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GRAMMATICA DA LINGOAGEM PORTUGUESA DE FERNÃO DE OLIVEIRA

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OLIVEIRA, Fernando, 1507-ca 1581
Grammatica da lingoagem portuguesa / [Fernão Doliveira]. - Em Lixboa : e[m] casa d'Germão Galharde, 27 Ianeyro 1536. - [38] f. ; 4º (20 cm)
Anselmo 607, Simões 532. - Nome do autor na f. [1 v.º]. - Assin.: A-D8 E6
BN RES. 274 V.
Exemplar de grande raridade. Foi comprado pela Biblioteca Nacional em 1867, tendo pertencido à Livraria Gubian.

O autor e a sua obra

Fernão de Oliveira terá nascido em Aveiro em 1507. Filho de Heitor de Oliveira, juiz dos órfãos em Pedrogão, foi contemporâneo de Pedro Nunes e Damião de Góis. Em 1520, iniciou os estudos no Convento Dominicano de Évora, onde foi discípulo de André de Resende, tendo mais tarde abandonado o convento e rumado para Espanha. Em 1536 estava em Lisboa, altura em que saiu dos prelos a Gramática da Linguagem Portuguesa.

Por volta de 1540 ou 1541 regressou novamente a Espanha, e mais tarde partiu para Itália e Inglaterra. Enquanto esteve ausente de Portugal, a sua vida foi atribulada, cheia de aventuras e missões secretas de carácter religioso. Em Itália fez diplomacia secreta, talvez ao serviço de D. João III, na complexa questão que este rei manteve com a Santa Sé, a propósito dos cristãos-novos. Em 1545 alistou-se a bordo de uma nau francesa, sob comando do barão Saint Blancard, exercendo a actividade de piloto. Pouco depois, foi aprisionado com os companheiros franceses pela frota inglesa. Na passagem por Londres, Fernão de Oliveira frequentou a Corte de Henrique VIII, onde obteve um certo reconhecimento por parte do rei.

Em 1547 voltou a Portugal, onde foi preso pela Inquisição, durante três anos, devido a opiniões pessoais de ordem religiosa, tendo saído em liberdade em 1551, por intervenção do Cardeal D. Henrique.

Mais tarde, em 1552 tomou o cargo de Capelão Real, participou na expedição organizada por D. João III em auxílio do rei de Velez, no Norte de África, onde ficou prisioneiro. No ano seguinte voltou a Lisboa.

Em 1554, D. João III nomeou-o revisor tipográfico da Universidade de Coimbra e, com o título de licenciado, ensinou na Universidade a disciplina de Retórica. As suas desventuras prosseguiram e entre 1555 a 1557 foi outra vez encarcerado. A partir deste período, o percurso da sua vida tornou-se incerto e duvidoso, sabe-se que em 1565, Fernão de Oliveira recebia uma tença de D. Sebastião. Veio a falecer cerca de 1581.

Da sua notável produção literária destaca-se, além da Gramática da Linguagem Portuguesa, o seu primeiro livro impresso em 1536, o Livro da Fabrica das Naos, manuscrito datado de ca. de 1580 (BN COD. 3702), existentes na Biblioteca Nacional. Escreveu ainda, entre outras obras, a Arte da guerra do mar, impresso em Coimbra por João Álvares, em 1555, a Ars nautica (ca. 1570), manuscrito da Biblioteca de Leiden, e a Historea de Portugal, cuja datação é posterior a 1581.

Um dos aspectos que caracterizou este homem do Renascimento foi o espírito crítico e humanista, e é nesta linha de pensamento que se enquadra a obra de Fernão de Oliveira. O fascínio do mar e das artes de navegar atraiu o espírito humanista deste autor, que foi gramático, historiador, cartógrafo, piloto, teórico de guerra e de construção naval.

Nesta época intensificou-se o gosto pelos estudos gramaticais, a elaboração de compêndios de gramática e de tratados técnicos de marinharia. A preferência dos humanistas por estas temáticas, contextualiza-se no período da expansão marítima levada a cabo, por portugueses entre os séculos XV e XVI.


A gramática de Fernão de Oliveira

Considerada a primeira gramática, que se publicou em língua portuguesa, impressa em Lisboa, por Germão Galharde, precedendo em quatro anos a Gramática da língua portuguesa, de João de Barros (1540).

Segundo o autor, a sua gramática era uma "primeira anotação da língua portuguesa". O objectivo primordial da publicação deste compêndio foi de perpetuar a memória da língua portuguesa.
Esta gramática foi dedicada a D. Fernando de Almada, podendo-se visualizar no frontispício o brasão de armas dos Almadas.

A obra de Oliveira é um conjunto de reflexões de carácter linguístico e cultural. É uma tentativa de propor uma norma para o português do século XVI, não seguindo no entanto, o modelo das gramáticas até então produzidas. Nos primeiros capítulos procurou definir a linguagem como uma "figura de entendimento" e aludiu ao modo de falar dos portugueses. Constituída por 50 capítulos, este compêndio da definição da língua portuguesa trata de formas gramaticais, da fonética, da lexicologia, abordando especialmente alguns estudos etimológicos e da sintaxe.

A gramática de Fernão de Oliveira foi publicada num período, em que Portugal procurava afirmar a sua autonomia nacional, em relação às outras nações. Estava assim, subjacente a intenção de passar para a escrita um sistema linguístico coeso, que caracteriza uma nação e um povo.


O impressor

Germão Galharde

Impressor de origem francesa, o seu nome seria provavelmente Germain Gaillard, que foi tomando a forma aportuguesada, Germão Galharde e Galhardo. Começou a sua actividade em 1509, inicialmente esteve estabelecido em Lisboa, onde imprimiu uma das primeiras obras, o Missale secundum Consuetudinem. Este impressor criou uma oficina tipográfica em Coimbra, a primeira nesta cidade, no Mosteiro de Santa Cruz, onde terá executado alguns trabalhos, entre 1530 e 1531. Segundo Anselmo, Germão Galharde continuou a sua actividade tipográfica até 1561.

Os livros desta oficina tipográfica são predominantemente impressos em caracteres góticos, utilizou como marcas a esfera armilar e em alguns livros, o escudo das armas reais com um grifo no timbre, também utilizadas pelo impressor Hermão de Campos e Roberto Rabelo.


Margarida Silva Pinto - Responsável da Área de Impressos

BIBLIOGRAFIA

ANSELMO, António Joaquim - Bibliografia das obras impressas em Portugal no século XVI. Lisboa : Biblioteca Nacional, 1926.

BUESCU, Maria Leonor - Gramáticos portugueses do século XVI. 1.ª ed. Lisboa : Instituto de Cultura Portuguesa, 1978.

- Historiografia da língua portuguesa : século XVI. 1.ª ed. Lisboa : Sá da Costa, 1984.

DESLANDES, Venâncio - Documentos para a história da tipografia portuguesa nos séculos XVI e XVII. [Lisboa] : Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1988. Edição fac-similada do exemplar com data de 1888 da Biblioteca INCM.

MENDONÇA, Henrique Lopes de - O Padre Fernando de Oliveira e a sua Obra Nautica. Lisboa : Typographia da Academia Real das Sciencias, 1898.

OLIVEIRA, Fernão de - Gramática da linguagem portuguesa. 1.ª ed. Lisboa : Biblioteca Nacional, 1981. Edição fac-similada.

- Gramática da linguagem portuguesa (1536). Lisboa : Academia das Ciências, 2000. Edição crítica, semidiplomática e anastática.

- A gramática da linguagem portuguesa. Introdução, leitura actualizada e notas por Maria Leonor Carvalhão Buescu. Lisboa : Imprensa Nacional - Casa da Moeda, 1975.

- Grammatica da linguagem portuguesa : publicada por diligências e trabalho do Visconde d'Azevedo e Tito de Noronha. 2.ª ed. conforme a de 1536. Porto : Imprensa Portugueza, 1871.

- Liuro da Fabrica das Naos. Lisboa : Academia de Marinha, 1991. Edição fac-similada.

PASSOS, Teresa Ferrer - Fernão de Oliveira : 1.º gramático de Língua Portuguesa. Lisboa : Gazeta de Poesia, 1994. ISBN 972-96074-0-0

SILVA, Inocêncio Francisco da - Diccionario Bibliographico Portuguez : estudos applicaveis a Portugal e o Brasil. Lisboa : Imprensa Nacional, 1858-1923.

VITERBO, Sousa - O movimento tipográfico em Portugal no século XVI : apontamentos para a sua história. Coimbra : Imprensa da Universidade, 1924.

 

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