas palavras induzem-nos a supor que Emília de Castro estaria "desolada, mas não desesperada", tendo sido Conceição a esclarecê-la acerca do próximo desenlace. Tal interpretação foi ainda reforçada pelas palavras de Emília que, em cartas a Ramalho Ortigão e Jaime Batalha Reis, em fins desse ano de 1900, lamentava nunca se haver apercebido do perigo que Eça corria, explicando a sua desatenção pela terrível preocupação causada pelas doenças dos quatro filhos, precisamente durante os meses de Junho e Julho, quando a saúde de Eça se deteriorava visivelmente. Mas parece não restarem dúvidas de que, nos últimos dias de vida do marido, Emília estava consciente do que se passava.

Nessa carta ao conde de Arnoso afirma não se poder iludir por mais tempo pois o médico não lhe escondia "o seu cuidado", referindo-se, provavelmente, à opinião de Melo Viana, médico assistente do escritor e de toda a família, que deveria ter ficado aterrado ao ver o aspecto do romancista à chegada a Paris.

A verdade é que Eça de Queirós fora sempre um homem de aspecto frágil e o seu amigo Jaime Batalha Reis, que o conhecera em 1866 na redacção da Gazeta de Notícias, irá descrevê-lo muitos anos depois como "[...] uma figura muito magra, muito esguia, muito encurvada, de pescoço muito alto, cabeça pequena e aguda que se me mostrava inteiramente desenhado a preto intenso e amarelo desmaiado [...] as faces lívidas e magríssimas, o cabelo corrido muito preto, do qual se destacava uma madeixa irregular, ondulante, na testa pálida que parecia estreita sobre os olhos cobertos por lunetas fumadas [...]".

Retrato porventura pintado com cores demasiado sombrias e contra o qual se rebelaria Emília de Castro, ao confidenciar a Luís de Magalhães que lhe custara a reconhecer "o seu José" nessa "figura amarela e preta". Talvez que o jovem folhetinista, em 1866, não apresentasse aspecto tão doentio, baseando-nos, para o presumir, em algumas fotografias posteriores a essa época. A verdade, porém, é que a sua fragilidade se iria acentuar ao longo dos anos, opinião partilhada por amigos e conviventes, como Amália Vaz de Carvalho, Mariano Pina, Ramalho Ortigão e António Feijó que quatro meses antes do casamento de Emília e Eça, o vê já "mirrado como um pergaminho antigo".

Contudo, embora na correspondência enumerasse um rol de constipações, bronquites, nevralgias, dores de estômago e indigestões, as queixas só se irão avolumar depois de 1897, sendo acometido por acessos de febre, os tão chamados "crescimentos" ou "acréscimos" que o deixavam "derreado", "amarfanhado" e "murcho". Mas é a partir de Janeiro de 1900 que piora ainda mais, começando uma singular e infindável peregrinação, de cidade em cidade, à procura de alívio para um mal estar permanente que ele próprio não conseguia definir. Estranhamente, nem Jacques Bouchard, eminente patologista francês, nem Melo Viana se mostravam inquietos com o seu estado, afirmando a familiares e amigos que a enfermidade não apresentava carácter grave, aconselhando banhos, duches, descanso e mudança de ares.

Habituada ao aspecto frágil, às queixas, às dietas, e descansada pela opinião médica, parece-nos natural que Emília só tardiamente se apercebesse da situação. Supomos mesmo que tal atitude nascesse dum desinteresse pelo marido. Embora as opiniões nem sempre sejam concordantes quanto à sua ligação sentimental, a correspondência trocada entre ambos e publicada em boa hora por A. Campos Matos, leva-nos a supor que a relação entretecida pelo casal é substancialmente diferentes da que se poderia vislumbrar pelas cartas de Eça, queixando-se das dificuldades que o casamento não minorara. Recordemos que ela, com vinte e oito anos, prestes a ficar para tia, ele quarentão e solteiro, com a bolsa e o estômago arruinados por uma vida de boémia, tinham alguma coisa a ganhar, mesmo que se tratasse afinal de "un mariage de rasison". Mas com o volver dos anos, talvez o casal se haja redimido dum enlace concertado por terceiros, através de um forte amor pelos quatro filhos e de uma ternura que, muitas vezes, nasce entre dois seres carentes da afecto.

O apelo de Emília a Bernardo justificava-se plenamente. Não podendo pedir ajuda aos amigos mais próximos, uns impedidos por doença sua ou de familiares como o conde de Sousa Rosa e Jaime Batalha Reis, outros de férias como Eduardo Prado e Ramalho Ortigão, recorreu naturalmente ao amigo que em Lisboa recebia sempre o marido com muito entusiasmo e carinho. Fazendo parte do grupo jantante dos "Vencidos da Vida", Eça prefaciara o livro Azulejos de Bernardo Pindela e numa das vindas do escritor a Lisboa, contara em carta à noiva que o amigo, que seguia num coche com Sua Majestade, quase se deitara dele abaixo para o felicitar pelo próximo casamento. Aliás fora Bernardo um dos primeiros a visitar o casal em Bristol.

Era, de resto, quem, em Portugal, podia preparar a família de Eça de Queirós e ajudá-la a ver com clareza como salvar o marido, descrente de práticas religiosas, da "danação do inferno". A quem e como recorrer? Mas esse passo não iria desvendar a Eça a proximidade da morte? Parecia, porém tão "iludido" com o seu estado! Emília confessava que de modo nenhum seria capaz de lhe arrancar a esperança de que iria curar-se. O apelo que dirigia a Bernardo, como se fosse a "um irmão", tinha também o objectivo de a ajudar a resolver esse problema para ela, católica praticante, profundamente dramático.

Mas os acontecimentos precipitam-se e Eça morre a 16 de Agosto. Eduardo Prado e a mulher desistem da viagem a Itália e regressam a Paris para acolherem a família do amigo enquanto se desmanchava a casa de Neuilly. Em Lisboa, Bernardo iria receber a notícia sem tempo para tomar qualquer iniciativa a não ser a de dar apoio às duas famílias.

Bernardo Pinheiro Correia de Melo, 1º conde de Arnoso, conhecido entre os conviventes simplesmente por Bernardo Pindela, não teve tempo para corresponder ao apelo de Emília. Mas nos anos seguintes irá ser um garante da memória do amigo e do bem estar da família, incansável impulsionador da comissão promotora da estátua de homenagem a Eça de Queirós, bem junto às ruas e praças que o amigo calcorreara com os companheiros de geração. A ele se deve a pensão que Emília de Castro viria a receber e que conquistou num comovente discurso feito na Câmara dos Pares a que, por direito, pertencia.

 

Maria José Marinho

BIBLIOGRAFIA

ARNOSO, 1º conde de - Azulejos, pref. de Eça de Queirós. Lisboa: Portugal-Brasil, [1921].

MARTINS, Ana Maria Almeida - "O rival sentimental de Eça de Queiroz - Luís de Soveral" in Jornal de Letras, Artes e Ideias, Lisboa, nº 424, 1990 Ago. 21.

MATOS, A. Campos - Dicionário de Eça de Queiroz. Lisboa: Editorial Caminho, 2ª ed., 1988, 2 v.

MATOS, A. Campos, ed. lit. - Eça de Queirós-Emília de Castro: correspondência epistolar. Porto: Lello & Irmão, 1995, 2 v.

MELO, Conceição Eça de - Eça de Queiroz revelado por uma senhora de sua família. [Lisboa?]: Alma Nova, 1924.

QUEIRÓS, Eça de - Correspondência, leit., pref. e notas de Guilherme de Castilho. Lisboa: IN-CM, 1983

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