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O LEQUE. 

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BN Esp. E4/57-20 Leque de namoro entre Jaime Batalha Reis e Celeste Cinatti - Leque de pau de buxo escrito a lápis de ambos os lados. 23 cm, aberto 43 cm

Numa das muitas caixas onde se encontra guardado o Espólio de Jaime Batalha Reis, 112 ao todo!, com milhares de manuscritos seus e de outros autores contemporâneos, repousa um bonito e bem conservado leque de buxo. Nas costas do envelope onde o guardou, Beatriz Cinatti Batalha Reis, a filha que pacientemente preservou e organizou todo o acervo do pai, anotou: Leque de pau de buxo sobre que Jayme Batalha Reis escreveu frases de namoro dirigidas à sua noiva Celeste Cinatti [...]. Nesse tempo o leque era peça indispensável d'uma senhora.


Jaime Batalha Reis, amigo de juventude de Antero de Quental, Eça de Queirós e Oliveira Martins, activo participante em alguns dos projectos literários da sua geração, como as "Conferências Democráticas do Casino" ou a publicação da "Revista Ocidental", foi um conhecido enólogo, professor do Instituto Geral de Agricultura de Lisboa, depois cônsul em Newcastle e Londres e encarregado de várias missões importantes em outros países europeus. A última seria a de representar Portugal, como ministro plenipotenciário, no tricentenário da dinastia Romanov.


Durante o sofrido namoro com sua futura esposa, Celeste Cinatti, além das centenas de cartas que lhe enviou, deixou-nos, como testemunho da sua relação amorosa, textos pacientemente escritos nas varetas desse leque, datados de 1868 e 1869. O namoro começara em 1867, provavelmente no começo desse ano. O leque, no qual pedira à namorada para escrever algumas palavras, acabou por se manter na sua posse, pelo menos de Agosto de 68 a Março de 69, e servir de confidente aos seus sentimentos amorosos de que nem sempre as cartas eram o veículo mais adequado. Celeste, que já sofrera um desgosto amoroso, mostrava-se desconfiada, obstinada nas suas opiniões, troçando das arremetidas mais românticas que lia nas cartas que Jaime lhe enviava, às vezes três por dia! A tarefa, porém, que se propunha não se apresentava fácil. As varetas, de que só podia aproveitar as partes mais largas, deviam mostrar-se bastante recalcitrantes à tarefa do jovem amoroso.


A lápis, em letra miudinha, as mensagens iam-se acumulando, vareta após vareta, dezanove ao todo, escritas de ambos os lados. Se um leque não fosse um inseparável companheiro de uma senhora, quase um confidente, testemunha dos pensamentos de cada instante; se juntar a recordação de um ente importuno a esse confidente não fosse torná-lo menos querido, escreveria neste o meu nome, reza o primeiro texto. A linguagem nem sempre é escorreita. Jaime Batalha Reis só tinha vinte anos e ainda não era o escritor a quem muitos nos depois Eça iria pedir o prefácio para as Prosas Bárbaras. Aqui, em frases um tanto canhestras, dá largas à sua paixão, maravilha-se com as qualidades físicas e morais da amada, insistindo sempre nos sentimentos que unem as almas de ambos. E a relação vai-se cimentando, desde o tratamento cerimonioso, ate à institucionalização do "tu", em Março de 69, longe ainda do enlace definitivo, mais de três anos depois. No texto escrito naquela data, considera que há um casamento que já se não separa: o das nossas almas. Nas varetas do verso do leque inclui a lenda da princesa Sinfrónia, também ela possuidora de um leque de madeira branca aromática, mas descrente do amor. E nem as palavras escritas pelo seu apaixonado nas varetas desse leque: Amo-te, amo-te, parecem ter alterado os sentimentos da bela princesa. A lenda não é conclusiva quanto à relação da princesa e do seu apaixonado.


Convém esclarecer que este texto é anterior a alguns dos escritos nas varetas da frente e leva a data de 1868, quando a relação de ambos sofria algum desgaste. Jaime era muito ciumento, vigiando as leituras e opiniões da sua namorada, pois considerava que a apurada sensibilidade feminina podia sair afectada com o conhecimento dos aspectos negativos da realidade. Celeste, leitora incansável, protestava vivamente, supondo, não sem razão, que o seu apaixonado a queria reduzir ao estatuto de esposa passiva que só devia aprender a coser e descascar ervilhas, perspectiva que muito lhe desagradava.
Estes e outros "acidentes" do percurso amoroso provocaram mesmo a interrupção do namoro por mais de uma vez. Só que a sincera paixão de Jaime Batalha Reis iria superar todos os obstáculos, o último dos quais seria conseguir uma colocação que só obteve em 1872, ao ser nomeado professor no Instituto Geral de Agricultura. Casaram-se no fim do verão desse ano. Dos cinco filhos que tiveram só Maria, afilhada de Antero de Quental, se casou. Os seus descendentes vivem ainda hoje em Inglaterra.

Maria José Marinho

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