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GOVERNO DE JUNOT EM PORTUGAL

“[Tít.] Decretos, Editaes inauditos do malfadado Junot, sua suberba mascarada, sua ingratidão e aleivosia. Justiça, Innocencia, e as mais virtudes são por elle perfidamente calcadas. Vereis com reconhecimento e com admiração nestas sabias despozições. Junot 12 de Maio de 1708 [sic]. O Mundo espantado de ouvir as barbaridades de Junot em seos Decretos e Editaes. Estas As lições que tenho recebido de Napoleão. Junot 11 de Junho de 1808”

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D. 106 P. Desenho anónimo, 1808/09; aguadas de tinta-da-china com intervenção a guache branco (126x305 mm)

Desenho anónimo inserido numa série de dezassete, do mesmo autor, com data provável entre 1808 e 1809, dado os acontecimentos que refere e a 2.ª Invasão só ter acontecido em Março de 1809. Trata-se de uma série de composições alegóricas de grande força panfletária contra a 1.ª Invasão Francesa (então supostamente a única), comandada por Junot, general de Napoleão, ocorrida entre 30 de Novembro de 1807 (entrada em Lisboa) e 31 de Agosto de 1808 (Convenção de Sintra). Série simultânea aos "Desastres da Guerra", gravuras de Goya, que apenas foram publicados, postumamente, em 1836, devendo considerar-se, no entanto, as diferenças de contexto socio-cultural e artístico. O conjunto a que pertence este desenho, que não podemos afirmar estar completo, apresenta uma peça sem legenda, o que presume interrupção talvez involuntária, não sendo conhecida a sua passagem a gravura. Esta intenção do autor não será de pôr liminarmente de lado, dado o número de peças, a longa legenda e a técnica utilizada ser propícia à passagem para gravura a água-tinta com traço a água-forte, ou mesmo maneira negra. A. Ayres de Carvalho admite a autoria de Cirilo Wolkmar Machado (1748-1823), pintor e cronista deste período que "nunca, segundo declarou, teve entendimento com os invasores".

A legenda refere específica e pretextualmente dois actos governativos de Junot:
-A Ordem de 12 de Maio de 1808, mandando imprimir em língua portuguesa e francesa a carta dos membros da deputação portuguesa aos franceses, afirmando que os portugueses podiam "continuar a viver tranquillos e a ter confiança no general em chefe" porque os dias da sua organização definitiva, da sua felicidade, não estavam afastados;
- A Proclamação de 11 de Junho de 1808, referente à sublevação do general espanhol Belesta que se retira do Porto (6 de Junho) com as tropas que lhe estavam confiadas, levando prisioneiro o general francês Quesnel, reitera a confiança de Junot nas tropas franco-portugueses para enfrentar os ingleses, as quais, seguindo as lições de Napoleão, ensinaria a vencer.

Assim, os próprios textos são utilizados e subvertidos pelo autor que, a propósito da referida Ordem de 12 de Maio, num outro desenho da série (cota D. 102 P.) refere: "Portuguezes continuai a estar tranquilos, a ter confiança em nós" [...]. Isto em bom centido Portuguez quer dizer:"Noz a que viemos foi somente a matarvos, desonrarvos, robarvos: mas isto tudo que hé para fartar o nosso dezejo / Portanto, estai tranquilos."

O estudo iconológico revela-nos o general Junot sentado a uma secretária, preparando-se para assinar decretos, aconselhado por Leviatã (poderoso monstro marinho, encarnação do caos e da resistência do poder do mal contra Deus), que lhe sussura ao ouvido. Tem ao peito a máscara da Perfídia e, aos pés, calca a balança da Justiça, a Igualdade, e uma criança, a Inocência, molestada por um pequeno felino com a legenda "Ingratidão", provavelmente um gato (preto), por vezes encarnação cruel e lasciva do próprio Demónio. Na parede, ao fundo, em vez do suposto retrato de Napoleão, vemos uma pintura representando ossadas humanas (memento mori).

Três outros importantes personagens, outros tantos Demónios, todos eles híbridos de sátiro, tomam parte activa na cena: o "secretário", de pé em cima da mesa de despacho, tem cauda de pavão e patas de grande sáurio (a vaidade é tentada por uma falsa imortalidade), uma das quais coloca sobre o coração de Junot, e com a mão estende-lhe uma pena ao mesmo tempo que enche dois tinteiros, respectivamente com os seus próprios excrementos e urina.

O Demónio que, no ar, paira sobre a cena, desprovido de membros inferiores e com cauda de réptil (deslealdade e traição), empunha um bastão militar onde a águia imperial é substituída por uma harpia (reunião dos vícios e das provocações da malícia). Ao mesmo tempo, com mão de morcego, acena com um decreto onde se lê "Novion". Trata-se do Conde de Novion, emigrado francês ao serviço de Portugal, comandante da Guarda Real da Polícia de Lisboa de 1801 a 1808, data em que, tendo sido colaborador activo de Junot, acompanhou o exército francês na retirada.

O terceiro Demónio, acocorado à esquerda, junto à mesa, demónio quiróptero com asas de morcego (senhor das trevas) e patas de galinácio, apresenta viseira, bandoleiras ao peito e a mão apoiada em canhão, estendendo ainda outro decreto onde se lê "Lagarde". Pierre Lagarde, funcionário do Ministério da Polícia francês, acompanhara Junot a Lisboa onde tinha sido investido por este no cargo de Intendente Geral da Polícia.

Esta série de desenhos reveste-se de particular importância, quer sob o ponto de vista documental, quer sob a perspectiva da história da arte em Portugal. Assim, pelo seu sentimento nacionalista e de violento protesto onde o sarcasmo não é a menor arma, veicula um espírito pré-romântico, apesar do estilo mais académico de algumas das composições. Neste sentido, são de realçar as cores escolhidas para todo o conjunto (negros, cinzentos, sépias e brancos), e, sobretudo, em quatro desenhos, nos quais este se inclui e melhor revela, o caracter dos elementos fantásticos. Embora advindos do fantástico institucionalizado, estes elementos não tiveram, entre nós, numa mesma obra, uma presença tão profusa, intensa e liberta, desde as prescrições programáticas emanadas do Concílio de Trento. Por último, o ambiente de interior iluminado apenas em primeiro plano e com luz de focagem baixa - onde as figuras demoníacas são personagens principais ao nível do próprio Junot com o qual interagem -, leva-nos ao despontar do Romantismo em que as representações do fantástico tais como o sonho, as forças subconscientes e o ocultismo, tiveram um importante papel.

Maria da Graça Garcia

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