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CARTA OROGRAPHICA E REGIONAL DE PORTUGAL (1875)
Bernardino Barros Gomes, 1839-1910

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GOMES, Bernardino Barros, 1839-1910 "Carta orographica e regional de Portugal : 1875". Escala 1:2 250 000. 1 mapa : litografia, color. ; 43x31 cm. In: Cartas elementares de Portugal para uso das escolas. Lisboa : Lallement Fréres Typ, 1878. [Mapa 2].
Cota: C.A. 140 V.
NCB: 1085810 Digitalizado em: purl.pt/760/1/P8.html

Atlas em que se encontra inserido o mapa [mapa 2]: Cartas elementares de Portugal para uso das escolas/Barros Gomes
Cota: C.A. 140 V.
NCB: 279941

A "Carta Orographica e Regional de Portugal" é o mais conhecido dos cinco mapas que constituem o primeiro Atlas científico português, da autoria do silvicultor, Bernardino Barros Gomes. As Cartas Elementares para uso das Escolas, approvadas para as escolas primarias pela Junta Consultiva de Instrucção Publica, e duas d'ellas duas vezes premiadas na exposição de Philadelphia de 1876, incluem ainda a "Carta dos Concelhos de Portugal (1876)", base administrativa da divisão regional; a "Carta Xylographica de Portugal (1876)", que figura a distribuição das principais espécies arbóreas e as regiões florestais; a "Carta Agronómica de Portugal (1877), onde se representam as condições geológicas e climáticas da agricultura, à escala do concelho e das regiões agrícolas, e a "Carta da Povoação Concelhia de Portugal (1876)", com a repartição da densidade populacional por concelho.

Editado em Lisboa, por Lallemant Frères, tipografia "fornecedora" da Casa de Bragança, em 1878, o atlas é muito mais que uma simples colectânea de cartas: os extensos textos anexos a cada mapa constituem pequenas monografias, estruturadas em oito a dez alíneas. Complementando a representação cartográfica, e por vezes ilustrados por gráficos e quadros estatísticos, os comentários integram dados relacionados com os fenómenos figurados numa ou noutra carta. A "Lista Especial dos Concelhos em quadros regionaes com a sua caracterisação agronomica e a sua povoação humana e pecuária", no final da publicação, funciona como um repertório de rápida caracterização. As Cartas reflectem todo o percurso científico do autor: a formação naturalista e humanística nas Universidades de Coimbra, Leipzig e Tharandt, a dedicação invulgar à Silvicultura, a confrontação dos modelos estrangeiros de ordenamento florestal com o caso português, as muitas viagens e um incansável trabalho de campo. Entre as obras de Barros Gomes que antecederam as Cartas e, por essa razão, lhes servem de fontes citaríamos: Indicação dos principaes interesses florestaes portuguezes e dados práticos sobre a criação de Matas (1869), Condições Florestaes de Portugal (1876) e Notice sur les arbres forestiers du Portugal (1877).

A "Carta Orographica e Regional de Portugal" foi originalmente divulgada numa publicação oficial portuguesa destinada à Exposição Internacional de Filadélfia, comemorativa do I Centenário da Independência dos Estados Unidos da América: Condições Florestaes de Portugal, illustradas com as cartas orographica, xylographica e regional, os perfis transversaes e as curvas meteorológicas mais características, de Barros Gomes, editada em Lisboa, por Lallemant Frères, em 1876. A carta que foi elaborada com a colaboração de Cunha e Silva com base nos levantamentos de campo e na Carta Geographica de Portugal de Filipe Folque (1865) é um dos primeiros exemplos da utilização de uma nova técnica para a representação do relevo: as curvas de nível. O conjunto do território nacional é analisado segundo quatro classes de altitude, a cada uma das quais se atribui na legenda uma tonalidade de entre os castanhos: 0-200 m, 200-500 m, 500-1000 m e 1000-2000 m. A imagem global resulta equilibrada, clara, precisa e eficaz. A informação complementa-se com a implantação, no mapa, de uma rede de pontos cotados e, fora dele, com a construção de uma série de perfis topográficos, que segmentam o País de Norte a Sul, de 0,5 em 0,5 graus de latitude.

No fundo deste mapa, onde a toponímia foi seleccionada para não sobrecarregar a mancha gráfica, inscrevem-se as linhas divisórias das grandes bacias, a rede hidrográfica, as principais cidades e vilas, a rede ferroviária… e a divisão regional.

Este pioneiro mapa hipsométrico de Portugal lembrado por muitos autores, entre geógrafos, geólogos e silvicultores, é comentado por Barros Gomes em função da sua construção e objectivos, em duas densas páginas onde se trata do clima e da vida a diferentes "alturas" e "exposições", serras principais e sua influência "refrigerante" e "condensante". Estudar as principais formas de relevo "nas suas relações de posição e de forma é analysar uma das ordens de condições physicas mais importantes à vida e industria que devemos exercer, para nos conformarmos com a lei do trabalho intelligente que nos foi imposta pelo Creador" - este o fim último da "Carta Orographica e Regional". O determinismo geográfico do engenheiro florestal é claro neste caso do relevo, lembrado nas suas várias relações de interdependência com o clima e a vegetação, dando origem a casos exemplares, mas, sobretudo, sintomáticos, do povoamento humano. A Serra da Estrela é escolhida para uma análise mais detalhada da rede hidrográfica e das diversas classes de altitude.

Sobre o aspecto metodológico, Barros Gomes comenta, por um lado, a utilização da "engenhosa invenção das curvas de nível" e, por outro, a construção dos perfis topográficos e a importância da sua leitura e interpretação. O conjunto dos perfis é mesmo organizado em dois grandes conjuntos - a norte e a sul do Tejo -, provando o quanto a topografia é distinta e preparando o leitor para a divisão regional que em seguida propõe.

Em 1874-1875, Gerardo Pery e Barros Gomes preparam paralela mas individualmente, duas divisões regionais de Portugal, baseadas pela primeira vez em métodos científicos "modernos". Aquela, mais teórica, procurando enquadramento nos sistemas propostos por autores estrangeiros e agrónomos portugueses, baseada em especial nas características climáticas e da cobertura vegetal, sobreviverá apenas como referência histórica. A de Barros Gomes, dando primordial atenção ao "relevo", à "exposição" e à "latitude", permanecerá como fonte sempre referenciada e procurada por todos quantos até hoje têm revisto a problemática das regiões portuguesas.


João Carlos Garcia - Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

ALMEIDA, António Mendes de (1920)
- "Elogio histórico do silvicultor Bernardino Barros Gomes". Revista Agronómica. Lisboa, XV, 1-12, p.1-21.

DEVY-VARETA, Nicole; GARCIA, João Carlos (1989) -
"Bernardino Barros Gomes e a Silvicultura no desenvolvimento da Geografia portuguesa oitocentista", Revista da Faculdade de Letras, Lisboa, 5ª ser., 12, p.139-148.

GARCIA, João Carlos (1988)
- "Cartas de Bernardino Barros Gomes a Jaime Batalha Reis". Finisterra. Lisboa, XXII, 44, p.116-126.

GOMES, Bernardino Barros (1990)
- Cartas Elementares de Portugal. 2ª edição. Lisboa: Imprensa Nacional. Introdução de Nicole Devy-Vareta, José Resina Rodrigues e João Carlos Garcia.

HENRIQUES, Júlio A. (1911)
- O Padre Barros Gomes. Lisboa: s.n.. Sep. Portugal Agrícola, Lisboa.

PERY, Gerardo (1878)
- Geografia e Estatística de Portugal e Colónias. Lisboa: Imprensa Nacional.

RIBEIRO, Orlando (1934)
- "Barros Gomes, geógrafo", Revista da Faculdade de Letras, Lisboa, II, 1, p. 104-112.

RIBEIRO, Orlando (1978)
- "Cartas Elementares de Portugal de Bernardino Barros Gomes (1878)", Finisterra, Lisboa, XIII, 26, p. 226-229.

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