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MAPA DA CORREIÇÃO DE SANTARÉM, NO SÉCULO XVII

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Albernaz, João Teixeira I, ? - ca.1650
[Carta da Correição de Santarém] [ Material cartográfico] / [João Teixeira Albernaz, I]. -Escala [ca 1:210000], 5 léguas [18 ao grau] = [15,0 cm]. -[1640]. -1 mapa : manuscrito, color. ; 49,20x70,50 cm em folha de 49,20x70,50 cm.
Atribuição de autor e datas com base em: Armando Cortesão e Avelino Teixeira da Mota - Portugaliae Monumenta Cartographica. Lisboa: Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique, 1960. Vol. 5, p.142. - O mapa está orientadado com o Leste no topo, indicado através de rosa-dos-ventos.
Cota: D. 96 R.

Entre a reduzida cartografia regional de Portugal dos séculos XVI e XVII, que chegou até nós, conta-se um conjunto de três mapas de características semelhantes, que figuram as correições da Guarda, de Tomar e de Santarém. O primeiro depositado na Biblioteca Pública de Évora (P. I, nº 17) e os restantes na Área de Iconografia, da Biblioteca Nacional de Portugal (D. 95 R. e D. 96 R.).

Aquando da inventariação e estudo dos Portugaliae Monumenta Cartographica, A. Teixeira da Mota atribuiu-os ao cartógrafo João Teixeira Albernaz I (? - c. 1650), e datou-os de c. 1640. Além da descrição física das peças, nada mais adiantou, e nem mesmo a reprodução da imagem foi seleccionada (Cortesão; Mota, 1987: vol. V, p. 142).

Posteriormente, num texto que preparava sobre os Arquitectos e Engenheiros na Cartografia de Portugal até 1700, mas que ficou inédito, Teixeira da Mota justificava as suas decisões sobre estes exemplares, elementos de uma supostamente mais vasta colecção de mapas de correições, que abrangeria todo o país. O método utilizado que confirmou as hipóteses, foi o da comparação dos elementos gráficos, particularmente, as "afinidades de letra e estilo (sobretudo no desenho de rios e povoações)", presentes nos três mapas e nos trabalhos conhecidos de João Teixeira Albernaz I, em especial, a Demostrasão do Rio de Janeiro, de 1645 (AHU) e a Carta da Fronteira do Alentejo de c. 1646, i.e. 1644 (BNP). Finalmente, por esta última apresentar um traçado da rede hidrográfica mais exacto e completo, no Alto Alentejo, atribuiu às correições uma datação de c. 1640 (s.d., p. 37-38).

Antes, Teixeira da Mota hesitara porque todos os mapas de João Teixeira, ou a ele atribuídos, se enquadravam na cartografia náutica e estes eram "trabalhos puramente topográficos" mas, perante as evidentes semelhanças estilísticas e a informação encontrada nos documentos da Secretaria e do Conselho de Guerra (AN/TT), datada de 1642, sobre os trabalhos de campo do cartógrafo, na fronteira da Alentejo, divulgada por Magalhães Sepúlveda, não lhe parecem restar dúvidas sobre a autoria e o contexto histórico da redacção dos mapas das correições (s.d., p. 39).

A Biblioteca Nacional de Lisboa editou em 1977, o Catálogo da Colecção de Desenhos por Ayres de Carvalho. Aí se descrevem os mapas das correições de Tomar e Santarém, desenhados sobre papel branco, com tinta-da-china e aguadas a cores, como de autor anónimo e com uma nova informação: a marca de água existente no papel faz avançar a datação dos documentos para a primeira metade do século XVIII (Carvalho,1977: p. 87). Mas, tendo observado, por segurança, as marcas de água dos exemplares que figuram as correições da Guarda e de Santarém, e comparadas com as reproduzidas nas obras internacionais de referência, confirmamos uma datação para o segundo quartel do século XVII (Heawood, 1950, nº 3896).

Em 1997, aquando da exposição "Lugares e Regiões em Mapas Antigos", realizada na Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Évora, Suzanne Daveau comentou o mapa da correição da Guarda, no respectivo catálogo, levantando algumas dúvidas sobre os argumentos da datação atribuída por Teixeira da Mota, identificando-o como mais tardio, com base nas referências às correições limítrofes das cartografadas e aconselhando o cotejo dos três mapas "com a história pormenorizada das variações da carta administrativa de Portugal" (Daveau,1997: p. 37).

Essa será a solução, embora a concretização prática não seja nem fácil nem segura, perante as fontes e os estudos existentes, onde se sucedem cronologicamente dados soltos e vagos, e listas discordantes e contraditórias de divisões e subdivisões político-administrativas, para o conjunto do território nacional. As corografias coevas, repetidamente citadas, são um exemplo a não seguir. Contudo, dois documentos divulgados por J. Veríssimo Serrão podem permitir uma aproximação à data de elaboração das cartas: um Regimento de Setembro de 1668, sobre as contribuições prestadas à Coroa pelas diferentes comarcas, não refere já Alenquer mas ainda Pinhel e Setúbal, as três correições figuradas nos mapas existentes em 1639; todas desaparecerão nas reformas de D. Pedro II, o que uma relação do Marquês de Torcy, de 1684, confirma (Serrão, 1979-1980: vol. V, p. 333 e 346).

O mapa da correição de Santarém (D. 96 R.) inclui um amplo espaço da bacia do Tejo, de Tomar ao estuário do rio (Mar da Palha) e das Serras de Minde e da Mendiga a Montargil e ao vale da ribeira de Seda. A carta está orientada com o Leste no topo, indicado através de uma rosa-dos-ventos; a escala gráfica de 5 léguas permite calcular um valor aproximado de 1: 210.000, não apresenta título ou legenda mas, identificam-se quatro principais fenómenos figurados: a rede hidrográfica, o relevo, o povoamento e a divisão judicial. A correição é constituída por duas partes bastante distintas em área, em configuração e em densidade de informação: a margem norte e a margem sul do Tejo.

A rede fluvial estrutura todo o espaço: o Tejo correndo Nordeste-Sudoeste corta a carta a meio e no seu amplo leito desaguam numerosos afluentes, organizados em redes. A maioria dos elementos dessa malha, claramente mais densa no interior da correição, nasce e morre no seu interior, dando-lhe do ponto de vista gráfico uma notável unidade física. Apenas o Rio Maior, não identificado (ao contrário dos rios Nabão e Zêzere, exteriores à correição), é cruzado por duas pontes.

O relevo, figurado por pequenos montículos, nos interflúvios de vales de rios e ribeiras paralelos, que correm para o grande colector, mas apenas na margem direita do Tejo, ilustra a forte dissimetria do vale. Os pequenos montes concentram-se e aumentam de volume nas únicas serras identificadas, de Minde e da Mendiga, que formam a barreira fronteiriça para Nordeste e Oeste, com as correições de Tomar e de Leiria.

A diferença entre as áreas da correição a norte e a sul do Tejo é mais evidente na repartição do povoamento: mais denso em toda a margem direita e, em particular, para Sudoeste do curso do Rio Maior (se o reconstituirmos sobre um fundo actual), onde se abre a clareira do "paúl da Ota"; muito espaçado na margem esquerda, apenas delimitando toda a extensa área, do cordão de povoações da beira rio - Salvaterra, Muge, Almeirim, Chamusca -, ao interior descampado e pouco sadio que Hermann Lautensach (1937) denominou por Margem Sudeste do Ribatejo e que antes B. Barros Gomes (1878) incluiu nas Baixas do Sorraia.

A hierarquia dos núcleos não é clara, nem pelos símbolos escolhidos (grupos de pequenas casas ou casas isoladas), nem pela dimensão ou tipo de letra da toponímia. Apenas se destaca Santarém pela maior concentração de pequenos edifícios e pelo topónimo inscrito em maiúsculas. As vilas identificadas, pelos topónimos, são Muge e Vila Nova da Rainha, as restantes povoações espalham-se com grande uniformidade.

Circundando a correição de Santarém encontramos as de Alenquer, de Leiria, de Tomar, de Évora e de Setúbal, muito vazias de informação, o que mais faz ressaltar o espaço eleito da correição cartografada. Nas outras apenas se localizam os núcleos mais importantes (Alenquer, Tomar, Abrantes, Benavente), ou os principais cursos de água (Zêzere e Nabão), e uma especial indicação sobre os férteis solos das margens do Tejo, entre Samora Correia e Pancas: "Lavouras".

O que encontramos de novo e mesmo inesperado neste mapa, como nos dois outros do conjunto, são os rectilíneos limites das correições, traçados a vermelho, sobre o minucioso e diversificado fundo. No caso de Santarém, um heptágono de lados desiguais, que afinal recolhe no seu interior, o espaço que desde há muito se encontrava sob a jurisdição de Santarém, mas que sempre surgira nos exemplares cartográficos delimitado sinuosamente por acidentes físicos. Bastará observarmos, por exemplo e numa escala mais próxima, a Parte Meridional do Reyno de Portugal de N. Sanson d'Abbeville, numa escala média, editada em Paris, em 1654. Todas estas constatações nos levam a questionar quais as fontes e quais as intenções para a elaboração do mapa.

Na busca de fontes para o mapa da correição de Santarém (ou de Tomar ou da Guarda), tendo em conta uma escala tão detalhada, recuando ou avançando no tempo, para os séculos XVI e XVII, conhecemos apenas um caso, entre as imagens nacionais ou regionais existentes, todas de pequena escala, muito abrangentes e generalistas, a denominada "Carta Gulbenkian", atribuída a João Teixeira Albernaz I e datada de c. 1640, por Armando Cortesão, com uma escala muito aproximada da que aqui analisamos, c. 1: 290.000. O estado de conservação em que foi encontrada e o restauro posterior não permitem a identificação de muitos topónimos mas, a comparação entre a rede hidrográfica figurada e as dos mapas das correições, evidencia semelhanças flagrantes, o que confirma em parte a hipótese de Teixeira da Mota, sobre a autoria.

De facto, muito provavelmente no início da segunda metade de Seiscentos, o cartógrafo dos mapas das correições, socorreu-se de uma cópia ou variante da Carta Gulbenkian, cujo original terá sido elaborado por João Teixeira Albernaz I, em meados do século XVII, no contexto da Restauração da independência, e dela retirou os elementos de fundo de mapa, em especial a rede hidrográfica, sobre os quais desenhou os geométricos limites da divisão judicial. E a figuração deste último aspecto é sem dúvida a razão da construção do mapa. Resta saber se estão presentes as correições e seus respectivos limites para um dado momento histórico ou se se trata de uma proposta, de um projecto de reorganização territorial, e teríamos então explicada a dificuldade de encontrar na nossa História administrativa, em simultâneo, as correições identificadas nos mapas.

A propósito do mapa da correição da Guarda referiu Suzanne Daveau: "É evidentemente um mapa de compilação, executado em gabinete e que não implicou nenhum levantamento específico no terreno (...) Testemunha a aparição de uma cartografia de tipo administrativo" (Daveau, 1997: p. 38). Mas, mais que a visualização das unidades da divisão administrativa, o que os mapas das correições parecem querer mostrar é um modelo estruturante, geometricamente idealizado, a impor sobre a natureza diversa dos fenómenos.

Ideias e textos sobre o tema, estrangeiros e portugueses, circularão e discutir-se-ão entre as comunidades eruditas e científicas, e os círculos do poder político e administrativo mas, na reorganização interna do território português, a passagem da teoria à prática, só acontecerá ao longo do século XVIII. Sempre com base numa particular ferramenta: os mapas.

João Carlos Garcia

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA


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