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Francisco
Sanches (ca 1551-1623) Filósofo, matemático e médico
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SANCHES, Francisco, ca 1551-1623
Franciscus Sanchez Philosophus et Medicus Doctor.
Quod Nihil Scitur. - Lugduni : apud Ant[onium] Gryphium,
1581. - [8], 100, [2] p. ; 4º (23 cm)
Baudrier VIII 380, BM (STC FR) 394, NUC NS 0092368,
Adams S 247, Palau 294103, Duarte de Sousa 1, 69,
Oxford University (HPB). - Marca de impressor na
p. de tít. - Capitais iniciais ornamentadas. - Errata
na última p. inumerada. - Assin.: *//4, A-M//4,
N//2
BN RES. 321 V. Encadernação em pergaminho.
BN D.S. XVI - 42 Pert.: António Alberto Marinho
Duarte de Sousa. - Encadernação em chagrin azul
e vermelho com brasões e ferros dourados, executada
por A. Ramos.
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Terá nascido numa localidade da Diocese de Braga ca de 1551.
Segundo o registo civil de Braga, foi baptizado nessa cidade
a 25 de Julho de 1551, filho do Dr. António Sanches e de Filipa
de Sousa. Estudou em Portugal até aos 12 anos, tendo ido para
Bordéus, acompanhado pela sua família, aí seguiu os estudos
numa das mais famosas escolas francesas da época, o Colégio
de Guyenne, onde permaneceu até 1569. Este Colégio fora reorganizado
pelo humanista português António Gouveia, posteriormente substituído
por Gélida, a que se seguiu Elie Vinet. Esta instituição era
um foco intenso de renovação intelectual onde dominavam as
ideias do Reformismo religioso e do Renascimento italiano.
Em 1569 Sanches seguiu para Itália, fixou residência em Roma,
aí estudou medicina, aprendendo a examinar cadáveres. Especializou-se
em estudos anatómicos e cirúrgicos, influenciado pelos trabalhos
de Realdo Colombo (?-1577), Vesálio (1514-1564) e Falópio
(ca 1523-1562).
A união entre a Medicina e a Filosofia, era no período final
da Idade Média e na Renascença, uma realidade nas universidades
italianas, onde a tradição de Galeno era privilegiada.
Em 1573, voltou a França, matriculou-se na Faculdade de Medicina
da Universidade de Montpellier, grande centro de estudos médicos,
onde concluíu a sua formação académica em Medicina, e foi
Professor da cadeira de Cirurgia.
Em 1575 fixou residência em Toulouse e aí permaneceu até
à morte. Nesta cidade, Sanches exerceu funções de médico no
Hospital Saint Jacques, foi Professor da Faculdade das Artes
de Toulouse, onde ensinou durante 25 anos, e também Professor
da Faculdade de Medicina, da mesma cidade.
Faleceu em 16 de Novembro de 1623, segundo o assento de óbito
descoberto em Toulouse.
Além de médico foi também filósofo, contestou a filosofia
de Aristóteles, o saber da escolástica e tentou definir o
seu próprio ideal de conhecimento.
Segundo Moreira de Sá, Francisco Sanches foi "astrónomo,
geómetra, filósofo e médico, observador infatigável da Natureza,
autêntico protótipo do homem do Renascimento, legou-nos uma
obra que foi o arauto da revolução filosófica nos séculos
XVII e XVIII".
Das obras de Francisco Sanches que foram publicadas, além
dos trabalhos médicos que deram nome à obra, ainda se incluem
quatro tratados filosóficos: De longitudine et brevitate
vitae; In lib. Aristotelis Physiognomicon, Commentarius; De
divinatione per somnum ad Aristotelem; Quod Nihil Scitur.
Conhecem-se também: Carmen de Cometa, publicada pela
primeira vez em Lyon, em 1578; Opera Medica. His iuncti
sunt tractatus quidam Philosophi non insubtiles, impressa
em 1636, edição preparada pelos filhos de Francisco Sanches,
e por Delauss, discípulo do filósofo e a carta a Cristovão
Clávio que foi descoberta e publicada no século XX, em 1940.
Quod Nihil Scitur é a obra principal de Sanches,
que teve 5 edições: a primeira publicada em Lyon, em 1581,
da qual a Biblioteca Nacional possui 2 exemplares (RES. 321
V.; D.S. XVI - 42). A 2ª de Frankfurt impressa em 1618 com
o título De multum nobili et prima universali scientia
Quod Nihil Scitur. A 3ª edição impressa em 1636, vem incluída
na Opera Medica. A 4ª é datada de 1649 e foi impressa em Roterdão
compreendendo só os tratados filosóficos: Quod Nihil Scitur;
De Divinatione per somnum; In Physiognomicon; De longitudine
et brevitate vitae (existe um exemplar na BN, com a cota
RES. 6275 P.), e por último, a 5ª edição saiu em 1665 com
o título Sanchez aliquid sciens, edição preparada por
Daniel Hartnack.
Na sua obra, Quod nihil scitur (Que nada se
sabe), revela-se contrário à pretensão de uma ciência feita
e um adversário do dogmatismo científico-filosófico. Contestou
a validez da ciência Aristótelica e a utilidade da silogística.
Francisco Sanches, é considerado um filósofo céptico, explorou
a situação epistemológica do homem e tentou mostrar que as
reivindicações do conhecimento do homem em todas as áreas
do conhecimento levantavam muitas dúvidas. O seu pensamento
é frequentemente apresentado como precursor da crítica gnoseológica
cartesiana e do experimentalismo de Bacon.
Quod nihil scitur publicada em 1581, cinquenta
e seis anos antes do Discours de la Méthode, de Descartes
(Leyden, 1637). Presume-se que este filofófo terá conhecido
a obra de Sanches, tanto mais que a sua 2ª edição foi impressa
em 1618, em Frankfurt, precisamente quando Descartes se encontrava
naquela cidade.
Os aspectos coincidentes entre o Quod nihil scitur
e o Discours de la Méthode assentam no ataque à autoridade
como argumento ou fonte de conhecimento, na necessidade da
dúvida metódica e na criação de um novo método.
No que se refere a Bacon, sabemos que foi coevo de Francisco
Sanches e ambos propuseram libertar o investigador de preconceitos
do sistema, da abstracção peripatética, dos enganos dos sentidos
e levá-lo a interrogar a Natureza.
Francisco Sanches foi um vigoroso filósofo de transição:
a Descartes forneceu elementos que permitiram a formulação
do novo método e a filosofia do cogito, a Bacon os
pilares do conhecimento experimental.
No entender dos que estudaram o seu pensamento, é a obra
Quod Nihil Scitur a mais relevante, e a que lhe deu
importância e notoriedade.
Francisco Sanches "o céptico" é o exemplo de um homem que
viveu longe da pátria e tornou-se célebre além fronteiras.
Margarida Silva Pinto - Responsável
da Área de Impressos
BIBLIOGRAFIA
BRITO, Alberto Moreira da Rocha
- Francisco Sanches, médico, professor
e pedagogo. Braga : Bracara Augusta, 1952.
FRANCISCO SANCHES, NO IV CENTENÁRIO DO
SEU NASCIMENTO. Braga : Fac. de Filosofia, 1951. Contribuição
de Severino Tavares, Lúcio Craveiro da Silva, Diamantino Martins
e Luís de Pina. Sep. da Rev. Portuguesa de História, 7.
ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA.
Lisboa : Editorial Verbo. Vol. 16.
MADUREIRA, Francisco de Figueiredo
Coelho de - Francisco Sanches :
a questão do método. [Lisboa : s.n.], 1996. - Tese
mestr. Filosofia, Univ. Nova de Lisboa, 1996.
PINA, Luís de - Francisco Sanches,
médico. Braga : Fac. de Filosofia, 1951. Sep. da Rev. Portuguesa
de Filosofia, tomo VII, fasc. 2.
PINTO, Sérgio da Silva - Braga
et Francisco Sanches: discours prononcé à l'Université de
Toulouse, à la séance solennele des commemorations du IVème
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: Tip. Cruz, 1951.
- Francisco Sanches, português.
Braga : Bracara Augusta, 1952.
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- Raízes e projecção do pensamento
de Francisco Sanches. Braga : Fac. de Filosofia, 1955.
Sep. Rev. Port. Filosofia.
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Sanches nas correntes do pensamento renascentino. Braga
: Fac. de Filosofia, 1983. Sep. Rev. Port. Filosofia, 39.
- Sanches au tournant de la pensée
de la renaissance. Paris : Fond. Calouste Gulbenkian,
Centre Culturel Portugais, 1984. Sep. Colloque-L'humanisme
portugais et l'Europe.
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