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MAPA DA FRONTEIRA ENTRE O ALENTEJO E A ESTREMADURA ESPANHOLA, 1644

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Abernaz, João Teixeira, I, ? - ca. 1650
[Carta da fronteira entre o Alentejo e a Estremadura espanhola] [Material cartográfico] / [João Teixeira Albernaz, I] ; L[ucas] V[orsterman]. - Escala [ca. 1:370 000], 7 léguas espanholas [17,50 ao grau] = [11,90 cm]. - [S.l. : s.n., 1644]. - 1 mapa : gravura, p&b ; 44x59 cm . - Mapa atribuído a João Teixeira Albernaz, cf. PMC, Vol. 5, p. 142. - Contém legenda com indicação de símbolos para as "Villas queimadas en Castella" e para as "Villas tomadas en Castella", no contexto da Batalha de Montijo, na Guerra da Restauração da independência de Portugal.
Cota:C.C. 254 A

Poucos são os mapas impressos em Portugal, no século XVII. É no contexto da restauração da independência, que encontramos alguns exemplares que directamente se ligam às campanhas bélicas, entre 1641 e 1668. Não se trata de mapas militares no sentido estrito, já que esses permaneciam manuscritos e secretos; são antes documentos apologéticos de vitoriosas batalhas e dos seus heróis.

Existe na Biblioteca Nacional, em Lisboa, o único exemplar conhecido de um mapa impresso de uma parte do Alentejo central e da Estremadura espanhola confinante, denominado por Armando Cortesão e A. Teixeira da Mota, Carta da Fronteira do Alentejo. Este mapa, com uma escala aproximada de 1: 370 000, foi atribuído a João Teixeira Albernaz I (? - c.1650) e datado de c.1646.

O centro do Alentejo militar era Elvas, aí deve ter João Teixeira estabelecido a sua base para executar os levantamentos topográficos. O espaço mais aberto e indefeso perante as operações militares do inimigo era o troço raiano entre o Tejo e a Sierra Morena, constituindo, esta, o limite entre a Estremadura e a Andaluzia espanholas. É esse o espaço representado no mapa em estudo. Dos esboços e dos mapas finais manuscritos, realizados nessas campanhas, não temos notícia. A carta gravada que chegou até nós, se deles tirou partido, tem claramente outro objectivo.

No centro da cartela que domina o mapa, encontra-se uma dedicatória: "Ao Sñor Lourenço Skytte Sr de Kongzbroo e Sätra Assistente pella Raynha de Suezia na corte de Portugal dedicat VL". Lourenço Skytte é Lars Skytte (c.1610-1694), representante da Suécia na corte portuguesa entre 1641 e 1647. Na sequência da embaixada portuguesa enviada à futura rainha Cristina da Suécia, em 1641, foi recebido, em Lisboa, um precioso auxílio militar em armas e munições e um representante diplomático. Num país em guerra, concentravam-se na capital muitos estrangeiros - diplomatas, militares, espiões -, todos importantes mas perigosos, entre outras razões, porque conviviam mutuamente e com as elites portuguesas com interesses comuns.

Lars Skytte deixou valiosos relatórios sobre a sua vida e a vida da corte de Lisboa e do País. A sua atenção pelos livros e pela cultura é atestada pela obra que lhe é dedicada pelo editor Paulo Craesbeeck, os Commentarios do Grande Capitam Ruy Freyre de Andrada (Lisboa, 1647). Curiosamente o texto da dedicatória dos Commentários... é o mesmo que encontramos no mapa também dedicado a Skytte por VL. Quererá isto dizer que Paulo Craesbeeck e a sua casa editora estiveram implicados na gravação do mapa? Terá o mapa sido concebido como um documento isolado ou como um anexo a um texto escrito a editar, ou editado, por Craesbeeck? E qual a verdadeira identidade de VL, que dedicou o mapa a Skytte?

VL é com toda a probabilidade Lucas Vorsterman (1624-1667), um famoso gravador de Antuérpia, cuja estada em Portugal data dos anos de 1645 a 1648, coincidindo com a do embaixador sueco. Vorsterman trabalhou para Craesbeeck, deixando provas da sua arte em obras famosas. Craesbeeck tinha capacidades técnicas para produzir cartas geográficas, já que na sua casa se imprimiam também obras de música. Mas observemos o mapa de João Teixeira Albernaz I.

Como qualquer mapa de uma área fronteiriça, o Mapa do Alentejo orienta-se "contra a fronteira", o que, neste caso, quer dizer com o Leste no topo. No espaço espanhol, todos os núcleos apresentam informação quantitativa quanto ao número de fogos (?), o que não acontece do lado português. É o inimigo que está arrolado, discriminando-se o património já afectado e a repartição do passível de atacar. A legenda apenas informa: "* villas queimadas em Castella" e "P villas tomadas em Castella". O "lado de lá" é uma plataforma árida onde se distribuem apenas as povoações, as peças do outro jogador.
Do "lado de cá", um território idílico, com rios, montes e árvores.

A carta gravada tem um fundo conhecido e divulgado, porque próximo do mapa de Álvaro Seco. Mas como conceber que em tempo de guerra se iria gravar um mapa de escala média, repleto de novidades sobre um espaço permanentemente palco de campanhas militares, que naturalmente o inimigo conheceria com rapidez?

Embora relativamente diluído no conjunto da mancha gráfica, o principal tema da realização cartográfica é a batalha do Montijo, a primeira grande vitória portuguesa, ocorrida a 26 de Maio de 1644, e que assegurou a manutenção da independência do País. Há, dentro do próprio mapa, como que uma pequena mas minuciosa gravura com uma vista do combate.

No conjunto da extensa bibliografia portuguesa restauracionista, o quadro da guerra anterior à batalha do Montijo é feito através de dois importantes textos: o de António Moniz de Carvalho, Francia interessada con Portugal en la separacion de Castilla (Paris, Miguel Blageart, 1644), e outro, de Luís Marinho de Azevedo, Commentarios dos Valerosos feitos, que os portugueses obraram em defensa de seu Rey, & patria na guerra de Alentejo (Lisboa, Lourenço de Anveres, 1644). Nestes dois volumes ficaram retratados com pormenor os diversos episódios que mais directamente se figuram no mapa.

Foi neste contexto, em que os acontecimentos militares, políticos e diplomáticos se sucediam com intensidade, que se terá elaborado o mapa, nos últimos meses de 1644, e embora os trabalhos de campo de João Teixeira Albernaz, pelos anos de 1642, possam ter contribuído de alguma maneira para a feitura da carta, eles terão tido muito mais importância noutros exemplares, mais detalhados, mais "militares" e, por isso, mais secretos e para nós hoje desconhecidos.

João Carlos Garcia

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

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História da Gravura Artística em Portugal. Os artistas e as suas obras, Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1941, vol. II.

 

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